14 Dez, 2017

All Blacks vs British and Irish Lions Round 1 – FP Análise

Francisco IsaacJunho 28, 201714min0

All Blacks vs British and Irish Lions Round 1 – FP Análise

Francisco IsaacJunho 28, 201714min0

30-15 e a Nova Zêlandia já tomou a dianteira das “Series” nos jogos entre os All Blacks e os British and Irish Lions. Um jogo “complicado”, muito físico, com uma larga dose de “suspiros” e “sustos”. Uma análise ao jogo e aos erros/ideias de ambas as formações

And we’re off… os jogos entre All Blacks e British and Irish Lions iniciaram-se em pleno Eden Park, “casa” do rugby, em Auckland.

Os All Blacks fizeram o 1-0 nas Series, com um 30-15 que até podia ter sido 30-08 não fossem duas penalidades que levaram a um ensaio de Rhys Webb já para lá do tempo regulamentar de jogo.

Warren Gatland saiu com uma derrota, verdade… mas se o encontro tivesse terminado num 30-08 a reacção geral seria “agressivamente” pior do que acabou por ser. Uma diferença de 15 pontos, onde chegaram a assustar os bicampeões mundiais durante a primeira parte, ditou o desfecho do primeiro jogo.

Nesta pequena análise vamos descortinar alguns dos erros das duas formações, assim como abordar os pontos positivos e a estratégia de jogo aplicada tanto por Steve Hansen (All Blacks) e Warren Gatland (British and Irish Lions).

O PIOR DOS MALES…

Qual era o “segredo” para os Lions conseguirem rivalizar, de forma mais equilibrada, os All Blacks? Não cometer penalidades. Este segredo é relativamente óbvio, como qualquer um poderá pensar… sem dúvida. No entanto, os Lions “caíram” na fatalidade de cometer 11 penalidades possibilitando Beauden Barrett de somar 9 pontos (100% de eficácia) e ainda um ensaio (o de Codie Taylor, partiu de um quick tap de Aaron Smith após falta do placador no chão), perfazendo 16 pontos sofridos por faltas.

Ainda podemos “esticar a corda” ao dizer que o 2º ensaio dos neozelandeses proveio de uma formação ordenada em que os All Blacks “varreram”, conquistando uma vantagem que Kieran Read transformou num passe formidável para Smith, tendo depois a oval chegado a Ioane. Por isso 23 pontos…

Jogar feio: o caminho errado?

Os Lions entraram no encontro com a “ideia” de atrasar o jogo no chão o mais possível, impedindo Aaron Smith (ou TJ Perenara) de arrancarem a bola e jogarem rápido quer para Beauden Barrett, Aaron Cruden ou Ben Smith.

Sean O’Brien, Taulupe Faletau e George Kruis (curiosamente, três dos jogadores que melhor envergaram, a nível defensivo, as “cores” dos Lions em Auckland) cometeram sete penalidades ao todo, sendo que a avançada vermelha foi responsável por 90% das faltas cometidas em todo o jogo.

E aonde é que os Lions cometeram a maioria das faltas? Entre os seus 10 metros e o seu meio-campo. Zona proibida. Para os All Blacks tudo fica mais facilitado quando a formação opositora comete faltas no seu próprio território, abrindo a “defesa” para a entrada rápida e eficaz das linhas de ataque dos neozelandeses.

Esta questão já vem desde o primeiro jogo em terras kiwi, tinha sido corrigida ante os Maori e agora voltam a infringi-la no primeiro dos três jogos mais importantes para a cruzada dos Lions.

A solução passa pelos britânicos soltarem mais rápido o jogador placado, saírem da zona do eixo da bola e deixarem de “atrasar” o jogo… por outro lado, ao fazerem isto têm de ser mais eficazes na defesa colectiva, assim como conseguir bloquear o portador da bola quando está em pé, de forma a permitirem a montagem da linha de defesa e ainda apresentarem uma postura mais célere no breakdown.

