17 Ago, 2017

Mundial de Futebol de Praia – Road to Bahamas (Parte II)

André CoroadoAbril 27, 201711min0

Mundial de Futebol de Praia – Road to Bahamas (Parte II)

André CoroadoAbril 27, 201711min0

A poucos momentos do início do Mundial de Futebol de Praia FIFA Bahamas 2017, o Fair Play finaliza a revisão do percurso das selecções apuradas até Nassau, iniciada aqui. Desta vez, a selecção anfitriã e os restantes representantes da CONCACAF são passados em revista, bem como as selecções da Ásia e da Oceânia que vão dar espectáculo na beach arena do Malcolm Park.

Anfitrião: Bahamas

As Bahamas, enquanto país-sede do mundial, gozam de apuramento directo para o torneio. Tratar-se-á da primeira presença do país na competição, o que por si só torna, na nossa opinião, controversa a atribuição da organização da prova à nação das Caraíbas.

CONCACAF

Equipas apuradas: Panamá, México

Campeão: Panamá

Surpresa: Panamá

Decepção: El Salvador

Visando empreender um ensaio geral para a grande competição global, a capital das Bahamas apressou-se a assegurar a organização do torneio de qualificação da CONCACAF para o mundial. A iniciativa da federação anfitriã da prova constituiu também uma manobra estratégica inteligente na medida em que implicava a participação da formação da casa, que assim poderia integrar um torneio de elevada competitividade na sua preparação para o torneio onde se iria estrear (as Bahamas nunca haviam participado no mundial e tentavam a todo o custo atingir um nível condizente com o dos 15 adversários que iriam receber nas areias de Nassau). Orientados por Alexandre Soares, os locais procuravam contrariar o favoritismo dos históricos da região: El Salvador, México, EUA e Costa Rica. De facto, as previsões que colocavam estas 4 equipas nos lugares cimeiros da prova acabaram por se revelar redondamente enganadas; todavia, não seriam as Bahamas os tomba-gigantes da prova.

Antes da competição, poucos teriam imaginado que o estatuto de campeão da CONCACAF seria ostentado 2 meses mais tarde naquela mesma arena do Malcolm Park por uma nação que nunca passara a fase de grupos do torneio de qualificação. No entanto, assim foi a história escrita pela selecção do Panamá na competição continental: uma selecção que fez das fraquezas forças para se transfigurar jogo após jogo e acabar por derrotar um após outro cada um dos 4 colossos da América do Norte e Central. Com um estilo de jogo muito físico, baseado na condução de bola pelo chão, aqui e ali abrilhantada por um toque de criatividade por parte dos seus jogadores mais dotados tecnicamente (atente-se em Alfonso Maquensi, Pascual Galvez ou Gilberto Rangel), o Panamá demonstrou organização, união e crença na forma imponente como foi assegurou uma qualificação tão merecida quanto inesperada.

A derradeira (e porventura mais injustiçada) vítima dos panamenhos foi a selecção de El Salvador, que caiu aos pés da surpresa do torneio na sequência de uma derrota nas grandes penalidades, numa partida muito fechada em que o Panamá teve o mérito de anular as temíveis armas de Los Cuscatlecos. A eliminação trata-se de um golpe terrível para as aspirações de Agustín Ruiz e demais companheiros, arredados do mundial pela segunda vez consecutiva, mesmo tendo vencido todos os outros jogos da prova (incluindo um triunfo sobre o mesmo Panamá na fase de grupos, também por via do desempate na marcação de grandes penalidades). Para chegar ao jogo decisivo das meias-finais, o Panamá escavou um canal através da CONCACAF, deitando por terra as ambições de EUA (derrotados por 6-4 nos quartos de final e mais uma vez afastados do mundial após uma prestação sem brio) e Costa Rica (Los Ticos caíram precocemente na fase de grupos mercê das derrotas diante de El Salvador e Panamá).

