18 Nov, 2017

Crianças à prova de água

João BastosJunho 1, 20176min0

Crianças à prova de água

João BastosJunho 1, 20176min0

No Dia Mundial da Criança importa reflectir sobre a responsabilidade civil com que a sociedade portuguesa tem zelado pela segurança dos mais novos. A aquisição precoce de competências como forma de prevenção de riscos tem passado à margem da estratégia educativa nacional

Segundo a UNICEF, Portugal tem das taxas de mortalidade infantil mais baixas do mundo. Em 2015 foram declarados 251 óbitos de crianças com idade inferior a 5 anos, um panorama francamente positivo, tendo em conta que no ano 2000 morreram cerca de 600 crianças no mesmo intervalo de idades e que recuando a 1990 lamentava-se a morte de mais de 1250 crianças.

O afogamento é a segunda principal causa de morte infantil em Portugal, apenas superado pelos acidentes de viação. Poder-se-ia pensar que num país com 700 km de costa, estes dados seriam “normais”, mas o que é facto é que não é nas praias marítimas que ocorre o maior número de mortes por afogamento.

Fonte: Associação para a Promoção da Segurança Infantil (APSI)

Os dados dizem respeito ao período compreendido entre 2005 e 2010 e expressa bem o trabalho que tem sido desenvolvido no âmbito da vigilância e prevenção nas praias. Contudo, também salta à vista o número demasiado elevado de mortes em piscinas (praticamente na totalidade privadas), tanques e poços em idades demasiado precoces e, simultaneamente, o número alto de mortes em rios, ribeiras e lagoas dos 5 anos para cima.

Mais recentemente tem surgido um dado novo que tem preocupado os nadadores salvadores. O facto das estações do ano menos características convidarem cada vez mais portugueses (e turistas) a se dirigirem à praia fora da época balnear – este ano compreendida entre 15 de Junho e 15 de Setembro.

Por isso, o reforço da vigilância e as acções correctivas não chegam para diminuir estes números. É necessário investir na prevenção e formação como forma de evitar acidentes, sobretudo os que acontecem em zonas com plano de água não vigiado. Ou seja, garantir que as crianças portuguesas sabem nadar, ou pelos menos, dominam as acções motoras básicas à sua sobrevivência no meio aquático.

Projecto à Prova de Água

Alexandre Tadeia, presidente da Federação Portuguesa de Nadadores Salvadores (FEPONS) disse recentemente à Rádio Renascença que “Temos que criar estratégias de prevenção, estratégias nas escolas, estratégias para a segurança aquática que em Portugal ainda não está muito desenvolvida”.

Também António José Silva, presidente da Federação Portuguesa de Natação (FPN) adiantou numa recente entrevista ao “O Jogo” que “Queremos tornar a natação obrigatória no 1.º ciclo do ensino básico”.

Com efeito, há cerca de um ano, a FPN foi ouvida na Comissão Parlamentar de Cultura, Comunicação, Desporto e Juventude e apresentou o projecto que intitulou “À prova de água” que tem em vista “massificar a competência aquática na população infantil Portuguesa, com vista a integrar a competência aquática como conteúdo curricular tendencialmente obrigatório no primeiro ciclo do ensino básico“.

Esta proposta evoluiu para Projecto-Lei que está agora em fase de discussão na Assembleia da República intitulado “Programa universal para ensino das actividades aquáticas”, liderado pela FPN mas com o apoio das 11 Federações desportivas que tutelam desportos com componente aquática.

Foto: Swim Buddies

Pela competência aquática no 1º ciclo

A finalidade da proposta, ou em linguagem jurídica, o espírito da lei, assenta em quatro vectores:

  1. Desenvolvimento das técnicas de sobrevivência;
  2. Amplitude formativa no âmbito das “soft skills”;
  3. Tomar contacto com a prática da modalidade;
  4. Estimular o espírito desportivo numa lógica de bem estar, fomentando as aptidões sociais.

Para concretizar estes quatro objectivos macro, propõe-se actuar em duas áreas de intervenção: actividades físicas elementares e actividades pré-desportivas ou habilidades de recurso à sobrevivência.

A primeira área é desenvolvida nos primeiro e segundo anos do 1º ciclo escolar e pretende familiarizar a criança ao meio aquático, garantir-lhe capacidade de resposta no contacto com diferentes meios naturais, estimular o seu sentido de orientação e ajustar o equilíbrio corporal às diversas acções motoras, entre outros objectivos genéricos.

A partir do 3º ano de escolaridade, no âmbito das actividades pré-desportivas, pretende-se que as crianças aprendam as técnicas de nado e jogos aquáticos.

Todo este processo é, naturalmente, acompanhado por um método de avaliação adequado ao nível de cada praticamente, bem como uma supervisão pedagógica que actue ao nível da sensibilização dos encarregados de educação por forma a que o professor possa monitorizar correcta e individualmente cada uma das crianças ao seu encargo.

De forma simplificada, o conteúdo programático é o seguinte:

Fonte: FPN

Preparar para a vida

Um nobre povo de heróis do mar tem forçosamente de colocar na agenda da política educativa do país a prevenção de acidentes em meio aquático.

A acessibilidade a infra-estruturas e equipamentos desportivos onde é possível a prática e o desenvolvimento da capacidade aquática está hoje bastante democratizada no nosso país. Para pôr em prática este plano “basta”, por isso, que a este movimento se associem as escolas, os clubes e, essencialmente, as autarquias.

Mas o motor terá sempre de ser a tutela da saúde – porque o primeiro passo para resolver problemas nacionais é assumir que a sua resolução é um desígnio, também ele, nacional – e a tutela da educação, porque o espaço escolar deverá ser sempre um espaço que prepara para a vida…e isso inclui a capacidade de sobreviver!

No Dia Mundial da Criança celebremos o melhor do mundo, que são elas, mas reflictamos sobre a nossa responsabilidade, enquanto comunidade, para as preservar.

Por isso, seja novo ou seja velho, nade…pela sua saúde, mas sobretudo pela sua vida.

Foto: farehamswimschool.com


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