18 Ago, 2017

A caminho do Mundial: O regresso da prova rainha (versão feminina)

João BastosMaio 8, 201714min0

A caminho do Mundial: O regresso da prova rainha (versão feminina)

João BastosMaio 8, 201714min0

Com os Campeonatos do Mundo de Desportos Aquáticos à vista, o Fair Play elabora uma série de 10 artigos sobre os potenciais destaques em Julho, na Hungria. O terceiro é a continuação do segundo: sobre os 100 metros livres, mas desta vez a versão feminina.

O terceiro artigo de antevisão dos mundiais de Budapeste tem o mesmo assunto do segundo, ou seja, a prova dos 100 metros livres, mas do lado feminino. E o que é facto é que se a prova masculina promete pela previsível afirmação de nomes que estão agora a abrir um novo capítulo na história da prova, que provavelmente se prolongará por muitos anos, a prova feminina já está noutro estádio, eventualmente ainda mais empolgante, com uma mescla entre nadadoras consagradas, recentes revelações e challengers à procura da sua confirmação.

OS ÍCONES

Seguiremos a mesma estrutura do artigo masculino, ou seja, começaremos pelas referências que deram bom nome à prova.

Dawn Fraser (Austrália)

Já falámos sobre a era dourada da natação australiana, protagonizada pela geração de 50. A história da natação australiana praticamente começa aí e produziu logo a mais bem sucedida nadadora (e desportista) Aussie que há memória.

No que respeita a nadadores australianos, Dawn só é superada em medalhas de ouro olímpicas pelo mito Ian Thorpe (cinco de Thorpe vs quatro de Fraser), com a diferença que no tempo em que Fraser nadou não constavam do calendário provas como os 200 livres (na qual bateu o record do mundo por 4 vezes) e os 4×200 metros livres (onde as australianas seriam as super favoritas). É verdade que Thorpe também não pôde ser campeão olímpico dos 800 livres, prova em que foi campeão e recordista do mundo, mas Fraser teve uma carreira de maior longevidade, participando em três Jogos Olímpicos, ao passo que Thorpe participou em dois.

Dawn Fraser tem outro record igualado. Ela e Krisztina Egerszegi são as únicas tri-campeãs olímpicas na mesma prova, no sector feminino. Mesmo considerando também o sector masculino, só Phelps as supera, em termos de títulos individuais.

Em termos de recordes do mundo, a australiana conseguiu o impressionante registo de melhorar por 11 vezes o record mundial dos 100 livres entre 1956 e 1964. A nona vez que o fez foi um marco na natação feminina pois, pela primeira vez, uma mulher nadou abaixo de um minuto: 59.9.

Estávamos no ano de 1962 e apenas dois anos depois, Dawn baixava dos 59, ao estabelecer a marca de 58.9. Foi nos trials australianos para os JO de Tokyo e foi o último record mundial que Fraser bateu na sua carreira.

Pódio dos 100 livres em Tokyo 1964 | Foto: Swimming World Magazine

Kornelia Ender (RDA)

Para muitos, será polémico colocar a nadadora da Alemanha de Leste nesta lista, uma vez que depois da queda do muro de Berlim foi assumido pelas autoridades alemãs que vários atletas da RDA tinham sido dopados, muitos sem terem conhecimento disso.

Mas se a FINA e o COI nunca retiraram a Ender os títulos e os recordes, também não vamos ser nós a fazê-lo.

E apesar das suspeições, a carreira de Kornelia foi marcante para a história da natação e, particularmente, para a história dos 100 livres.

Ela bateu pela primeira vez o record mundial da prova em 1973 e no espaço de 3 anos baixou-o 3 segundos, deixando-o em 55.65 nos Jogos Olímpicos de Montreal. No total foram 10 vezes que Ender estabeleceu a melhor marca de sempre nessa prova.

Montreal é um local que fica marcado na carreira de Ender. Foi na cidade canadiana que a alemã se notabilizou como a primeira nadadora a alcançar 4 medalhas de ouro na mesma edição dos Jogos Olímpicos.