Mais sorte teve a selecção do México, que contou com um calendário mais apetecível na caminhada rumo ao mundial. Apesar de as exibições dos Aztecas não terem sido especialmente convincentes, a turma de Ramón Raya não apresentou dificuldades perante as formações menos experientes do Canadá, de Trindade e Tobago e de Guadeloupe, capitalizando da melhor forma a sua experiência. Ramón Maldonado foi o herói da qualificação mexicana ao apontar 12 golos que lhe valeram o estatuto de melhor marcador da competição, numa equipa que mantém como vozes da experiência Angel Rodríguez e Benjamim Mosco, agora complementados por muitas caras novas. Contudo, também esta nova geração mexicana se submeteu de forma mais ou menos passiva ao jugo totalitário do Panamá, numa final em que a maior consistência dos homens do Canal foi evidenciada (4-2). Restam, por isso, muitas dúvidas sobre as reais chances do México neste campeonato do mundo.

No campo das surpresas pela positiva destaca-se ainda a prestação notável de Guadaloupe, uma selecção que nunca poderia estar presente no mundial por não ser membro FIFA, mas deu provas de grande crescimento ao atingir as meias-finais da prova, num percurso que incluiu a eliminação das Bahamas, após um sólido triunfo por 5-3. Em sentido inverso, a prestação tímida da selecção da casa reforça as dúvidas sobre o que poderá ser alcançado por St. Fleur e demais companheiros nas suas areias natais e levanta sérias questões relativamente à legitimidade da escolha de um país com escassa tradição na modalidade como sede do mundial.

AFC

Equipas apuradas: Irão, EAU, Japão

Campeão: Irão

Surpresa: EAU

Decepção: Omã

Um grande jogo de Ozu Moreira não evitou o triunfo do Irão [Foto: JFA]
 

Já depois de o sorteio do mundial ter sido efectuado (numa cerimónia que teve lugar em Nassau a 28 de Fevereiro, após a conclusão do torneio de apuramento da CONCACAF), chegou finalmente a vez de as selecções asiáticas entrarem em campo por forma a determinar as vagas em falta nos grupos B, C e D. Desta vez, as praias malaias de Kuala Terengganu substituíram o Qatar como anfitriãs da prova, numa edição marcada pela escassez de participantes (apenas 12, um número que contrasta com as 16 equipas de edições passadas).

No meio de tantas mudanças, a imutabilidade da qualidade exibicional do Irão sobressai, principalmente se atendermos ao registo avassalador dos comandados de Mohammad Mirshamsi: 6 vitórias em outras tantas partidas, todas por pelo menos 2 golos de diferença (a maioria dos quais por resultados bem mais dilatados) e a reconquista do estatuto de reis asiáticos de forma contundente. Apenas a partida decisiva das meias finais frente ao arqui-rival Japão se investiu de maiores dificuldades para os persas, mas a maior intensidade de jogo e consistência táctica do Irão acabaria por estabelecer uma diferença entre as duas selecções traduzida no 8-6 final. A final frente aos Emirados Árabes Unidos constituiu um momento de celebração e júbilo para Ahmadzadeh e companhia, coroando a conquista do ceptro asiático com nova goleada por 7-2. Acima de tudo, o Irão prima pela maturidade técnico-táctica que foi adquirindo ao longo da última década, demonstrando uma coesão defensiva assinalável e sistemas de jogo muito bem trabalhados, que oscilam inteligentemente entre o 3:1 e o 2:2 clássicos e resultam num estilo particularmente rápido e directo. Num plantel equilibrado e coeso, Mohammadali Mokhtari foi, desta vez, o maior destaque, assenhoreando-se dos prémios de melhor marcador e melhor jogador do torneio com 12 golos.

O segundo destaque pela positiva vai para a selecção dos Emirados Árabes Unidos, que se sagrou vice-campeã asiática contra todas as expectativas. É certo que a equipa do golfo apresenta pergaminhos na modalidade, contando com 4 mundiais no currículo, e já com este plantel havia dado provas de qualidade, ao derrotar Rússia e Portugal na Copa Intercontinental de 2015. Todavia, o 8º lugar alcançado na última Copa Intercontinental, na qual o conjunto então comandado por Guga Zlockowick revelara efectiva falta de competitividade, permitiam entrever dificuldades para a formação dos emirados, tornando mais verosímil o apuramento de equipas como Omã ou Líbano. Foi, por isso, uma agradável surpresa verificar que a inépcia táctica evidenciada 4 meses antes no Dubai pelos homens do golfo não deixou vestígios numa equipa que começou a deixar uma excelente imagem desde o primeiro instante, vencendo veementemente o Iraque (6-0) e o Qatar (8-1) nas rondas inaugurais. Sendo necessário vencer o Japão para assegurar a presença nas meias finais, os pupilos de Mohamed Bashir confirmaram o excelente momento de forma que atravessam ao surpreender os nipónicos com um triunfo por 5-4. A qualificação para o mundial ficaria selada com uma vitória nas semi-finais arrancada a ferros sobre o sempre combativo Líbano, após grandes penalidades (empate 4-4 em tempo regulamentar), carimbando o regresso dos Emirados Árabes Unidos aos grandes palcos mundiais.

