23 Nov, 2017

A caminho do Mundial: Os donos da casa

João BastosMaio 21, 201715min0

A caminho do Mundial: Os donos da casa

João BastosMaio 21, 201715min0

Com os Campeonatos do Mundo de Desportos Aquáticos à vista, o Fair Play elabora uma série de 10 artigos sobre os potenciais destaques em Julho, na Hungria. O número 4 é sobre os anfitriões, ou seja, a selecção húngara

A Hungria é um país com 93 mil kme pouco menos de 10 milhões de habitantes. A sua capital é Budapeste – sede do 17º campeonato mundial de natação – e, para aquilo que mais nos interessa, é uma potência da natação mundial.

Actualmente, e apesar dos húngaros contarem na sua galeria de campeões com nomes como Ferenc Puskás (futebol), Krisztián Pars (atletismo) ou László Nagy (andebol), é mesmo a natação o desporto-rei no país dos magiares.

E pelos nomes que apresentaremos neste artigo, é fácil perceber que o é, mas antes disso, e porque o pretexto são os mundiais de natação, confira a posição da Hungria no ranking das medalhas do certame que se disputa desde 1973:

Somatório de medalhas de todas as edições do Mundial de Natação | Fonte: FINA

A Hungria surge como a 6ª nação mais titulada no conjunto das 16 edições dos campeonatos do mundo de desportos aquáticos, com a natação pura a contribuir com 26 das 31 medalhas de ouro, sendo o polo aquático responsável pela conquistas dos restantes 5 títulos (3 masculinos + 2 femininos).

Note-se que na contagem oficial da FINA a Hungria surge no 7º lugar porque as medalhas que aqui apresentamos como sendo todas da Alemanha a FINA divide entre RDA e RFA+Alemanha unificada.

Mas olhando para a tabela, salta à vista que no top-10 a Hungria é, de longe, o país com a menor base de recrutamento. Com os seus 10 milhões de habitantes, tem menos de metade da população do segundo menor país da tabela: a Austrália – um país onde se estima que 80% da população sabe nadar e que conta com meio milhão de nadadores federados.

Por isso, ainda se percebe melhor a popularidade da modalidade entre os húngaros, se atentarmos nos seguintes dados:

Medalhas de ouro per capita | Fonte: Fair Play

A tabela anterior faz o rácio de títulos mundiais por habitante. Ou seja, na Hungria, em cada 317 921 habitantes, há um campeão do mundo de natação. Claro que é preciso descontar que somamos todos os títulos conquistados dividindo pela população actual e não pelo somatório de toda a população que residiu nos países referidos desde 1973. Mas em termos de comparação, serve-nos.

Mais uma vez, destacam-se dois países como os mais competitivos no que respeita à natação: Austrália e Hungria.

O Suriname é um claro outlier. “Só” conquistou uma medalha em campeonatos do mundo, mas foi logo a de ouro, pelo lendário Anthony Nesty, em 1991.

Apesar da relação fervorosa que o país mantém com a modalidade, é a primeira vez que a Hungria acolhe uns mundiais de natação. Já europeus de piscina longa foram 5 as edições disputadas em solo húngaro, a juntar a um europeu de piscina curta (Debrecen’2007), enquanto o último europeu de juniores (de onde Portugal trouxe um ouro) foi na impronunciável cidade húngara de Hódmezővásárhely.

E não é por acaso que só agora os mundiais se disputam na Hungria. É que, apesar do forte palmarés do país, esta será, por ventura, a melhor geração de nadadores húngaros que já coexistiram.

O objectivo desta edição caseira é claramente ultrapassar a memorável edição de 1991, quando os húngaros comandados por Krisztina EgerszegiTamás Darnyi obtiveram 5 ouros, num total de 8 medalhas.

E essa marca pode ser bem batida. Basta ter em atenção o elenco:

Katinka Hosszu

A dama de ferro é a grande cabeça de cartaz. Sobre ela já tecemos as nossas considerações aqui e só nos resta perspectivar o que pode fazer “em casa”. É a actualmente bi-campeã mundial dos 200 metros estilos e tri-campeã dos 400 metros estilos. Caso vença esta última, pode tornar-se na primeira tetra-campeã mundial na mesma prova e o principal obstáculo para o conseguir pode ser ela própria.

É que os 400 estilos são nadados no último dia dos mundiais e, esperando que Hosszu faça o que lhe é habitual, ou seja, nadar muitas provas, pode chegar algo desgastada ao último dia de competição. Mas o seu domínio é tal que acreditamos que servirá para fechar os campeonatos com chave de ouro para os húngaros.

Para além das provas de estilos, é expectável que nade os 100 e 200 costas (é campeã olímpica dos 100 e vice-campeã dos 200), os 200 mariposa (prova da qual abdicou no Rio) e a dúvida que entusiasma os fãs de natação é se a Iron Lady irá desafiar a Iron Katie nos 200 livres.

Katinka tem nadado várias vezes a prova esta época, tendo-o feito já 11 vezes abaixo dos 2 minutos em 2017. Ledecky será um osso muito duro de roer para Hosszu, mas um confronto entre as duas (que até pode acontecer no território da húngara, isto é, nos 400 estilos) seria a headline do mundial.

