20 Fev, 2018

(Mais) 10 Pontos sobre o Rugby Português em 2017

Francisco IsaacJulho 21, 201732min0

(Mais) 10 Pontos sobre o Rugby Português em 2017

Francisco IsaacJulho 21, 201732min0

Federação, Sevens, Campeonato da Europa de sub-20, Assembleia Geral, Guimarães, Brasil entre outros temas a falar e discutir sobre o rugby português em 2017. Questões, problemas, soluções e certezas para o agora e o futuro

Uma nota prévia ao artigo, e aos subsequente pontos, vai para a onda de “raiva” e comentários “sem fundamentos” que jorraram nos últimos dois meses. A comunidade do rugby em Portugal está, quase literalmente, “às gargantas” de uns e outros, com uma ferocidade de discussão que acaba por toldar o raciocínio. Todas as opiniões são válidas, desde que hajam argumentos bem sustentados, ideias bem estabelecidas (soluções fantásticas todos temos, mas há que pensar na prática da sua execução) e propostas de solução válidas.

1- Formação “dá cartas” e não baralha!

Portugal pode, nos últimos anos, sorrir perante os feitos das suas selecções jovens. Em 2014, 2015 e 2016 Portugal foi conquistando boas posições, realizando grandes exibições e dando claros sinais de poder ser uma equipa de “força” no contexto europeu.

2017 foi o ano da confirmação… Portugal derrotou Roménia e Espanha no Campeonato da Europa de sub-20, com a Alcateia a somar mais um título europeu numa equipa recheada já de jogadores séniores, mas com uma idade “tenra”. Caso para dizer que estamos “bem entregues”.

Os sub-18 não conseguiram renovar a medalha de bronze, mas ficaram como a 3ª melhor selecção europeia, atrás só da França (em que fomos bem derrotados, denotando-se uma diferença física e de à vontade no jogo) e Geórgia.

Mais, já uma série de jogadores formados em Portugal começam a despontar em vários campeonatos europeus caso de Diogo Hasse Ferreira (entrevistado pelo Fair Play em Novembro de 2016) que já é sénior pelos Sale Sharks; José Lima que chega ao Top14 após anos de luta na PROD2; Pedro Bettencourt foi uma das revelações do Carcassone e Francisco Domingues que conseguiu conquistar um espaço no Alcobendas de Madrid.

São três casos significativos mas que valem a pena mencionar, uma vez que já começamos a despontar, finalmente, com outra qualidade nos campeonatos profissionais internacionais.

Agora a questão que fica: será que estes jogadores são resultados de duas ou três gerações de enorme nível ou isto são sinais que os clubes, associações e federação estão a caminhar na direcção de um desenvolvimento de qualidade?

Porque não um pouco de ambas? À parte da confusão que houve no campeonato de sub-18 (paragem por motivos nada positivos, mas que acabaram por ser resolvidos), os convívios desde os sub-8 até aos 14 demonstram uma organização espectacular, com uma excelente participação e onde se nota que os “pequenos” têm mãos para fazer “travessuras” dentro de alguns anos. Nota-se uma alegria imensa em jogar, com os habituais “amuos” de quem não gosta de perder ou de levar um empurrão menos “leal”.

A Federação tem feito um bom trabalho nesse ponto (algo partilhado, ironicamente, pela direcção que cessou funções em 2015 e a que ganhou as eleições no mesmo ano) com boas equipas técnicas, onde existe uma combinação de ideias bem apetrechada e bem trabalhada.

É por aqui que se joga o futuro… com a formação. Era bom pegar nos jovens internacionais sub-18, 20, 7’s e XV e enviá-los às escolas, a academias, a centros de acolhimento, a reformatórios, a escolas internas e demonstrar que o rugby é diferente. São locais de captação de nova “massa” para o rugby… seja em Bragança ou em Tavira, este deveria ser o caminho a fazer.

Os campeões de agora… e do futuro (Foto: João Peleteiro Fotografia)

2- Guimarães… bem-vindo!

É verdade há uma nova equipa a fazer “estragos” nos campeonatos em Portugal e que carimbou a subida (partilhada com o vice-campeão da 2ª, o Loulé) para a Primeira Divisão: Guimarães RUFC.

Fundado em 2008, a equipa vimaranense soube esperar pelo seu “momento” e agora coleccionou a sua primeira “prata” nos Campeonatos profissionais em Portugal.