Foi também a primeira campeã do mundo da prova, em Belgrado 1973 e a primeira bi-campeã do mundo, dois anos depois em Cali.

O que aqui contamos sobre Ender já é, por si só, impressionante, mas falta o pormenor que dá uma dimensão ainda maior à sua carreira: retirou-se das piscinas aos 18 anos! Estreou-se em JO no adverso território da Alemanha Ocidental (Munique 72) com apenas 13 anos, e logo obteve 3 medalhas de prata. Bateu o primeiro record do mundo quando foi campeã mundial – aos 14 anos – e atingiu o ponto alto da sua carreira aos 17 anos. A mancha do doping é irrevogável e ofusca a sensacional carreira deste cometa da natação. Ofusca, mas não apaga!

Foto: keikei.blogspot.pt

Inge de Bruijn (Holanda)

A Holanda tem uma tradição imensa nesta prova. De resto, na estafeta 4×100 metros livres femininos, só 6 nações conseguiram sagrar-se campeãs olímpicas e a Holanda foi uma delas.

No artigo dedicado aos homens já referenciamos Pieter van den Hoogenband e do lado feminino a maior referência, entre muitas referências femininas que a Holanda tem nesta prova, foi a sua companheira de equipa, Inge de Bruijn. Ambos foram treinados por Jacco Verhaeren no PSV Eindhoven.

Ambos ficaram conhecidos por traumatizar os australianos, quando foram aos JO de Sydney ganhar um total combinado de 5 provas, entre as quais os 100 livres masculinos e femininos.

Inge não teve uma carreira da dimensão de Fraser ou Ender, mas também porque teve o handicap de todos os seus 4 títulos olímpicos terem sido conquistados em provas individuais, quando as anteriores tinham equipas que lhes permitiram aumentar o palmarés em provas de estafeta.

Nos gloriosos Jogos Olímpicos de Sydney, para além do ouro nos 100 livres, bateu o record mundial na meia final.

No ano seguinte foi campeã do mundo em Fukuoka, onde mais uma vez, levou 3 ouros.

Para além dos 100 livres, era uma grande especialista de 50 livres, 50 e 100 mariposa e abriu caminho a várias nadadoras que, treinadas por Verhaeren, chegaram ao topo mundial, casos de Marleen Veldhuis, Inge Dekker e Ranomi Kromowidjojo.


AS RIVAIS

Shirley Babashoff (EUA) vs RDA

A americana Shirley Babashoff foi uma nadadora que por várias vezes conheceu o sabor amargo da prata e a carreira dela podia ter sido muito diferente, se não encontrasse pela frente várias nadadoras que se veio a provar que recorriam a substâncias potenciadoras do rendimento.

Babashoff foi uma das primeiras vozes que denunciou e chamou a atenção para a questão do doping no desporto.

Matthew de George no seu livro “Duels In The Pool” refere que os Jogos Olímpicos de Montreal 1976 deveriam ser os Jogos de Babashoff. Tinha sido vice-campeã olímpica dos 100 e 200 livres em Munique, com apenas 15 anos, e com a retirada da recordista mundial dos 200 livres (e 100 antes de Kornelia Ender), Shane Gould, a americana partia na linha da frente.

Mas assim não aconteceu. Shirley “chocou” durante a sua carreira com nadadoras como Kornelia Ender, Barbara Krause e Petra Thümer e nunca foi campeã olímpica ou mundial em provas individuais.

Coleccionou 6 medalhas de prata em Jogos Olímpicos e 7 em campeonatos do mundo. Durante os Jogos de Montreal’76 por diversas vezes se insurgiu contra a batota que a Alemanha Oriental praticava e foi apelidada de má perdedora.

A última prova desses JO foram os 4×100 metros livres femininos e Babashoff fechou a estafeta norte-americana levando os EUA a uma vitória que, mais tarde, se tornou num símbolo de luta contra a batota no desporto.

