25 Set, 2017

Filho, desculpa por teres nascido em Dezembro

Fair PlayAbril 7, 201731min0

Filho, desculpa por teres nascido em Dezembro

Fair PlayAbril 7, 201731min0

Depois de muitos anos a acompanhar a natação, múltiplas situações se repetem, algumas das quais inspiraram a reflexão que se segue. Todo este trabalho surge na sequência de vários desabafos ouvidos em ambiente competitivo, quer por parte de nadadores, quer do público e famílias, como pequenas peças de um puzzle, que juntas, remetiam frequentemente para o mesmo “problema“.

(Artigo da autoria de João Gomes)

Questões do tipo “pai, reparaste que, com o tempo que fiz, se tivesse nascido uma semana depois, seria recordista nacional na minha idade?”, “Reparem no físico e maturidade do nadador da pista 1 e comparem com o da pista 2. São da mesma idade?”, “O António era tão bom e já não faz natação. Porquê?”.

Estas e tantas outras questões constituíam a “ponta de um iceberg” que era preciso conhecer melhor.

A principal motivação para a realização deste trabalho é conhecer melhor “o iceberg” e tentar perceber se existe mesmo um “problema” e em caso afirmativo como seria possível minorá-lo.

Será a forma de constituição dos escalões o problema? Será a época desportiva necessária? Qual a metodologia de trabalho para se estudar a situação? Que tipologias de dados estão disponíveis? Como agrupar os dados? Faz sentido a utilização dos recordes nacionais? É possível outro agrupamento, que não se baseie no ano de nascimento? O mês de nascimento condiciona o conseguir ou não bater o recorde? Faz sentido que alguém que nasça depois de julho nunca nade no grupo etário a que pertence? Ou seja, se nascer depois de agosto, com 12 anos, ou nada no escalão 13 ou 14. Que informações se podem retirar das questões supra que sejam relevantes para o objetivo proposto inicialmente?

Se o presente trabalho conseguir responder a algumas destas perguntas, cumprirá o seu propósito.

Efetivação do trabalho

O facto de ser estatístico e ter alunos vocacionados para analisar dados levou-me a recorrer ao “case study” para propor um trabalho que associasse a componente pedagógica à componente prática. Os alunos, na sua generalidade, corresponderam tendo contribuído em alguns pontos com sugestões e cálculos estatísticos.

Já há algum tempo que refletia sobre estes problemas, mas ainda não tinha encontrado nem o “caminho” nem o “timing”. A motivação foi, para além de contribuir para a comunidade, incentivar os meus alunos a estudarem problemas reais em tempo útil.

Metodologia

A reflexão sobre os recordes nacionais (RN) tornou-se o caminho mais profícuo por ser o mais simples do ponto de vista de recolha de informação e simultaneamente ser o topo da pirâmide e, portanto, com menos dados para analisar, e ao mesmo tempo ser o reflexo do “todo”.

Começaremos por analisar os RN do ponto de vista de mês de nascimento dos nadadores. Será que é possível afirmar que o mês de nascimento é um fator importante para se ser recordista?

Seguidamente iremos simular uma alternativa: se os recordes fossem calculados por idade à data do nascimento isso teria reflexos positivos abrangendo melhores e mais nadadores?

Posteriormente efetuar-se-á uma análise comparativa dos resultados obtidos com as duas metodologias: a existente e a proposta.

Finalmente apresentaremos uma síntese com os principais resultados, assim como algumas sugestões.

Todo o processo foi desenvolvido, recorrendo não só aos dados obtidos e respetiva análise, mas falando sempre com pessoas –  nadadores, ex-nadadores, treinadores, pais – tentando perceber alguns factos que os dados podem não revelar ou “escondem” e visando percecionar opiniões de quem é protagonista, vive e sente o tema abordado.