Outros males foram: formação ordenada “dominada” e entrega de posse de bola nos 2ºs 40 minutos.

A formação ordenada dos Lions foi bem “agrilhoada” pelos All Blacks, que impediram os britânicos de conseguirem arrancar qualquer penalidade nessa fase de jogo. Pior, em três formações ordenadas defensivas, os Lions cederam terreno e permitiram que o cinco da frente kiwi ganhasse a frente e obtivesse o domínio tanto físico como psicológico.

Tadh Furlong, Jamie George e Mako Vunipola foram, na maioria do jogo, “espectadores” não impondo o seu estilo de agressividade física e com toques de classe na técnica, como já antes o tinham conseguindo contra os Maori All Blacks.

A introdução de Kieran Read nos All Blacks foi essencial para todo este processo, já que o 8 esteve sempre em cima do acontecimento, comandou bem as forças e estratégias na FO e ainda retirou proveitos que causaram dano na defesa dos Lions.

Dar posse a quem só sabe dominar…

A entrega da posse de bola também foi um “acidente de percurso” grave por parte dos Lions já que tiveram de passar mais de 58 minutos de jogo a defender, 30 dos quais no seu meio campo. Ao todo garantiram 162 placagens somando mais 21 falhadas, absorvendo o impacto de jogadores como Sonny Bill Williams (o jogador que mais vezes ultrapassou ou garantiu a linha de vantagem, com 13), Read (foi o jogador que mais vezes foi ao contacto, com 19 carries), Sam Cane ou Beauden Barrett.

Ao dar primazia da oval aos All Blacks, os Lions entregaram o controlo do jogo e ofereceram a “prenda” que os bicampeões do Mundo mais gostam: bola nas mãos.

Os British and Irish Lions ainda conseguiram consentir um ensaio por erro próprio que se passou em dois momentos: 1º momento – linha de ataque com vantagem que acabou em bola perdida (mau passe de Farrell), com Read a captá-la; 2º momento – Pontapé de TJ Perenara sem pressão defensiva, má comunicação entre Williams e Daly, pressão boa de Rieko Ioane e captura do ponta para o 3º ensaio dos All Blacks.

Em que momento estávamos do jogo? Nos 69 minutos… dentro dos tais 20 minutos “sagrados” dos All Blacks, em que todo o jogo desnivela para o lado da selecção do Hemisfério Sul. Foi um erro crasso dos Lions que foi excelentemente bem aproveitado.

Falta de concentração ou boa pressão dos Lions?

Vejam que durante o jogo aconteceu o mesmo com os All Blacks… más recepções da oval, seja com Ben Smith (três más captações), Aaron Smith (uma) ou SBW (uma). No entanto, os Lions ao contrário dos All Blacks não conseguiram que isto surtisse em ensaios para o seu lado. Faltou aos britânicos a capacidade de explorar os (poucos) erros que os All Blacks concederam a nível de captação da oval ou defensivos.

Por falar em erros, um deles originou o primeiro ensaio dos Lions. O ensaio de Sean O’Brien, que começou nos dez metros defensivos dos Lions e terminou só na área de ensaio da equipa da casa. Aonde estão os erros?

Vejamos:
1- Pontapé de Aaron Cruden mal preparado, que foi desprovido de uma pressão intensa (Rieko Ioane e pelo menos mais três jogadores estão bem à frente do chutador);
2- Kieran Read aborda mal a placagem, o que garantiu uma início de boa aceleração para Leigh Williams;
3- Aaron Cruden aborda mal o arranque de Williams e deixa o 15 escapar, efectuando uma última tentativa de placagem que sai gorada pelo bom handoff do defesa;
4- Boa placagem de Israel Dagg, mas sem apoio na ala, o que permite a Elliot Daly galgar quase 30 metros;
5- Falha de placagem de Aaron Smith numa situação já por si complicada… contudo, era uma placagem complicada de efectuar muito pela forma como O’Brien entra no contacto;

O pontapé de Cruden em si é bem esboçado… para trás das costas do ponta, no corredor e baixo. Porém, o abertura não esboçou o melhor pontapé para o momento de jogo… não existia uma boa linha de pressão e isso é que vai desencadear o ensaio dos Lions.

