14 Dez, 2017

[Fact Check] Está a natação nacional a aproximar-se da elite mundial?

João BastosFevereiro 22, 201715min5

[Fact Check] Está a natação nacional a aproximar-se da elite mundial?

João BastosFevereiro 22, 201715min5

A natação é o terceiro desporto com maior número de praticantes federados em Portugal, mas para o grande público não tem sido sinónimo de feitos extraordinários a nível internacional. O Fair Play foi tentar perceber o que falta à natação portuguesa para estar ao nível da elite mundial

Bessone Basto, Alexandre Yokochi, José Couto, Nuno Laurentino, Diogo Carvalho ou Alexis Santos são nomes de nadadores portugueses mais ou menos conhecidos do público menos familiarizado com a natação nacional.

Eles (e outros) foram responsáveis pelas páginas mais douradas da História da natação portuguesa a nível internacional, contribuindo para o “nosso” palmarés com finais em Jogos Olímpicos e pódios em campeonatos da Europa.

Mas apesar destes feitos, a natação portuguesa ainda está longe de ter o sucesso internacional de outras modalidades que até têm menor expressão em termos de praticantes, como o atletismo, judo, canoagem ou triatlo.

De facto, é unânime afirmar que ainda há um longo caminho a percorrer nesta modalidade para atingir o topo e por isso o Fair Play tira o retrato à natação portuguesa à luz de três critérios, tentando situar o estado da arte de um dos desportos mais globalizados do Planeta.

É claro que há muitos outros critérios que podem e devem ser objecto de análise no sentido de perceber se estamos a evoluir ou a regredir, tais como as classificações internacionais, o número de mínimos obtidos para as grandes competições mundiais, o aumento da exigência correlacionado com o número de participantes em campeonatos nacionais, etc…

Mas escolhemos outros três, todos relacionados com as nossas melhores marcas: 1) As diferenças dos recordes nacionais para os recordes do mundo, 2) a evolução dos recordes nacionais vs evolução dos recordes do mundo e 3) em que ano os recordes nacionais seriam recordes mundiais.

Para estimar a evolução, preferimos fazer este exercício por comparação entre os recordes nacionais e mundiais que vigoravam no dia 1 de Janeiro do ano 2000 e os que vigoram no dia da publicação deste artigo (22 de Fevereiro de 2017).

Nesta análise apenas vamos considerar as 16 provas do calendário olímpico (e em piscina longa, obviamente), porque por serem nadadas em contexto de JO confere-lhes maior competitividade.

Qual a evolução da valia dos recordes nacionais face aos recordes do mundo?

Começando pelo sector masculino, tentamos analisar a diferença entre os recordes nacionais para os recordes mundiais nos dois períodos em observação.

Do lado esquerdo da tabela seguinte encontramos os recordes nacionais (a preto) e mundiais (a azul) no dia 1 de Janeiro de 2000. Do lado direito os mesmos recordes mas nos dias de hoje.

Diferença entre os recordes nacionais e mundiais no sector masculino | Fonte: Fair Play

As percentagens significam a valia do record nacional quando comparado com o equivalente record mundial. Pegando no exemplo de uma prova de 100 metros (que facilita a explicação quando extrapolada para a sua percentagem), o record nacional dos 100 livres que vigorava no ano 2000 – Nuno Laurentino, com 51.33 – equivalia a 93,92% do record mundial nesse ano – Alexander Popov, com 48.21.

“Trocando por miúdos”, se Popov e Laurentino nadassem lado a lado (se estiverem a ler, fica o desafio. Ainda hoje seria muito prazenteiro de assistir) e registassem aqueles tempos, quando o russo tocasse na parede, Laurentino estaria exactamente nos 93,92 metros, faltando 6,08 metros para a concluir.

Já se Artur Costa desafiasse Kieren Perkins nos 1500 metros livres, afastar-se-ia do australiano 5,80 metros em cada 100, faltando-lhe completar 87 metros no momento em que Perkins tocasse na parede.

Ultrapassada a explicação, vamos à observação.

E desta observação, salta logo à vista que (e apenas considerando estes dois períodos), o nadador português que mais se aproximou de um record mundial foi José Couto nos 100 metros bruços, com um tempo que lhe valeu 96,65% do record do mundo do belga Deburghgraeve. E para além de Couto, mais nenhum nadador ultrapassou a barreira dos 96%.

Mas o que mais importa analisar nestes dados é a capacidade dos recordes nacionais evoluírem como um conjunto, significando isso que a natação portuguesa estará mais longe ou mais perto do nível internacional.

E com base nestes dados, concluímos que o nível da elite masculina portuguesa está mais próxima da elite masculina internacional.