OS RECORDES NACIONAIS E OS ESCALÕES

Dados analisados e conceito escalão FPN

Quando um nadador, ou nadadora, faz melhor tempo do que um recorde nacional e preenche os requisitos necessários à sua homologação diz-se que “bate” um recorde nacional. Os recordes nacionais estão categorizados com base no escalão, no género, no estilo e na distância. Em resumo, um(a) nadador(a) é recordista nacional quando faz um tempo (homologado) inferior ao registado nesta tabela, no seu escalão.

Irei focar-me nos recordes nacionais individuais nas 13 provas olímpicas, mais os 800 livres, em piscina.

Os escalões são calculados com base no ano de nascimento e na época desportiva que, no caso da natação, começa em setembro e acaba em finais de julho.

Na tabela seguinte constam os escalões desde infantil B (11, 12 ou 13 anos nos rapazes e 10, 11 ou 12 anos nas raparigas) até ao escalão sénior (18, 19 ou mais, nos rapazes e 17, 18 ou mais, nas raparigas).

Na época de 2016/2017 temos, na natação (com recordes nacionais atribuídos) os seguintes escalões (Sim, natação, porque noutro desporto os escalões já são diferentes!):

Fonte: FPN

Sexo: Masculino e Feminino (M e F)

Estilos e distâncias(m): Livres (Liv) (50, 100, 200, 400, 800 e 1500), Bruços (Bru), Costas (Cos) e Mariposa (Mar) (100 e 200) e Estilos (Est) (200 e 400).

Na nossa base de dados além desta informação temos o tempo registado na prova, o nome do(a) nadador(a), a data da prova e a data de nascimento, permitindo, assim, calcular a idade do nadador na data da prova.

Resultados e inferência estatística

Recordes nacionais

Vejamos a distribuição dos 392 recordes em relação ao mês de nascimento dos nadadores recordistas:

Figura 1: Número de recordes, por mês de nascimento dos nadadores, em janeiro de 2017.

Como se pode constatar os RN incidem principalmente sobre nadadores (as) nascidos até julho (1.54 recordes/dia) no período janeiro-julho contra 0.44 recordes/dia no período agosto-dezembro o que representa 3.5 vezes mais recordes/dia no período janeiro-julho!!!)

Figura 2: Número de recordes por dia nos períodos jan-jul vs ago-dez

Do ponto de vista estatístico, como os recordes nacionais são muito influenciados pelos nadadores “repetentes”, isto é, nadadores recordistas com mais do que um recorde, façamos agora uma abordagem mais estatística com base no número de nadadores recordistas.

Fazer inferência significa  afirmar e associar uma probabilidade de errar a essa afirmação (“p-value“)

Recordistas nacionais

Dos 392 recordes temos 94 recordistas nacionais o que dá apenas 24% de recordistas relativamente ao número de recordes.

Com base nos 94 recordistas e no respetivo mês de nascimento, pode lançar-se a seguinte questão: “Haverá mais propensão para os recordistas nascerem na 1.ª metade do ano?”

Figura 3: Percentagens de recordistas por semestre de nascimento

Do ponto de vista estatístico, se houvesse equilíbrio entre os semestres, a probabilidade de um recordista nascer no 1.º semestre seria de 0.5. No entanto, pode afirmar-se que a probabilidade de ser recordista nacional no 1.º semestre é superior a 0.5 (p-val<10-3) (p-value é a probabilidade de errar ao fazer a afirmação).

Será que a assimetria é mais acentuada nos escalões mais jovens?

Dos 392 recordes irei agora analisar os recordistas por escalão e semestre de nascimento fazendo um teste semelhante ao anterior.

Recordistas nacionais por escalões

Para ficarmos com uma ideia, vejamos o gráfico seguinte:

Figura 4: Recordistas nacionais por escalões FPN

Nos escalões de infantis existem 48 recordistas nacionais individuais nascidos no 1º semestre para 4 nascidos no 2º!!!!!

Será a assimetria até agora observada suficiente para se poder afirmar que, sem erro significativo, o semestre de nascimento influencia a probabilidade de alguém ser recordista nacional, com dados separados por escalonamento?

