21 Ago, 2017

Ao som de Sarto e ao jeito de Bardy – 1ª Jornada EPCR

Francisco IsaacOutubro 20, 201615min0

Ao som de Sarto e ao jeito de Bardy – 1ª Jornada EPCR

Francisco IsaacOutubro 20, 201615min0

Primeira jornada e logo algumas surpresas ao jeito da Champions Cup: Warriors “caçam” Tigers, Saracens quebra com o recorde do Toulon, Connacht não verga ante o Stade, Leinster em grande e Clermont, de Bardy, envia uma mensagem aos candidatos. Esta foi a 1ª jornada em 5 pontos

Daqui até ao final da fase de grupos, iremos falar da European Champions Cup em 5 pontos, em alusão a cada uma das Pools da competição mais importante de clubes de rugby da Europa. Em cada ponto abrimos questões, falamos do jogador da jornada do grupo, destacamos um ensaio ou falamos em estratégias.

A Estratégia: NEVER TRY TO TACKLE A WARRIOR IN GLASGOW

O jogo mais “badalado” da competição, uma vez que os Glasgow Warriors tiveram a audácia de derrubar um antigo campeão da competição em casa… 42-13, a favor dos escoceses deixando os Tigers de Leicester num estado catatónico e sem possível contra-reacção. Até foram os ingleses que começaram melhor com uma penalidade, ensaio e conversão entre os 5-20 minutos de jogo, metendo o resultado para um bom 10-03 em casa dos escoceses. Porém, a estratégia de Gregor Townsend entrou em marcha e os Warriors rapidamente foram tirando fôlego à defesa dos Tigers que se viu por largos minutos remetida aos seus 22 metros. A estratégia do treinador escocês (lembramos que em 2017 assumirá a Selecção da Escócia em substituição de Vern Cotter) passava por ter os avançados como as unidades mais móveis, atacando rapidamente a linha de vantagem, onde Pyrgos com os seus passes bala encontraram sempre alguém embalado que escolhiam, de propósito, o sector mais “frágil” da equipa de Leicester que era entre o jogador-poste do ruck e o que seguia ao seu lado… sempre que alguém recebia a bola, batiam o pé para dentro e criavam uma situação de rotura defensiva que dificilmente os ingleses conseguiram “reparar”… as falhas começaram a surgir na linha de defesa, os Warriors cada vez mais embalados, motivados e com alta crença que a estratégia ia resultar… uma, duas e três e os ensaios começaram a surgir.

Sarto aproveitou uma bela entrada de Finn Russell, para “sacar” a bola do ruck e sair disparado para a área de ensaio. Depois Fraser Brown culminou uma estupenda jogada de toda a equipa, com os Warriors a “balançarem” a bola entre si, obrigando os Tigers a desconjuntarem-se e procurarem a defesa individual invés de se manterem um grupo defensivo coeso, abrindo uma “brecha” suficientemente boa que Fraser Brown aproveitou. Daí para a frente foi sempre a somar, com um ataque bem montado, onde o apoio ao portador da bola era de extrema qualidade, a velocidade de pés e vontade de surpreender dos avançados era de se louvar e as linhas atrasadas aproveitaram cada “nesga” para ganhar metros que se foram acumulando no score. A defender foram imperiais, já que montaram um sistema que deixou os Tigers desesperados, obrigando-os a arriscar no passe o que levou a mais dois ensaios da equipa da casa por Mark Bennett (aos 67′) e Sarto (aos 75′). Cinco pontos, vitória categórica e a primeira surpresa na primeira jornada… conseguirão os Warriors repetir a façanha neste fim-de-semana? Para mais ver o seguinte artigo já que se trata de uma análise bem detalhada da estratégia e gameplay dos escoceses: goo.gl/cpHngM

No Warriors left behind (Foto: The Guardian)
No Warriors left behind (Foto: The Guardian)

