18 Fev, 2018

[Aqua Moments] Recordes de borracha

João BastosNovembro 12, 20177min0

[Aqua Moments] Recordes de borracha

João BastosNovembro 12, 20177min0
A Web Summit serviu de pretexto para recuarmos até à altura em que a tecnologia tomou conta da natação, concretamente nos anos 2008 e 2009

O Fair Play continua a sua série de artigos que recordarão momentos históricos da natação. O Aqua Moments olhará para o retrovisor e reviverá marcos incontornáveis da história da modalidade


Os leitores mais atentos já devem reparado que os últimos artigos no âmbito desta rubrica têm como argumento inicial algum acontecimento da actualidade. A auto-determinação independentista da Catalunha fez-nos recordar Krisztina Egerszegi e os 100 anos da revolução russa serviu-nos de pretexto para recuperar a carreira de Vladimir Salnikov.

Dado que a Web Summit foi o acontecimento na ordem do dia, todos os dias da passada semana, e uma vez que na lista de ilustres residentes do Panteão Nacional ainda não consta nenhum nadador, falaremos sobre os efeitos da tecnologia na natação e o que restou dela quando, dois anos depois, foi abandonada.

Olharemos para o período dos fatos de poliuretano.

Pequim 2008

Os Jogos disputados na capital chinesa foram um verdadeiro cocktail de atractivos mediáticos. Disputavam-se no país mais populoso do mundo, seriam palco da tentativa de Michael Phelps se tornar no desportista mais titulado e mais medalhado numa só edição dos Jogos Olímpicos e a juntar a isto ainda havia a perspectiva de caírem mais recordes na piscina do que as provas que se iam nadar, graças à introdução dos fatos de borracha.

Na verdade o poliuretano é mais como uma espuma inflada de um gás que promove a flutuação.

Em Pequim todos os participantes usaram fatos revestidos com pequenas placas deste material, sendo particularmente famoso o modelo LZR da Speedo, desenvolvido em parceria entre a NASA e o Instituto Australiano do Desporto. Foi observado que este fato dava ao nadador uma maior eficiência de nado, melhorando os seus tempos em 2%, face aos fatos normais.

O resultado foram 23 recordes mundiais quebrados e 65 recordes olímpicos.

Com os fatos apareceu uma geração de nadadores que com eles desapareceu e da qual eram figuras de proa nadadores como Alain Bernard e Britta Steffen, nadadores que foram campeões olímpicos em Pequim, recordistas mundiais e que após a proibição dos fatos nunca mais obtiveram o mesmo nível de sucesso (Bernard ainda foi bronze aos 50 livres nos Mundiais de 2011, mas Steffen nunca mais atingiu uma final de uma grande competição).

Na altura a expressão “doping tecnológico” dominou as discussões sobre natação, mas a FINA considerou que estava presente um fenómeno evolutivo natural das circunstâncias dos tempos.

Mudou de ideias um ano depois…

Repare no que aconteceu à linha no record do mundo naquela que foi apelidada da melhor prova de sempre:

Roma 2009

Depois do louco torneio olímpico de Pequim, onde caíram recordes do mundo nas eliminatórias, vieram os ainda mais loucos mundiais de Roma no ano de 2009.

Com seria de esperar, outras marcas desenvolveram produtos competitivos com o LZR, o que significa dizer que foram mais longe na incorporação de material flutuante nos fatos.

Por esta altura já a FINA ponderava colocar limites na utilização de alta tecnologia no equipamento utilizado pelos nadadores e esteve muito perto de os implementar antes dos Mundiais, mas uma série de eventos, como o processo legal que a TYR moveu ao órgão regulador da natação mundial, levou a que os mundiais decorressem com bar aberto no que respeita à utilização de fatos.

Em Roma foi o modelo X-Glyde da Arena o grande atractivo do evento, particularmente aquele que vestiu Paul Biedermann, como aqui já relatamos.

No total foram 43 recordes mundiais batidos no Foro Italico num total de 40 provas nadadas.

