23 Out, 2017

Vêm aí as canadianas!

João BastosFevereiro 6, 20179min0

Vêm aí as canadianas!

João BastosFevereiro 6, 20179min0

Penny Oleksiak foi a grande revelação das piscinas no ano 2016. Com apenas 16 anos sagrou-se campeã olímpica da “prova rainha” da natação mundial. Mas Oleksiak não é uma excepção, nem tão pouco um acaso na natação canadiana. Fique a conhecer melhor os métodos do país que promete continuar a agitar as águas das piscinas pelo mundo fora

A natação canadiana tem uma história olímpica peculiar. Não sendo uma das maiores potencias mundiais da disciplina – “apenas” a 12ª nação do medalheiro olímpico de sempre -, a verdade é que os canadianos já têm um currículo que exige algumas responsabilidades.

Nos 120 anos da História dos Jogos Olímpicos da era moderna, o Canadá obteve um total de 48 medalhas, sendo 8 delas do metal mais precioso.

Mas metade dos títulos foram obtidos numa só edição (Los Angeles 1984), sendo que, historicamente, a natação canadiana tem alternado entre a euforia e a depressão no que aos JO diz respeito.

Ainda olhando pelo retrovisor, conclui-se que a história que aqui contamos se escreveu predominantemente no masculino, com 6 dos 8 títulos a serem conquistados pelos homens canadianos.

Perante este cenário, os responsáveis da “Swimming Canada” decidiram que era altura de conferir alguma consistência aos resultados dos lumberjacks e catapultar em definitivo a natação canadiana para o pelotão da frente onde estão países como os EUA, Austrália, Japão ou China.

Os resultados já estão à vista.

Penny Oleksiak com o seu ouro olímpico | Foto: David Gray

Mais do que uma geração de ouro

No Rio de Janeiro, o mundo ficou impressionado com uma jovem de seu nome Penelope (Penny) Oleksiak. Com apenas 16 anos, a nadadora de Toronto resumiu a sua primeira participação olímpica a um ouro, uma prata e dois bronzes.

Mas Penny não deve ser entendida como um fenómeno da natação canadiana, mas antes como o expoente máximo de um núcleo de nadadores – ou melhor, nadadoras – do seu país que está agora a atingir o topo da natação mundial.

E não é um núcleo tão restrito assim: Taylor Ruck (16 anos), Emily Overholt (19 anos), Kennedy Goss (20 anos), Kylie Masse (21 anos), Chantal van Landeghem (22 anos), Brittany MacLean (22 anos), Katerine Savard (23 anos), Sandrine Mainville (24 anos), Hilary Caldwell (25 anos) e Michelle Williams (26 anos) saíram todas do Rio com, pelo menos, uma medalha ao peito. Maioritariamente em provas de estafeta, o que demonstra que a natação canadiana está a evoluir o seu nível médio – nomeadamente no sector feminino – originando um grupo de elite tendencialmente mais forte.

Aos nomes indicados em cima devem ainda ser adicionados outros como Sydney Pickrem (19 anos), Rachel Nicol (23 anos) ou Dominique Bouchard (25 anos).

Atendendo às suas idades, percebemos que a procissão canadiana ainda nem chegou ao adro, havendo agora um longo percurso de 3 anos e meio, trilhado de expectativas em relação ao que esta geração pode fazer em Tóquio.

Sandrine Mainville, Chantal van Landeghem, Taylor Ruck e Penny Oleksiak com o bronze dos 4 x 100m livres no Rio2016 | Foto: Martin Bureau/Getty Images

…E o viveiro continua activo

Oleksiak, Ruck, Overholt e Pickrem são teenagers que já obtiveram uma participação olímpica e por isso tornam pleonástico o exercício de procurar outros jovens valores que poderão atingir o mesmo nível, mas a verdade é que exemplos não faltam.

São os casos de Kayla Sanchez (15 anos) que já este ano ficou à beira de nadar os 100 livres em 54 segundos (55.19) na etapa texana do Arena Pro Swim Series, Rebecca Smith, mais uma nadadora de 16 anos, que já nada os 100 mariposa abaixo de 1 minuto, Mary-Sophie Harvey (17 anos), a segunda melhor do ano – dando o desconto que o ano começou há um mês – no ranking mundial dos 400 estilos, apenas superada pela recordista mundial Katinka Hosszu ou de Faith Knelson (14 anos) que já baixou da barreira dos 32 segundos nos 50 bruços (31.99) e do 1:10 aos 100 (1:09.77)

Estes são apenas quatro nomes, destacados entre outros, que alimentam as esperanças canadianas de ver reforçar o seu estatuto entre os “tubarões” (as aspas são redundantes) da natação mundial.