Mas muito pouco! Com efeito, a média das performances nacionais no ano 2000 era de 94,25% face aos recordes do mundo. Em 2017 é de 94,54%. Ou seja, a natação portuguesa no sector masculino evoluiu 0,29 pontos percentuais no século XXI face à natação internacional.

Relativamente às senhoras, é notório que ainda há mais trabalho a fazer no sentido de alcançar a elite mundial do que nos homens, se não, vejamos:

Diferença entre os recordes nacionais e mundiais no sector feminino | Fonte: Fair Play

Ao contrário dos homens, o record nacional que mais se aproxima do record mundial é “actual” – as aspas estão a ladear a palavra porque o record nacional dos 100 metros mariposa da portista Sara Oliveira já data de 2010. De resto, quando Sara estabeleceu os 58.76, o record mundial era de 56.06. Ou seja, a nossa mariposista chegou a nadar em 95,4% do record do mundo que já em 2010 pertencia a Sarah Sjoström.

Repare-se que a nossa melhor performance feminina, fica abaixo da média de performances masculinas em 2017. Isso é sintomático de uma realidade que também é observável nas convocatórias para as grandes competições internacionais, em que invariavelmente são convocadas menos nadadoras do que nadadores para representar a selecção nacional: o nível da natação feminina portuguesa é mais baixo que o nível da natação masculina.

E como está a evoluir?

Existindo esta realidade, há que perceber se ela tende a ser corrigida ou agravada, tentando perceber se a nossa elite feminina – para além de estar a progredir – progride a um ritmo superior à elite masculina.

A verdade é que no virar do milénio a natação portuguesa “valia” 92,66% da natação mundial, ao passo que no dia 22 de Fevereiro de 2017 (hoje, para quem está a ler o artigo no dia da sua publicação), a natação feminina tem uma valia média de 92,74%.

Isto é, as nossas nadadoras estão-se a aproximar das melhores nadadoras do mundo, mas de uma forma muito ténue (0,08 pp) e a uma taxa de evolução 3,2 vezes inferior à dos homens.

Um dado positivo que não vem plasmado na tabela é o facto de no ano 2000 e nos anos seguintes, na natação feminina haver provas que estavam estagnadas há vários anos e hoje isso não acontecer.

Exemplo maior é o record nacional dos 800 metros livres de Alexandra Silva, que foi estabelecido em 1983 e no ano 2000 ainda vigorava. Também o record nacional dos 200 costas de Ana Barros foi estabelecido em 1993 e só viria a ser batido em 2014.

Hoje é notório que a natação feminina em Portugal evolui mais rapidamente e os recordes são batidos com maior cadência. Mas isso veremos em seguida.

Evolução dos recordes no século XXI

Outro critério que aqui abordamos é a evolução dos recordes nacionais e mundiais.

Ou seja, já analisamos as diferenças entre os recordes nacionais e mundiais, mas há que perceber as tendências das duas realidades. Para que se cumpra o óbvio objectivo da natação portuguesa se aproximar do nível internacional, é preciso que os nossos recordes evoluam mais rápido que os recordes do mundo.

Pode parecer redundante esta análise, uma vez que já concluímos que os nossos recordes estão mais próximos dos recordes mundiais, mas este critério traz um factor de correcção importante nas provas em que o record português evoluiu bastante mas o record mundial evoluiu mais ainda (em proporção).

Nesse caso – segundo o primeiro critério – ficamos mais longe, depreciando a média. Com o critério que agora vamos seguir, o exemplo referido acaba a valorizar a média de progressão.

Evolução dos recordes nacionais e mundiais masculinos no século XXI | Fonte: Fair Play

Neste critério, a probabilidade de existir um outlier (observação muito afastada das demais) é grande, o que pode desvirtuar a análise. Basta que apareça um talento absolutamente fora do comum (como Adam Peaty nos 100 bruços), ou que em 2000 o record fosse pertença de um nadador que não era um verdadeiro especialista da prova (Nuno Laurentino foi um especialista dos 50 e 100 costas, mas “a perninha” que fazia aos 200 costas, 100 livres e 200 estilos chegava para ser recordista nacional também nessas provas).

Mas feito o interlúdio, analisemos este critério que até é animador para as nossas cores, ou não se verificasse logo que a maior evolução da tabela é de um record português (6,2% de Nuno Laurentino para Diogo Carvalho nos 200 estilos), enquanto o que menos evoluiu é um record do mundo (0,77% de Ian Thorpe para Paul Biedermann nos 400 livres).

Outra observação animadora é o facto de nas 16 provas consideradas, os portugueses registarem uma evolução maior que os melhores do mundo em 10 provas.

