18 Out, 2017

Kielce – Problemas No “Paraíso”? Ou Apenas Um Mau Momento?

Tomé BritoMarço 11, 20178min2

Kielce – Problemas No “Paraíso”? Ou Apenas Um Mau Momento?

Tomé BritoMarço 11, 20178min2

Falta uma jornada para o final da fase de grupos da EHF Champions League e há uma equipa que tem vindo a desiludir muito nesta fase. Falamos do Kielce, o atual detentor do troféu, que com apenas uma jornada para se jogar, se encontra no 4º lugar do Grupo B e corre sérios riscos de enfrentar já nos oitavos de final um colosso, como o Veszprem. Algo se passa nos gigantes Polacos e com este artigo o Fair Play vai tentar explicar o que é.

A época passada foi de sonho para os adeptos do Kielce que viram a sua equipa manter o seu domínio interno e com Talant Dujshebaev no comando da equipa conquistaram pela primeira vez na sua história a Liga dos Campeões, naquela que foi a final mais épica de sempre. Para este ano as expectativas eram as mesmas, manter o domínio na Polónia e chegar, no mínimo, à Final Four da Champions. Tal como Barcelona ou Veszprem, clubes que têm o campeonato nacional (praticamente) garantido a cada época, o grande objetivo do Kielce é vencer a maior competição de clubes, mas este ano isso parece estar difícil, assistindo-se a um Kielce fraco e que tem vindo a somar más exibições.

Da época passada para esta até sofreram algumas perdas consideráveis (Cupic, Buntic ou Sego) mas os reforços que chegaram (Bombac, Ivic ou Djukic) vieram elevar ainda mais a qualidade da equipa (supostamente) e partiram para 2016/2017 com um plantel bastante profundo, talvez aquele com mais opções da Europa (taco a taco com Veszprem). No entanto, e apesar de na Polónia ainda estarem em 1º confortavelmente e de estarem nas meias da Taça, a época na Champions não tem corrido bem somando maus resultados, a que se juntam más exibições, nas últimas jornadas, tendo mesmo Dujshebaev já posto o seu lugar como treinador à disposição. Os problemas vão acumulando para o Kielce e os adeptos e a direção parece, estar a ficar sem paciência.

Dujshebaev e os típicos ataque de raiva (Foto: Getty Images)

RESULTADOS E ÉPOCA EUROPEIA

A época na Europa até começou bem para os Polacos que iniciaram a sua caminhada com 4 vitórias consecutivas, mas nos últimos 9 jogos venceram apenas 4 vezes, tendo perdido 5. Sendo que 3 destas derrotas foram já em 2017. As derrotas na 10º e 11ª jornadas, contra Lowen e Celje, vieram trazer muita pressão à equipa e principalmente ao treinador mas na 12ª jornada a vitória sobre o Pick Szeged veio aliviar um pouco desta pressão. Já na última jornada perderam na Suécia contra o Kristianstad e a equipa voltou a ficar sob fogo. O que preocupa não é a passagem à próxima fase, porque essa já está garantida, mas sim a irregularidade e amá qualidade de jogo que a equipa tem vindo a demonstrar desde Novembro e que nos oitavos, contra um Veszprem ou Flensburg, pode sair muito caro e podemos assistir a uma saída prematura da competição dos atuais campeões.

DEFESA, A PRINCIPAL RAZÃO PARA A MÁ ÉPOCA?

Para tentar triar algumas conclusões do que se passa com o Kielce, fomos rever os últimos três jogos da equipa Polaca na Liga dos Campeões. Estes jogos foram contra o Celje (derrota por 34-33), Pick Szeged (vitória por 28-24) e Krisitianstad (derrota por 29-25).

Nestes três jogos foi bem notória que o principal problema do Kielce se encontra na defesa acumulando erros defensivos jogo após jogo e muitas vezes são os mesmos erros a causar as derrotas da equipa, o que ainda é mais grave. Vamos proceder então aos aspetos mais técnico-tácticos.

Um dos grandes erros defensivos tem passado pela pouca ou muita agressividade que os dois defensores do centro da defesa do Kielce tem mostrado, nomeadamente, a falta de comunicação, um dos principais aspetos defensivos na táctica coletiva defensiva. Resultado disso é ver Aguinagalde e Chrapkowski a saírem ao mesmo tempo ao central ou portador da bola, deixando o pivot sozinho para receber e poder ter todo o espaço e tempo do mundo para finalizar. Noutras situações não há qualquer saída de um dos defensores, ficando assim o central com um espaço enorme para trabalhar um simples 2 contra 2 – contra o Celje, Zarabec aproveitou isto, para marcar 6 golos em 6 remates da zona central e fazendo também uns 5/6 passes para o pivot -. Chrapkowski tem sido mesmo o principal visado pelos erros defensivos, ele que devia ser o “especialista” defensivo do Kielce mas tem sido tudo menos isso. Também é justo dizer que o Polaco tem defendido ao lado de Aguinagalde nos últimos jogos e isso é quase como que defender por dois.