De outra forma, escolhido ao acaso um recordista nacional, poder-se-á afirmar que a probabilidade dele (dela) ter nascido no 1º semestre é maior do que a probabilidade de ter nascido no 2º? (Estamos a supor que a população cuja amostra são os dados disponíveis, inclui todos os antigos, atuais e futuros recordistas nacionais, mantendo as condições idênticas à situação atual).

Nesta situação temos uma amostra de 169 nadadores dos quais, 125 nasceram no 1º semestre o que dá um rácio de quase 3 para 1! Mais uma vez com um p-value de aproximadamente 10-3 pode afirmar-se: “Os recordistas nacionais têm maior probabilidade de nascer no 1.º semestre!”

No próximo tópico iremos desenvolver uma simulação usando uma alternativa ao atual método de cálculo dos rankings e recordes.

OS RECORDES “MATEMÁTICA APLICADA DE CIÊNCIAS”

Dados analisados e conceito de escalão MAC

Através do swimrankings tivemos acesso a informação relativa às épocas 2008/2009 até 2016/2017. Desta informação foi possível extrair 8 anos completos de resultados da natação portuguesa (os cinquenta melhores do ranking anual atribuído através do sistema escalão FPN – e swimrankings – , 2009-2016, correspondendo a 222474 resultados, para todos os escalões, estilos e distâncias em piscina curta e longa).

A partir desta base de dados foi possível simular o que aconteceria caso os recordes nacionais (pensando que o registo de tempos começou em janeiro de 2009) fossem calculados com base na idade do nadador à data da prova. Dos 222474 registos obtiveram-se 392 recordes MAC (INF, JUV e JUN (A e B) mais o escalão SEN≈ABS).

Para que se possa unir os dois sexos utiliza-se o termo escalão, embora este termo, aqui, signifique apenas a idade à data da prova.

A análise dos designados recordes MAC:

Simulação dos resultados MAC

Nesta abordagem considera-se que um nadador é recordista MAC se fizer o melhor tempo entre todos os nadadores com a mesma idade (em anos completos) à data da prova.

Recordes MAC

Considere-se novamente a paridade entre “jan-jul” e “ago-dez” (apenas para replicar a análise dos RN) como base nos recordes/dia MAC:

Figura 5: Número de recordes/dia nos períodos jan-jul vs ago-dez (versão MAC)

Apesar do número de recordes/dia ser, tal como nos RN, maior no 1º período a paridade é muito diferente (passou de 3.5 para 1.15)

Recordistas MAC

Replique-se a análise por semestre de nascimento, mas agora apenas com os nadadores recordistas MAC:

Figura 6: Percentagens de recordistas MAC por semestre de nascimento

Temos 30% de recordistas (118) entre os 392 recordes contra os 24% nos RN! Além disso, pela 1.ª vez, temos mais recordistas no 2.º semestre do que no 1.º. Mas será que a diferença é estatisticamente significativa?

A probabilidade de errar ao afirmar que as proporções entre o 1.º semestre e o 2.º semestre são diferentes seria muito elevada (p-val=0.865). Nestas condições, o estatístico tem por hábito dizer que não há razão para duvidar da igualdade de proporções entre o 1.º e o 2.º semestre.

Recordistas MAC separados por escalões

Finalmente, tal como se fez nos recordes nacionais, analise-se os recordistas MAC levando em conta os escalões e o semestre de nascimento:

Figura 7: Recordistas MAC por escalões

Como se vê, o comportamento por escalão é muito diferente do que acontece nos RN – Há uma distribuição muito mais equilibrada além de haver mais recordistas (192 contra 167 RN)!

Se olharmos com mais atenção para o gráfico, nos nadadores mais novos (infantis e juvenis B), os recordistas MAC nascidos no 2.º semestre são em maior número (55 contra 36). A explicação mais plausível é que nos infantis e nos juvenis B, os nadadores nascidos no 2º semestre, quando colocados em situação de igualdade, são melhores do que os do 1º semestre – os que eram iguais ou piores não conseguiram entrar nos rankings; o número de registo de nadadores nascidos no 1º semestre é muito maior do que os nascidos no 2º (65% contra 35% até aos 14 anos)!

