22 Fev, 2018

Agronomia Rugby: renovar, reformular e voltar ao topo

Francisco IsaacJaneiro 14, 20189min0

Agronomia Rugby: renovar, reformular e voltar ao topo

Francisco IsaacJaneiro 14, 20189min0
A AEIS Agronomia está em alta e o Fair Play foi perceber como se deu a reinvenção do clube da Tapada. Uma análise ao 1º classificado da Divisão de Honra

O Campeonato Nacional Português de rugby está “quente” com a AEIS Agronomia a liderar a tabela, com o GDS Cascais mesmo “colado” e CF “Os Belenenses” em grande perseguição no 3º posto. Nestas duas últimas temporada, o clube da Tapada reinventou-se e voltou a disputar finais do Campeonato ou Taça de Portugal (em 2016 contra o GD Direito em Setúbal) algo que não acontecia desde 2012/2013.

Com a saída de Carlos Amado da Silva do clube em 2010, para assumir a presidência da Federação Portuguesa de Rugby (até 2015), abrindo caminho para uma nova direcção e necessidade de reagrupar esforços para tentar manter o bom trabalho a nível dos campeonatos séniores. O clube agrónomo, com reminiscências dos anos de glória da anterior direcção, conseguiu conquistar três taças de Portugal e estar presente em mais uma final de campeonato (perdida para o CDUL em 2011/2012).

Todavia, a bonança dos anos dourados terminou e assentou-se uma tempestade na Tapada de tal forma que ficaram arredados não só de finais, mas inclusive de meias-finais algo que criou um sentimento bastante amargo nos adeptos e jogadores que se habituaram a lutar por finais e títulos. Murray Cox chegou precisamente na era que se iriam registar os piores resultados da Agronomia nos últimos 8 anos – mesmo assim o australiano ainda conseguiu estar presente numa final de Taça, perdida para o CDUL.

O australiano, apesar de ter noções únicas de rugby para a realidade do rugby Nacional, nunca foi bem compreendido e acabou por sair do clube no final do ano de 2014, após uma campanha decepcionante no campeonato (eliminação no playoff de acesso às meias-finais) e Taça de Portugal. João Moura tomou as rédeas, sendo um dos treinadores mais jovens a ocupar o lugar na Agronomia, na senda de uma das maiores lendas de Agronomia, José Ricardo Sequeira.

Contudo, a urgência de resultados, de boas exibições e de recuperar o domínio territorial de Agronomia, acabou por prejudicar os dois anos de liderança de João Moura na Tapada. Poucos podem recordar-se dos feitos do jovem treinador algarvio, mas há que relembrar que atletas como Vasco Ribeiro, António Cortes Monteiro, Manuel Cardoso Pinto, Pedro Herédia, João Alves Moreira (algo imperceptível como o talonador ainda não mereceu uma convocatória para jogos oficiais da Selecção Nacional) foram lançados e/ou polidos pelo treinador, que arriscou na aposta da juventude para dar outra dimensão ao clube.

Nem a final da Taça de Portugal em 2016 “salvou” João Moura de ser substituído pelo antigo internacional português e seleccionador Nacional de 7’s e XV (assim como campeão pelo GD Direito), Frederico Sousa. A mudança “repentina” de direcção veio também acompanhada de uma nova decisão em apostar em trazer jogadores estrangeiros de calibre, algo que também precipitou a falta de solidez do rugby agrónomo.

Os casos de Leroy Afrika, Neil Manley ou Jake Harris são os exemplos necessários para demonstrar que a qualidade de atletas profissionais estava algo abaixo das exigências de uma equipa como a Agronomia. O único grande reforço foi Lote Nasiga, 2ª linha que pode actuar como asa, e que foi internacional sub-20 pelas Fiji no Campeonato do Mundo em 2015.

Com Frederico Sousa houve outra aposta com vindas de José Rodrigues (chegou como estrangeiro, mas deve ser entendido como português por ser descendente de um emigrante luso), PJ Van Zyl (2ª e 3ª divisão francesa), Robert Delai (internacional “B” pelas Fiji) e Meli Rokoua (fez parte dos campos de treinos da selecção dos Flying Fijians). Para além destes super-reforços, Fernando Almeida regressou em força após uma lesão complicada, assim como Gustavo Duarte.

A juventude agrónoma (Foto: José Vergueiro Fotografia)

A equipa endireitou-se, o rugby voltou a ser dominador, fresco e dinâmico, com a Agronomia a ter uma predilecção não só para marcar ensaios (este ano volta a ser o melhor ataque do campeonato com 146 pontos e 23 ensaios marcados, isto na fase regular) mas também por não desistir e ir para a frente, aguentando bem nos momentos X, como na meia-final da Divisão de Honra frente ao GDS Cascais.

Só para relembrar, a equipa de Tomaz Morais estava a escassos 5 metros de marcar um ensaio que poderia colocá-los no caminho da final com uma formação ordenada… a Agronomia não só susteve o 1º impacto como conquistou uma penalidade para libertar a intensa pressão que estava submetida.

