14 Dez, 2017

Um Sevilla de várias caras

Bruno DiasAbril 21, 201716min0

Um Sevilla de várias caras

Bruno DiasAbril 21, 201716min0

Em certos períodos da época, a candidatura ao título parecia séria e fundamentada. Nos dias que correm, essa ambição já vai longe, e a luta pela 3ª posição com o Atlético Madrid assume-se como o grande objectivo para o que resta da temporada. Resultados que ilustram bem como tem sido a época do Sevilla: irregular.

Com 32 jornadas decorridas na La Liga, a apenas 6 do seu término, o Sevilla ocupa a 4ª posição, com 62 pontos. Luta arduamente pelo 3º lugar com o Atlético Madrid, rival que a dada altura pareceu estar completamente descartado das primeiras três posições da tabela classificativa. Uma recuperação que certamente terá muito de mérito por parte dos comandados de Diego Simeone, mas que terá ainda mais demérito da parte dos “rojiblancos”.

Já por aqui se tinha falado do Sevilla esta temporada, e da chegada altamente esperada e antecipada de Jorge Sampaoli à Europa, num excelente artigo do Diogo Alves. Esperava-se então que o Sevilla assumisse uma postura completamente diferente em campo daquela que possuía com Unai Emery, técnico que saiu para o PSG no mercado de Verão, e as mexidas operadas no mercado de transferências, através do já famoso director desportivo do clube, Monchi (que sairá do clube no final da temporada), assim o deram a entender. Foram vários os jogadores que chegaram ao clube, e quase todos eles com um perfil condizente àquele que Sampaoli aprecia: jogadores evoluídos do ponto de vista técnico e versáteis com a bola nos pés, sendo capazes de arranjar soluções alternativas àquelas que o técnico cria para eles, através da implementação do seu modelo de jogo.

No geral, o técnico argentino, de 57 anos, teve tudo aquilo que desejou no mercado de Verão. E em Janeiro, chegaram ainda Lenglet, Walter Montoya e Jovetic, para completar um plantel que estará, certamente, entre os 5 melhores da La Liga. No entanto, a época do Sevilla tem-se pautado por alguma irregularidade, quer em termos exibicionais, quer em termos de resultados. A época começou com a derrota em ambas as Supertaças: Europeia (contra o Real Madrid) e Espanhola (frente ao Barcelona), e com um Sevilla que, embora já muito interessante em termos ofensivos, possuía falhas claras na sua organização e na forma como defendia, em geral. Tal ideia ficou bem espelhada quando, na 1ª jornada, defrontaram o Espanyol no Ramón Sánchez Pizjuán e venceram por uns excêntricos 6-4. Ofensivamente, um espectáculo imperdível. Mas defensivamente, assistiu-se a uma equipa demasiado partida e mal preparada para defender os ataques rápidos adversários.

Sampaoli percebeu que teria que corrigir alguns posicionamentos sem bola, e começou a incluir mais jogadores de índole defensiva nas suas formações iniciais. O Sevilla passou a sofrer menos golos, mas passou também a encontrar mais dificuldades em marcá-los. Eventualmente, a equipa encontrou um equilíbrio positivo e, principalmente durante os meses de Dezembro e Janeiro, os resultados e as exibições foram bastante positivas, com destaque para a vitória em casa sobre o Real Madrid, por 2-1. No entanto, as últimas semanas deram a conhecer um Sevilla totalmente diferente do que se havia visto esta temporada, para pior. A equipa voltou a apresentar deficiências defensivas, e juntou a isso uma incapacidade ofensiva muito pouco usual nas equipas de Sampaoli. Um período horrendo, que custou ao Sevilha a eliminação da Champions League, às mãos do Leicester City, e que fez com que a equipa andaluza estivesse 5 jogos sem vencer para o campeonato, registo que não só acabou de vez com o “sonho” do título, como inclusive resultou na perda do 3º lugar para o Atlético Madrid.

Jorge Sampaoli tem tido uma primeira época irregular ao comando do clube andaluz. [Foto: fourfourtwo.com]

Como se joga em Sevilha?