O GRUFC fomentou o seu projecto, cresceu e conseguiu agora uma subida, acompanhado pelo Loulé que regressa a uma divisão que “conhece” bem.

O rugby português e 90% dos clubes vivem com dificuldades diárias, é uma realidade. Nos últimos 20 anos terão desaparecido alguns emblemas (nenhum carismático) mas resurgiram outros e “nasceram” uns quantos novos. O GRUFC foi um dos que surgiu do “nada”, acompanhado por equipas como Ubuntu, ADS, Braga Rugby, Moita Rugby, entre outros “poucos” que merecem a nossa devida atenção.

É só desta forma que o rugby em Portugal conseguirá crescer, dando força às novas equipas, permitir que as mesmas ganhem “tronco e membros” para termos a modalidade cada vez mais difundida.

O novo horizonte! (Foto: GRUFC)

3- Rugby All Year!

Apesar de pequena, a comunidade Nacional do rugby português deu-se ao luxo de construir um calendário que vai de Setembro a Julho, o que não deixa de ser fantástico.

Desde do início do Campeonato e Supertaça, passando pelas restantes competições nacionais dos vários escalões, com as selecções em certos pontos, até ao Beach Rugby, que já alargou para as camadas de formação (só o Ericeira Beach Rugby até 2016 tinha um dia dedicado a torneio dos mais pequenos) o ano nunca parou.

O que é que isto permite? Crescer! Na ausência de um programa sólido e consistente a nível escolar (apesar das várias Associações Nacionais estarem a implementar as primeiras “raízes” nesse sector) que “obrigue” rapazes e raparigas a jogarem rugby, o calendário oficial Nacional permite que os atletas dos vários clubes não parem de praticar a modalidade mais do que o máximo de 1/2 meses.

Manter uma bola de rugby nas mãos, continuar a colocar o ombro na cintura, entrar na área de validação e marcar o desejado ensaio, têm de ser elementos perenes durante uma temporada inteira. Há que jogar com o cansaço e subsequente descanso dos jogadores, o rugby em Portugal é amador nunca esquecer esse factor. Mas amadorismo não significa falta de excelência, eficácia e seriedade.

Se a Federação Portuguesa de Rugby tem de ser criticada em alguns pontos, neste há algum mérito a dar pelo esforço que tem realizado nesse sentido. Assim como temos de atribuir o mesmo mérito ao Rui Loureiro, Nuno Gramaxo, João Silva e Frederico Lamas pelas etapas de Beach Rugby, ou ao Tomaz Morais, Pedro Netto, Henrique Garcia e outros membros de staff que têm realizado cursos dos mais variados temas (uma organização da FPR) a fim de alimentar a “massa cinzenta” da comunidade.

Os atletas, sejam de formação ou séniores, vêem mais rugby, têm mais vontade de jogar e suspiram pela modalidade… todavia, é preciso notar que o cansaço já era notório em Junho, talvez pela desmotivação que a maioria sente pelo estado organizacional do rugby português.

Por isso, para manter esta “fome” e interesse é necessário garantir condições a nível estrutural… ou pelo menos sanar com os problemas “políticos” entre federação, associações e clubes.

Foto: Luís Cabelo Fotografia

4- 7’s… para onde iremos?

É estranho criticar alguns pontos da selecção de 7’s após um bom treino em Exeter, o último da etapa europeia da variante. Infelizmente, pelo 2º ano consecutivo a selecção Nacional falhou todos os objectivos estipulados… ou não? Nunca foram oficiais os objectivos da selecção de Portugal para 2017, o que tira alguma pressão de António Aguilar na hora de fazer o balanço.

Todavia, é complicado não olharmos para os “recursos” disponíveis e não efectuarmos algum tipo de análise ao trabalho desenvolvido pela selecção Nacional. Não é falso ao dizer que foi dada uma preferência à selecção de XV, remetendo os 7’s a um posto secundário… o main target era manter os Lobos na divisão “B” europeia, junto da Geórgia, Roménia e os restantes.

Nuno S. Guedes, Bernardo S. Cardoso, Vasco F. Mendes, João Lino, foram alguns dos atletas que não participaram em 90% da temporada dos World Series 2015/2016. António Aguilar foi “forçado” a promover várias estreias como Tiago Fernandes, Fábio Conceição, Vasco Ribeiro, colocando toda a pressão de liderar nos ombros de Adérito Esteves e Pedro Leal. Para além destes elementos, deu-se o facto de 99% das outras selecções apostarem seriamente nos 7’s já que estávamos na antecâmara dos Jogos Olímpicos.