Síntese dos resultados MAC

Os recordes MAC aparecem distribuídos de forma relativamente equitativa por todos os meses, o número de recordistas aumentou, a dispersão por meses é maior, como se comprova pelo valor obtido no respetivo desvio padrão (3.25 contra 2.95 dos recordistas nacionais) a distribuição por escalões é muito mais equilibrada e principalmente a média do mês de nascimento passou de 4.7 (meados de abril) para 6.63 (meados de junho).

CONSIDERAÇÕES

As consequências dos escalões FPN

Como ponto de partida pode afirmar-se: “Os rapazes e raparigas que nascem depois de julho nunca competem no seu escalão etário. Competem SEMPRE no escalão acima!” Mais, os rapazes e raparigas de dezembro fazem 1/3 da época (Set-dez) num escalão dois degraus acima. Por exemplo se tiverem 11 anos estão desde o início da época até ao final de dezembro a competir no escalão 13! Este facto tem uma série de consequências que passarei a enumerar.

Recordes concentrados em menos recordistas

Como é que um nadador nascido em novembro ou dezembro, com 12 anos, pode fazer um tempo interessante quando está a ser analisado na perspetiva dos 14? Ao reduzirmos o número de meses em que é provável haver recordistas nacionais, estamos não só a diminuir o número de recordistas como também a valia desses recordes! Por isso, em janeiro de 2017 havia apenas 94 recordistas para 392 RN!

Recordes nacionais que não são recordes!

Este parágrafo, para quem ainda não estiver convencido sobre a ineficiência e injustiça deste processo de escalonamento, pode ser o ponto de viragem!

Na verdade, com esta “fórmula” para calcular os rankings, chegámos ao absurdo de duas pessoas do mesmo sexo, com o mesmo número dias de vida estarem em escalões diferentes e por isso não poderem ser comparáveis apenas porque uma nasceu no início do ano e outra no final ou porque uma fez a prova em março e outra em dezembro.

Vejamos um caso paradigmático:

Olhemos para o RN dos 800 m livres em piscina curta: Rui Filipe Costa fez 8:09.43 em maio de 2007; à data do RN tinha 16 anos feitos há 3 meses. Entretanto, José Paulo Lopes fez em dezembro de 2016, 8:08.84. Tinha, à data da prova, também 16 anos mas menos 7 dias de vida que o Rui. Foi RN? Não, porque como foi realizado em dezembro e, portanto, digamos, já na época seguinte, conta como se o José Paulo já tivesse 17 anos!

Esta situação é única? É exceção? Obviamente que não!

Vejamos aqui em tabela com mais alguns exemplos de RN com alternativas com melhores tempos e ainda um pouco mais novos apesar de estarem exatamente no mesmo ano de idade!

Aqui interessa realçar que só nos estamos a referir aos recordes nacionais, mas o problema estende-se a milhares de nadadores com rankings distorcidos pela forma como são definidos os escalões ou, pelo menos, como são referenciados os tempos!

Recordes nacionais com grandes assimetrias nos escalões dos mais novos

Se olharmos para a Figura 4, nos escalões infantil e juvenil a diferença entre o número de recordistas do 1º e do 2º semestre é tão grande que não deixa dúvidas que este desequilíbrio apenas é o reflexo das grandes diferenças existentes em toda a pirâmide entre os resultados dos nadadores do 1º semestre e os do 2º; estas diferenças irão levar ao longo deste percurso de 4 anos a uma grande desmotivação e consequente abandono de muitos nadadores apenas pelo facto de terem nascido no 2º semestre. Para confirmar esta teoria fomos analisar com mais pormenor todos os registos disponíveis:

A diferença do número de registos entre o 1º e o 2º semestre

Dos 222474 registos da nossa base de dados (construída com base nos 50 melhores tempos por ano, por género, por escalão e por prova), 60% são de nadadores nascidos no 1º semestre (134 576 registos do 1º semestre contra 87 898 registos do 2º) – uma diferença de quase 50 000 registos!).