Williams, Daly e um belo apoio tanto de Davies como O’Brien construíram uma jogada icónica para os Lions, que vale a pena rever. É uma daquelas situações de jogo muito raras, em que os All Blacks falham cerca de quatro placagens no espaço de 40 segundos.

Já no final jogo, os All Blacks vão consentir duas penalidades e um erro de controlo de bola que permitem aos Lions chegar à área de ensaio aos 82 por Webb. Isto prova que as penalidades podem implicar altos custos para uma equipa que domina durante 30-40 minutos.

É uma situação estranha, já que os All Blacks raramente se deixam ir em faltas por fora-de-jogo, algo que os Lions têm sabido muito bem retirar partido desde o 1º momento que aterraram na Nova Zelândia.

… E O MELHOR DOS REMÉDIOS

Parece estranho avançar com hipotéticas ideias de como ambas as formações podem/devem atacar ou defender para conquistarem uma vitória nas Series… quase fazendo de Advogado do Diabo.

A Nova Zelândia teve dois problemas durante o jogo: as lesões de Ben Smith e Ryan Crotty. O defesa não conta para Steve Hansen, uma vez que o teste de concussão deu sinal “negativo”. Crotty está em dúvida, mas é uma lesão (na zona abdominal) reincidente e que o poderá pôr fora do 2º encontro.

Israel Dagg poderá ser “atirado” para a posição de 15, com Waisake Naholo (ou Julian Savea) a receberem a camisola 11, com Ioane do outro lado. A grande questão serão as bolas pontapeadas pelos Lions… Dagg é um jogador seguríssimo e que as agarra com extrema elegância (não é tão explosivo quanto Ben Smith, mas não deixa de ser um perigo com a bola), já Naholo tem alguns problemas com as bolas altas e uma pressão mais “forte”.

A saída de Crotty vai possibilitar a Lienert-Brown subir ao campo com a camisola 13, garantindo velocidade, explosão e uma bela eficiência com a oval nas mãos. É um jogador diferente de Ryan Crotty, mais ligado à corrente, mas menos “sólido” a defender.

Laumape poderia ser uma aposta de risco… o centro fez uma bela exibição contra os Hurricanes, pondo todo o seu estilo explosivo, de um “tanque com um motor V8” em funcionamento, o que criou sérios problemas à defesa dos Lions.

Alinhamentos: o que se passou?

Em termos de estratégia os All Blacks têm de corrigir os alinhamentos (quatro bolas perdidas no 1º jogo) que tirou boas possibilidades de pontos a certa altura… não foi tanto por Codie Taylor mas sim pela harmonia entre os 8 avançados neste sector.

Aos 66′, os All Blacks dispuseram de uma oportunidade de “ouro” para chegar à área de ensaio dos Lions… alinhamento nos últimos 5 metros, bola bombeada e… Itoje rouba-a, lendo com perfeição o que o pod de Broadie Retallick ia fazer. Não é um erro comum dos All Blacks, até é algo muito raro dentro da estrutura de jogo neozelandesa.

Já aos 41:53 também se tinha passado o mesmo… alinhamento fácil, os All Blacks complicam, Lions ganham.

Os Lions têm disputado bem a oval no ar, conseguiram desenvolver bons mauls (o último ensaio adveio de um bom alinhamento e uma boa saída de bola) e foram “fortes” na saída desta situação para o jogo aberto.

Se por acaso os avançados da Nova Zelândia caíssem num “sono” semi-profundo ou profundo, os Lions poderiam ter aproveitado com outra “maldade” estes erros nos alinhamentos.

O Melhor dos XV ou o mais útil?

A selecção britânica poderia promover a introdução de CJ Stander por Taulupe Faletau (o 8 foi bem “anulado”, apresentando pouca mobilidade no jogo ao ataque, tendo no entanto realizado umas impressionantes 21 placagens) para garantir um 8 mais “maçudo” e com outra capacidade de trabalho no ataque.

