19 Ago, 2017

Manual para compreender o ciclismo – Parceria Etapa Raínha

Fair PlayAbril 25, 201717min0

Manual para compreender o ciclismo – Parceria Etapa Raínha

Fair PlayAbril 25, 201717min0

Desde o passado mês de dezembro que temos uma parceria com o site desportivo Fair Play. Ficou combinado que todos os meses escreveríamos um artigo que seria publicado nesse site.

Para este mês, não estava fácil a escolha de tema e não sabíamos bem o que escrever para uma página com muito conteúdo desportivo diverso. Depois de tanto refletirmos, surgiu a ideia de falar de algo mais direcionado para quem vê esporadicamente ciclismo e não está tão familiarizado com os termos, conceitos e a forma como uma corrida de ciclismo de estrada se desenrola.

TIPOS DE PROVAS

Provas por etapas

São o tipo de provas mais conhecidas pelo público menos ligado à modalidade. A principal razão para que isso aconteça é que a maior e mais popular competição de ciclismo, a Volta à França, é uma prova por etapas.

O número de etapas varia muito entre provas. As grandes Voltas são as únicas compostas por 21 etapas, que se disputam durante 3 semanas, geralmente com dois dias de folga. Mas há provas por etapas muito curtas, com 2 e 3 etapas apenas. A Volta a Portugal é composta por 10 etapas, mas no passado já foi uma competição com 3 semanas de prova.

Habitualmente as provas por etapas têm no seu menu diversos tipos de terrenos, desde etapas planas, passando por contrarrelógios individuais e coletivos, até terreno montanhoso. Existem diversas classificações, a principal é a geral individual, ganha o ciclista que cumprir toda a prova em menor tempo. Existem outras classificações, que serão abordadas mais à frente.

* Bonificações: Algumas corridas por etapas dão segundos de bonificações para os três primeiros em cada etapa. Habitualmente são 10, 6 e 4 segundos para o 1º, 2º e 3º classificados. Estes segundos são retirados ao tempo da geral do ciclista.
Em algumas provas, também existem bonificações nos sprints intermédios, que basicamente são ‘metas’ colocadas a meio da etapa. Habitualmente são 3, 2 e 1 segundos para o 1º, 2º e 3º ciclistas a passar no sprint intermédio.

Provas de um dia

O ciclismo nasceu nas provas de um dia e são a essência da modalidade. Não são mais do que uma corrida realizada num dia, onde os ciclistas partem todos de um determinado local, percorrem um percurso até à linha da meta.

Existem diversos tipo de designações para este tipo de provas, como: clássicas, semi-clássicas, monumentos ou, simplesmente, prova de um dia. As mais importantes são os monumentos, que são 5 provas (Milão-São Remo, Volta à Flandres, Paris-Roubaix, Liège-Bastogne-Liège e Giro da Lombardia), que se distinguem por serem as provas de um dia, mais longas e duras do calendário.

A primavera é a altura do ano onde este tipo de provas dominam as atenções do ciclismo, apesar de se realizarem provas durante todo o ano.

A Bélgica e mais concretamente a região da Flandres é considerada a ‘capital espiritual’ do ciclismo e para esse título contribuem decisivamente as famosas clássicas de pavé, que são veneradas naquela região da Europa.

O Paris-Roubaix é considerada a maior e a mais importante clássica.

Grandes voltas

Foto: Giro D’Itália, Le Tour de France e La Vuelta

Em termos mediáticos são as provas mais reconhecidas do ciclismo. A Volta a França é uma das maiores competições desportivas do mundo. O Giro d’Italia e a Vuelta a Espanha são as outras duas provas de 3 semanas. A competição é constituída por 21 etapas, que se disputam durante 3 semanas com etapas diárias, com pelo menos dois dias de descanso. São as provas de ciclismo mais longas (mais nenhuma tem 21 etapas divididas por 3 semanas) e que requerem uma recuperação física de dia para dia, que as tornam especiais.