Este Sevilla é uma equipa distinta daquilo que estamos habituados a ver nos trabalhos de Sampaoli. Não é, de todo, uma equipa tão ofensiva e vertiginosa como era o seu Chile, por exemplo. No início da temporada, até teriam algumas semelhanças nos momentos com bola, mas com o passar da temporada, Sampaoli procurou introduzir no seu Sevilla um maior equilíbrio do ponto de vista defensivo, abdicando para isso de algumas das suas ideias no plano ofensivo, e talvez seja essa uma das explicações para a irregularidade da equipa andaluza. Vão alternando entre dois/três sistemas, conforme utilizam defesa a 4 ou a 3. No primeiro caso, o 4x4x2, e nos restantes, o 3x4x3 ou o 3x5x2.

Quando em organização defensiva, o Sevilla utiliza uma linha defensiva de 4 ou 5 jogadores, dependendo do sistema em que está a jogar. Os laterais saem regularmente na pressão quando a bola se encontra nos seus corredores. O “6” fica mais fixo e posicional no corredor central, com o “8” a deambular mais na pressão ao portador da bola. Avançados e alas sempre pressionantes, procurando reduzir espaço e tempo sempre que a bola entra nos corredores laterais, mesmo em zonas mais afastadas da baliza. Já nos momentos seguintes à perda da bola, o Sevilla começou por ser uma equipa extremamente intensa (à imagem do que Sampaoli prometia), com posicionamentos muito subidos e com facilidade em instalar-se no meio-campo adversário, recuperando quase sempre a bola nesse espaço ou forçando uma bola longa, com poucas probabilidades de sucesso. No entanto, com o avançar da época, as linhas foram baixando, e a tentativa de recuperação da bola começou a ser feita em terrenos menos avançados. Mantém-se, no entanto, como um dos bons aspectos desta equipa.

O Sevilla actual é uma equipa partida nos momentos de construção, e essa será talvez a principal falha desta formação. Os médios (normalmente N’Zonzi e Nasri) baixam em demasia para iniciar a construção, aparentemente por falta de qualidade e confiança dos centrais para assumirem essa função. Quando com 3 centrais, esta limitação torna-se ainda mais evidente. Só Pareja parece capaz de arriscar mais na saída de bola. Isto faz com que as linhas de passe no corredor central sejam diminutas, pois o Sevilla coloca, nas fases iniciais de construção, demasiados jogadores atrás da linha da bola, e como consequência, as opções de passe em terrenos mais adiantados são menores e mais fáceis de controlar pelo adversário.

Laterais sempre com largura máxima e a projectarem-se em simultâneo. Algo que se altera na direita quando joga Mercado em vez de Mariano. Avançados a alternarem movimentos de aproximação com movimentos de procura da profundidade. Jovetic aparece bem entre linhas, e Ben Yedder apresenta muita qualidade a jogar na linha do último defesa, sempre à procura da possibilidade de ganhar a profundidade. É através dele que, por vezes, o Sevilla procura jogar de forma mais directa, quando percebe que a linha defensiva adversária se encontra demasiado subida/mal organizada. Entre os alas, Pablo Sarabia é mais imprevisível e dinâmico no posicionamento, e Vitolo fixa-se mais no corredor lateral, procurando desequilibrar através das suas incursões em acções de 1×1 e 1×2.

A equipa de Sampaoli demonstra uma intenção clara de criar superioridade nos corredores laterais, criando condições para conseguir chegar rapidamente ao último terço, empurrando consequentemente as linhas adversárias para a sua própria área. A partir daí, procura soluções para entrar na área adversária e finalizar, seja através de tabelas que permitam ganhar a linha de fundo e cruzar, normalmente de forma rasteira, para o coração da área e através do lateral do respectivo lado, seja através da circulação de bola por fora do bloco adversário (circulação em “U”), até que a oportunidade para arriscar no último passe apareça. Ocasionalmente, jogam mais directo à procura de explorar a profundidade, normalmente quando joga Ben Yedder.

Individualmente, o plantel do Sevilla possui bastante qualidade e profundidade na maioria dos sectores. Na baliza, Sergio Rico é o titular indiscutível. Guardião jovem e de grande qualidade, tem evoluído bastante esta época e inclusive “forçou” Salvatore Sirigu, guarda-redes italiano emprestado no início da temporada pelo PSG, a abandonar o clube apenas 6 meses depois de ter chegado, sendo actualmente o titular do Osasuna. O suplente actual é David Soria, guarda-redes que apenas fez 2 jogos, ambos para a Copa do Rei.