Outro dos problemas observados tem sido nos extremos que ora ajudam demasiado, ora não ajudam nada. Mais uma vez patente a falta de táctica coletiva defensiva. Na 1ª situação deixam um ângulo enorme para o ponta atacante, bastando só o lateral atacar entre o primeiro e segundo defensor e largar para o ponta poder finalizar. Na 2ª situação o lateral fica com um espaço enorme para atacar o seu defensor e poder trabalhar tanto para dentro como para fora (se o pivot fixar no lado onde existe esta vantagem, ainda melhor ficando assim 3 atacantes – lateral, pivot e ponta – para apenas 2 defensores – primeiro e segundo – porque quem estava com o pivot não costuma acompanhar, o que está mal).

No ataque, o Kielce apresenta grandes dificuldades  contra equipas que utilizam o sistema defensivo 5-1 (com marcação ao central). Estas dificuldades devem-se à marcação ao central que obriga os laterais a jogar mais no 1 contra 1, porque não conseguem embalar pelo central ou através de cruzamentos, quando a maior força dos laterais do Kielce é o remate exterior. O facto dos laterais receberem a bola parados e de o ataque ser muito estático, dependendo muito do que os centrais conseguem fazer, não ajuda.

Para terminar, notou-se por diversas vezes uma precipitação do ataque em querer resolver rapidamente. O facto de quererem resolver tudo muito depressa leva à acumulação de falhas técnicas e ao contra-ataque adversário, o que contra equipas de valor mais pequeno costuma ser fatal para o resultado final.

Chrapkowski, o “especialista” defensivo do Kielce tenta parar Narcisse (Foto: Getty Images)

DESTAQUES INDIVIDUAIS? POUCOS

O título deste tópico diz tudo. Têm sido muito poucos os destaques (positivos) individuais do Kielce esta época. Para começar Aguinagalde tem sido o melhor jogador da equipa (a nível atacante) e tem continuado a mostrar que é sem sombra de duvidas o melhor pivot da atualidade. É impressionante a capacidade do Espanhol a ganhar o espaço e a sua facilidade para finalizar, podendo marcar golo de qualquer forma. Lijewski, que esta época ganhou em definitivo o lugar a lateral-direito, também tem sido muito importante, porque ao contrário de Bielecki ou Jurecki, e apesar de também ter a sua força no remate exterior é um lateral que se consegue safar no 1 contra 1 fazendo valer nesta situação o seu físico.

Foto: Getty Images

Passando aos negativos, há um nome que se destaca de todos os outros. Dean Bombac. Uma sombra da época passada quando marcou mais de 100 golos na Champions pelo Pick Szeged. No ano passado espalhava magia no campo de Andebol a cada ataque, seja com um passe para o pivot, com uma finta, ou com um fantástico golo apoiado, agora, parece que se arrasta em campo, não consegue fazer a diferença e a sua continuidade no Kielce no final da época parece estar em risco. Para terminar, falaremos também de Michal Jurecki, este não por se estar a arrastar em campo, mas sim fora dele. Em forma é o melhor jogador desta equipa, um misto de força e técnica, mas que esta época devido a lesões não tem podido dar o seu contributo a 100%. O sucesso do Kielce parece passar muito pela saúde do Polaco e caso queiram continuar em prova nos oitavos era bom que Jurecki estivesse em forma.

Bombac tem desiludido em Kielce (Foto: Getty Images)

Hoje o Kielce recebe o Meshkov Brest e joga a possibilidade de defrontar, ou não, um colosso nos oitavos. Em caso de vitória terminam em 2º lugar do grupo e defrontam assim o 6ç do grupo A – Wisla Plock ou Silkeborg – em caso de derrota ou empate irão terminar entre o 3º e 5º lugar, o que faz com que marquem encontro com um dos colossos do grupo A – Veszprem, Flensburg ou Kiel. Espera-se uma última jornada muito disputada. Para seguir atentamente na ehf.tv.


2 comments

  • João Perfeito

    Abril 6, 2017 at 4:10 pm

    não é apenas físico

    Reply

  • João Perfeito

    Abril 6, 2017 at 4:05 pm

    E tinha razão. Montpelier eliminou o Kielce nos Oitavos de Final.
    Além dos aspectos técnico/tácticos parece-me que esta equipa mentalmente está longe do ano passado.
    Quanto ao Montpellier que agradável que é ver jogadores como Diego Simonet e Dolenec brilharem a alto nível na Liga dos Campeões. Uma equipa que dá gosto ver jogar e prova a espectacularidade de este desporto que ao contrário que muitos pensam não é apenas fixo.
    Gostava apenas de partilhar também com o autor destes textos a qualidade dos centrais da Eslovénia. É inacreditável um país com menos de 2 milhões de habitantes produzir Zorman, Bombac, Bezjak, Zarabec e Stas Skube. Que qualidade artística! Aliás o sucesso da Eslovénia do Mundial de Andebol prova que nem sempre ganham os melhores fisicamente.

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