A fusão destes elementos resultou num desastre… Portugal terminou em último das equipas residentes, com descida confirmada e “adeus” às Series. Com isto perdemos os fundos que vinham directamente da World Rugby para este propósito (a forma como foram aplicados durante anos é outro tema a ser discutido no futuro) e assim os 7’s não só estagnaram como entraram num processo de declínio total.

Todavia, estes factores não podem servir de desculpa para um trabalho insatisfatório de António Aguilar. A selecção Nacional de 7’s não evoluiu nas Series, demonstrou os mesmos problemas em diversos jogos. Um exemplo disso é a forma como recebíamos os pontapés de início ou reinício, em que sofremos umas boas “mãos” cheias de ensaios. A própria situação da placagem foi um assunto igualmente delicado e que podia ter sido refinado nos treinos.

Um ano passou e Portugal realizou um GPS de má memória: zero títulos; só por duas vezes conseguimos chegar à Cup; penúltimo lugar numa das etapas; 8º lugar em 12 formações europeias; manutenção só garantida na última etapa. Para piorar tudo, Portugal perdeu a hipótese de voltar a Hong Kong, lutar pelo regresso às Series e de conseguir um lugar no próximo mundial de 7’s. Duplo falhanço, novo retrocesso para os 7’s, o que dificulta ainda mais a missão de encontrar sponsors que estejam dispostos em apostar na variante.

Culpar única e exclusivamente a equipa técnica é errado, já que as condições nunca foram e não são as melhores. Porém, há claras falhas no processo de estratégia, resolução de problemas e em garantir índices de confiança.

O que é que foi a preparação para a temporada de 7’s? O seleccionador tem responsabilidades no calendário? E não estar concentrado só nos 7’s (António Aguilar acompanhou de perto a selecção de sub-20, mantendo-se nesta função, apesar de não existir nota oficial por parte da FPR em relação à adição desse cargo) não poderá ter sido um ponto negativo?

Mas a maior questão que a Federação deverá responder (tanto esta direcção como a anterior) é porquê ter optado por um seleccionador que não tinha qualquer experiência como treinador? Não basta ter os cursos e os livros, a experiência é um factor fundamental para o sucesso das equipas para além do elemento liderança que pareceu faltar em certos momentos capitais da selecção portuguesa.

O primeiro ano, das Series, foi um ano de aprendizagem bastante radical e que deveria ter dado noções para o GPS 2017. Infelizmente, notaram-se os mesmos problemas… valeu a última ronda, com os jogadores a voltarem aos melhores tempos, muito à conta de Duarte Moreira, Bernardo S. Cardoso, Tomás Appleton e Vasco Ribeiro.

A ausência de um circuito decente de 7’s Nacional não será, também, um factor problemático para o desenvolvimento da variante? Para quando um trabalho em conjunto dos clubes e Federação nesse sentido?

Exeter! (Foto: Manuel Gaivão Mascarenhas)

5- Desenvolvimento… o fim do rugby escolar?

Um ponto curto mas preocupante para o futuro da modalidade em Portugal. Seis clubes da Divisão de Honra, todos de Lisboa, avançaram com uma proposta na Assembleia Extraordinária da Federação Portuguesa de Rugby para o desenvolvimento: todas as acções a nível de levar o rugby às escolas, às comunidades e à população passar a ser feita pelos clubes e não pelas Associação como a ARS ou ARN.

Esta decisão levará à extinção dessas associações e removerá todo este processo das mãos da Federação Portuguesa de Rugby. Aqui tudo bem… não fosse a proposta dos clubes possuir quatro linhas, dividas em dois pontos e que pouco ou nada revelam soluções reais (proposta mostrada por um das divisões secundárias, no qual reservamos o direito de guardar a informação).

Num país onde o rugby fosse levado a sério, nunca existiria esta proposta, pois nem o pior dos clubes teria o descuido de redigir algo com tão pouca reflexão como a que foi apresentada e votada pelos seis grandes de Lisboa. O número de delgados e representantes dos seis facilitou o processo de votação e assim viu-se confirmado uma ordem que levanta tantas dúvidas na sua execução que deveria ter “mexido” com os restantes clubes seja de Lisboa, Porto, Coimbra, Évora, Montemor, Loulé etc.