O Jogador: LIKE A GOOD WINE, BARDY GET’S BETTER WITH AGE

F-E-N-O-M-E-N-A-L… é esta a palavra que melhor descreve a grande exibição de Julien Bardy em Exeter, onde o seu Clermont decidiu limpar os Chiefs por 35-08. O asa português “ceifou corpos”, declarou uma ode à placagem sem descurar a elegância com a oval na mão. O ASM Clermont tem vindo, desde o início de época, a demonstrar um nível soberbo no rugby francês com uma capacidade para derrubar qualquer adversário, já que o seu rugby de excelente pace, visão de jogo acutilante e formas de garantir uma defesa “fresca” têm permitido dominar o Top14. Neste jogo em específico, Bardy somou 25 placagens (falhou mais uma) e ainda “cavou” dois turnovers, numa exibição quase imaculada, já que cometeu duas faltas (no meio-campo do adversário). Melhor que tudo foi o sentido posicional do asa português, que soube atacar bem o ataque algo “monótono” dos Exeter Chiefs, destruindo as várias  tentativas e movimentações (pouco velozes ou sem grande capacidade perfurante) dos ingleses demonstrando uma capacidade de apoio ao portador da bola que parecia ter desaparecido na última temporada.

Bardy tem feito um início de época assombroso com vários destaques e recordes somados na defesa (placagens), sendo uma peça fundamental do XV de Franck Azéma. Para além desses “pontos” na defesa, Bardy foi autor do 1º ensaio da sua equipa (apareceu a apoiar à ponta Noa Nakaitaci) para além de mais 8 carries, 20 metros percorridos e uma quebra de linha. Se o Clermont mantiver o ritmo… dificilmente os vão parar na fase-de-grupos e, quem sabe, não teremos os franceses nas meias-finais/final da competição… mas ainda é cedo para “vendermos sonhos” e promessas. Para Julien Bardy pode ser a época de “regresso” ao que era o grande asa dos Jaunards!

Le noveau Bardy (Foto: The Telegraph)
Le noveau Bardy (Foto: The Telegraph)

O Streak: A CHAMPIONS IS ALWAYS A CHAMPION

Como se esperava a super equipa dos Saracens de Londres entraram a “matar” na competição, abatendo o RC Toulon, que jogava perante o seu público. Acima de tudo um streak foi “desfeito” no Stade Mayol e que já vinha a ser “engordado” há uns bons e belos anos: o RC Toulon nunca tinha perdido em casa para as competições europeias, ou seja, desde 2010/2011 que não registaram qualquer derrota nos 28 jogos que jogaram em França, algo inacreditável para os dias de hoje. Mas, todos os recordes e streaks são para serem quebrados, um desafio que os Saracens meteram na cabeça que iam conseguir. Uma exibição de gala garantiu uma vitória por 31-23 no lançamento da fase-de-grupos. Exibição de gala de Owen Farrell (está com um pontapé bem afinado e um organizador de jogo de alta categoria), que foi um autêntico rei na “casa” que fora de Johnny Wilkinson por três temporadas, com 16 pontos (4 penalidades e 2 conversões) e uma assistência para ensaio, num jogo em que os Saracens chegaram ao intervalo a ganhar por 28-09.

Ensaios de Sean Maitland (grande trabalho do impressionante Maro Itoje na conquista de metros), Wigglesworth (saída de 8 na formação ordenada de Vunipola para depois Jamie George completar um belo offload a assistir o formação) e Chris Wyles (jogada de grande nível entre Farrell e Bosch) nos primeiros 40′ ditaram uma vantagem bem confortável para os londrinos que entraram para a cabine com essa vantagem, para além do RC Toulon ter entrado para a 2ª parte com menos fruto do amarelo a Ma’a Nonu (placagem perigosa do neozelandês). Os “milionários” ainda tentaram “acordar” e fizeram uma recuperação de 14 pontos na 2ª parte, só que os Saracens agarraram-se e lutaram contra todas as investidas “imaginadas” por Trinh-Duc com Vunipola a terminar com 17 placagens e 3 turnovers (MVP), Maro Itoje com 13 e George Kruis com 12. O streak dos franceses foi “desfeito” pela cimitarra dos Saracens que parecem estar aí para manter a Europa sob o seu controlo.