Essa diferença mantém-se elevada mesmo nos escalões mais avançados, onde já não se põe o problema de diferenças por causa do mês de nascimento, consequência do maior abandono de nadadores do 2º semestre.

Registos nos rankings em 8 anos

Colocámos os registos existentes na base de dados 2009-2016, numa tabela, por idade e mês de nascimento:

Tabela 1: Números de registos em toda a base de dados por idade e mês de nascimento

A razão entre o número de registos de nadadores nascidos no 2.º e no 1.º semestre é muito baixa principalmente nos nadadores mais jovens (≈35%). Com o aumento da idade essa razão vai paulatinamente aumentando até aos 45%, nos seniores, nunca chegando, contudo, próximo dos 50%. A diferença nos seniores evidencia por si só um abandono prematuro dos nadadores do 2º semestre. Porque é que a diferença vai diminuindo para os mais velhos? Sugiro duas razões: porque o mês de nascimento passa a ser um fator menos relevante com a idade e por irem desistindo muitos nadadores do 1º semestre sem apetência para a natação de competição (os nascidos no início do ano) cuja permanência inicial era permitida pelo “filtro demasiado largo”.

Vejamos o próximo parágrafo onde se substitui a perspetiva de análise por registo, pela de nadador:

Os nadadores nos rankings em 8 anos

No parágrafo anterior analisámos os registos e neste iremos analisar os nadadores (uma contagem por ano para cada nadador). O seguinte gráfico apresenta todos os nadadores registados por idade e mês de nascimento:

Figura 8: Nadadores registados por idade e mês de nascimento

Como se pode observar, nas idades mais jovens, existe uma grande preponderância para nadadores nascidos nos 1.ºs meses do ano. Obviamente que esta assimetria é, de todo, inconveniente; os nadadores jovens (11, 12, 13,…) nascidos no final do ano, ao serem afastados dos rankings são, também, precocemente afastados da natação de competição por sentirem que não são “destinados” para este desporto. Por outro lado, os que nascem no início do ano, são incentivados a continuar mesmo sem apetência para a natação de competição.

Este problema poderá ser agora avaliado ainda por outra perspetiva  – a dos nadadores jovens (infantis) que atingem o campeonato nacional.

Os TAC (Tempo de Admissão aos Campeonatos) para o nacional de infantis

A participação no campeonato nacional (cn) de infantis pode ser considerada o momento mais importante da carreira de um jovem nadador. A não participação neste torneio que, normalmente, implica deslocação em equipa para fora da zona de residência, deixa o nadador, e a sua família, fora dos momentos de maior convívio e partilha de toda a época. Por isso, atingir os “TAC” para os nacionais é um elemento de enorme motivação para o presente e para o futuro e, para a maior parte, o objetivo da época.

Com base nos dados disponíveis (2009-2016) foi possível ter uma ideia da distribuição dos TAC pelo mês de nascimento dos nadadores (excluindo os que não obtiveram pelo menos um tempo para ranking pessoal nesses nacionais – temos, portanto, uma amostra significativa):

Figura 9: Número de nadadores por ano nos cn de infantis num total de 2745

Como vemos, houve um aumento significativo do número de nadadores em 2016, o que é louvável e revela um esforço no sentido de proporcionar a mais rapazes e raparigas a oportunidade de participar no campeonato nacional.

Vejamos agora a distribuição, dos 2745 nadadores dos 8 campeonatos nacionais analisados, por mês de nascimento:

Figura 10: Número de nadadores por mês de nascimento nos cn num total de 2745

Como se vê o mês de nascimento influencia de forma significativa a participação no campeonato nacional de infantis (66% são nadadores nascidos no 1º semestre). Em cada 3 nadadores, 2 nascem no 1º semestre!