Ninguém vetou, abstendo-se de votar… o que revela que não há ideias no rugby português. Pior, revela que os clubes têm falta de noção da realidade e que entrar numa austeridade sôfrega e aos atropelos só terá efeitos nocivos ao futuro da modalidade em Portugal.

Curioso que em 2016 houve uma tentativa de “quebrar” com a Associação Rugby do Sul ao impedir a entrada dos novos órgãos sociais, pondo em risco salários, acções de desenvolvimento e cursos de formação. Ou seja, houve ou não uma tentativa deliberada de afectar o funcionamento de uma das associações que mais tem feito pelo rugby Nacional desde 2015/2016? E porquê optar por um caminho que só vai abrir uma cisão ainda maior entre clubes em Portugal?

Esta proposta não é bem intencionada no seu âmago, já que a sua execução será, no mínimo, complicada. E porquê complicada? Os clubes portugueses já têm dificuldades em operar diariamente, com salários em atraso, pagamentos feitos à medida que os sponsors consigam dar vazão (não há receitas directas ou indirectas no rugby Nacional… mas há custos constantes), lutando semana após semana para manter os números de atletas. Por isso, como farão a gestão de ir às escolas, desenvolver acções, com que staff e calendarização, como vão respeitar o espaço uns dos outros e qual o plano a médio prazo?

O que aqui se pergunta é: a proposta tem profundidade ou é simplesmente uma tentativa de retirar “poder” à FPR? Os fundos que vêm de dinheiros públicos não poderão ser usados pelos clubes, uma vez que apenas se destinam às federações e associações nacionais. Outra pergunta será: alguém acredita que se os fundos seriam usados para a sua finalidade se estivessem disponíveis para os clubes?

E mais duas questões, no qual partilhamos: Quando é que foi a última vez que estes clubes, por via dos seus dirigentes máximos, marcaram presença para discutir um plano de acção da ARS (isto porque são clubes inscritos na ARS)?

Questiona-se os clubes proponentes, se a proposta apresentada foi porventura discutida com os seus técnicos e directores de formação?

Não dar valor ao trabalho de pessoas como Henrique Garcia, Afonso Bahia Nogueira, Rui Carvoeira, entre outros é uma desilusão imensa para a ingratidão que a comunidade (principalmente quem dirige) do rugby português está prestes a apresentar.

Foto: Associação Rugby do Sul

6- Cartão vermelho para a falta de respeito…

“O Senhor árbitro devia nem aparecer neste campo!”, uma frase repetida nos campos de rugby em Portugal mais vezes do que qualquer um dos puristas gostaria de ouvir. É verdade que os árbitros portugueses efectuam erros de alguma gravidade e, por vezes, apresentam uma postura tão pouco saudável que cria um sentimento de revolta nos jogadores.

Existe por vezes alguma arrogância e um comportamento pouco positivo para com os jogadores ou técnicos, o que começa logo a “partir” os valores do rugby. No entanto, os jogadores, dirigentes, técnicos e adeptos revelam faltas de educação do mais grave possível que gera alguma revolta e apreensão de quem está a apitar.

O rugby é um desporto amador em Portugal certo… mas, e voltamos a dizer, não é desculpa para se gerar tanta controvérsia e ódio para quem apita ou para quem está a ser apitado.

Não é o apito que faz do árbitro um ditador, assim como não é por sermos uma sociedade livre que temos direito em ameaçar e atacar os juízes de jogo que disponibilizam o seu tempo para arbitrar os jogos em Portugal (mesmo que seja a receber algum tipo de remuneração).

Seria interessante os árbitros realizarem algum tipo de acções de explicação de regras de jogo ou visualização de jogo junto dos vários clubes, a fim de perceberem todas as dúvidas que por vezes levantam um espírito de revolta contra o sistema durante as várias jornadas das diversas divisões do rugby português.

Outra ideia passaria colocar os árbitros (a começar pelos internacionais) a discutirem problemas de arbitragem (em Portugal temos graves dificuldades em perceber as faltas no breakdown ou os ilegalidades na formação ordenada) com jogadores estrangeiros que tenham jogado em campeonatos internacionais, como Sam Henwood, Robert Delai, PJ van Zyl, Hamish Graham, entre outros.

