25 Set, 2017

A caminho do Mundial: Adam Peaty, a perfeita imperfeição

João BastosAbril 30, 20179min0

A caminho do Mundial: Adam Peaty, a perfeita imperfeição

João BastosAbril 30, 20179min0

Com os Campeonatos do Mundo de Desportos Aquáticos à vista, o Fair Play inicia uma série de 10 artigos sobre os potenciais destaques em Julho, na Hungria. O primeiro é sobre o britânico Adam Peaty.

O Fair Play vai iniciar uma petição para rebaptizar o nadador de 22 anos, propondo a mudança do seu nome para Adam Peity. O apelido faz mais sentido quando interpretado à luz do português falado no Brasil, mas, de facto, o britânico é, actualmente, a grande referência mundial no estilo de nado peito (ou bruços no idioma autóctone de Camões).

Ele é o recordista mundial intocável nas provas de 50 e 100 metros bruços com as marcas de 26.42 e 57.13, respectivamente.

O fosso entre ele e o resto do mundo é enorme e, só isso, já era motivo de adulação por parte dos adeptos da modalidade. Mas é o seu estilo, nada convencional, que aumenta a expressão da sua lenda…

O incontestável recordista

Nenhum outro recordista mundial tem uma vantagem tão grande para o segundo melhor tempo de sempre aos 100 metros…nem mesmo aos 200! São 1.33 segundos de vantagem entre os 57.13 de Peaty e os 58.46 do sul-africano Cameron Van Der Burgh, que era o record do mundo pré-Peaty e pós-fatos, por isso, já estava longe de poder ser considerado um tempo fraco.

Com as recentes performances do campeonato nacional britânico, Peaty já nadou por 44 vezes os 100 bruços abaixo da barreira do 1 minuto. Na História da natação apenas 12 nadadores (sem contar com ele) já nadaram os 100 bruços em piscina olímpica abaixo dos 59 segundos. Ele já o fez por 19 vezes.

Repetimos: ainda só tem 22 anos!

Progressão das marcas de Adam Peaty aos 100 bruços | Fonte: Swimrankings

Nos 100 metros é espantosa a expressão do seu domínio, mas quem está familiarizado com a forma de nadar do britânico, ainda se espanta mais com o facto de Peaty deter as 4 melhores marcas de sempre dos 50 metros bruços, uma prova ainda mais ao jeito de Van Der Burgh (o sul-africano é o nadador que mais vezes bateu este record mundial – 4 vezes em piscina olímpica e 4 vezes em piscina curta, sendo o actual recordista de piscina curta).

Para além da progressão natural que a parca idade de Peaty permite, a nível técnico o britânico ainda pode acomodar muitas correcções no seu nado.

A perfeita imperfeição

A 4 de Janeiro de 1643, nasce em Woolsthorpe-by-Colsterworth, aquele que viria a ser o pai da física, Sir Isaac Newton. A apenas 100 km e 351 anos de distância, nasce um dos seres humanos que mais a desafia, Sir Adam Peaty (o título fomos nós que demos, a rainha ainda não o condecorou).

A física – mais propriamente a hidrodinâmica – é a ciência que lançou os fundamentos das diferentes técnicas de nado e as subsequentes teorias, teses e teoremas sobre a forma como nadar cada uma dessas técnicas de forma mais rápida, mais eficaz e mais económica do ponto de vista energético.

Foto: Patrick B. Kraemer/EPA

À partida, o melhor executante do mundo de determinada técnica, parte com vantagem para ser o recordista do mundo. Assim foi com aqueles que são apontados como os “role models” da técnica de crawl: Alexander Popov e Ian Thorpe, ou no caso dos brucistas, o ucraniano Oleg Lisogor.

Apesar da fraca qualidade do vídeo, repare no nadador da pista 5 e compare com os restantes no que respeita à fluência do seu nado, desde a ondulação do seu corpo que lhe permite ser o único a tirar o quadril fora de água, à altura a que leva os ombros que lhe permite um maior alcance de braçada, ao trabalho subaquático que não é perceptível no vídeo, tudo é perfeito no nado de Lisogor. Essa perfeição permitiu-lhe deter o record mundial dos 50 bruços em piscina olímpica que durante mais tempo vigorou:

Clutcher Peaty

Mas com Peaty a física funciona numa lógica diferente, como se a maçã de Newton caísse para cima.