Relativamente às médias de evolução, aqui sim, encontramos valores muito semelhantes aos que encontramos nas médias das diferenças percentuais. Segundo este critério, a natação mundial masculina evoluiu 3,31% no século XXI, ao passo que a natação portuguesa melhorou 3,66%.

Ou seja, estamos a melhorar os nossos recordes a um ritmo de 0,35 p.p. superior à evolução da natação mundial.

Evolução dos recordes nacionais e mundiais femininos no século XXI | Fonte: Fair Play

Relativamente ao sector feminino, há que fazer a ressalva que os dados nacionais estão deflacionados pelas estafetas. Sobretudo pela estafeta de 4×200 livres cujo actual record nacional absoluto é de uma equipa júnior.

Mais uma vez é Sara Oliveira e os seus 58.78 dos 100 mariposa que mais se destacam, chegando quase aos 7% de evolução, face a Ana Francisco. Esta evolução é tanto mais notável porque Ana Francisco não era uma nadadora “qualquer”, tendo batido por 7 vezes este record ao longo da sua carreira.

O “problema” do record nacional de Sara Oliveira é que parece que está para ficar mais alguns anos…mas isso é outra conversa.

No sector feminino, a distribuição da evolução dos máximos é mais parcimoniosa entre nacionais e mundiais, do que no sector masculino. Em 8 provas os nossos recordes evoluíram mais do que os recordes mundiais e em 8 provas as melhores marcas do mundo evoluíram melhor que as melhores marcas portuguesas.

Relativamente à média, as portuguesas evoluíram 3,37% no mesmo período em que o mundo evoluiu 3,28%.

A conclusão é semelhante à do critério da diferença (o que indica que em termos médios, os dois estão perfeitamente alinhados): a natação feminina portuguesa não está estagnada, mas está a evoluir menos que a natação masculina.

Para o espaço que a natação feminina tem de fechar para a elite mundial, é desejável que os recordes nacionais melhorem mais do que apenas 0,09 pontos percentuais acima da evolução dos recordes mundiais.

Mas também neste ponto há uma vantagem para a natação feminina em relação à masculina. É que dos recordistas masculinos apenas Diogo Carvalho e Alexis Santos estão no activo (Luís Vaz também, mas tem-se apresentado longe do seu melhor). Já nas senhoras, Diana Durães, Tamila Holub e Victoria Kaminskaya têm pulverizado sistematicamente os seus recordes, sendo que também Francisca Azevedo, Ana Leite e Ana Rodrigues estão aí na luta por melhorar os máximos que já são seus.

Daqui a quanto tempo teremos um recordista do mundo?

O terceiro dado que aqui tentaremos analisar relaciona-se com a localização temporal da natação portuguesa no contexto desportivo mundial. Ou seja, vamos tentar perceber em quantos anos o nível nacional está atrasado em relação ao nível internacional.

Para tal, vamos analisar um parâmetro muito simples: perceber retrospectivamente em que ano é que os recordes nacionais seriam recordes mundiais e daí tirar a conclusão sobre os anos de atraso que levamos em relação ao topo.

Anos de atraso para o record do mundo | Fonte: Fair Play

Este é, de longe, o item mais desmoralizante!

À frente das marcas estão os anos em que o respectivo record nacional seria record mundial. Dos actuais máximos portugueses, o que seria máximo mundial mais recente é o dos 100 bruços masculinos de Carlos Almeida que é melhor que o tempo estabelecido em 1991 pelo húngaro Norbert Rózsa. 26 anos já passaram!

Mais! Ainda temos tempos que são piores que o primeiro máximo mundial registado (estafeta feminina 4×200 metros livres – o primeiro record mundial oficial é de 1982, com 8:02.27).

E pior ainda, perceber que neste critério estamos (muito) pior que no início do século!

No ano 2000 o atraso da natação masculina era de 27,31 anos e o da feminina de 27,57. Em 2017, o atraso da natação masculina é de 34,69 anos e da natação feminina de 40,47. Juntando os dois sectores, levamos um atraso de 37,58 anos para a elite mundial.

O mesmo que dizer que a natação portuguesa está agora a chegar ao ano de 1980!

Bom, mas agora que já fizemos soar os alarmes, é importante contextualizar estes números. É que nos finais dos anos 70 e no início da década de 80 a natação internacional viveu um período de grande evolução.