Na defesa, entre os centrais, Adil Rami é quem soma mais minutos. O francês, de 31 anos, tem sido peça fundamental no eixo, principalmente pela qualidade que oferece à equipa nas bolas paradas e no jogo aéreo. Há também Gabriel Mercado, argentino que chegou esta época proveniente do River Plate, jogador de quem Jorge Sampaoli raramente abdica e que tem dividido os seus minutos entre a zona central e a lateral direita. Melhor no papel de central que no de lateral, destaca-se pela sua agressividade sobre a bola e a sua capacidade de desarme. Também Nico Pareja tem sido muito utilizado. Tendo em conta o seu histórico de problemas físicos, a sua época tem sido positiva, e o argentino é talvez o melhor central da equipa andaluza, no cômputo geral. Para além destes, há também o português Daniel Carriço (muito atormentado com lesões) e o francês Clément Lenglet, chegado em Janeiro para ocupar a vaga do também francês Timothée Kolodziejczak, que saiu para o Borussia Mönchengladbach, equipa que milita na Bundesliga. Lenglet, ex-Nancy, demonstrou já excelentes pormenores no tempo em que jogou, e tendo apenas 21 anos, augura-se um futuro promissor para este jovem jogador.

Nas laterais, Mariano e Sergio Escudero, à direita e à esquerda, respectivamente, têm sido os titulares da equipa de Sampaoli. O brasileiro é um jogador de clara propensão ofensiva, com uma capacidade física e atlética invejáveis, que lhe permitem fazer sempre os 90 minutos em alta rotação, ao longo de todo o corredor. Assumiu-se, este ano, como um dos melhores laterais da La Liga. Já o segundo chegou na época passada ao clube, vindo do Getafe, e tem-se revelado como uma das boas surpresas na temporada que corre. Ágil e com boa qualidade técnica, envolve-se muito bem no ataque. Para a lateral esquerda há também Trémoulinas, mas o francês, ainda a contas com uma grave lesão, nem sequer jogou esta época.

No meio-campo, dois nomes principais emergem, ambos franceses. De Steven N’Zonzi irei falar mais à frente. Para além dele, Samir Nasri assume-se aqui como um dos jogadores essenciais da equipa. “Reinventado” como médio-centro, num papel mais de organizador e menos de desequilibrador, Nasri é o homem que pauta todo o jogo sevillista. Aos 29 anos, encontrou em Sevilha um contexto que lhe permitiu relançar a sua carreira. Para este sector, há ainda o argentino Matías Kranevitter, emprestado pelo Atlético Madrid, médio defensivo que poucas oportunidades tem tido devido ao rendimento de N’Zonzi, e que também não tem impressionado nos jogos que já realizou; o brasileiro Paulo Henrique “Ganso”, resgatado por Sampaoli ao São Paulo na tentativa de fazer dele o seu “camisa 10”, mas que também pouco tem jogado; e o espanhol Vicente Iborra, capitão de equipa e jogador que tem sido extremamente útil nesta campanha, sendo utilizado em várias posições do terreno e tendo já realizado exibições de grande categoria, como é exemplo os 45 minutos finais que fez em Balaídos, contra o Celta de Vigo, entrando ao intervalo e marcando os 3 golos da vitória dos “rojiblancos”.

Samir Nasri relançou a sua carreira em Sevilha. [Foto: dailymail.co.uk]
 

Nas alas, Vitolo e Pablo Sarabia assumem-se como os jogadores mais utilizados. O primeiro, internacional A espanhol, é um jogador relativamente completo. Já utilizado por Sampaoli em várias posições, da lateral esquerda à frente de ataque, caracteriza-se por ser tecnicamente muito forte, e possui uma capacidade de drible invejável. Já Sarabia tem feito por conquistar um papel de grande relevo na equipa. Com 10 golos e 13 assistências em 41 jogos, é um dos jogadores mais produtivos do Sevilla nesta temporada. Jogador de finta curta, muito ágil e com mudanças de direcção explosivas, tem também uma meia distância muito interessante, que inclusive já valeu pontos no campeonato. Para este sector, há também o argentino Walter Montoya, que chegou em Janeiro proveniente do Rosario Central, mas que praticamente ainda não teve oportunidades para jogar, e o dinamarquês Krohn-Dehli que, tal como Trémoulinas na lateral esquerda, se encontra lesionado desde o início da época, e que ainda não jogou. Até Janeiro, existia ainda o japonês Kiyotake, que chegou no início da temporada vindo do Hannover, mas que nunca foi uma aposta sólida de Sampaoli, e que saiu no mercado de Inverno, regressando ao seu país de origem.

