18 Nov, 2017

A caminho do Mundial: Resgate do orgulho Aussie

João BastosJunho 8, 201710min0

A caminho do Mundial: Resgate do orgulho Aussie

João BastosJunho 8, 201710min0

Com os Campeonatos do Mundo de Desportos Aquáticos à vista, o Fair Play elabora uma série de 10 artigos sobre os potenciais destaques em Julho, na Hungria. O sexto é sobre uma potência com o orgulho ferido: A Austrália

Na natação há duas potências clássicas: Os Estados Unidos da América e a Austrália. São os dois líderes do medalheiro olímpico da natação (os EUA muito à frente da Austrália), são os países com mais referências para todos os adeptos da modalidade a nível mundial e, pelo domínio das duas nações, foi criado o evento “Duel in the pool” em 2003 que opunha, exclusivamente, a selecção americana à selecção australiana.

Em 2007, e porque até aí os EUA tinham ganho todas as edições, a Austrália foi substituída pela Europa (são seleccionados os melhores nadadores europeus para compor a selecção). Ainda assim, os EUA permanecem invictos…

No caso da Austrália, não é preciso pensar muito para referir nomes que não são estranhos a ninguém: Ian Thorpe, Grant Hackett, Kieren Perkins, Dawn Fraser, Leisel Jones, Petria Thomas, Michael Klim, Lisbeth Lenton, entre outros grandes campeões que constam do Hall of Fame australiano.

Mesmo com o historial dos australianos, os Jogos do Rio eram apontados como a edição que podia ser a melhor de sempre e aquela em que os Aussie se poderiam impor de forma categórica aos americanos. Têm uma excelente geração de nadadores, os americanos apresentavam-se numa fase de reestruturação com vários pontos de interrogação (o regresso de Phelps, a forma de Lochte e Franklin e a ausência de Grevers) e o facto de nos mundiais que antecederam os Jogos – Kazan 2015 – as duas nações terem empatado no número de vitórias (7 para cada).

Mas o que aconteceu no Brasil ficou perto de se considerar um desastre para a Austrália – em contraponto com os melhores JO de sempre para os EUA. – “Apenas” três títulos na natação soube a muito pouco para os australianos. Foi melhor que Londres onde apenas conquistaram um ouro num total de 10 medalhas, mas os objectivos para o Rio eram muito mais ambiciosos.

E a forma como as vitórias não foram obtidas, de certo, mereceu uma reflexão por parte dos responsáveis pela natação australiana. Começaram muito bem com o ouro de Mack Horton nos 400 livres e o da estafeta feminina 4×100 livres, com direito a record mundial, mas foi evidente a quebra de toda a equipa durante a competição. Por exemplo, Cate Campbell fechou a estafeta no primeiro dia com 51.97 e nadou a final da prova individual, cinco dias depois, para 53.24.

Estafeta campeã olímpica da Austrália | Foto: Phil Hillyard

Até ao mundial de Budapeste, já deu tempo para os australianos lamberem as feridas e olharem para o evento como a competição ideal para resgatar o orgulho ferido. Para já sofreram dois fortes reveses com a notícia de que o campeão olímpico Kyle Chalmers não participará, na sequência da intervenção cirúrgica que fez ao coração e com a renúncia de Cate Campbell em participar nestes campeonatos. São duas contrariedades (a somar a Madeline Groves e James Magnussen) para as respectivas provas individuais e para as estafetas, mas argumentos não faltam aos australianos. Apresentamo-los de seguida:

Cameron McEvoy

Sucessor de uma linhagem de “pés frios” da Austrália na prova de 100 livres em Jogos Olímpicos. É que McEvoy chegou ao Rio como número 1 do mundo e ficou em 7º, nos Jogos de Londres era Magnussen o líder do ranking mundial e foi prata e em Pequim, Eamon Sullivan bateu o record do mundo na meia final mas terminou, também, na posição de prata.

Cameron McEvoy é actualmente o segundo melhor do ano a apenas 1 centésimo do britânico Duncan Scott e foi também o segundo nos mundiais de Kazan. Na cabeça do australiano só deve estar um pensamento: quebrar a malapata e ser, finalmente, primeiro!

Foto: Swimbiz

Mack Horton

O nadador de apenas 20 anos é a maior esperança da delegação australiana. Os responsáveis vêm nele o herdeiro natural de Thorpe e Hackett e depois de ter sido campeão olímpico dos 400 livres, a fasquia está mais alta.

Para estes mundiais, Horton tentará os títulos mundiais dos 200, 400 e 1500 livres. Um grande desafio, sobretudo tendo em conta o que os seus rivais já mostraram este ano: Sun Yang lidera confortavelmente o ranking das provas de 200 e 400 e Paltrinieri parece ser intocável nos 1500, mas Horton está na idade ideal para desafiar lógicas e estatutos.

Foto: Alex Coppel

Mitchell Larkin

O campeão do mundo em título dos 100 e 200 costas foi outra desilusão no Rio. Na prova mais curta não chegou ao pódio e nos 200 metros foi vice-campeão.

