25 Nov, 2017

Meu nome é Cláudia e sou viciada… em CrossFit

Cláudia Espirito-SantoJunho 22, 20177min0

Meu nome é Cláudia e sou viciada… em CrossFit

Cláudia Espirito-SantoJunho 22, 20177min0

O meu nome é Cláudia. Com 36 anos fiz o meu primeiro treino de CrossFit, e nunca mais olhei para trás. Sou viciada, e considero que sou melhor por isso.

Fiz o meu primeiro treino com 36 anos de idade e o meu primeiro pino contra a parede nesse mesmo dia. Tinha um frio na barriga, um nó no estômago e aquela pequena gigante “Voz” devastadora, que existe dentro de todos nós sussurrava “tu não consegues”. À minha volta os meus companheiros de treinos contrariavam “Tu consegues, vais-te superar”. E consegui… superei. É caso para dizer que foi amor ao primeiro pino. Abriram-se as portas de um novo mundo, virado do avesso e repleto de possibilidades. Nessa posição podia aprender a fazer flexões e mesmo andar. Foi nesse momento que realizei que “a Voz” tinha perdido a sua força e eu tinha descoberto todo um novo mundo, onde “não consigo” passava a “um dia vou conseguir”.

Mas o que é de facto CrossFit e o que é que eu vou atingir?

A definição oficial publicada pela CrossFit International é: “movimentos funcionais constantemente variados executados com alta intensidade”.

[Imagem: Soldier City CrossFit]
 

Simplificado significa apenas que vou treinar movimentos que me são naturais e/ou úteis de forma sempre diferente com a maior intensidade que eu tiver capacidade de imprimir no meu treino. Porque a intensidade depende de mim e da minha capacidade, e não da pessoa ao meu lado nem do atleta que treina CrossFit há anos. A intensidade está na essência da metodologia de treino do CrossFit e é o que nos traz resultados. É também o que gera maior controvérsia.

Uma controvérsia que nasce do pressuposto de que, no CrossFit, o objetivo é as pessoas treinarem além dos seus limites e capacidades, descurando qualquer tipo de técnica e segurança. Na realidade, é exactamente o contrário. Um bom treinador de CrossFit vai privilegiar sempre a segurança dos seus alunos. Vai ensinar, vai corrigir e vai motivar. Nunca vai comprometer a integridade física de ninguém em prol da intensidade, porque a intensidade varia de pessoa para pessoa.

Treinar com intensidade leva-nos a sair da nossa zona de conforto todos os dias. Leva-nos a evoluir.  Leva-nos mais longe do que alguma vez pensámos ter coragem e capacidade para ir.  Com esta amálgama de emoções, despertamos dentro de nós um sentimento de Comunidade, que vai muito além do relacionamento casual das amizades do ginásio. É uma Comunidade que partilha as suas vitórias, as suas conquistas, os seus objectivos, os seus desafios.  É uma Comunidade que naturalmente se une, se apaixona pelo que faz e, para grande tristeza dos amigos “não-crossfitters” das redes sociais, partilha com um entusiasmo incompreensível os seus momentos de auto-superação na box.

Existem atualmente 92 boxes afiliadas em Portugal

É dentro da box que nós aprendemos, crescemos, evoluímos. É no interior desta “caixa mágica”, sem máquinas e sem espelhos, que o treinador ou Coach vai orientar o que está programado ao que eu consigo, tendo sempre em consideração os objectivos que pretendo atingir. Quase como um treino personalizado num ambiente de grupo. Porque a premissa base que revolucionou o mundo do Fitness e Saúde está sempre presente: é um treino universalmente escalável que se adapta às capacidades e necessidades de qualquer indivíduo, tendo sempre um objetivo comum: melhorar o Fitness da pessoa. Ser melhor do que ontem no treino, no trabalho, na minha vida familiar. Ser melhor.

O objetivo da modalidade é comum a todos os praticantes, o percurso é que varia de pessoa para pessoa.

A base de trabalho, onde se alicerça toda a programação de CrossFit, é igual para todos e definida por uma pirâmide de prioridades na nossa busca de melhorar o nosso Fitness ou nosso bem-estar. De uma forma simples, o CrossFit resume o quão inclusivo e abrangente é o seu programa.  Na base de tudo está o maior alicerce da nossa saúde: a nutrição. É incrível como quando treinamos CrossFit, naturalmente, começamos a preocupar-nos com o que comemos. Queremos ver mais resultados e o nosso corpo pede alimentos que o nutram, que lhe dêm força, que o ajudem neste percurso de melhorar o seu estado de saúde.  Seguem-se o treino metabólico onde o objetivo é melhorar a nossa capacidade cardiovascular, a ginástica onde trabalhamos o domínio do nosso próprio corpo e o halterofilismo ou trabalho de carga com objetos externos. Curiosamente no topo da pirâmide temos outros desportos, porque parte de ser melhor do que ontem é evoluir e ser desafiados noutras áreas.

[Imagem: CrossFit Oniria]
 

E o melhor de tudo é que esta metodologia de treino tão abrangente tem uma formulação única que permite que os seus praticantes não só se sintam motivados treino após treino, como tenham a possibilidade de medir quantitativamente a sua evolução. Aqui também o criador do CrossFit, Greg Glassman, foi visionário. Tinha perfeita consciência que o ser humano precisa de medir a sua evolução de alguma forma, para acreditar que ela existe e para perceber em que medida é significativa. Por esse motivo criou treinos / WODs* que devem ser repetidos de vez em quando, para os praticantes da modalidade poderem medir exatamente quanto evoluíram, onde evoluíram e onde precisam de investir mais para melhorar ainda mais a sua evolução.

No meu caso… com 36 anos fiz o meu primeiro pino. Com 36 anos percebi pela primeira vez como se levanta um peso do chão correctamente, sem correr o risco de me magoar. Com 36 anos e 3 filhos percebi que tudo o que aprendo dentro da box, aplico fora dela: a pegar nas minhas crianças, a mexer no sofá de casa, a transportar as compras do supermercado, a jogar à bola com os meus filhos e, evidentemente a mostrar que apesar de ser mãe, sei fazer o pino. 🙂

[Foto: Matchbox Crossfit]
 

Com 36 anos comecei a conhecer o meu corpo e a perceber tudo o que ele era capaz de fazer. Hoje, três anos mais tarde, olho para trás e vejo o caminho que percorri. De uma mulher que nem uma barra de 15kg conseguia levantar e tinha medo de se colocar de cabeça para baixo sou, comparativamente, uma super heroína. Os meus filhos também me vêm assim e eu gosto disso. E se assim quiser, ainda posso competir.

Se o Homem-Aranha trepa paredes, eu faço wall climbs. Se o Super-Homem tem muita força, eu tenho um deadlift superior a 100kg. Se o Hulk rasga os calções, eu cá confesso que a volumetria dos meus glúteos já deu muitas dores de cabeça à coleção de verão do ano anterior. Falta-me, de facto, ser bilionária como o Batman e ser proprietária de brinquedos mirabolantes para salvar o mundo. Mas no meu mundo, eu sou a heroína. Porque para mim, o melhor que o CrossFit me trouxe foi a confiança de perceber que seja qual for o desafio que a vida me colocar pela frente, vou sempre de alguma forma conseguir superar-me. E isso sim, é ser um herói.

O presente artigo foi realizado no âmbito da parceria que o Fair Play estabeleceu com o Sapo24, e a sua publicação original pode ser consultada aqui.


Entre na discussão


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS




Newsletter


Categorias


newsletter