Habitualmente, o ciclista mais completo, ou seja, aquele que consegue conjugar a habilidade para subir e para o contrarrelógio individual, é aquele que tem vantagem. No entanto, depende sempre do tipo de percurso (montanha e nos quilómetros de contrarrelógio), que varia de edição para edição. Estas provas tem etapas para todo o tipo de ciclistas, desde sprinters, passando pelos contrarrelogistas, roladores e acabando nos trepadores.

TIPOS DE ETAPAS

Contrarrelógio Individual

Foto: Fotoreporter Sirotti

O contrarrelógio é uma corrida contra o cronómetro, com o objetivo de se completar o percurso no menor tempo possível. Os corredores saem habitualmente por ordem crescente (do pior para o melhor classificado), separados por 1, 2 ou 3 minutos (depende da prova).

Só é considerado contrarrelógio quando a distância ultrapassa os 8 quilómetros, abaixo disso, é designado de prólogo.

Contrarrelógio coletivo

Luta contra o cronómetro, mas em vez de ser apenas um corredor é a equipa toda. Os ciclistas vão-se revezando na frente, para distribuir o desgaste entre eles. O tempo conta habitualmente quando o 5º elemento passa pela linha de meta.

Contrarrelógio de montanha (Cronoescalada)

Contrarrelógio que se disputa ao longo de uma subida. O corredor que melhor tempo conseguir, vence o contrarrelógio. São os contrarrelógios ideais para os trepadores.

O Giro d’Itália nalgumas das últimas edições tem colocado cronoescaladas no percurso.

Partida em massa (Mass start)

É o mais comum no ciclismo de estrada. Todos os ciclistas inscritos assinam o livro de ponto, reúnem-se na linha de partida, onde é dada a partida simbólica. A corrida é neutralizada uns quilómetros, onde os corredores seguem atrás do carro do diretor de prova.

Depois é dada a partida real, este ponto é conhecido como o Km 0, aí podem começar as hostilidades e começa a corrida a sério.

Nesta categoria estão incluídas as clássicas e as etapas. Dentro destas últimas existem vários tipos de etapas, são elas: planas, média-montanha, alta-montanha e transição.

TIPOS DE CICLISTAS

Candidatos à Geral (Voltista)

É o ciclista que numa prova por etapas, luta para vencer a classificação geral, isto é, completar a corrida em menos tempo que todos os outros corredores. Habitualmente dependendo do percurso da prova por etapas, os candidatos à geral, variam. Se o percurso tiver muita montanha, os trepadores serão beneficiados. Se tiver pouca montanha e muitos quilómetros de contrarrelógio, os contrarrelogistas terão vantagem. Se tiverem todas as etapas planas, os sprinters serão os favoritos. No entanto, as provas por etapas, por norma, tendem a beneficiar os ciclistas mais completos, ou seja, aqueles que sobem bem, mas que também se defendem bem na luta contra o cronómetro.

Trepador

São os corredores que fazem a diferença quando a alta-montanha chega. Os melhores trepadores geralmente são leves, o que lhes permite subir mais facilmente.

É comum ver os grandes trepadores, também a lutar pela classificação geral nas provas por etapas, porque a diferença que fazem na montanha permite-lhes isso.

Contrarrelogista

Os especialistas em contrarrelógio são aqueles que conseguem suster uma potência alta durante muito tempo (1 hora a 1 hora e meia). São ciclistas mais pesados que os que disputam a geral, no entanto, há casos ao longo da história de corredores que eram os melhores nesta especialidade e também se defendiam bem na montanha, o que lhes permitia vencer a geral. O principal exemplo é o de Miguel Indurain, que é um dos melhores de sempre nesta especialidade e venceu 5 Voltas a França e 2 Giros d’Itália.

* As cronoescaladas geralmente são dominadas pelos trepadores.

