18 Fev, 2018

Miguel Nascimento. “A minha carreira nunca foi fácil”

João BastosJulho 10, 20179min0

Miguel Nascimento. “A minha carreira nunca foi fácil”

João BastosJulho 10, 20179min0

O nadador do Sport Lisboa e Benfica, Miguel Nascimento, está a ultimar a sua estreia em mundiais de piscina longa. O Fair Play foi conversar com o internacional português sobre a sua carreira e planos para o futuro

Miguel, em júnior eras o melhor especialista nacional em provas de velocidade. Ainda és o recordista nacional dos 50 livres (PC), 50 costas e 100 mariposa (PL). Nessa altura pensavas que ias chegar a esta fase da tua carreira e ser o melhor ou dos melhores nadadores em provas como 200 mariposa, 200 e 400 livres?

MN: Nunca pensei. Foi uma grande viragem na minha carreira de nadador. Nunca pensei vir a nadar essas provas e, muito menos, fazer os tempos que faço hoje.

O ano passado quase fiz mínimo para os Jogos nos 200 mariposa, uma prova que nunca pensei que se tornasse na minha melhor prova.

Sabia que tinha mais características de nadador de provas de 200 metros, do que propriamente de 50 e 100, mas como o meu treino sempre foi orientado para provas mais curtas, adaptei-me bem à velocidade.

Como se deu esse processo? Viram em ti características indicadas para nadar essas provas e trabalharam nelas? Ou foi um processo que se foi dando naturalmente?

MN: Tive um ano de adaptação ao qual reagi bem. No Centro de Alto Rendimento, a base do treino é igual para todos os atletas e consiste em nadar muitos metros por treino.

Passei de um treino de séries curtas de alta intensidade para um treino de séries mais longas. Só no final desse ano de adaptação é que me comecei a especializar mais nas provas que nado agora.

Não foi bem um treino adaptado às minhas características de nadador de provas de 200 metros. Foi mais um processo natural de resposta ao tipo de treino que fui tendo.

De qualquer forma, tu continuas a ser um nadador muito rápido. Prova disso é teres feito mínimo A para os mundiais nos 200 mariposa e nos 50 livres. Como é que te preparas para provas tão diferentes?

MN: Ainda tenho a costela de velocista [risos]. Como treinei a minha vida toda para provas curtas, foi algo que ficou.

Claro que não é fácil preparar provas que não têm nada a ver uma com a outra, uma é velocidade, outra é mais exigente do ponto de vista muscular. Lá fora, sempre que me perguntam o que eu nado e eu respondo que são os 50 livres e os 200 mariposa, começam-se logo a rir e a pergunta seguinte é precisamente como é que eu faço a preparação para um mundial nessas duas provas.

Mas a minha primeira opção é sempre os 200 mariposa. Os 50 livres é um bónus. Os 200 mariposa é mesmo a minha prova principal e aquela que eu mais trabalho para melhorar. Se conseguir fazê-lo também nas outras provas que nado, é um bónus.

Eu vejo os 50 livres como uma prova de futuro, para uma fase mais adiantada da minha carreira.

Foto: FPN

E foi precisamente com os 200 mariposa que estiveste com os dois pés no Rio de Janeiro, o ano passado. Quando já estavas pré-convocado para os JO foste desconvocado. Foi a maior frustração da tua carreira?

MN: Foi a situação mais difícil, mas a minha carreira também nunca foi fácil. Fiquei sempre à porta dos mínimos por centésimos. No meu primeiro ano de sénior não cheguei lá por 3 ou 4 centésimos e nessa altura não havia mínimos sub-23. Tinha de fazer o mínimo A.

Para o Europeu de Curta também fiquei à porta por 1 centésimo. Nunca foi fácil, mas obviamente por ser os Jogos Olímpicos foi a mais difícil, mas não me afectou muito porque eu nunca dei por garantida a minha presença.

Quem me conhece sabe que eu nunca disse que ia aos Jogos. Parecia que tinha a sensação que não ia. Por isso custou-me menos por me ter defendido e resguardado dessa maneira, para mim nunca foi um dado adquirido, mesmo quando estava pré-convocado.

Teve o impacto do momento, mas rapidamente passou e segui para outra, para continuar a perseguir os meus objectivos.

Mas não te deixou a pensar como seria teres estado lá?

MN: Sim, claro que pensei nisso. A participação nos Jogos seria uma experiência inacreditável. É uma competição onde estás numa aldeia olímpica, onde tens de andar até à piscina e sentir todo o ambiente dos Jogos, cansas-te bastante e tens várias distracções. Seria essencialmente uma experiência de preparação para os Jogos Olímpicos seguintes.

