18 Ago, 2017

Bernardo Cardoso. “O Belenenses é sempre um candidato ao título!”

Francisco IsaacJunho 27, 201716min0

Bernardo Cardoso. “O Belenenses é sempre um candidato ao título!”

Francisco IsaacJunho 27, 201716min0

Internacional de XV e 7’s, prata da casa do CF “Os Belenenses”, jogou no Chile, viveu as emoções de Hong Kong e agora chega ao Fair Play: Bernardo Seara Cardoso, ponta dos azuis, explica o dia-a-dia de um jogador de rugby, as dificuldades, os estudos, a paixão e a importância da família. Uma entrevista em exclusivo do Fair Play

fpBernardo, como foi voltar ao CF “Os Belenenses” nesta época e conseguir nove jogos seguidos sem parar? Foste o segredo?

BSC. Antes de começar, gostava de agradecer à equipa do Fairplay e ao Francisco Isaac pelo convite.

Estive de Erasmus na primeira metade da época, sem jogar rugby, portanto foi bastante bom poder voltar não só ao rugby mas também ao Belenenses. Regressei numa fase crescente da equipa onde se notava um clima positivo de trabalho e a prova foram os tais nove jogos sem perder. Segredo claro que não! O Belenenses é uma equipa de topo em Portugal e como tal, sabíamos que tínhamos que fazer os possíveis para não aceitar uma posição que fosse fora da final six.

fp. O Belenenses está em fase de reestruturação… vamos ter uma equipa mais forte me 2017/2018? É possível lutarem pelo campeonato?

BSC. Como disse atrás, o Belenenses tem uma história firmada no rugby português e deve estar entre as melhores equipas de Portugal. Desde há uns 4, 5 anos, temos perdido bastantes jogadores o que não tem ajudado muito na luta pelos campeonatos. Há, e tem havido, uma escassez de jogadores da geração entre a do Diogo Miranda, Salvador Cunha ou Duarte Moreira e a minha mas esta falta de maturidade tem vindo a ser compensada pela garra dos jogadores mais jovens que vão ganhando terreno e lugar na equipa sénior. Ano após ano, cada vez mais sentimos que estes tais jogadores jovens vão amadurecendo o que nos aumenta as aspirações. Lembro-me por exemplo dos últimos dois anos em que perdemos nos quartos de final com o Cascais, em que senti que nos faltou alguma maturidade para saber gerir melhor o jogo. Mas tudo isso se ganha e sinto que estamos no bom caminho.

Este ano, teremos o incentivo extra do campo novo que irá ajudar muito o Belenenses não só no escalão sénior mas também em todas as camadas jovens. A direcção do clube e muitos outros “amigos do Belém” têm feito um trabalho fenomenal que nos irá permitir ter o nosso espaço, um espaço para crescermos e pormos o Belém no topo do rugby nacional.

Este ano sentiu-se um aumento na competitividade do campeonato e a umas semanas do fim pensava-se que havia umas 3 ou 4 equipas podiam levantar o troféu. Penso que é muito bom para o rugby nacional que isso aconteça, pois a hegemonia de duas equipas além de baixar a espetacularidade da corrida pelo título, resulta também em que se disputem jogos menos competitivos ao longo do ano. Quando isso acontece, os jogadores que integram as seleções nacionais sentem, quando confrontam equipas com jogadores habituados a outras andanças, que o ritmo de jogo dos adversários é superior o que nos dificulta a tarefa de aspirar a mais altos voos.

Posto isto, a minha resposta é sim, o Belém é sempre um candidato ao título! As provas que demos este ano, após vencer todas as equipas (excepto o Direito), a crescente competitividade no campeonato e a crescente maturidade que temos ganho, essencial para vencer os jogos mais disputados, dão aso a que possamos sonhar com uma luta real pelo campeonato.

fp. Como chegaste ao rugby d’ “Os Belenenses”? E foi logo uma ligação imediata com o rugby ou demorou?