Sprinter

Foto: Tim De Waele | TDWsport.com

Sprinter ou velocistas, são aqueles ciclistas que se focam nas etapas planas que chegam em pelotão compacto. São os que são capazes de produzir mais potência e acelerações mais fortes, nos últimos metros. São ciclistas fisicamente muito fortes, com características únicas, para esforços curtos mas muito intensos. Se os trepadores e os contrarrelogistas são adaptados para esforços para médias e longas distâncias, os velocistas trabalham para finalizar o trabalho de controlo que a equipa faz durante as etapas. Desde os anos 90, que as equipas utilizam aquilo que chamam de comboios. Nos últimos quilómetros colocam a equipa a trabalhar para o velocista da sua equipa, para o colocar da melhor forma possível, para este finalizar todo esse trabalho.

Puncheur

Este é o tipo de ciclista com um bom sprint, mas com pernas capazes de ultrapassar subidas curtas e explosivas. São corredores que se dão muito bem nas clássicas das Ardenas, com o terreno a não ter subidas longas e inclinadas. São subidas curtas, muito inclinadas e que eliminam os sprinters, onde os puncheurs tiram partido dessa situação.

Gregário (Domestique)

O papel do gregário é um dos mais importantes numa equipa de ciclismo. É tão importante que uma equipa para funcionar correctamente necessita de uma série deles. O papel passa de ir buscar bidões, proteger os líderes do vento, ajudar na colocação no pelotão, trabalhar nas etapas de montanha e muito mais. Sem eles, um candidato a ganhar uma Volta a França seria incapaz de conseguir o objetivo.

Rolador (Rouleur)

Os roladores são os ciclistas que em terreno plano conseguem impor ritmos que mais ninguém consegue. Os melhores contarrelogistas normalmente são grandes roladores também. São ciclistas muito úteis para os líderes das equipas, já que em terreno plano, podem servir para fraturarem o pelotão, quando há vento forte e conseguirem apanhar os rivais desprevenidos.

Classicómano

Foto: Chris Fontecchio

É complicado definir, porque existem muito tipo de clássicas. No entanto, as clássicas e semi-clássicas por natureza são aquelas que se disputam na primavera, na Bélgica, mais o Paris-Roubaix e a Milão-São Remo. São os principais ciclistas que disputam esse tipo de provas, que costumam ser apelidados de Classicómanos. Nos últimos 20 anos, destacam-se Fabian Cancellara, Tom Boonen, Johan Museeuw, Michele Bartoli, Philippe Gilbert*, Davide Rebellin*, Andrei Tchmil, Paolo Bettini, Alejandro Valverde* e Óscar Freire.

* Ainda se encontram no ativo.

CLASSIFICAÇÕES

Geral

É a principal classificação. O vencedor é aquele que concluir a prova em menos tempo e nas provas por etapas, envergam uma camisola especial. A mais famosa é a camisola amarela da Volta a França. No Giro d’Itália a camisola é rosa (maglia rosa), na Vuelta a Espanha é vermelha e na Volta a Portugal é também amarela.

Pontos

Esta classificação destina-se aos corredores que melhor se classificam no conjunto das etapas. São atribuídos pontos em cada etapa, para os primeiros classificados, sendo que são atribuídos mais pontos nas etapas planas do que nas de média e alta montanha.

A cor da camisola varia de prova para prova, sendo que a mais utilizada é a verde.

Montanha

A camisola da montanha é conquistada pelo o ciclista que consegue pontuar mais nos topos das subidas categorizadas. Os pontos são contabilizados pelos primeiros a passar pela meta de montanha, que habitualmente estão colocadas no topo da mesma. Existem diversas categorias, sendo que por exemplo na Volta a França, a categoria principal e aquela que dá mais pontos, é a Hors Categorie (HC). Esta classificação é frequentemente ganha por ciclistas que se colocam nas fugas, mas também os homens que lutam pela geral, por vezes conseguem vencê-la. A camisola da classificação da montanha da Volta a França é uma das mais populares e particulares do ciclismo, é branca com bolinhas vermelhas.

Juventude

A classificação do melhor é igual à classificação, mas para este caso, apenas contam os ciclistas com 25 anos de idade no máximo.

Coletiva

A classificação colectiva tem em conta o tempo acumulado dos três melhores ciclistas de cada equipa em cada etapa. A equipa que menos acumular tempo ao longo da prova, vencerá esta classificação.