Tomemos como exemplo o record do mundo dos 100 metros bruços, estabelecido no Rio de Janeiro a 7 de Agosto de 2016. Antes disso é preciso ressalvar que no Rio, Peaty já surgiu a nadar com uma técnica muito mais apurada do que se tinha visto nos mundiais de Kazan em 2015, nomeadamente no que respeita aos percursos subaquáticos depois da partida e da viragem:

Esmiucemos então essa prova:

  • Como refere o comentador, Peaty teve um tempo canhão de reacção à partida. Demorou 0.57 segundos a perder o contacto com o bloco e foi mesmo o mais rápido dos oito finalistas, mas fê-lo pela posição de partida que adoptou: tronco balanceado para a frente e cabeça alta de mais, o que garante pouca sustentação no bloco e, por isso, fraca propulsão na hora da partida;

“Frame” da partida da final olímpica dos 100 bruços. Peaty (touca vermelha) parte bem mais rápido que os adversários | Foto: Youtube

  • Devido ao seu impulso rápido mas fraco, assim que entra na água, Peaty perde velocidade em comparação com os adversários. Agravado a isso, tem de corrigir a posição da cabeça (repare no movimento aos 9 segundos do vídeo) e prejudica a posição hidrodinâmica;
  • A própria pernada de mariposa não é grande coisa quando comparada à de Kevin Cordes (pista 5, mais próximo da câmara), mas são essencialmente os dois aspectos anteriores – posição no bloco e movimento da cabeça – que fazem com que Peaty rompa a superfície ainda antes de Cordes terminar a pernada subaquática e ao mesmo tempo que vd Burgh (pista 3), mas cerca de 1 metro atrás;

Início da fase de nado | Fonte: Youtube

  • Peaty cumpriu os primeiros 25 metros em 11.5 segundos, precisando de 7 braçadas; vd Burgh gastou 11.2 segundos com 6 braçadas. Peaty apenas ultrapassa vd Burgh por volta dos 13 segundos;

 

Momento em que Peaty assume o comando da prova, apenas aos 27 metros | Foto: YouTube

  • No total dos primeiros 50 metros, Peaty faz 22 braçadas. Tendo em conta que começou o nado efectivo aos 13 metros, 1 braçada de Peaty permitiu progredir 1,68 metros. Cameron vd Burgh fez 18 braçadas e começou a nadar aos 14 metros, o que significa que uma braçada sua “cobre” 2 metros;
  • Peaty tocou na parede com 26,61 segundos, o que significa que deu uma braçada em cada 0,97 segundos; vd Burgh passou em 27,24 segundos, dando uma braçada por cada 1,22 segundos;
  • O britânico precisou de 5,3 segundos para o percurso subaquático, rompendo a superfície aos 10 metros. O sul-africano gastou os mesmos 5,3 segundos mas percorreu mais 0,5 metros, sensivelmente;

vd Burgh quase eliminou a diferença de 63 centésimos dos primeiros 50 metros no percurso subaquático | Fonte: YouTube

  • Nos segundos 50 metros, Adam fez 25 braçadas, Cameron fez 23 braçadas;
  • Nos últimos 25 metros está o segredo do sucesso de Peaty. O britânico cumpriu este segmento em 16 segundos certos e o sul-africano (que quebrou nesta fase) nadou em 16,8 segundos, o que significa que mais de metade da diferença final (1,56 segundos) foi cravada nesta fase;
  • Nesses 25 metros, Peaty fez 15 braçadas, deslocando-se 1,67 metros/braçada (mantendo a cadência de braçada que tinha no início da prova). vd Burgh fez as mesmas 15 braçadas (com um deslize brutal na última), mas que para o sul-africano significou fazer menos 33 centímetros em cada braçada, comparativamente ao início da prova, o que demonstra que o sul-africano não conseguiu manter os padrões técnicos durante toda a prova, começando a “patinar” na fase final.

Fazendo um exercício especulativo, só que Peaty tivesse a “técnica de parede”, ou seja, a partida e a viragem de Cameron, o britânico podia valer 56,7 aos 100 bruços, algo que não lhe é estranho, uma vez que na estafeta vice-campeã olímpica da Grã Bretanha fez o magnífico tempo de 56,59.

Em Budapeste, Adam Peaty vai ser um dos nomes em destaque. Este ano já nadou em 57 segundos aos 100 metros e já fez o segundo melhor tempo de sempre aos 50. Apesar do seu primeiro record mundial ter sido batido em Abril (de 2015), este ano apresenta-se ainda em melhor forma, nesta altura da época.

Tendo em conta esse dado, aliado à melhoria técnica que a sua treinadora, Melanie Marshall, tem procurado implementar no seu estilo, à sua capacidade física, visivelmente incrementada nos últimos dois anos e a qual constitui a base de suporte à sua técnica pouco fluída mas muito potente, podemos esperar um Peaty de alto nível em Julho.

Para os apostadores, a perfeita imperfeição de Peaty é uma aposta segura. Pode não dar grande retorno, mas é praticamente garantido!


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