BSC. A minha caminhada no rugby começa uns anos antes de entrar para o Belenenses. Eu era (e ainda sou um pouco!) hiperactivo e os meus pais procuravam todas as actividades possíveis para me entreter/cansar. A minha irmã mais velha tinha amigos que jogavam rugby então sugeriu aos meus pais que me inscrevessem no rugby. O meu pai, apesar de hoje em dia ser fanático pela modalidade e ser o fotógrafo com maior rácio de fotografias por jogo, nunca jogou rugby portanto não foi uma coisa hereditária.

Na altura eu vivia no Porto e o CDUP foi o clube onde joguei os meus primeiros 5 anos e onde aprendi os básicos do rugby. Desde cedo conectei com o rugby e sempre adorava quando chegavam os dias de treino. Mais tarde, com 11 anos, mudei-me para Lisboa e não queria deixar o rugby por nada. Além de sugerirem o Belenenses ao meu pai, o facto de viver no Restelo também contribuiu para que eu fosse para os Belenenses.

fp. O rugby ajudou-te a crescer como estudante e pessoa?

BSC. Sem dúvida! Há um clichê de que o rugby é uma escola de vida e que muitas entidades empregadoras gostam de jogadores de rugby pelos seus valores. Sobre os clichês, se existem, é porque alguma verdade contêm. Sei que o facto de ter um horário mais carregado me obrigou a desenvolver um maior sentido de organização e sinto que me é bastante natural trabalhar em equipa também porque estou habituado a isso pelo rugby. O espírito de companheirismo que se vive no rugby é inigualável e eu sempre o  senti tanto quando jogava no CDUP como no Belenenses.

Não posso deixar de falar sobre o espírito de sacrifício e o que isso também ajuda para a vida diária. Dado o carácter físico do rugby, é extremamente importante que os atletas se protejam com idas ao ginásio, é importante treinar os skills para se salientar dos demais e sobretudo é importante não faltar à equipa. Isto significa abdicar de muitos jantares e saídas à noite, implica deixar de passar fins de semana fora e significa ir treinar mesmo quando chove torrencialmente e está frio.

fp. Atleta da Selecção de XV e 7’s… qual foi o momento mais especial que tiveste nas duas? Recordas-te de algum episódio engraçado em alguma das digressões?

BSC. Há um momento que sem qualquer dúvida sobressai na minha carreira. Estávamos em Hong Kong, clima muito abafado, mas sobretudo muito quente nas bancadas do estádio com mais de 40 mil pessoas a gritar por Portugal. O público tende a puxar pelos “underdogs”, mas neste caso, penso que poucos eram os que pensavam que o Nuno Sousa Guedes ia marcar um ensaio à Nova Zelândia na bola de jogo que iria igualar o marcador. A sensação de ouvir a bancada a explodir com o ensaio e de eu, dentro de campo, a pensar que tinha acabado de empatar com os all mighty All Blacks ficará para sempre na minha memória.

A batalha dos sevens (Foto: Luís Seara Cardoso Fotografia)

fp. Gostas dessa pressão?

BSC. Sinceramente, gosto! Quer jogue pelo Belenenses, quer jogue por Portugal, quando entro em campo tenho sempre a noção do que represento e das gerações que já usaram e suaram aquela camisola. Não é, nem pode ser indiferente, falhar um passe ou uma placagem e penso que é importante que quem joga rugby, perceba que existe pressão para ser melhor e essa pressão tem que contribuir para a própria melhoria do atleta.

A pressão dos jogos, a pressão de ter que jogar bem e saber que há pessoas em casa a ver, pessoas a acordar de madrugada para ligar o streaming para ver os sevens é uma pressão que nos faz sentir vivos. É sinal que estamos a fazer algo com significado e que as nossas acções não são indiferentes.

fp. Conseguiste combinar a vida académica com a desportiva? Achas que há algo a mudar nesse sentido entre a Federação e as Universidades e mesmo com futuros empregadores?