A equipa que lidera esta classificação, leva capacetes amarelos (Volta a França e Vuelta a Espanha).

Combinado

É uma classificação que é muito pouco usada em provas. Espanha é o país que mais a utiliza e dá importância.

Consiste em ter em conta a posição de cada corredor na classificação geral, por pontos e montanha. Soma-se a posição em cada uma dessas classificações e aquele que tiver menos pontos, vence esta classificação.

Um exemplo:

  • Se o corredor A for 1º na geral individual, 5º nos pontos e 2º na montanha, ou seja: 1+5+2=8 no total tem 8 pontos.
  • Se o corredor B for 2º na geral individual, 4º nos pontos e 3º na montanha, ou seja: 2+4+3=9 no total tem 9 pontos.
  • O vencedor é o corredor A.

Se houver empate, o melhor classificado na geral, vence.

A camisola na Vuelta é branca.

Combatividade

O prémio da combatividade é dado em cada etapa ao ciclista. A decisão é tomada por um painel de jurados, que nomeia o corredor que mais lutou nesse dia. No dia seguinte, esse ciclista leva o dorsal com fundo em vermelho, para identificar quem foi o mais combativo no dia anterior. Na Volta a França, no final da prova, um ciclista é votado (pelo júri e público) como o mais combativo de toda a competição. Se os corredores liderarem mais do que uma classificação, que camisola usam? Se um corredor liderar mais do que uma camisola, aquela que terão de usar na etapa, depende da importância de cada classificação.

A hierarquia por importância

GERAL, PONTOS, MONTANHA, JUVENTUDE, COMBINADO.

ONDE VER CICLISMO

A Eurosport é o principal meio de difusão de ciclismo no velho continente, Portugal não foge à regra. O canal costuma acompanhar grande parte das corridas do World Tour, incluindo as Grandes Voltas.

Em Portugal, não só a Eurosport transmite corridas, a RTP transmite a Volta a Portugal e a Volta a França. Em 2016, compraram o pacote de ASO e começaram a transmitir provas como o Paris-Roubaix, Liège-Bastogne-Liège e Flèche Wallone.

Em Espanha, a temporada de ciclismo é difundida no Teledeporte. As grandes Voltas, passam na TVE.

No Brasil, a ESPN Brasil difunde uma parte das principais provas de ciclismo.

Em Itália, os canais da RAI transmitem as principais provas de ciclismo italiano e internacional.

Na Bélgica, num dos países onde o ciclismo tem mais importância, é o Sporza o principal canal de transmissão de ciclismo. Além de toda a temporada de ciclismo de estrada, o canal acompanha as principais provas de Ciclocross.

Em França, a France 2 e o L’Équipe são os principais meios de difusão.

Nos Estados Unidos, a NBC tem um pacote de transmissão de ciclismo, que custa 30$ por ano.

No Canadá, o cycling.tv transmite grande parte das provas de ciclismo de estrada e não só (BTT).

Na Austrália, existem diversas formas de ver ciclismo. A SBS faz a cobertura das três Grandes Voltas e das principais clássicas do calendário internacional.

Estes são alguns dos principais países, onde a modalidade tem uma plataforma televisiva consistente.

COMO VER CICLISMO

Ver ciclismo não é uma tarefa complicada, até porque existem muitas formas de o fazer. O que é mais complicado para quem vê uma prova pela primeira, é como interpretar aquilo que está a aparecer no ecrã.

Aqui fica uma breve explicação, muito básica, com a principal informação que aparece no ecrã, durante uma transmissão televisiva (imagens da Eurosport).

Identificar a distância para a meta

Fonte: Eurosport

Diferença entre o grupo/corredor em fuga

Fonte: Eurosport

Diferença entre diversos grupos, informação adicional (% inclinação média) e identificação dos corredores num grupo

Fonte: Eurosport

Existem diversos grafismos, mas a informação e a forma como é mostrada no ecrã não varia muito.

Uma das coisas que varia é a fiabilidade da informação que por vezes é mostrada no ecrã, por exemplo, a diferença de tempo entre grupos, por vezes não é a mais correta, por erros de GPS.


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