Do lado dos clubes, era importante punirem seriamente os treinadores, jogadores e dirigentes que façam críticas fora do contexto do jogo, que tenham acções que em nada representam os valores do rugby e que só tenham a função de elevar o clima de “agressividade” no jogo.

Os comportamentos anti-desportivos alastraram a uma agressividade total em 2016/2017, com algumas ameaças corporais em jogos da Divisão de Honra, desacatos entre pais de jogadores em jogos de formação, ameaças verbais pós-jogos e comportamentos desnecessários que só devem envergonhar todos os envolvidos.

Os árbitros erram, é certo… os árbitros por vezes apresentam uma postura negativa e contra-produtiva, certo igualmente… mas quantos jogadores desconhecem as regras, quantos treinadores perdem a “calma” e assumem um ataque feroz que cria atritos graves para todas as partes?

Para um rugby melhor, necessitamos de uma cultura de comunicação muito superior.

Quem dita as regras (Foto: Luís Cabelo Fotografia)

7- Brasil… um não obrigado pela discórdia

O amigável entre Brasil e Portugal em Junho só resultou em problemas para a FPR e, por extensão, para o rugby português. Mal o jogo acabou, iniciou-se uma caças às bruxas de proporções infelizes e que em nada ajudam para a análise ao encontro.

Vamos por partes… o Brasil era um adversário difícil, talvez só uns furos abaixo da Bélgica, mas não longe desse nível. Os Tupis têm crescido a olhos vistos, estão no processo de construir um futuro bem interessante que poderá ter em 2023 o seu pico mais alto… o apuramento para esse Mundial.

A selecção brasileira recebeu Portugal com a sua melhor equipa… os Sancery (irmãos que jogaram em Inglaterra), os Duque, Nick Smith, entre outros tantos alinharam pela equipa de Veracruz. Os brasileiros sonhavam com a “vingança” de Novembro passado e queriam demonstrar que estavam bem melhores do que nesse encontro.

Para além do mais, os Tupis estavam bem mais frescos, melhor preparados e com outro “moral”… sempre estão no caminho do crescimento e de atingirem outro patamar.

E agora Portugal… Final de época, após quase 10 meses de jogos, apuramento para o Championship perdido, jogadores já focados nas férias e exames, ou a terminarem o ano de trabalho antes de tirarem umas merecidas férias. Esgotados, cansados e já com poucas forças para disputar mais um jogo pela Selecção, por maior honra que seja.

Para além disso, os 7’s estavam a decorrer, apesar de nesse fim-de-semana não se ter dado qualquer etapa do GPS. Mas, era e devia ter sido a nossa principal preocupação, uma vez que era o futuro da variante que estava em causa.

Para além disso, o seleccionador Nacional, Martim Aguiar, estava (e está) algo isolado no comando técnico, já que foi notória a saída de David Penalva (por razões não descortinadas e oficiais) e a ausência estranha de João Pedro Varela (por motivos profissionais?). Isto colocou o antigo técnico do GD Direito a operar sozinho os Lobos, o que obrigou a um esforço suplementar, que baixa, logo de imediato, o nível estrutural da selecção assim como os níveis de confiança e técnicos.

Ausências de peso? Vasco Ribeiro, Vasco Fragoso Mendes, Manuel Vilela Pereira, José Lima, Pedro Bettencourt, Diogo Ferreira, José Leal da Costa, Fernando Almeida, Pedro Leal, Miguel Macedo e Nuno Sousa Guedes. Ou seja, 11 jogadores que estiveram envolvidos nos últimos 10 jogos da Selecção Nacional… quase uma equipa inteira por assim dizer.

Com estreias absolutas como Manuel C. Pinto, José L. Cabral, Jorge Abecassis, José R. Andrade, Caetano C. Branco e João Granate, Portugal ainda dominou largos minutos do jogo, esteve sempre a ganhar até à bola de jogo… quando o Brasil consegue um improvável ensaio.

Com todas estas condicionantes, os Tupis só conseguiram ganhar na bola de jogo… não será uma situação bem mais preocupante para os brasileiros que para Portugal? Sim, foi a 2ª derrota consecutiva de Martim Aguiar aos comandos da selecção, mas com quatro estreias absolutas e a inclusão de jogadores de último recurso… e mesmo assim o público português não soube analisar o jogo com a devida calma.