BSC. Eu tive a sorte de conseguir gerir bem as duas vertentes e de ter uma família e namorada que sempre me apoiaram em tudo. Tomei a opção de me dedicar exclusivamente ao rugby durante um tempo e não me arrependo nada disso. Penso que o preconceito de ter que fazer uma vida académica imaculada com as mais altas notas e exactamente no tempo estipulado se está a perder e isto deve-se ao crescente reconhecimento que as actividades extracurriculares têm. Os futuros empregadores já estão a fazer isso. Hoje em dia, uma pessoa que não pratique desporto, não faça voluntariado ou não viaje já tem um “handicap” em relação a outros. As notas já não são o único factor avaliado nos CVs e isso é bom para ajudar os atletas. Um jogador de rugby que perca exames para disputar um campeonato mundial de rugby, é mais valorizado hoje em dia do que era antes.

Do lado das Universidades sim, penso que poderia haver algo a mudar. Há casos e casos, mas no geral, são sempre os professores da cadeiras em causa, que decidem se um aluno pode ou não faltar a um exame para representar o seu país. Como tal, há professores que toleram e ajudam os alunos mas outros que não. E isso é injusto para quem tem que tomar decisões do género: vou ao campeonato da Europa sub 20 e fico um semestre para trás a repetir uma cadeira ou não vou jogar?

Penso que deveria haver um processo mais estandardizado que promovesse a equidade entre os atletas e não um processo onde os professores têm a faca e o queijo na mão. Eu tive a sorte de ir a um mundial no Chile e fazer os exames no mês seguinte (ainda que mais difíceis que os da primeira fase) mas tenho colegas que não tiveram a mesma sorte.

Do lado da federação, não tenho quaisquer queixas e sempre me arranjaram as declarações que precisei, trataram dos processos de estatuto de alta competição, etc.

Sacrifício acima de tudo (Foto: Luís Seara Cardoso Fotografia)

fp. Quem foi importante neste teu processo de crescimento? Achas que os pais têm um papel fundamental no desenvolvimento como jogador?

BSC. A família é extremamente importante. Tanto a minha mãe que lava equipamentos com lama (hoje em dia bolas de borracha do sintético) quase todos os dias, que antigamente preparava os lanches para torneios, que organizava as boleias para os treinos e que me dava sempre apoio, como o meu pai que desenvolveu uma paixão pelo rugby e que sempre tira milhares de fotografias nos jogos além de sempre insistir para que eu treine mais e me torne melhor. Sem o apoio da família, torna-se difícil aguentar a pressão da gestão dos estudos e lesões e torna-se difícil ter sempre motivação para continuar. Fundamental é a palavra certa!

fp. Recordações… melhor ensaio pelo Belenenses? E pela Selecção?

BSC. Melhor é difícil pensar/lembrar… Lembro-me que marquei um ensaio ao Técnico na minha estreia pelos séniores e isso foi especial. Também foi especial marcar pela seleção de XV, ainda que o ensaio tenha sido de intersecção, portanto não dos melhores…

fp. Há algum colega teu que jogue contigo desde os sub16? Quem e foi/é fácil jogar com ele?

BSC. Joguei com o Carlos Sottomayor desde os Bambis e gostava muito de jogar com ele, até porque era dos meus melhores amigos. Passados uns anos tornámo-nos adversários e confesso que não é fácil jogar contra ele, até porque parece que joga sempre melhor contra o Belenenses. Da minha geração de sub 16, muitos foram os que já deixaram… Hoje ainda jogam nos séniores o Manel Bonneville, Zé Fino e o Vasco Poppe.

fp. Na tua opinião existe desportivismo, fairplay e companheirismo no rugby Nacional ou são valores “vazios” por cá? Recordas-te de algum momento de fairplay de uma equipa adversária

BSC. Penso que existe, sim. Algumas das muitas coisas que admiro no desporto em que pratico são exactamente esses valores. Recordo por exemplo o CDUL a ir em massa ajudar o banco alimentar e de promover a iniciativa junto de outras equipas.

fp. Chegaste a jogar fora de Portugal correcto? Como foi a tua experiência no Chile e fala-nos de uma memória que guardes com força.