Dada a vantagem competitiva dos nadadores nascidos na 1ª parte do ano é natural que não sejam, apenas, mais nadadores como também, cada um deles, nade mais provas. Vejamos, então, agora as provas realizadas por esses 2745 nadadores e que constam dos rankings nacionais entre 2009 e 2016.

Figura 11: Número de provas por mês de nascimento nos cn (7850 registos)

No total de 7850 registos em 8 campeonatos nacionais infantis (2009-2016), cerca de 70% são de nadadores nascidos no 1º semestre! Isto significa, “grosso-modo”, que, no campeonato nacional de infantis, em cada série realizada, 7 pistas estão “reservadas” para nadadores do 1º semestre e 3 para nadadores do 2º!

Seguidamente aborda-se um tema que não é consensual no mundo da natação: “a paridade na idade entre rapazes e raparigas na natação de competição”.

A diferença entre géneros

Pergunta-se muitas vezes: “Qual a razão para as meninas começarem a natação de competição mais cedo do que os meninos? Algumas pessoas dizem que as raparigas são mais precoces e, portanto, essa medida tornaria os grupos mais homogéneos.

Testei se esta razão levaria a uma diferença negativa entre os recordes nacionais masculinos e femininos prova a prova utilizando paridade de género. Além disso comparei os resultados obtidos entre os dois métodos – não deixam dúvidas que o método unissexo não tem resultados negativos e mais, em todos os escalões, os resultados estão mais próximos entre rapazes e raparigas no caso “paridade” do que no caso “gap 1 ano”.

Figura 12: Diferença, em segundos, entre a soma dos recordes nacionais masculinos e femininos por escalão e por idade

Pode reparar-se que as diferenças, quando existe paridade, são menores do que as diferenças no “gap 1 ano”. Portanto, relativamente à razão da maturidade, não se observa, no caso português e no período em análise, que essa homogeneidade seja posta em causa pela paridade.

Outros países

O que se faz noutros países? Na Europa continua a predominar o ano de nascimento como base de escalonamento, mas nos países onde a natação assume destaque em termos de resultados, a idade à data da prova é que define o escalão já há muito tempo.

Nos países com resultados de relevo na natação, os rankings e os recordes são baseados na idade à data da prova (EUA, Canadá, Austrália, e Japão, por exemplo). No entanto, ainda há muitos países que utilizam o ano de nascimento como base de escalonamento como Portugal, Espanha, França, Itália, Polónia, Suíça, Brasil, entre outros.

Analisemos agora, mais em pormenor, alguns desses países.

Canadá

No Canadá está instituído o sistema de rankings por idade à data da prova (https://swimming.ca/en/rankings/) construído com um software (https://registration.swimming.ca/powerranking.aspx) que veio substituir o software utilizado por Portugal (“Not all features are currently implemented. Visit the old rankings system to access missing features”).

Austrália

Na Austrália os rankings são iguais para rapazes e raparigas e são formados com base na idade à data da prova existindo as seguintes categorias: (<=13, 14, 15, 16, 17 e 18 anos).

“Swimming NSW is constantly updating all of it’s records including NSW and NSW All Comers Records as well as Metropolitan & Country Records.

To simplify the acknowledgment of records, the Board of Swimming NSW has decided that there will be one record for each of the following age groups for each stroke and distance. The age groups are 10 & under, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18 Years and Open.

This means for swimmers that regardless of the event age group they are swimming in, they are able to break their own age group record as well as the Open record”.

EUA

Nos EUA, e de uma forma geral, existem os seguintes escalões: <=10, 11-12, 13-14, 15-16, 17-18 e os respetivos rankings nacionais (incluindo os recordes). Também aqui os escalões são iguais para rapazes e raparigas.

