18 Nov, 2017

A Trilogia que pode salvar a época

João PortugalMaio 30, 201710min0

A Trilogia que pode salvar a época

João PortugalMaio 30, 201710min0

Chegou o momento que a narrativa de toda a temporada prometeu. Houve muito pouco espaço para imaginarmos um final de NBA diferente do que teremos pelo terceiro ano consecutivo. Esta hegemonia partilhada e dividida entre Este e Oeste pelos Cavs e Warriors levou-nos a uma das post seasons mais desinteressantes de que há memória. O mais grave é que aquele equilíbrio que todos desejamos durante a Final pode nem vir a existir.

Antes de prosseguir quero deixar claro que não são as outras 28 equipas da NBA que não prestam. Cleveland e Golden State foram formadas através de excelentes escolhas em drafts fortes, que levou a que os melhores free agents disponíveis tenham decidido integrar esses projectos, primeiro Lebron no regresso a casa e agora Kevin Durant à procura do primeiro anel. Finalmente, e igualmente importante, os jogadores muito experientes e de enorme qualidade que ainda não tenham conseguido vencer nenhum título aceitam juntar-se a estas super-equipas a baixo preço. Para além das estrelas, Warriors e Cavs quase que escolheram o resto do plantel a dedo, colocando a fasquia inalcançável para o resto.

Deixando de lado os agoiros e as previsões negativas, quando eu antevejo qualquer que seja a série de playoff, gosto de focar-me no que cada equipa tem que fazer para a ganhar. Começando por Cleveland, até porque dos dois, é o lado onde menos coisas podem falhar para que consigam revalidar o título, é a produção defensiva quando Lebron James estiver no banco. Os Cavs concedem 117.7 pontos por 100 posses de bola quando o seu melhor jogador não está em court. Dificilmente James jogará menos que 42-45 min por partida na Final, se os jogos se mantiverem competitivos claro está, descansando 2 ou 3 minutos no final do primeiro período e depois só deverá voltar ao banco se Cleveland estiver em vantagem nos últimos minutos do terceiro. Naturalmente será muito pouco tempo que os Cavs jogarão sem ele, mas quanto mais destruídos forem nesses minutos, mais rapidamente Lebron chega à exaustão. Em 2015, em que LBJ teve que fazer muito mais que em 2016 por não haver Kevin Love, nem Kyrie Irving (5 jogos lesionado), mal se notava a sua explosividade nos derradeiros minutos dos encontros.

Continuando em Lebron, porque podem não acreditar mas o sucesso de Cleveland depende ligeiramente dele, o seu lançamento exterior tem de continuar tão eficaz como tem sido durante estes playoffs. É um dos pêndulos que determinará a competitividade da Final, já que os Warriors são muito agressivos a defender os seus ataques ao cesto, e oferecem muitas vezes a oportunidade de lançar de fora. Os 42,1% de 3pt são a melhor marca da carreira em playoffs por larga margem e é um valor insustentável para a maneira como Golden State o defendeu nas Finais anteriores. Não só os está a lançar com a melhor percentagem, como em volume também. Os 5,8 por jogo igualam o seu valor mais alto em todos os playoffs (2009), numa altura em que a segunda opção ofensiva da equipa era…como é que hei-de explicar…ninguém (Mo Williams/Delonte West).

Teremos o melhor Lebron de sempre? [Foto: Brian Spurlock-USA TODAY Sports]
 

A defesa, não apenas quando Lebron estiver no banco, terá de melhorar bastante, e não sei quão melhor pode ser em relação ao que já é. Da fase regular para a post season, certamente se nota muito mais esforço, contudo o que se notou, especialmente frente aos Celtics, é que continua relativamente fácil desregular as trocas e as ajudas defensivas e criar boas condições para triplos abertos ou buracos debaixo do cesto. Boston simplesmente não conseguiu fazê-lo vezes suficientes para criar mossa no resultado porque estiveram terriveis no ataque, especialmente como ball handlers.

Kyrie Irving necessita de ser mortífero em jogadas de isolamento, Kevin Love tem de continuar letal de 3pt, JR Smith não pode ser uma nulidade ofensiva como foi em grande parte da Final de 2016, mesmo assim, quem tem obrigatoriamente de estar nos píncaros é Tristan Thompson. Lembram-se quando se discutia se ele valia os 80 milhões do seu novo contracto? Já lá vão quase 2 anos e agora é muito claro, no seu rendimento médio, ele vale seguramente esse dinheiro, porém, no seu melhor, vale 150. Não é só no ressalto, onde ele já é dos melhores do Mundo, é na protecção do cesto, nas trocas defensivas e quando for obrigado a defender os melhores Warriors no perímetro após trocas no bloqueio.

Do lado dos Warriors, o que vão ter que limitar, e isto já começa a tornar-se um disco riscado, mas é verdade, são os turnovers. Com a lesão de Kawhi Leonard, os constantes descuidos de Golden State com a bola acabaram por não lhes custar nenhuma derrota, porém não é algo que eles queiram imular na Final. Per Shane Young, os Warriors estão 39-11 quando perdem 15 ou mais vezes a bola por encontro, e 40-4 quando esse valor fica abaixo de 15, esta época. Olhando para as percentagens de vitórias até podemos pensar que não tem assim tanto impacto, contudo é com essas perdas de bola sucessivas que se constroem runs de 10, 12, 15-0 que contra as melhores equipas acabam por ser quase irrecuperáveis.