Portugal perdeu, e perdeu mal… entregaram a posse de bola nos últimos dez minutos e deram “fome” aos Tupis… foi esperar e ver a “asneira” a acontecer. As maiores questões que se podem colocar a Martim Aguiar é: porque é que José Andrade e Caetano Branco não jogaram pela selecção? O lançamento de Manuel Queirós na posição de formação não terá sido uma opção demasiado arriscada? E porquê mexer na equipa tão tarde?

A viagem ao Brasil, quase forçada, só levantou alguma onda de dúvidas em relação à qualidade de Portugal e dos Lobos. Todavia, era bom que os adeptos, treinadores, jogadores, colegas de equipa, dirigentes, entre outros, revissem o jogo, percebessem os problemas e as condições deficitárias com que Portugal teve de enfrentar na ida para o Brasil porque só assim percebem que a derrota era possível.

O Brasil não é uma selecção terceiro-mundista, não são jogadores fracos nem atletas de baixo nível… é uma selecção que está a ganhar reconhecimento, já ganhou aos Estados Unidos da América (2016) e Canadá (2017), é foco de interesse da Argentina e tem-se desenvolvido pelos programas de desenvolvimento da modalidade. É assim uma selecção tão fraca quanto isso? Ou o público português está em busca de pontos de discórdia para continuar a onda de críticas (algumas com razão e bem argumentadas) que está assente no rugby português neste momento?

Foto: Heitor Mendes Fotografia

8- Os nossos lá fora e o futuro que nos espera

Nova época, nova fornada de jogadores portugueses a tentar conquistar a Europa. É o caso de Francisco G. Vieira, que partiu para Inglaterra (Rothertham Titans) e assinou um contrato profissional. Mais um atleta a ingressar nas ligas profissionais do rugby Mundial.

José Lima conquistou o direito de jogar no TOP14, após uma bela época pelo US Oyonnax, realizando mais de metade dos jogos pela equipa que ainda disputará a Amlin Cup (a taça UEFA do rugby europeu) e singrando em França com grande brilhantismo. Todo o trabalho do centro português foi, no mínimo, fenomenal… um crescimento total, um desenvolvimento espectacular como atleta e uma afirmação de sonho para qualquer um que deseje atingir este patamar.

Pedro Bettencourt, US Carcassonne, Diogo Hasse Ferreira, Sale Sharks, são outros dois nomes fortes a representar Portugal na Europa. O “pilarão” conseguiu o feito de ser o primeiro jogador português a jogar no principal campeonato profissional de rugby inglês, provando que todo aquele trabalho da academia de Sale valeu a pena. Num país onde há queixas em relação ao futuro da primeira-linha, Diogo Ferreira deu um novo fôlego importantíssimo para as cores de Portugal.

Pedro Ávila Bettencourt parte para nova época no Carcassonne e não defraudará os adeptos com todo o seu rugby de alto esplendor, com um pontapé poderoso e uma visão de jogo de invejar.

Depois há os nossos luso-descendentes que continuam a jogar no Top14 caso de Julian Bardy (Montpellier), Samuel Marques (Toulouse), Cedate Gomes (Racing Metró) ou Mike Tadjer (Brive).

Para além destes há uma “avalanche” de outros jogadores que podem e devem jogar por Portugal nos próximos tempos… a fórmula de só usar os atletas do Campeonato Nacional (com três ou quatro adições, como José Lima, Pedro Bettencourt ou Adérito Esteves) não correu tão bem como esperado (mas também não foi um desastre, bem longe disso).

Foi explicado que jogadores como Bardy, Marques ou Tadjer não podiam participar no Trophy por razões financeiras, que comprometiam a federação. Os clubes ao qual pertencem contratualmente cada jogador permitiram a sua ida até à Selecção, desde que a Federação garantisse o pagamento do salário durante os dias que faltariam aos treinos do clube. Perante a situação actual da Federação era um custo incomportável.

Porém, a esperança “mora” (como sempre) nos adeptos… quem não gostaria de ter Mike Tadjer e Julian Bardy de novo na selecção? Falta confiança, falta convencer esses atletas que se realizarem o sacrifício de ficarem sem ganhar durante uns dias serão recompensados no futuro… é tudo uma questão de um projecto sério, capaz e consistente, sem falsos sonhos e falsas promessas, algo que é muito costume em Portugal.