Brasil

Os nossos irmãos brasileiros, estão tal como nós, ainda na era do “ano de nascimento” embora tenham um problema menos grave porque a época deles começa no início do ano e, portanto, não existem nadadores com dois anos de diferença entre a idade real e o escalão. No entanto tentando consultar o site da natação brasileira (https://www.swim.com.br/index.php?) ficamos a perceber que também por ali é impossível saber qual é a idade real do nadador à data da prova. No que respeita aos recordes o problema ainda é mais grave porque nesse caso precisamos de ser conhecedores da realidade brasileira para perceber o que é um pré-mirim, mirim, petiz,… num total de 17 escalões, uma vez que existe uma terminologia diferenciada.

Espanha

Em Espanha, apesar de utilizarem um software próprio, o tipo de escalonamento é também pelo ano de nascimento e os escalões são formados, com um “gap” de um ano entre rapazes e raparigas. Tal como nós, registam o problema adicional de terem a época desportiva com início em setembro e, portanto, um nadador que tenha nascido no período agosto-dezembro nunca nadará no seu verdadeiro grupo etário.

Tabela resumo

Apresentaremos em seguida uma tabela resumo mostrando uma gama alargada de países e os respetivos escalões embora, como vimos, alguns países utilizem o ano de nascimento enquanto outros utilizam a idade à data da prova.

Tabela 2: Tabela sintetizando o escalonamento nalguns países

Com base no trabalho efetuado e no que observámos noutros países, no próximo passo, tomaremos a liberdade de propor um escalonamento.

Sugestão para um escalonamento (mais) justo e equilibrado

Os dois trabalhos que focam a sistematização competitiva dos “age-groups” apontam para deficiências no escalonamento por grupos etários alargados, utilizado, por exemplo, nos EUA; já não se fala sequer no problema adicional do escalonamento utilizado em Portugal, Espanha, Polónia, Suíça, etc. coadjuvado pelo já citado “splash software” com base no swimrankings. Assim, de acordo com as recomendações desses trabalhos passaremos a sugerir os seguintes critérios, por ordem de importância.

Rankings e recordes

Os rankings e recordes deverão ser sempre associadas à idade (1 ano por escalão) do nadador à data da prova, até ao escalão sénior. Sugerimos um software semelhante ao utilizado pelo Canadá.

Classificações

As classificações deverão ser atribuídas por ano de idade tal como os rankings e recordes, pelo menos até aos Juvenis.

Igualdade de género

A igualdade de género, tal como em alguns dos países com melhores resultados na natação, será um fator importante para a simplificação do processo e para que os grupos criados nas escolas se mantenham quando se faz natação de competição. Deixo aqui um sentimento de alguém que viveu o problema: “Como nadadora, lembro-me de ter o meu grupo de amigos na escola e, chegados ao treino, iam as raparigas para um lado e os rapazes para o outro. Embora também mantivesse uma relação de amizade com os colegas de anos acima, naturalmente preferia estar com as pessoas da minha idade – era com eles que estava fora da piscina e tínhamos mais pontos comuns. O meu ano de infantil A (onde treinava com ambos os grupos, masculino e feminino, da minha idade) foi, em termos sociais, o meu favorito, o que se refletiu no entusiasmo com que encarava a natação (e consequentemente nos meus resultados). Fiquei desanimada quando passei para juvenil. Para nós, foi uma época em que nos sentimos numa espécie de “escalão intermédio”, não pertencíamos a um lado nem ao outro. Não treinávamos nem nos sentíamos integrados no grupo dos “mais velhos”, mas estávamos totalmente desencontrados dos Infantis (que, na verdade, tinham a nossa idade). Isto levou a que a passagem para Juvenil tenha provocado uma quebra no entusiasmo e vontade com que encarávamos os treinos e a modalidade. Vi isto acontecer com muitos colegas e amigos (onde me incluo). O escalão de Juvenil era um escalão de rutura – levava muitas pessoas a abandonarem a natação”.

Na verdade, tenho a sensação que se perguntássemos às meninas de 12, 13, 14,… anos se preferem nadar no escalão acima ou no escalão onde estão os amigos e colegas de escola uma grande maioria preferiria naturalmente estar no escalão inferior.