A lista de apurados asiáticos fica completa com a referência ao Japão – a única equipa a par do Brasil que consegue assim marcar presença em todas as 9 edições da prova. Porém, os discípulos de Marcelo Mendes não contaram com facilidades, atendendo à inesperada derrota com os Emirados Árabes Unidos (que haviam sido treinados por Mendes durante largos anos). O país do sol nascente teve de aguardar os resultados dos outros agrupamentos para no final do dia ser repescada para as meias finais enquanto melhor 2º classificado dos 3 grupos, cabendo-lhe a difícil tarefa de defrontar o Irão nas meias finais. Sendo notória a qualidade técnica do plantel nipónico, tal como a organização táctica rigorosa que actualmente enverga, o Japão parece permanecer neste momento um degrau abaixo do estatuto de superpotência mundial ostentado pelos iranianos, o que acabou por condizer com a derrota nas meias finais. Ainda assim, foi sem margem para dúvidas que o Japão venceu o Líbano (6-3) na partida de apuramento do 3º lugar, assegurando o passaporte para as Bahamas.

Em sentido inverso vale a pena destacar o desempenho desapontante da selecção omanesa, presente no mundial de Espinho. Yahya Al Araimi, Ghaith e Khaled Al Oraimi não foram além da fase de grupos do torneio asiático nesta ocasião, mercê da derrota por 4-3 diante do Líbano na partida decisiva. Os libaneses, por sua vez, repetiram o 4º lugar de 2015, uma vez que o bom momento iniciado com a vitória perante Omã não encontrou eco numa meia final teoricamente acessível frente aos Emirados Árabes Unidos, acabando depois goleado pelo mais experiente Japão. Ainda não foi desta que Haitham, Merhi e restantes companheiros reservam um lugar no mundial, mas vale a pena sublinhar o bom trabalho efectuado, que mais tarde ou mais cedo deverá ser premiado (veja-se o caso do Equador, que após 3 torneios no 4º lugar da CONMEBOL carimbou a presença no mundial das Bahamas).

Por seu turno, outra selecção que deixou uma boa imagem em Kuala Terengganu foi o Bahrain, liderado pelo português João Almeida, que terminou a sua participação na fase de grupos apenas com uma derrota frente ao Irão, mas 3 vitórias meritórias nas outras partidas. Como nota final, cabe-nos destacar a prestação do Afeganistão, também integrante do grupo A, uma selecção oriunda de um país em guerra que mesmo assim demonstrou bons indícios de qualidade desportiva, vencendo as formações da Malásia e da China.

OFC

Equipa nomeada: Taiti

Lamentavelmente, o último torneio de qualificação disputado na Oceânia tendo em vista o mundial de futebol de praia remonta a 2011, quando o Taiti se apurou pela primeira vez para a prova. Desde então, a confederação tem-se limitado a nomear um representante para participar no campeonato do mundo, que inevitavelmente acaba por ser o Taiti, mercê das duas presenças consecutivas no Top 4 do mundial. O actual vice-campeão do mundo irá assim disputar o seu 4º mundial consecutivo, mas poderá ressentir-se da falta de competitividade que enfrenta nos longínquos confins da Polinésia.

As dúvidas sobre o estatuto de favorito do Taiti começam a dissipar-se dentro em breve, após o pontapé de saída da competição no Malcolm Park, em Nassau, cabendo a Irão e México a honra de dar início à competição. Um duelo que promete, aliás como tantos outros a que irmos assistir ao longo de uma semana e meia.


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