Para além disso, Maro Itoje poderia ser uma espécie de “boom” ofensivo dos Lions, já que após a sua entrada registaram-se dois turnovers (um no alinhamento, outro a seguir a uma placagem de O’Brien) e outra preponderância nos rucks.

Acima de tudo, os Lions têm de garantir a posse de bola e precisam de jogadores que o consigam fazer… meter Conor Murray ou Johnny Sexton pode ser “doloroso” nesse aspecto, uma vez que tanto o formação como o médio de abertura da Irlanda preferem o jogo de pontapé para cima ou para as cabeceiras, pressão defensiva e tentativa de recuperação no breakdown ou jogar em contra-ataque.

Para ganhar à Nova Zelândia, os Lions precisam de ter uma atitude física agressiva (Warren Gatland sentiu que os seus jogadores ficaram aquém do que podiam ter feito a nível do entrar com a bola), de querer jogar a oval, de arriscar em situações à ponta e de bombear o jogo de outra forma, que não seja ao pontapé.

Placagem eficaz e fim de percalços

Vale a pena rever o jogo e perceber que os All Blacks não precisaram de muito para “esganar” as tentativas de assalto dos Lions. À passagem do minuto 21′, uma saída de FO directa para Owen Farrell é bem parada por Sonny Bill Williams, aniquilando desta forma com uma tentativa de ataque dos Lions (Te’o já surgia lançado ao lado do abertura).

A qualidade da estratégia defensiva dos bicampeões mundiais foi exemplar. Seja na montagem da linha de defesa (comunicação perfeita, mas ainda melhor a capacidade dos jogadores de se revezarem e assumirem o seu papel na placagem ou na zona de contacto), na disputa dos rucks (Sam Cane, Jerome Kaino, Ardie Savea ou Luke Whitelock foram uns autênticos adversários irritantes para Rhys Webb ou Conor Murray) ou na recuperação defensiva, os All Blacks foram quase categóricos na sua missão.

Os turnovers acumularam-se ficando na retina um de Sam Cane (excelente “arrancar” de bola no contacto) ou este que aqui deixamos de Aaron Smith após uma excelente defesa colectiva, bom trabalho no contacto e capacidade de serem tremendamente rápidos no breakdown.

Observemos o primeiro minuto de jogo… os Lions entram com o pé no acelerador e atacam por todo o lado (muito ao jeito do rugby do Hemisfério Sul). Owen Farrell aparece em três situações diferentes e em todas elas assume um papel fulcral na manobra ofensiva dos Lions, seja pelo “alimentar” das linhas, o passe que abre espaço no meio dos centros ou aquele último passe do chão para Elliot Daly que quase dá ensaio.

Todavia, mal Jonathan Davies quebra a linha e sai disparado para os últimos 20 metros, os All Blacks não perdem a “cabeça”… acompanham de perto o centro, fechando-lhe o espaço de manobra… Davies dá a bola a Conor Murray que vê-se numa boa situação atacante.

Surge Aaron Smith que explode a defender e faz a “colher” (placagem aos calcanhares com só uma mão), o que tira o equilíbrio de Murray… com o 9 no chão, Farrell ainda atira o tal passe do chão que Daly quase aproveita… não fosse uma boa leitura de Israel Dagg e um bom apoio de Barrett.

É isto que determina os All Blacks… não é só os 20 minutos finais de domínio e onde imprimem uma velocidade estonteante… é também nestes momentos de maior “aflição” que os neozelandeses demonstram uma frieza total que “desmonta” um bom ataque adversário, retirando o prazer de festejar um ensaio.

O segundo jogo é já este sábado dia 1 de Julho às 08:35 na SkySports… os All Blacks podem já reclamar o troféu se conseguirem quebrar, mais uma vez, a estratégia e ideias de Warren Gatland. Tudo depende dos primeiros 10 minutos e dos tais 20 minutos finais.


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