Dar-me-ia uma bagagem muito importante e ficaria a conhecer “os cantos à casa”. Mas eu sou muito positivo e penso que se não foi desta vez, será na próxima. Agora tenho é de trabalhar para o mínimo A e ter a segurança que vou mesmo lá chegar.

O virar de página deu-se em Windsor, onde fizeste uns excelentes mundiais de piscina curta. Foi uma competição importante para te lançar para a boa época que estás a realizar?

MN: Foi importante. Primeiro porque foi apenas a minha segunda prova internacional de absolutos, depois do Europeu de Londres. Foi bom para conhecer os adversários e conhecer a organização de provas deste nível.

Estava à espera de melhores resultados em todas as provas. No início da temporada treinei mais para as provas de crawl porque era nessas provas que queria fazer melhores resultados em piscina curta.

Mas cada prova é uma experiência importante para que em próximas não se cometam os mesmos erros e, certamente, cresci com essa participação em Windsor.

Este ano mudaste para o Benfica, um clube que está a apostar forte nas modalidades neste ciclo olímpico. Essa forte aposta também inclui a natação e também te inclui a ti?

MN: Sem dúvida. O Benfica é um grande clube em todas as modalidades. Este ano criou um grande projecto, também à volta da natação. Faz parte dos planos crescer o nome da natação no Benfica. Isso vê-se pelos atletas que vieram agora para o clube e eu também vim para ajudar a fazer crescer o projecto.

Foto: Luís Filipe Nunes

Isso significa que tens melhores condições para preparar Tóquio do que tiveste para preparar o Rio?

MN: Exactamente. O objectivo é sempre procurar melhores condições para poder render ao meu máximo e ano após ano ir cada vez mais me aproximando do nível necessário para assegurar a presença em Tóquio.

Ainda não tens nenhum record nacional absoluto individual mas estás muito perto em várias provas, quer em piscina curta, quer em piscina longa. Sentes que para ti os recordes são como a analogia do Ronaldo sobre os golos e ketchup, depois de vir o primeiro, muitos outros se seguirão?

MN: É verdade, estou perto em várias provas, mas não penso se bato um ou vários recordes. Trabalho diariamente para melhorar os meus tempos, se algum dia isso significar que bati um record nacional ou vários de uma vez, fico contente, mas o trabalho continuará a ser feito da mesma forma.

Mas podendo escolher, qual é a prova onde mais gostarias de bater o primeiro record?

MN: O dos 200 mariposa. Sem desprezo com os 50 e 100 livres que eu também gosto muito de nadar, mas os 200 mariposa é a minha prova de eleição, aquela para a qual eu trabalho e aquela onde quero deixar a minha marca na natação portuguesa.

Claro que se vier outro primeiro, fico contente na mesma, mas irei continuar a privilegiar os 200 mariposa porque é a minha melhor prova e é onde posso conseguir melhores classificações a nível internacional.

Este ano já te mostraste no teu melhor nos nacionais em Coimbra. A duas semanas do mundial, consegues dizer se agora estás ainda melhor que em Abril?

MN: É difícil fazer essa comparação, até porque cada prova é uma prova. Depois dos nacionais o foco da preparação foi o mundial e as coisas estão a correr de acordo com os objectivos que são chegar lá e melhorar os meus tempos.

Mas claro que é muito mais imprevisível o que irei encontrar nuns mundiais do que aquilo que sei que encontro nuns nacionais, por isso é difícil dizer se vou estar melhor em Budapeste do que tesive em Coimbra.

Como tens visto o desempenho dos teus adversários internacionais nos 200 mariposa? Há uma nova geração muito forte…

MN: É verdade. Este ano está mais forte do que ano passado que foi ano olímpico, por isso prevejo que os tempos de acesso a meias finais e finais vão ser mais baixos do que no ano passado no Rio.

Mas isso é bom para a competitividade da prova e faz com que tenhamos de nos superar.

Foto: Arquivo Pessoal

Tens expectativas relativamente às tuas classificações no mundial? Ou o teu foco é melhoria dos tempos?

MN: O meu foco é exclusivamente melhorar os meus tempos. As contas da classificação fazem-se depois.

Não vou a pensar em meias-finais. Apenas em fazer o meu melhor, se der para melhorar os meus tempos e ao mesmo tempo conseguir uma boa classificação, melhor ainda.

Para terminar, a nossa pergunta da praxe: Achas que há Fair Play na natação?

MN: Não creio que haja muito Fair Play na natação. A natação é um desporto individual, onde temos de nos preocupar com a nossa evolução individual. Não é como um desporto colectivo onde o meu sucesso depende do sucesso dos meus colegas de equipa. Por isso acho que as características deste desporto fazem com que sejamos demasiado individualistas e que leve a que haja pouco Fair Play.

Muito obrigado em nome do Fair Play e votos de muito sucesso!

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