Farrell contra o strak (Foto: David Rogers/Getty Images)
Farrell contra o strak (Foto: David Rogers/Getty Images)

O Jogo: CONNACHT A BOX OF IRISH DELIGHTS

Foi sem dúvida a semana das surpresas, já que para além da vitória dos Glagsow Warriors tivemos o Bordeaux-Bégles (vitória categórica frente ao Ulster) e o Connacht que derrubou outra equipa lendária da competição, o Stade Toulousain aka Toulouse. Pois é, a equipa de Pat Lam que tinha surpreendido meio-Mundo com a conquista da PRO12 em 2015/2016, voltou ao convívio dos “grandes” com uma vitória gloriosa ante o Toulouse. Com as bancadas do SportsGround Galway completamente cheias (8,100 pessoas), a equipa do Connacht viu-se a perder logo a partir dos 6′ com uma penalidade bem convertida por Bézy. Os franceses chegaram aos 19 minutos a ganhar por 09-00, com um rugby muito pragmático, fazendo uso das entradas dos seus avançados em formato curtopick‘ go, o que obrigou os irlandeses a terem profundas dificuldades em virar o domínio territorial e dos avançados franceses… todavia, apareceu o herói da tarde, Bundee Aki, o neozelandês que torna qualquer jogada numa movimentação de alto perigo crítico para quem defende… à passagem dos 19′, Aki recebe uma bola de Jack Carty e mete toda a linha do Toulouse a tentar placá-lo, passando por um, escapando de um segundo e enganando um terceiro, com um offload de requinte que permitiu Caolin Blade seguir a jogar para depois em dois passes chegar às mãos do nº14, Niyi Adeolokun, para o primeiro ensaio da tarde. A partir daqui o equilíbrio foi repartido e entrámos na “sessão de cortar a respiração”. O Toulouse ia espalhando o terror através dos alinhamentos com Richie Gray a saltar bem nas alturas e a sair a correr, para no momento seguinte vermos Yann David a tentar forçar uma quebra de linha, apesar das placagens de Aki ou John Muldoon. A oval começou a cair “redondinha” nas mãos do Connacht que tiveram mais tempo com ela e tentaram criar situações que dessem o tão desejado segundo ensaio. Infelizmente, para os homens de Lamb, na primeira parte só conseguiram converter duas penalidades, enquanto que o ataque mais “mordaz” e eficaz do Toulouse lhes garantiu dois ensaios e uma conversão.

O 2º ensaio dos franceses foi um “mimo” de Houget, com o ponta internacional pela França, a bailar e fazer a equipa de Galway cair ante si, para depois verem Doussain a receber a bola e a cair entre os postes… 21-11 e o jogo parecia assegurado pelos franceses. Depois veio a “montanha” a la Connacht, que decidiram meter o Toulouse a vivenciar aquele rugby ardiloso e que esmaga qualquer “gigante” do rugby europeu: aos 58 O’Halloran recebeu uma bola perto da linha de fora e conseguiu quebrar a linha, perante um Toulouse que ficou na expectativa, permitindo ao veloz nº15 trocar os pés, meter velocidade e aguentar o 1º impacto para depois saltar para dentro da “caixa”. O ensaio até tinha nascido “coxo”, com a oval a andar aos saltos entre o chão e as mãos dos jogadores irlandeses. Mas o ensaio estava feito e aí vinha nova cavalgada, desta feita e mais uma vez, por Aki. À passagem do minuto 67′, as duas formações estavam perto do “arrastar” físico (jogo muito “pesado” para ambas, especialmente entre os 8 avançados de cada equipa), com o jogo a ter já poucas aberturas à ponta ou arrancadas de alta velocidade, o que beneficiou Aki, que recebeu uma bola aparentemente sem grande expressão… o nº13 viu o espaço, meteu uma marcha acelerada e com um handoff e um aguentar de impacto de classe, seguiu para a linha de ensaio… Galway veio abaixo, era uma estocada no Toulouse, aquela equipa que tem 4 estrelas de campeão europeu e que estava perto de ser vergada pelos “pequeninos” do Connacht. A conversão bem sucedida… viveram-se 10 minutos de sofrimento, com as duas formações a querem a mesma coisa, a vitória.

Doussain já não tinha a mesma velocidade nem de pernas nem de mãos e não conseguiu fazer mexer os seus colegas, o que beneficiou o Connacht que é uma equipa unida e que não inventa nestes momentos de maior perigo… aguentaram duas investidas na formação ordenada do Toulouse, não caíram ou cederam à pressão e garantiram a bola… 80′ chegou, a buzina soou e o Connacht despachou a oval para fora do campo. 23-21, a equipa inovadora de Lamb abate o eterno candidato Toulouse de Ugo Mola.