Foto: Getty Images

László Cseh

O veterano nadador, nascido em Budapeste, foi apenas duas vezes campeão do mundo de piscina longa na sua carreira.

Escrevemos “apenas” porque por cinco vezes ficou com a posição de prata atrás de colossos como Michael Phelps, Ryan Lochte e Chad Le Clos.

Aos 31 anos já se pode fazer uma antologia da sua carreira e não há dúvidas que Cseh será recordado como um dos melhores nadadores de sempre, mas também será referido como o nadador que apareceu à hora errada no sítio errado.

Ter sido contemporâneo e especialista nas mesmas provas que Phelps, Lochte e Thiago Pereira fê-lo deixar de ganhar vários títulos que em “condições normais” ele tinha feito o suficiente por conquistar. Em suma, Cseh está para a natação como um Xavi ou um Iniesta para o futebol: os génios que nunca foram melhores do mundo por coabitarem no tempo com Ronaldo e Messi.

Mas eis que se conjuga um conjunto de circunstâncias que configuram a melhor das oportunidades para Cseh atingir o ponto mais alto da sua carreira, há muito merecido. Nuns mundiais disputados na sua cidade de nascimento, com Phelps e Pereira retirados após os JO do ano passado, com Lochte a ser uma incógnita no que respeita ao seu regresso após suspensão, Lászlo vê as suas hipóteses de voltar a ser campeão do mundo serem aumentadas.

Só tem um problema. Nesta fase da sua carreira surge muito mais virado para as provas de mariposa do que de estilos (nem está convocado para nadar os 400 estilos) e aí encontra um Chad Le Clos no auge das suas capacidades e ferido no seu orgulho, depois de uns Jogos Olímpicos que ficaram aquém das suas expectativas.

Ainda assim, não será o sul africano a fazer o que nunca ninguém fez: inibir Cseh de tentar!

Foto: Anikó Kovács

Dániel Gyurta

Gyurta deu-se a conhecer ao mundo com apenas 15 anos, quando nos Jogos de Atenas se intrometeu no antecipado duelo dos 200 bruços entre Kitajima (Japão) e Brendan Hansen (EUA), levando a prata e deixando o bronze para o americano.

O jovem desconhecido que competia de tanga, com uma técnica pouco ortodoxa e uma ponta final mortífera teve depois um período de autêntica travessia no deserto. Foram 5 longos anos até voltarmos a ver Gyurta ao mais alto nível, quando nos loucos mundiais de Roma se sagrou campeão dos 200 bruços por um escasso centésimo.

Foram 5 anos para corrigir índices técnicos que inevitavelmente o condenariam a ter uma carreira curta, mas aos quais se pode aplicar a velha máxima de dar um passo atrás para de seguida dar dois à frente.

Gyurta foi tri-campeão mundial dos 200 bruços de forma consecutiva (2009, 2011 e 2013) e campeão olímpico em Londres’2012. Em Kazan foi bronze e no Rio foi afastado logo nas eliminatórias.

Por isso Gyurta, outro budapestino de nascença, quererá voltar à ribalta nos “seus” mundiais.

Mas não vai ser nada fácil. O húngaro vai jogar as suas fichas todas nos “seus” 200 bruços (já que os 100 são inacessíveis por causa deste senhor), mas se a natação fosse totobola, esta era a prova de 1 X 2…Y 3 Z. É a única prova cujo record mundial data de 2017 e nem o recordista mundial é um claro favorito a ganhá-la em Budapeste.

Resumidamente: o recordista mundial é o japonês Ippei Watanabe, que foi apenas 6º nos JO, que foram ganhos pelo cazaque Dmitry Balandin, que ironicamente foi 6º nos mundiais de Kazan, ganhos pelo alemão Marco Koch. Para além disso, o líder mundial do ranking de 2016 foi o americano Josh Prenot, que foi prata no Rio, sendo que a medalha de bronze foi para o russo Anton Chupkov, na altura com 19 anos.

Aos 5 nomes que referimos, e para além de Gyurta, ainda há que considerar o americano Kevin Cordes, o japonês Yasuhiro Koseki, o sueco Erik Persson e o britânico Ross Murdoch. Todos estes a valerem 2’07 em dias bons.

Apesar da forte concorrência, ninguém tem o currículo de Gyurta e, como qualquer homem da casa, é uma questão de honra impor-se aos demais.

Foto: Hédi Tumbász

Boglárka Kapás

Foi a maior revelação dos europeus de Londres do ano passado. Apesar de já representar a Hungria desde os Jogos Olímpicos de Pequim (quando tinha apenas 15 anos), não era apontada como favorita ao pódio nos europeus.

Acabou por sair de Londres com o ouro nos 400, 800 e 1500 metros livres, distinguindo-se como a melhor fundista do velho continente.

No Rio de Janeiro confirmou a boa forma e conquistou um bronze nos 800 metros livres.