A regulamentação muito liberal (não havia o limite dos 15 metros para o percurso subaquático, por exemplo), aliada ao boom tecnológico que trouxe piscinas mais “rápidas” e ao período de guerra fria que deu a conhecer ao mundo as “vitaminadas” alemãs de leste (a título de exemplo, Kornelia Ender estabeleceu como record do mundo dos 100 livres o tempo de 58.25 em 1973. 3 anos depois a mesma Ender já fazia 55.65) e os portentosos soviéticos levaram a que nesse período os recordes do mundo caíssem com uma velocidade alucinante.

Um período que só encontrou paralelo em 2008/2009 aquando da introdução dos fatos de poliuretano (entretanto banidos).

A natação portuguesa está neste momento ao nível desse período turbulento. Uma vez ultrapassada essa zona de turbulência, esta comparação vai melhorar substancialmente, uma vez que nos anos 90 grande parte dos recordes mundiais ficaram estacionários durante muito tempo.

Continuando no exemplo dos 100 livres femininos, depois das nadadores da RDA, o record mundial precisou de 18 anos para baixar 1 segundo.

Mas afinal, está a natação portuguesa a aproximar-se da elite mundial?

Depois de analisar os dados que aqui transmitimos, a conclusão parece óbvia: a natação portuguesa ainda tem de fazer um caminho das pedras muito longo para poder chegar ao topo mundial.

Os números não mentem, mas no final do dia não são os números que nadam.

Uma coisa podemos ter a certeza: o grau de profissionalismo com que a natação é trabalhada em Portugal é desmesuradamente superior ao que assistíamos há alguns (não muitos) anos.

Já é raro haver populações no nosso país sem acesso a uma piscina; a geração de técnicos que está a tomar conta dos destinos da natação portuguesa é altamente qualificada e absolutamente devota à natação, funcionando permanentemente em rede com a comunidade internacional; nas autarquias ainda há muito trabalho a fazer no sentido de compreender que as escolas de natação só podem fazer sentido se coordenadas pelos clubes; e obviamente a política desportiva nacional tem de ter estratégia. Os sucessivos governos teimam em perceber que quanto menos investem, mais dinheiro gastam!

No meio deste quadro, obviamente que o contexto não é o mais favorável, mas havendo piscinas, havendo profissionais de excelência, havendo nadadores determinados…por que não havemos de acreditar que um dia venhamos a inscrever o nome de Portugal na lista de recordes do mundo?!

Porque numa coisa os nadadores portugueses são melhores que os melhores do mundo: no amor e na dedicação à sua modalidade e essa é a melhor casa de partida para o projecto da natação portuguesa.


5 comments

  • Ricardo Pedroso

    Fevereiro 25, 2017 at 7:37 am

    Caro João Bastos.
    Agradeço a sua brevidade na resposta.
    Continuação de bom trabalho e se possível que escreva mais sobre a nossa natação Portuguesa que tanto adoro.
    Cumprimentos

    Ricardo Pedroso

    Reply

  • Ricardo Pedroso

    Fevereiro 24, 2017 at 2:53 pm

    Caro João Bastos.
    Era para lhe informar que a marca do ex atleta Ricardo Pedroso na modalidade de natação na prova de 200 metros livres não foi de 1:52:69 mas sim de 1:52:15 realizado no campeonato nacional de verão na piscina do Restelo em Julho de 2000 como novo recorde nacional.
    Agradeço que faça a alteração da tabela acima referenciada relativamente aos recordes nacionais em relação aos recordes atuais e do mundo.

    Ricardo Pedroso

    Reply

    • João Bastos

      Fevereiro 24, 2017 at 5:07 pm

      Caro Ricardo,

      Obrigado pela observação.
      Todos os tempos constantes da tabela (quer nacionais, quer mundiais) são os recordes nacionais e mundiais que vigoravam no dia 1 de Janeiro de 2000.
      Por isso o tempo considerado foi o que obteve nos CNC da 1ª divisão no Jamor a 18 de Dezembro de 1999, referido no Livro de Recordes da FPN (e em destaque no “Record” – http://www.record.pt/modalidades/detalhe/natacao-pedroso-recordista-proximo-de-sydney.html)
      Como não é a primeira pessoa que me faz essa observação em relação aos tempos, de modo que vou rectificar o texto de forma a ficar mais perceptível que são as marcas que constituíam record na viragem para os 00’s.

      Cumprimentos,
      João Bastos

      Reply

    • João Bastos

      Fevereiro 23, 2017 at 1:49 pm

      Caro João Gomes, muito obrigado pelo reconhecimento!
      No Fair Play, quando abordamos o desporto nacional, encaramos a qualidade dos conteúdos como obrigação para estar em linha e para dignificar a qualidade do trabalho dos agentes desportivos que temos no nosso país. É sempre gratificante sentir que atingimos esse objectivo.
      Cumprimentos!

      Reply

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