Finalmente, no ataque, muita rotação. Franco Vázquez é o avançado mais utilizado por Sampaoli. No entanto, o argentino não encaixa bem nesse perfil, sendo antes uma espécie de “trequartista”, que normalmente joga atrás do avançado/avançados, no corredor central. Jogador alto (1,86m) e com uma morfologia que, aliada à sua enorme qualidade técnica, faz com que tirar-lhe a bola seja uma tarefa hercúlea. Perdeu algum espaço na equipa a partir da chegada de Stevan Jovetic, em Janeiro. O montenegrino encaixa na perfeição no perfil de avançado que Sampaoli procura. Forte na finalização, com qualidade técnica para dar e vender e com grande capacidade para explorar da melhor forma o espaço entre-linhas, Jovetic chegou e imediatamente começou a “marcar território”, tendo já apontado 4 golos e 3 assistências em 15 jogos realizados para o campeonato. No entanto, o melhor marcador do Sevilla é mesmo o francês Wissam Ben Yedder. Com 17 golos em 36 jogos, este avançado ex-Toulouse destaca-se por ser normalmente a referência mais adiantada da equipa. Joga constantemente na linha do último defesa, move-se muito bem na área e possui também capacidade para criar a sua própria situação de finalização. Para além dele, sobram ainda Luciano Vietto, argentino emprestado pelo Atlético Madrid, que tem tido uma utilização inconstante (muito mais utilizado na primeira metade da época, sendo que o seu último golo foi ainda em 2016), e Joaquín Correa. Contratado à Sampdoria por cerca de 15M€ no início da época, Correa também actua ocasionalmente pelas alas. Avançado de grande estatura (1,89m), destaca-se no entanto pela sua velocidade e capacidade finalizadora. É capaz de rematar com qualquer pé, seja na área ou explorando a meia distância. Tal como a maioria dos seus colegas, é também um jogador tecnicamente acima da média. Sampaoli pediu a sua contratação, e parece ter muita confiança neste jovem talento. E não é pelo ataque, certamente, que a equipa sevillista peca em termos de qualidade.

Ben Yedder é, actualmente, o melhor marcador do Sevilla [Foto: espnfc.com]

DESTAQUE: Steven N’Zonzi

Após 6 épocas no futebol inglês, primeiro ao serviço do Blackburn Rovers e depois no Stoke City, em 2015, o Sevilla investiu cerca de 8M€ na contratação de Steven N’Zonzi, médio defensivo francês de 28 anos. A sua primeira época pelo clube foi bem sucedida, tendo realizado 46 jogos em todas as competições, e sendo claramente um dos jogadores da confiança de Unai Emery.

Com a mudança de treinador, e a chegada de Jorge Sampaoli, poderia pensar-se que N’Zonzi se arriscaria a perder espaço na equipa. No entanto, Sampaoli apostou totalmente no jogador, e definiu desde o primeiro dia que ele seria o “seu” médio defensivo. N’Zonzi correspondeu, e de que maneira.

Apesar da sua estatura (1,96m), N’Zonzi destaca-se pela forma como joga sempre de cabeça levantada, à procura de opções de passe. É um médio defensivo acima da média em termos técnicos, que com Sampaoli evoluiu substancialmente na compreensão do jogo e na forma como coloca a sua qualidade com bola ao serviço da equipa da melhor forma. É bastante capaz no transporte de bola, e não é incomum vê-lo queimar linhas com bola através desse recurso. Dono de uma estampa física impressionante, confere também grande segurança e solidez ao corredor central quando a equipa não tem a bola. É um excelente recuperador de bolas, que fruto da sua forma de ver e pensar o jogo, procura sempre recuperar a bola jogável em vez de apenas destruir as jogadas adversárias. Para além disso, é também um jogador relevante nas bolas paradas defensivas e ofensivas.

Tem sido a “surpresa” da época, não só no Sevilla como na própria La Liga, e as suas prestações de enorme qualidade, tanto no campeonato como na Champions League, atraíram já a atenção dos principais “colossos” europeus. Mantê-lo em Sevilha será, sem dúvida, uma tarefa complicada para a próxima temporada, e N’Zonzi tem feito por justificar voos mais altos.

A La Liga aproxima-se rapidamente do seu final, e já se percebeu que a emoção e a imprevisibilidade estarão presentes até ao último minuto de competição. Com 6 jornadas por disputar e vários duelos que se apresentam como autênticas “finais”, acompanhar este campeonato é algo de carácter obrigatório para qualquer fã do desporto-rei.


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