As perspectivas da húngara para os mundiais de Budapeste são muito objectivas: tentar chegar à frente no pelotão que chegará depois de Katie Ledecky nas provas de fundo.

E a batalha nesse pelotão prevê-se bastante renhida. Por exemplo, nos 800 metros livres, depois de Ledecky que tem 8:04.79 de record pessoal, surgem 6 nadadoras que no último ano nadaram entre 8:16 e 8:20.

Foto: LEN

Dávid Verrasztó

Bi-campeão europeu e vice-campeão mundial na provas dos 400 metros estilos. No Rio foi apenas 12º classificado (e nem sequer foi o melhor húngaro em prova).

Esta época já mostrou que está muito forte, ao registar as suas segunda e terceira melhores marcas da carreira. Nadou em 4:10.01 em Março e em 4:10.21 em Abril. O seu record pessoal é de 4:09.90 e este ano apenas está atrás, no ranking mundial, do americano Chase Kalisz.

Verrasztó tem boas hipóteses de chegar ao pódio nos 400 estilos, mas para além de Kalisz, terá de contar com a oposição dos japoneses Daiya Seto e Kosuke Hagino e do britânico Max Litchfield. Os três já nadaram para 4:10 este ano.

Para chegar ao título deverá ter de baixar substancialmente o seu record pessoal, uma vez que nas últimas duas edições dos campeonatos do mundo o campeão (Seto) nadou em 4:08. Pelas indicações que Verrasztó tem dado esta época, é bem possível que nade dentro desse tempo, fazendo evoluir bastante o seu record pessoal.

Foto: Hungarian Ambience

Tamás Kenderesi

O jovem de 20 anos impressionou o mundo com a sua prestação nos 200 metros mariposa nos Jogos Olímpicos do Rio. A sua segunda metade de prova foi absolutamente extraordinária, dando a sensação que se a prova tivesse mais um metro seria ele o campeão olímpico e não Michael Phelps.

Terminou na posição de bronze, também atrás do japonês Masato Sakai, mas deixou a boa nota de nadar em 59.44 a segunda metade da prova.

Não era sequer o húngaro mais favorito às medalhas nessa prova – esse era László Cseh -, e por isso, internamente, entrou no lote das apostas dos húngaros para ser bem sucedido este ano em Budapeste.

Depois ter sido bronze olímpico e bronze europeu, com apenas 19 anos, Kenderesi apresenta-se em casa com outro estatuto, mas acima de tudo com outras aspirações. Veremos se as faz corresponder.

Foto: Tamás Sóki

Zsuzsanna Jakabos

A musa magiar anda há muitos anos na alta roda da natação mundial e, apesar do seu imenso valor, ainda não conquistou qualquer medalha em mundiais ou Jogos Olímpicos. É a nível europeu que tem conseguido expressar o seu talento, contabilizando 1 título, num total de 9 medalhas conquistadas em europeus de piscina longa, as mesmas que nos europeus de piscina curta, onde tem não 1 mas 2 títulos.

Com estas credenciais, os húngaros esperam que possa ser em casa que Jakabos suba ao pódio pela primeira vez numa competição planetária.

Naturalmente não lhe exigem vitórias, mas contam que lhes cumpra o sonho de conseguir as dobradinhas nas provas de estilos, secundando Hosszu no pódio.

Se nos 200 metros estilos a tarefa é complicada, nos 400 metros estilos é possível. Mesmo nos 200 metros mariposa pode acalentar algumas esperanças de chegar ao pódio, desde que Hosszu não nade a prova. É que Jakabos está qualificada mas como suplente, uma vez que as duas que cumpriram a qualificação com melhor tempo foram a Iron Lady e Liliána Szilágyi, mas em condições normais Zsuzsanna terá maiores argumentos para chegar ao pódio que Liliána.

Foto: Pinterest @ ignaciooyarzuna

Falta apenas situar o contexto em que surge a organização destes mundiais: a Hungria (concretamente a cidade de Budapeste) planeava candidatar-se à organização dos Jogos Olímpicos de 2024. Uma vez que a decisão será tomada em Setembro deste ano, os húngaros apostaram tudo na organização de grandes eventos desportivos em 2017.

Para além dos mundiais de natação, disputar-se-á na Hungria o Festival Olímpico da Juventude Europeia, os mundiais de judo e os mundiais de braço de ferro.

Entretanto a organização de Budapeste2024 sofreu um revés ao ver-se confrontada com a contestação popular que levou à desistência da candidatura.

Ainda assim, e uma vez que a decisão de sair da corrida à organização dos JO2024 só ter sido tomada em Fevereiro deste ano, os preparativos dos vários certames já estavam em curso e, particularmente, os mundiais de natação prometem ser um evento para ver e ser visto.

E isso também passa pelos resultados dos donos da casa.

*Este artigo é o terceiro de uma série de 10 antevisões do mundial de Budapeste:
1º – Adam Peaty, a perfeita imperfeição
2º – A caminho do Mundial: O regresso da prova rainha (versão masculina)
3º – A caminho do Mundial: O regresso da prova rainha (versão feminina)


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