O Regresso: THE MEN IN BLUE LIVE

Leinster, como a Europa tinha saudades do rugby vibrante da equipa que fora, em tempos, de Brian O’Driscoll. Os Men In Blue lá voltaram aos grandes na “orla” europeia e conseguiram conquistar uma vitória bonificada frente ao Castres Olympique. Foi um comeback ao estilo que os irlandeses de Dublin precisavam, já que estão há algum tempo fora das grandes glórias europeias (2013 foi o último ano que conquistaram uma prova na Europa, com a conquista da Challenge Cup) e precisam de voltar a esse “trono” o mais rápido possível. No jogo frente ao Castres, o bloco avançado dominou por completo nas fases estáticas (10 alinhamentos e 7 formações ordenadas 100%, para além de um “roubo” de bola no alinhamento do Castres e forçaram duas penalidades na formação ordenada dos franceses), tendo Sean Cronin (por duas vezes) e Jack McGrath conseguido um ensaio cada, o que prova que foi através do sector dos avançados que o Leinster catapultou para a vitória.

O Castres pouco conseguiu fazer, sentiu grandes dificuldades em aguentar com a enorme pressão dos 5 da frente irlandeses e com a mobilidade da 3ª linha do Leinster, para além da velocidade do capitão, Isa Nacewa, que “tramou” na 2ª parte a equipa francesa, que ainda assim somou 15 pontos em casa dos Men In Blue. Mas isto é um regresso curto ou é mesmo para ficar? Sem Sexton e O’Brien, ainda a “contas” com pequenas lesões, a equipa do Leinster tem estado num revivalismo que pode ser fundamental para atingirem novos desígnios tanto a nível nacional (PRO12) como na Europa (Champions Cup). Rugby prático, inteligente e fortemente inspirador, é este o princípio que Leo Cullen quer que os seus jogadores imponham a cada jogo, a cada metro, a cada segundo desta época. Para os adeptos do Leinster, o 33-15 pode ter sido um anúncio de regresso… mas, para o Fair Play, ainda é muito cedo para acreditarmos no comeback daquela equipa que apaixonou a Europa.

In the Forwards lie the secret (Foto: Irish Times)
In the Forwards lie the secret (Foto: Irish Times)

Menção Especial: GOODBYE BIG ANTHONY

É um sentido adeus a um asa que não era fenomenal no jogo aberto, mas era um senhor no trabalho curto, na entrega e no motivar dos seus colegas. Anthony Foley é, talvez, o maior símbolo do Munster dos últimos 30 anos, província pela qual jogou a carreira toda tendo conquistado títulos na Celtic League/PRO12 assim como na Champions Cup. Um placador exímio, punha sempre o seu corpo on the line sofrendo as consequências que fossem necessárias para carregar a sua província e Selecção ao mais alto pedestal. Em 2014 conseguiu chegar ao cargo de sonho, assumindo o lugar de treinador principal dos Stags e tentou deixar a sua marca no Munster. Não sabemos qual teria sido o desfecho desta época com Foley no “leme”, pois o campeonato está altamente “quente” e na Champions Cup dificilmente conseguirão fazer “mossa”. Porém, em todos os jogos dos irlandeses o espírito e ideais de Foley transpareciam e marcavam, sem dúvida alguma, os jogos do Munster. Seria a 3ª temporada de Anthony Foley ao serviço do Munster e o seu “desaparecimento” vai deixar um vazio na Irlanda, na Europa e no mundo do Rugby. O Munster lutará pelos metros com Foley na memória e os restantes adeptos farão odes ao asa e treinador que marcou o rugby pela sua sagacidade, força e motivação de querer fazer mais e melhor a cada jogo, a cada ano, a cada novo desafio.

Para ver as tabelas classificativas siga o seguinte link: goo.gl/DZ9I2S
Para ver a próxima jornada siga o seguinte link: goo.gl/ORDqbh
Para ver os Highlights dos vários jogos ver: goo.gl/rj1d4P


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