Durant terá papel fundamental a defender [Foto: NBCS Bay Area]
 

Algo que terá que acabar e que foi uma das grandes causas para o descalabro de 2016 são as invenções que virão da equipa técnica de Steve Kerr, neste caso de Mike Brown. Pequeno aparte, sabiam que o assistente de Kerr ainda está a receber a sua indeminização de quando foi despedido do comando técnico dos Cavs? Se os Warriors forem Campeões, Mike Brown terá derrotado a equipa que lhe paga grande parte do salário. Continuando, ainda bem que já não há Festus Ezeli, Anderson Varejão e, um pouco injusto colocá-lo aqui também mas, Andrew Bogut. As rotações de jogadores interiores este ano terão de ser muito mais bem reguladas, e há mão-de-obra para tal. Draymond Green terá de ser um 5 muuuuuuuuito mais tempo do que um 4 contra Cleveland. Que a temporada passada tenha servido de lição. Zaza Pachulia terá que refugiar-se no banco a maior parte do tempo já que não terá qualquer chance contra Tristan Thompson e Kevin Love. David West é a segunda melhor opção e Javale McGee pode funcionar quando Green estiver no banco e tanto Curry como Durant estejam em court.

Por falar nisso, que Mike Brown nem se atreva em algum momento a sentar Steph Curry e Kevin Durant ao mesmo tempo. Dificilmente haverá maior tiro nos pés. Parece tão óbvio e tão simples, todavia já aconteceu por diversas vezes, até no jogo 1 da Final do Oeste, antes da lesão de Leonard. É aqui que está a diferença entre ter 2 dos 5 melhores jogadores da NBA ou só ter o melhor. O melhor acabará por ter que descansar, enquanto que a outra equipa poderá ter sempre um deles em court.

Outro ponto chave é não parar de passar a bola durante as posses de bola. É verdade de que fazê-lo contra jogadores como Lebron James que é um mestre a ler o jogo e a criar oportunidades de intercepção mesmo antes dos passes serem feitos é um risco. Ainda assim a defesa de Cleveland facilmente falha uma troca defensiva, uma má comunicação, uma ajuda extra no passe ao lado (situação que acontece quando o defensor de um dos jogadores adversários mais próximos da bola sai do seu posto defensivo para ajudar a defender o que tem a bola na sua posse). Da mesma forma que o lançamento exterior de Lebron James é um pêndulo para os Cavs, o de Draymond Green é para os Warriors. Os 47,2% 3pt que o poste de Golden State está a conseguir nestes playoffs é um valor estratosférico, porém não impossível de manter, até porque ele terá muitas oportunidades para lançar de fora sem oposição. Se não tiver, significa que um dos melhores atiradores dos Warriors estará livre em vez dele, o que, em teoria, é ainda pior para os Cavs.

Quão letal será Green de longa distância? [Foto: The Saginaw News File]
 

Já o frisei na preparação para a Final do Oeste, estas duas séries são a razão pela qual os Warriors contrataram Kevin Durant para o lugar de Harrison Barnes. Para que Lebron James e Kawhi Leonard não tenham um segundo de descanso quer na defesa, quer no ataque. Se houve algo que Lebron tirou vantagem nas finais anteriores foi no seu post game contra Barnes. Isso acabou, Durant é maior, utiliza os seus braços longos para contestar o lançamento sem fazer falta, e é um tipo de jogada muito mais ineficiente para James. Ele nestas Finais será defendido por KD, Green ou Iguodala, venha o diabo e escolha.

Quanto a uma previsão em jogos e depois de ter acertado o 4-1 da Final do Este e o 4-0 do Oeste (muito graças à ajuda de Zaza Pachulia), estava na dúvida entre dois resultados, mas acabei por ir para aquele que tem sido mais escolhido pelos comentadores e analistas. A escolha de Finals MVP também foi especialmente difícil muito por causa do parágrafo anterior, só que apesar de ter falado pouco dele neste texto, Steph Curry está ao nível da regular season de 2015/16 em que foi MVP unânime, sendo que agora tem um pouco menos de usagem porque Kevin Durant joga ao seu lado. Posto isto, acredito que os Warriors serão Campeões em 5 jogos e que Curry será o MVP da Final. Estive para escolher uma Final decidida em 4 jogos e continuo a ter receio de que a temporada acabe mesmo a 12 de Junho, só que nós, adeptos da NBA, não merecemos tão poucos jogos depois de uns playoffs tão pouco competitivos. Para concluir, deixo uma hot take que deixará os mais velhos loucos, mas se Lebron James arranjar o antídoto para vencer esta Final, não terei qualquer problema em considerá-lo o melhor de sempre porque esta equipa de Golden State é mesmo a melhor que alguma vez entrou num court da NBA.

Conseguirá Curry conquistar Finals MVP? [Foto: Frederic J. Brown-Getty Images]


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