Muita gente só percebeu isso anos mais tarde, mas vendo a reacção de alegria misturada com revolta libertada de Shirley Babashoff, ela soube-o nessa mesma altura: ali mesmo ela tinha alcançado o seu lugar na História, uma história que não se escreveu de ouro, mas de algo muito maior.

Jodie Henry (Austrália) vs Lisbeth Trickett (Austrália)

Tal como no sector masculino, também no feminino a Austrália teve (e volta a ter) rivalidades internas. Esta era uma rivalidade cooperante e amiga, mas ainda assim uma rivalidade.

Jodie Henry e Lisbeth Trickett (ou Lisbeth Lenton, enquanto solteira) tiveram carreiras muito parecidas. Henry foi 3 vezes campeã olímpica, 5 vezes campeã mundial e 3 vezes recordista mundial. Trickett foi 4 vezes campeã olímpica, 7 vezes campeã mundial e estabeleceu 8 recordes mundiais.

O confronto máximo estava reservado para a final de Atenas em 2004, quando a prova prometia um dos melhores alinhamentos de sempre: tinha a campeã olímpica em título – Inge de Bruijn -, a recordista mundial – Lisbeth Lenton -, a segunda melhor do ano – Jodie Henry – e a campeoníssima dos 100 costas que vinha desafiar as especialistas de livres – Nathalie Coughlin.

Lenton teve um desempenho surpreendentemente mau na meia final e ficou fora da decisão. Henry, mesmo com adversárias de peso, não desperdiçou e sagrou-se campeã olímpica, com de Bruijn no lugar de prata e Coughlin com o bronze.

O confronto de australianas acabou por não se dar, mas nesses Jogos Olímpicos deu-se, sim, uma sinergia entre as duas para levarem a estafeta 4×100 livres com novo record do mundo. E muito se deveu ao trabalho das duas: Lenton fez o segundo percurso, entregando à frente, fazendo melhor que Coughlin que fez esse percurso pelos EUA. No terceiro percurso a Austrália deixou-se ultrapassar, mas veio Henry que recuperou o meio segundo de atraso e deu à Austrália um título que já fugia desde 1956.

Foto: Getty Images

O PONTO DE VIRAGEM

Ao contrário da prova masculina, no sector feminino não houve um ocaso provocado por um maior mediatismo de outras provas. Os 100 livres femininos sempre mantiveram grandes referências, como a alemã Britta Steffen, a grande velocista da era dos fatos de poliuretano, cujo record mundial só foi batido o ano passado (durou 7 anos).

É certo que nos 200 houve, nos últimos anos, grandes nadadoras como Laure Manaudou (França) e Federica Pellegrini (Itália), mas é na actualidade que a prova conta com a maior competitividade dos últimos anos com nadadoras como Katie Ledecky (EUA), Sarah Sjöström (Suécia) e ainda Pellegrini.

Ou seja, o desafio proposto às especialistas de 100 livres para Budapeste não é recuperar o rótulo de “prova rainha” mas sim mantê-lo.

Aqui no Fair Play prognosticamos que esse estatuto até sairá reforçado. Explicamos em seguida porquê.

AS NOVAS RAINHAS

Foto: Várias fontes

Basta somarmos o currículo das seis nadadoras da foto para explicarmos o nosso ponto: 10 títulos olímpicos e 13 títulos mundiais detidos por essas seis senhoras que previsivelmente se defrontarão em Budapeste.

Tal como no sector masculino, as representantes australianas estão no topo, mas o favoritismo é mais repartido entre as mulheres.

Cate Campbell | Austrália | 24 anos
É a recordista do mundo desde os trials australianos para os Jogos Olímpicos do ano passado. Assim como para a generalidade da comitiva australiana presente no Rio, os JO não lhe correram de feição, o que significa que verá os mundiais deste ano como uma oportunidade para provar que o desempenho em solo brasileiro foi apenas um percalço e confirmar-se como a melhor do mundo nos 100 livres.