Foto: AP

A volta atrás

A completa descaracterização competitiva da natação levou a que a FINA voltasse atrás na permissão da utilização de fatos, quer de poliuretano, quer de neoprene. E o recuo foi completo. A partir do dia 1 de Janeiro de 2010, nadadores masculinos passaram a ser autorizados a utilizar apenas calções até ao joelho e nadadoras fatos com calções até ao joelho, algo que não se via nas piscinas desde os Jogos Olímpicos de Sydney 2000.

Este recuo drástico chamou à agenda uma nova discussão: quantos anos iria estar a natação estagnada até apagar os recordes de borracha?

A resposta foi dada no dia 31 de Julho de 2011 quando caiu um record mundial que…tinha resistido aos fatos. Foi o máximo dos 1500 metros livres de Grant Hackett que perdurou exactamente 10 anos e 2 dias. Sun Yang foi o primeiro a quebrar um record mundial na era pós-fatos com os seus 14:34.14 estabelecidos nos mundiais de Shanghai 2011, abrindo a caixa de pandora para os recordes que viriam – em piscina longa. Em piscina curta houve recordes mundiais batidos logo em 2010.

De 2009 ainda resistem os seguintes recordes:

  • 50 metros livres M (PL): César Cielo – 20.91
  • 100 metros livres M (PL): César Cielo – 46.91
  • 200 metros livres M (PL): Paul Biedermann – 1:42.00
  • 400 metros livres M (PL): Paul Biedermann – 3:40.07
  • 800 metros livres M (PL): Lin Zhang – 7:32.12
  • 50 metros costas M (PL): Liam Tancock – 24.04
  • 200 metros costas M (PL): Aaron Peirsol – 1:51.92
  • 50 metros mariposa M (PL): Rafael Muñoz – 22.43
  • 100 metros mariposa M (PL): Michael Phelps – 49.82
  • 200 metros mariposa M (PL): Michael Phelps – 1:51.51
  • 400 metros estilos M (PL): Michael Phelps – 4:03.84
  • 4×100 metros livres masculinos M (PL): EUA – 3:08.24
  • 4×200 metros livres masculinos M (PL): EUA – 6:58.55
  • 4×100 metros estilos masculinos M (PL): EUA – 3:27.28
  • 200 metros livres F (PL): Federica Pellegrini – 1:52.98
  • 50 metros costas F (PL): Jing Zhao – 27.06
  • 200 metros mariposa F (PL): Zige Liu – 2:01.81
  • 4×200 metros livres femininos (PL): China – 7:42.08
  • 100 metros livres M (PC): Amaury Leveaux – 44.94
  • 200 metros livres M (PC): Paul Biedermann – 1:39.37
  • 800 metros livres M (PC): Grant Hackett – 7:23.42
  • 50 metros bruços M (PC): Cameron van der Burgh – 25.25
  • 100 metros bruços M (PC): Cameron van der Burgh – 55.61
  • 50 metros mariposa M (PC): Steffen Deibler – 21.80
  • 4×100 metros livres masculinos M (PC): EUA – 3:03.30
  • 4×100 metros estilos masculinos M (PC): EUA – 3:19.16
  • 200 metros bruços F (PC): Rebecca Soni – 2:14.57
  • 50 metros mariposa F (PC): Therese Alshammar – 24.38
  • 4×50 metros livres F (PC): 1:33.25
  • 4×50 metros estilos F (PC): 1:42.69

Ainda subsistem 30 recordes dos 92 actualmente em vigor, ou seja, 1/3 dos máximos mundiais ainda reportam à era da borracha, mas os outros 2/3 não demoraram tanto tempo a cair como se julgava. Nesse particular o sector feminino está a evoluir a um ritmo mais acelerado, já que das 30 marcas imbatíveis, apenas 8 são no sector feminino.

Mais cedo ou mais tarde esta lista de 30 marcas será renovada, assim como se renovou a natação nesta segunda década do século XXI, evidenciando-se que a evolução natural nesta modalidade se dá sem necessidade de introdução de nova tecnologia para além daquela de que já se serve.

Uma coisa é certa: a era da borracha ficou definitivamente para trás.


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