Em Budapeste tem uma tarefa espinhosa para renovar os seus títulos. Nos 100 metros vai encontrar o recordista mundial Ryan Murphy (EUA) e o líder mundial do ano Xu Jiayu (CHN) que já este ano ficou a apenas 1 centésimo do record do americano.

Nos 200 metros tem ainda de juntar o russo Evgeny Rylov ao lote dos candidatos. Ainda para mais, Larkin não impressionou nos trials australianos. Vai ter de puxar pelos galões para se tornar bi-campeão nas suas provas.

Foto: Clive Rose

Bronte Campbell

Certamente não será apologista do provérbio “há males que vêm por bem” no que concerne à ausência da sua irmã dos mundiais, mas era uma forte opositora às suas pretensões de renovar os títulos dos 50 e 100 livres.

Não há Cate Campbell, mas Bronte, quando subir ao bloco, vai voltar a olhar para o lado e vai continuar a ver numa touca amarela o seu maior obstáculo. Sarah Sjöström tem estado intransponível este ano e é a líder do ranking (e por larga margem) das duas provas favoritas da australiana.

Bronte tem mais adversárias de grande valor, como já enunciámos aqui, mas deverá ter melhores odds nas casas de apostas para renovar o bi-campeonato do que Larkin.

Foto: Zimbio

Emily Seebohm

Ainda fazendo referência a Mitch Larkin, Emily Seebohm é o seu equivalente no sector feminino. Tal como o companheiro de selecção, a australiana é a campeã mundial em título dos 100 e 200 costas, mas a sua participação nos Jogos Olímpicos ainda foi pior que a de Larkin.

Nos 100 costas foi 7ª classificada e nos 200 nem passou à final. A vantagem de Seebohm em relação a Larkin é que a ela “basta-lhe” estar ao seu melhor para voltar a ganhar. A não ser que Missy Franklin regresse aos seus tempos áureos – que parece improvável -, será a maior candidata nos 200 e nos 100 tem a canadiana Kylie Masse (líder mundial do ano) perfeitamente ao seu alcance.

Foto: Alex Coppel

Estafetas

As estafetas de 4×100 metros livres, quer masculina, quer feminina, quer (obviamente) mista são as provas onde os australianos são mais fortes, mas como já referimos, com as ausências de Chalmers, Magnussen e Cate Campbell, as equipas saem manifestamente enfraquecidas.

Em masculinos não parecem mesmo ter hipóteses de lutar pelo título. Para além de McEvoy, a equipa é mediana e inexperiente com Jack Cartwright, Zac Incerti e o último lugar disputado entre Louis Towsend, Alexander Graham e James Roberts.

Com equipas como EUA, Grã-Bretanha, Brasil e França (e mesmo Japão e Itália) a mostrarem-se fortes este ano, vai ser muito complicado à Austrália chegar sequer ao pódio.

Já em femininos a história é outra. A equipa é tão forte que mesmo sem a recordista mundial (Cate Campbell) continua a estar na linha da frente de favoritas. Bronte Campbell e Emma McKeon são as titulares. Brittany Elmslie, Madison Wilson e a estreante Shayna Jack vão lutar por duas vagas.

EUA, Holanda e Canadá (com Suécia à espreita) serão as maiores adversárias.

Nas estafetas mistas é sempre mais complicado fazer antevisões. Primeiramente porque nem todos os países decidem apostar nas provas. A Austrália há dois anos não participou e o mais provável é não participar também este ano. Com McEvoy, Cartwright, Campbell e McKeon podem chegar ao título, mas é uma equipa em linha com outras 6/7 equipas (EUA, Canadá, China, Holanda, França e Itália).

Para além dos nomes com cartel, a Austrália leva a estes campeonatos jovens que têm dado excelentes indicações, como a já citada Shayna Jack ou a super revelação Ariarne Titmus, que com apenas 16 anos, é actualmente a 3ª melhor do ano, quer nos 400, quer nos 800 livres, mas é dos consagrados que mais se espera e que, sobretudo, mais se exige.

Feitas as contas, em cima contabilizamos 11 possibilidades de vitória, mas os australianos já se “contentariam” com o mesmo número de Kazan (7). A linha que separa o sucesso e o fracasso da equipa é muito ténue. Os australianos não têm nadadores super dominantes como Katie Ledecky, Adam Peaty, Sarah Sjöström ou Katinka Hosszu e por isso as dúvidas são muitas.

A certeza é só uma: a Austrália vai a Budapeste para recuperar o orgulho Aussie. Cuidado com a super potência da natação!

*Este artigo é o sexto de uma série de 10 antevisões do mundial de Budapeste:
1º – Adam Peaty, a perfeita imperfeição
2º – O regresso da prova rainha (versão masculina)
3º – O regresso da prova rainha (versão feminina)

4º – Os donos da casa
5º – A oportunidade de Le Clos


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