Foto: Francisco Vieira

9- A Bancada… o princípio do civismo ou o fim dos valores?

Um ponto curto mas com uma mensagem forte: não tragamos a má educação e violência gratuita para o rugby!

2016/2017 foi uma temporada de melhorias significativas em algumas equipas do rugby português, assistindo-se a um rugby melhor (no geral e não só nos candidatos) em relação às três temporadas anteriores. Mais físico, mais agressivo, mais fantástico e com algumas surpresas.

Porém, a imagem do rugby Nacional fica manchada (em parte) com as cenas de ofensas, ameaças e promessas de violência na bancada. Nas meias-finais do AEIS Agronomia-GDS Cascais surgiram ameaças entre adeptos dos dois clubes, que tiveram grandes dificuldades em partilhar a mesma bancada… tanto foram adeptos mais veteranos, como foram jovens… a falta de respeito não olhou a idade, tamanhos ou estatutos.

Mas esta situação já tinha acontecido num jogo do Campeonato Challenge na Guia, com um escalar de agressividade bem alto de alguns adeptos para com a equipa de arbitragem.

No GD Direito-CDUL decorreu, também, uma situação complicada para a imagem do rugby português. Com alguma confusão instalada após o apito final, houve quem desejasse tirar satisfações com a equipa de arbitragem… desporto errado, acção errada, valores do rugby “destruídos”.

Mas estas situações foram repetitivas durante o ano e algumas colocam em cheque os valores que a comunidade local quer estabelecer: respeito, fairplay e companheirismo. Competir não significa “matar”, ganhar não significa “destruir e infligir lesões” e perder não significa “atacar a equipa de arbitragem”.

O ambiente de guerra e a loucura de criar uma situação vergonhosa foram elementos notórios em alguns jogos do Campeonato Nacional. Estes pontos têm de ser combatidos, a começar nos escalões de formação, fomentando outra forma de estar, ou seja, a correcta. Querem um exemplo de como devemos estar? Os Beach Rugby e as etapas de 2017 foram um exemplo de fairplay e boa partilha entre equipas… sim, estavam todas ali para ganhar, mas no final houve vontade de conversar, conviver e comunicar.

Mesmo no descanso entre jogos existiu um espírito positivo que devia pautar todo o rugby Nacional. Sem a postura correcta, sem pormos os valores em prática, sem colocarmos fim à hipocrisia de parte da comunidade, nunca poderemos atingir outro nível.

Foto: Miguel Rodrigues Fotografia

10- Luís Cassiano Neves… pode continuar ou não?

Tem Luís Cassiano Neves condições para continuar a liderar a Federação Portuguesa de Rugby? Antes de uma resposta, analisemos os factos.

Pontos negativos: saída das HSBC World Series; queda para o 2º escalão do rugby europeu (não contando com a liga “privada” das Seis Nações); não promoção ao Championship em 2017; quebra de confiança com os jogadores luso-descendentes; inexistência da liga Ibérica; “limpeza da casa” ficou nos seus inícios; reformulação dos modelos competitivos sem uma base “científica”; greve dos árbitros e instabilidade da Conselho de Arbitragem; falta de saneamento de contas; estagnação dos 7’s.

Pontos positivos: Portugal campeão da Europa sub-20 em 2017, 3º e 4º lugar do Campeonato da Europa de sub-18 em 2016 e 2017, respectivamente; conquista do Grand Slam do Trophy; estabelecimento do Circuito Nacional de Beach Rugby; Crescimento no número de atletas; estabilização dos orçamentos e parte das contas; proposta de soluções para o rugby português; crescimento, sem igual, da comunicação; nova imagem.

Vejamos que as contas da Federação estão numa situação bem delicada, uma vez que não existem os mesmos sponsors que em 2014 ou 2015, levantando graves problemas na hora de pagamentos. Desenganem-se os que afirmam/pensam que a saída dos Series foi negativa devido a isso mesmo: a perda de fundos internacionais da World Rugby. Estes fundos estavam destinados aos 7’s e não a pagar salários ou dívidas que a Federação vinha a contrair bem antes da entrada de Luís Cassiano Neves.