As conquistas de duas supertaças e Taça de Portugal nestes últimos 15 meses, para além da tal ida à decisão do campeão português, prova que houve excelentes resultados atingidos pela direcção actual. Administração que tem feito um esforço bastante grande para dar ao clube todas as ferramentas que precisa não só para ganhar a curto-prazo, mas para se estabelecer como um clube de produção de novos “diamantes” do rugby Nacional e de conquista de troféus, não só no escalão máximo, mas, mais importante, no de formação.

Leonardo Falcão Trigoso, António Sevinate Pinto, Luís Pissarra (também treinador nas escolinhas do clube agrónomo) ou Nuno Salvador Costa são alguns domes que mexem com todo o mecanismo agrónomo em termos de logística, ideias e de fazer acontecer. Todavia, a equipa sénior é a ponta do iceberg de um clube, e em Agronomia esse pormenor não foge, já que as escolas do clube têm sido fundamentais para garantir o sucesso actual do clube.

Os casos de Vasco Ribeiro, José Rebelo de Andrade, Manuel Cardoso Pinto, Martim Cardoso, Pedro Herédia, é a demonstração que algo tem sido bem feito pela formação agrónoma. Desde as escolas aos sub-18, os últimos dez anos foi a tentativa de seguir um trabalho comum (que nem sempre foi o mesmo entre os treinadores, uma vez que há nuances díspares quer na metodologia ou forma de jogar), baseado no trabalho de skills, excelência nas componentes técnicas e de sectores de jogo.

Luís Supico, Manuel Manarte, Luís Cavaco, Nuno Amado, Manuel Amorim Ferreira, Manuel Cardoso ou Vasco Sevinate Pinto foram/são alguns dos principais nomes em termos de desenvolvimento de jogadores, atingindo níveis de exigência e excelência que têm valido a promoção de jovens jogadores à equipa principal. O trabalho intenso destes treinadores, a sua filosofia e insistência em dar outras condições à formação (que poderiam ser ainda melhores, mas devido a algumas questões de ordem financeira e logística não foi possível) mudou o destino do rugby agrónomo.

A boa comunicação que vinha/vem a acontecer entre escalão sénior e formação mais básica desde a entrada de João Moura (técnico este que prestou auxílio e deu inputs valiosos aos treinadores e jogadores da formação agrónoma), foi e é uma das “chaves” para o sucesso actual dos agrónomos que não se fica só pelo clube, mas já se estende à Selecção Nacional. Esta atitude dos treinadores do escalão sénior em participar em alguns/bastantes treinos dos escalões de formação dá outra “dimensão” à troca de conhecimentos e inspiração aos mais jovens atletas.

Nos últimos seis anos vários têm sido os atletas a “ganhar” um lugar de destaque nos XV’s (e mesmo nos 7’s) principais das selecções de formação com os exemplos máximos já dados de Ribeiro, Cardoso Pinto, Rebelo de Andrade, Cardoso, entre outros.

Ombreando com o CDUL, GD Direito e GDS Cascais como equipa que fornece mais atletas à selecção Nacional senior, a Agronomia vive dias de afirmação no rugby português. Neste momento, é um dos clubes que tem, praticamente, 400 atletas federados no clube, desde os sub-8 aos seniores, assumindo candidaturas aos títulos de sub-18, Challenge e Seniores.

A AEIS/AISA Agronomia é um clube que tem se revolucionado aos poucos e tentado descobrir novos caminhos para o sucesso, baseando, hoje em dia, os seus XV com jogadores da sua formação. Não obstante, é um dos clubes que aposta mais em jogadores estrangeiros, o que é uma coisa interessante e boa, ao contrário do que é apregoado por alguns, não é negativo para o rugby Nacional.

A discussão do uso “excessivo” de estrangeiros ou “que jogar com portugueses é que é defender os interesses do rugby português” é tão descabida que fica bastante mal a quem profere esse tipo de discursos, naquilo que pode ser interpretado como uma tentativa de auto-satisfação. A inclusão de jogadores estrangeiros em Portugal é importante para o desenvolvimento de alguns pormenores e fases de jogo, já que o seu conhecimento pode dar outras “tons” ao rugby de cá.

A ideia de Agronomia actualmente é apostar em trazer estrangeiros para Portugal, incluindo-os nos trabalhos de formação de jovens jogadores (passando parte dos conhecimentos para os mais “miúdos”), o que vai muito para além do simples chegar, jogar e ir embora. Não será este caminho vantajoso, também, para o rugby português? E porque é que há uma necessidade de denegrir e atacar as opções de um clube?

Olhando para as questões actuais, a AEIS Agronomia recuperou de uns tempos atribulados, refez a sua confiança, voltou a lutar por troféus, tem uma participação bem “simpática” nas listas de eleitos para os jogos da selecção Nacional e está a ser uma das equipas que melhor joga rugby em Portugal. Mas será 2018 o ano do regresso aos títulos 11 anos depois da sua primeira conquista?

Foto: Luís Cabelo Fotografia


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