E esse estatuto vai sair, certamente, reforçado já este ano nos Mundiais da Hungria!

Kayla Sanchez | Foto: Swimming Canada

E os homens?

No sector masculino o nível não está, nem de perto nem de longe, tão alto como no sector feminino, prevendo-se que a tradição olímpica canadiana seja revertida já nos próximos Jogos. Mas há alguns nomes que importa fixar.

Aquele que já é mais familiar aos ouvidos dos seguidores da natação mundial é o de Santo Condorelli, um nadador de 22 anos, especialista dos 50 e 100 livres, conhecido por pagar no final das provas de 100 a ousadia cometida, invariavelmente, nos primeiros 50 metros. Quando, e se, conseguir evitar que lhe caia um piano em cima na segunda metade das suas provas, estaremos perante um candidato ao ouro olímpico dos 100 livres!

(Vídeo da final dos 100 livres do Campeonato do Mundo de Kazan 2015 – Condorelli passa em primeiro aos 50 metros e acaba em 3º)

Outro especialista do sprint é o gigante de 21 anos Yuri Kisil. O seu 1,98m é, para já, o dado mais notório da sua carreira, mas as condições para deixar a sua marca na natação estão lá todas.

A terceira referência das provas rápidas de livres (e costas) é Markus Thormeyer, outro gigante com a mesma altura de Kisil, mas com menos 2 anos de idade. Thormeyer, Condorelli e Kisil formam um trio fortíssimo nos 100 livres. Quando o Canadá encontrar um 4º elemento que não comprometa, terá uma estafeta capaz de fazer frente aos quartetos australiano, americano e francês.

Outra promessa da natação masculina canadiana é o hispano-descendente Javier Acevedo. Aos 19 anos, estreou-se em JO no ano passado, tendo ficado às portas das meias finais dos 100 costas. Veremos como será a sua evolução nas próximas grandes competições mundiais.

A estatística do sucesso

Como em todos os projectos que dão certo, o segredo é pouco secreto: trabalhar mais, melhor e de forma diferente da “concorrência”. E nesse sentido, os canadianos tentaram objectivar ao máximo uma actividade que no final do dia está dependente de factores bastante subjectivos: motivação, superação, talento ou estado de espírito.

No caso do Canadá é a ciência – mais concretamente a matemática – que explica o excelente trabalho de formação que está a ser desenvolvido.

Iain McDonald, o director técnico nacional, explica que o Comité Olímpico Canadiano desenvolveu conjuntamente com a Federação de Natação Canadiana um modelo estatístico que reúne uma série de dados que permitem prever a aptidão de determinado nadador para vir a ser um atleta de elite.

Por exemplo, Penny Oleksiak começou a ser observada aos 14 anos, quando nadou os 100 livres pela primeira vez na casa dos 56 segundos. Aos 15 foi vice-campeã mundial de juniores com 54.65, perdendo para sua compatriota Taylor Ruck e aos 16 é co-campeã olímpica (ex-aequo com a americana Simone Manuel) com o tempo de 52.70.

Penny Oleksiak (à direita) com 11 anos e as suas companheiras de equipa | Foto: Gary Nolden

Apenas uma questão de números

O sistema canadiano baseia-se na recolha de dados sobre vários nadadores que se tornaram campeões olímpicos e mundiais, de diferentes nacionalidades e diferentes períodos históricos, calculando as diferentes taxas de progressão em cada conjunto de características (idade, altura, peso, envergadura, etc…).

A esta base de dados aplicam-se vários modelos estatísticos, permitindo estimar precocemente nos nadadores que integram o programa, quais as distâncias e os estilos onde poderão progredir melhor.

O programa permite ainda estimar as performances que os nadadores devem obter em determinado período ou em determinada competição. De tal forma que McDonald já arrisca dizer hoje quem serão os nadadores canadianos bem-sucedidos nos Jogos de 2024!

Iain McDonald | Foto: Youtube

Chegamos a um ponto em que quem nos lê se pergunta porque não é aplicado um sistema similar à natação portuguesa, já que vivemos numa era em que a tecnologia está ao alcance de todos?

É que o segredo está mesmo nos números, não só nos matemáticos, como também nos económicos: cada nadador abrangido neste programa recebe 900 dólares por mês…um incentivo nada mal visto aos olhos de um adolescente de 15 anos.

É claro que este tipo de procedimentos levanta a velha discussão sobre a especialização precoce na natação. Os “prós” têm em Michael Phelps – que bateu o seu primeiro record mundial com 16 anos – o seu grande argumento. Os “contras” fazem uma lista infindável de nomes (grande parte chineses) que tão depressa apareceram como desapareceram da alta roda mundial.

Para nos tirar a prova dos nove…vêm aí as canadianas!


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