Uma prática errada, mas que facilmente foi indexada nos “livros de prática” da Federação. Todavia, o actual presidente da FPR não conseguiu explicar a importância e manutenção de alguns indivíduos da Federação Portuguesa de Rugby ou o facto de ostentarem salários incomportáveis como acontece com alguns membros da direcção (curioso, que Luís Cassiano Neves não retira qualquer “dízimo” dos cofres da Federação…) ou da estrutura federativa. É surreal a Federação ter que comportar salários de 4 mil euros mensais a seis ou oito membros, quando está na situação que se apresenta.

A renegociação de contratos não deverá ser uma prioridade ou mesmo uma exigência que os clubes devessem efectuar? Por outro lado, a proposta da actual direcção em cortar em algumas “gorduras” do rugby Nacional não foi aprovada… a votação correu a favor dos clubes que desejaram formular o tal não-plano de Desenvolvimento, puxando o “tapete” a Luís Cassiano Neves, motivando desde logo uma demissão na semana seguinte a esta votação.

Sem um orçamento minimamente decente e equilibrado, o rugby português não tem futuro. Os clubes só por si não vão conseguir governar a Federação, uma vez que estão (e com razão legítima para tal) preocupados com o seu “quintal” e a sua sobrevivência. Mas em tempos difíceis não deveríamos efectuar algum tipo de austeridade de forma a restabelecer as contas da Federação ou, pelo menos até termos novos sponsors a dar algum fôlego às contas do rugby português.

As equipas de formação estão em amplo crescimento, denotando-se bons resultados (e consistentes) nos últimos torneios internacionais. Há uma vontade em crescer e ganharmos outra dimensão no futuro próximo.

Por outro lado, a manutenção de António Aguilar e Martim Aguiar deverá ser revista, uma vez que ambos falharam nos objectivos pretendidos… ninguém pede demissões, mas sim talvez uma reestruturação e trazer alguma ajuda a ambos para conseguirem ter outra “paz” no momento de tomar decisões.

A arbitragem está em “guerra” pela falha nos pagamentos… com razão efectuaram uma greve que obrigou aos clubes a convidarem árbitros da bancada para ajuizar os jogos. Isto lançou o “pânico” e “caos” em vários jogos, salvou-se o facto da maioria dos árbitros terem feito boas exibições com grande coração e vontade.

Todavia, num momento tão delicado não teria ficado melhor aos árbitros outro tipo de acção? A Federação nunca se coibiu de liquidar os salários, houve sempre vontade em repor a normalidade e de manter uma certa “facilidade” entre todas as partes. Terá sido a greve promovida com outros propósitos?

Os 7’s podem e devem ser uma das maiores críticas aos dois anos de mandato de Luís Cassiano Neves…a aposta na variante foi pobre. Não houve uma linha de desenvolvimento, não existiu qualquer espaço para organizar um calendário sério e motivador e nunca pareceu que os 7’s fossem uma prioridade. Infelizmente, a Federação actual não vê a variante com os “olhos” que merece.

Um dos erros do rugby português é a falta de consistência e de uma linha condutora… Luís Cassiano Neves cometeu erros, falhou prazos e quebrou (poucas) promessas. Contudo, abraçou uma Federação que já estava a ferro e fogo, herdou vários contratos de trabalho complicados, recebeu uma equipa já meio “desmanchada” dos 7’s (nunca foi aposta, nem antes do tempo do actual presidente da FPR), uma relação tenebrosa com os luso-descendentes e com vários outros problemas inerentes à comunidade portuguesa da oval.

Luís Cassiano Neves tem poucas condições para seguir à frente da Federação… mas o que interessa agora não é ter poucas, é sim o dever de continuar a liderar a FPR nos próximos dois/três anos. Uma saída agora, de forma abrupta, só lançaria a Federação para um abismo que só poderia ser “parada” com a entrada de (muito) investimento financeiro que solucionasse metade das dívidas da Federação e que ajudasse a dar um salto às Selecções Nacionais de séniores (ou pelo menos investir no Desenvolvimento).

Ainda por mais, num momento em que vários potenciais candidatos à Federação Portuguesa de Rugby se expõem de uma forma tão pouco categórica nas redes sociais e na vida pública que só devem criar preocupação aos clubes nacionais… é o momento de parar, reflectir e jogar em equipa. As soluções existentes não são as melhores, nunca apresentaram soluções (nem sequer “fantasiosas”) com alguns a tentar manobrar a situação por fora… tudo aquilo que o rugby Nacional não precisa.

Luís Cassiano Neves (Foto: Público)


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É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


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