Bronte Campbell | Austrália | 22 anos
A irmã mais nova de Bronte é a actual campeã do mundo. O ano passado chegou ao Rio com a segunda melhor marca do ano, apenas superada por Cate, mas tal como a irmã, na final olímpica ficou aquém do seu real potencial. Ficou em 4º, dois lugares acima de Cate. Na estafeta australiana foram ambas campeãs (com record do mundo) e dificilmente não o serão também em Budapeste.

Sarah Sjöström | Suécia | 23 anos
A julgar pela demonstração que a sueca já deu este ano, os mundiais húngaros poderão ser memoráveis para ela. É a líder mundial do ano em quatro provas, incluindo os 100 livres. Foi vice-campeã mundial da prova nas últimas duas edições (em 2013 atrás de Cate e em 2015 atrás de Bronte), e este ano deve vir com tudo para que à terceira seja de vez.

Penny Oleksiak | Canadá | 16 anos
Se tudo correr normalmente, não faltará muito para ser a dona absoluta desta prova. Para já, é “apenas” uma forte candidata a tornar-se campeã do mundo, depois de ter sido campeã olímpica o ano passado. Se no Rio foi a grande revelação surpreendendo as adversárias e o mundo, com 16 anos já entrará nas contas como uma candidata muito séria.

Simone Manuel | EUA | 20 anos
Foi também campeã olímpica da prova no Rio, empatando no primeiro lugar com a jovem canadiana. Simone tem operado uma evolução notável e já este ano mostrou-se em boa forma nos universitários americanos. Mesmo sendo campeã olímpica terá de se aplicar para se qualificar para os mundiais na exigente qualificativa americana, mas ultrapassada essa fase, Simone tem boas hipóteses de repetir o êxito do ano passado.

Ranomi Kromowidjojo | Holanda | 26 anos
Campeã olímpica de Londres (nos 50 e nos 100), campeã mundial dos 50 livres em 2013 e recordista do mundo dos 50 livres em piscina curta mas desde que Jacco Verhaeren foi do PSV para a selecção australiana, Ranomi tem trocado várias vezes de treinador sem que o sucesso seja o mesmo.
No Rio fez 5º lugar nos 100 livres e 6ª nos 50 livres, mas fez o seu melhor tempo desde 2012 aos 100. Já nos 50 esteve melhor nos europeus de Londres (Maio’2016) com um tempo que lhe daria o título olímpico. Poderão ser indicadores que a holandesa está de volta ao seu melhor. Se assim, temos candidata!

Com uma quantidade tão grande de nadadoras com hipótese de subir ao lugar mais alto do pódio, o acesso à final será bastante apertado. Dificilmente a campeã será alguém fora deste lote de seis, a não ser que venha a confirmar-se o que muitos adeptos da natação anseiam: Katie Ledecky (EUA, 20 anos) vir tentar ganhar também esta prova. Se isso acontecer teremos uma prova que vai merecer a atenção mediática ao nível de uns 200 estilos quando opunha Phelps a Lochte.

Atenção ainda à surpreendente campeã olímpica dos 50 livres, Pernille Blume (Dinamarca, 22 anos) que quererá voltar a surpreender, à jovem Rikako Ikee (Japão, 16 anos) que era a recordista mundial júnior, antes de Oleksiak lhe ter “roubado” o record, a Michelle Coleman (Suécia, 23 anos) que tudo fará para sair da sombra de Sjöström e a Femke Heemskerk (Holanda, 29 anos) que tem a 4ª melhor marca pessoal entre todas as citadas, mas costuma sofrer um bloqueio quando nada fora da Holanda. Veremos se ultrapassa esse estigma em Budapeste.

*Este artigo é o terceiro de uma série de 10 antevisões do mundial de Budapeste:
1º – Adam Peaty, a perfeita imperfeição
2º – A caminho do Mundial: O regresso da prova rainha (versão masculina)


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