Escalonamento por grupos

Sugere-se um escalonamento da natação jovem em 4 grupos (Cadetes (<=10 e 11), Infantis (12 e 13), Juvenis (14, 15 e 16) e Júnior (17 e 18))

Os grupos permitem a constituição de competições e de equipas de treino relativamente homogêneas.

Os dois anos nos cadetes e infantis porquê? Nos grupos mais jovens existem mais nadadores e, portanto, os “dois anos”, atualmente existentes, parece-nos correto. Quanto aos juvenis, quem acompanha a natação, sabe que neste escalão existe uma transição brusca da natação juvenil para a natação sénior, o que constitui um dos fatores relevantes para a desmotivação e consequente abandono, comprovado por diversas opiniões ouvidas e citada na primeira pessoa por uma ex – nadadora, no ponto anterior; uma passagem mais suave e gradual poderia constituir um estimulo à continuidade, ou pelo menos à prática da natação por mais tempo. Assim, sugerimos transformar este “escalão” num grupo forte e com “sensações” semelhantes aos infantis – campeonatos próprios, com treinadores específicos (ou pelo menos uma recomendação, aos clubes, nesse sentido) e cargas de treino adequadas à idade. Para que o processo seja viável é conveniente aumentar este escalão de 2 para 3 anos, para que o número de nadadores justifique o investimento em condições personalizadas para este grupo.

Os campeonatos para infantis e juvenis

As provas nacionais (infantis e juvenis) deverão ser repartidas equitativamente ao longo da época para que todos os nadadores tenham condições semelhantes de maturidade, pelo menos num destes períodos.

Recomendamos a existência de dois campeonatos nacionais para estes dois grupos — os campeonatos nacionais de inverno em meados de fevereiro (em substituição dos zonais, no caso dos infantis) e os nacionais de verão no final de julho. Desta forma todos os nadadores terão uma oportunidade de “brilhar” – os nascidos no final e no início do ano, no campeonato de verão e os nascidos em meados do ano, no nacional de inverno. Além destes campeonatos nacionais haveria, tal como agora, mais dois torneios com prémios nacionais – o torneio de fundo em meados de dezembro e o nadador completo em meados de maio. Estes dois torneios, nas associações mais pequenas, poderiam ser realizados em simultâneo (juvenis e infantis).

REFLEXÃO FINAL

Nada é tão permanente como a mudança. O medo da mudança não a evita, apenas dificulta a adaptação à mesma. Podemos escolher ser agentes de mudança, ou apenas assimilá-la e fazer parte desta, mas não podemos ignorar a necessidade de MUDANÇA.

Querer fazer melhor, não significa necessariamente que se fazia mal, mas que se pode melhorar.

Será que o abandono precoce vai deixar de acontecer? Não, porque o problema resulta de múltiplas variáveis que vão desde a não valorização da natação de competição, difícil compatibilização com outras opções de vida, até ao pequeno retorno do investimento feito, isto para citar apenas algumas das variáveis que o explicam. Mas é sem dúvida possível minimizar um dos fatores que explica esse abandono e mais do que procurar-se a equidade entre nadadores, espera-se que se prolongue a sua prática e que a duração da mesma se paute pela motivação.

Não sei se Injustiça é o termo mais adequado para designar o que se pretende evidenciar neste texto, mas se todos reclamamos que a vida não é justa, não a façamos mais injusta do que pode ser, simplesmente porque temos medo de Mudar.

Deixo aqui algumas citações que fui selecionando ao longo do trabalho de pesquisa e que me conduziram a mais reflexão: “Matching youth athletes to encourage competition and make it fair and safe is an important goal of sports federations (Baxter-Jones, 1995; Malina & Beunen, 1996)”

“Thus, the use of single-age classification systems is recommended as a means to minimize the influence of maturational and physical-size differences among young swimmers particularly if the goal is to ensure fairness and equity in competition”

“The findings of the present study support further development and prosperity of age-group swimming and youth sports in general, and should encourage competitive age-group swimmers who might be inclined to drop out as a result of the current classification systems.”


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É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


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