BSC. Vivi um semestre em Santiago do Chile e fui muito bem acolhido por uma equipa chamada Old Reds. Mudei-me para lá dois meses depois de ter disputado o mundial sub 20 em Temuco, Chile e aproveitei para conhecer alguns jogadores chilenos e fazer contactos para quando me mudasse para lá.

O rugby lá é parecido ao de cá. O futebol domina, mas o rugby tem se vindo a desenvolver. O espírito é muito bom e eles levam a terceira parte mais a sério. Há sempre churrascadas no fim dos jogos e, no meu clube, no fim de todos os treinos de quinta, também havia sempre a “parrillada”.  Toda a experiência foi espetacular e o rugby contribuiu muito para a minha integração no país e no espírito chileno. Guardo com força a imensa receptividade com que fui recebido. Lembro-me de dormir em casa de metade da equipa, de passar férias em família com um jogador na sua casa de férias e até de visitar a campa de um antigo jogador que é regularmente visitado pela equipa, uma coisa que achei espetacular.

fp. Vais continuar a jogar rugby durante muito tempo? Até onde gostavas de ir?

BSC. Se respondesse a esta pergunta há um ano, a resposta seria completamente diferente. Sempre tive a ambição de jogar rugby até aos trintas. Contudo, pelo menos por agora, irei deixar os relvados porque vou trabalhar para o Reino Unido durante uns anos e parece-me, pelo menos para já, impossível conciliar o horário que vou ter com os treinos.

Quando voltar, espero ter a porta do Belenenses aberta para poder regressar!

fp. O CF “Os Belenenses” é um clube grande na tua opinião? Achas que a secção de rugby ganhará outras dimensões com o novo campo?

BSC. O Belenenses é um grande clube, sem dúvida alguma! Volto a dizer, o Belenenses tem uma história firmada no rugby português e deve estar entre as melhores equipas de Portugal. Acho que o novo campo será fulcral para catapultar as ambições do clube, e que ter o nosso espaço, onde miúdos possam estudar, passar tempo, treinar skills e treinar livremente, será uma grande mais valia para nós.

A grande família azul de Bernardo Seara Cardoso (Foto: Luís Seara Cardoso Fotografia)

fp. Perguntas rápidas: quem critica mais o teu jogo, o teu pai ou treinador?

BSC. Pai, claramente.

fp. Nova Zelândia, Inglaterra ou Austrália? E se não for nenhuma das três qual é e porquê?

BSC. África do Sul e depois Argentina. Apesar de adorar ver a classe com que jogam os All Blacks, sempre tive uma admiração especial pelos Springbocks.

fp. Shane Williams, Santiago Cordero ou Julian Savea?

BSC. Bryan Habana

fp. País que gostavas de ter jogador rugby?

BSC. Argentina

fp. Um offload por trás das costas ou um gruber?

BSC. Dados os meus skills, é mais provável uma boa placagem try saver

fp. Rugby de XV ou 7’s? E porquê?

BSC. Apesar de adorar as duas, tenho uma certa preferência pelos 7s. Há mais bola na mão e estamos sempre em jogo. Gosto da intensidade do jogo e da sensação de cansaço extremo.

fp. Melhor jogador dos últimos anos do Belenenses?

BSC. Para mim, Sebastião Cunha.

fp. Adversário que mais gostaste de jogar contra?

BSC. É sempre especial jogar contra o CDUP por ter sido o clube onde me formei, gosto sempre dos jogos!

fp. Deixa uma mensagem especial aos teus colegas, pais, comunidade de rugby.

BSC. Obrigado a todos os que contribuem para o rugby em Portugal, desde os pais dos jogadores, público, managers, trabalhadores no back office e aos jogadores.

No Chile (Foto: Rugbiers)


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