24 Ago, 2017

Um Mercado por explorar

Fair PlayMarço 1, 20177min1

Um Mercado por explorar

Fair PlayMarço 1, 20177min1

A capacidade negocial dos 3 grandes evoluiu e tornou mais difícil o recrutamento em Portugal. Mas e quanto aos restantes? Como é (e como pode ser) a vida dos clubes portugueses mais pequenos no global mercado futebolístico? Uma perspectiva diferente sobre um nicho que tem material de qualidade indubitável para ser explorado.

Já fica para trás o tempo em que clubes das grandes ligas europeias utilizavam os grandes da liga portuguesa como um autêntico viveiro de talento do qual retiravam jogadores de qualidade e elevado potencial a preço de saldo. Constantes provas dadas por jogadores formados ou transformados em Portugal – como é o caso dos muitos jovens estrangeiros que o FC Porto e SL Benfica aproveitaram e moldaram –, somados às capacidades negociais dos grandes clubes portugueses, fizeram com que isso deixasse de acontecer. O crescimento da importância de agentes como Jorge Mendes e a enorme reputação dos treinadores portugueses, que continuam a influenciar a carreira de tantos destes jovens jogadores, ajudaram também.

Hoje só clubes de alta dimensão têm capacidade para pagar a Porto, Benfica e Sporting – que finalmente começou a acompanhar os rivais neste espectro durante a era Bruno de Carvalho – o que estes exigem pelos seus melhores talentos. No entanto, continuo a notar uma falta de exploração por parte do mercado internacional para com uma grande parte do mercado português: os clubes de menor dimensão.

As diferenças económico-financeiras continuam a ser gritantes entre os grandes do futebol português (somados ao SC Braga que se encontra num plano intermédio) e as outras 14 equipas que compõem a Primeira Liga. Esta situação leva a que muitas vezes estes clubes vendam os seus maiores valores a preços abaixo da sua “valorização”. Sejam eles jovens portugueses formados pelos próprios clubes ou sul-americanos já com experiência europeia devido a um par de boas temporadas na nossa liga, grandes clubes de ligas medianas europeias ou clubes de meia tabela das grandes ligas tendem a aproveitar-se da situação… mas não o suficiente. Com o intuito de demonstrar tal situação construí uma tabela na qual disponho as transferências internacionais de relevo de clubes portugueses que não os “4 grandes” nas últimas épocas.

Quadro da autoria de Tiago Estêvão (@tiagoestv)

As siglas “Value ATT” e “Value ATM” são, respetivamente, os valores no momento da compra e o valor neste momento. O primeiro tem o intuito de ser comparado com aquilo que foi realmente pago pelo clube – provando ou não a teoria de que os clubes muitas vezes conseguem jogadores abaixo do seu valor –, enquanto o valor neste momento é suposto relacionar-se com a evolução de tal jogador após a transferência e, consequentemente, o elevado potencial dos jogadores do nosso campeonato.

É bom relembrar que os valores são todos retirados do site Transfermarkt e não são necessariamente a melhor maneira de avaliar a performance de um atleta nem o seu potencial futuro – foi simplesmente um prisma uniforme pelo qual decidi olhar este fenómeno. Para além disso a escolha das transferências em foco foi minha: mencionei grande parte das que movimentaram valores mais elevados, deixei de fora todas as transações nos quais os valores não foram divulgados – como a recente de Jorginho para o Saint Étienne, por exemplo – e, devido a ser uma lista curta, vão sempre faltar alguns.

De uma lista que contém 25 jogadores, apenas em 6 transferências foi pago um montante acima do valor do jogador no momento. Desses 6 atletas – Jota, Dalbert, Deyverson, Vezo, Lucas Lima e João Pedro –, 5 têm neste momento um valor superior ou igual àquele pago pelo clube, demonstrando que nas poucas vezes que os clubes portugueses exigem um valor superior fazem-no por saber o potencial talento que têm em mãos. A situação acaba por beneficiar ambas as partes.

O único que ainda não chegou a esse valor é João Pedro, recentemente contratado pelo LA Galaxy da MLS – competição que arranca esta semana. Não tenho qualquer dúvida de que “JP” vai ver o seu valor aumentado dentro de meses, já que tudo aponta à sua titularidade na Califórnia. Gerso encontra-se numa situação similar – apesar de não estar incluído na lista –, sendo que o Sporting KC acabou por pagar um valor superior à sua valorização para o levar para a MLS.

João Pedro trocou o Vitória SC pelo LA Galaxy (Foto: MaisFutebol)

Vemos ainda mais alguns padrões de mercado na tabela. O Málaga, por exemplo, é um clube que muito tem aproveitado esta situação, comprando Antunes (agora em Kiev), Horta (que se tornou internacional A português a jogar pelos Malaguenhos) e Flávio Ferreira – sem clube aos 25 anos mas que estava valorizado em 2.5M€ quando saltou da Académica para os espanhóis por apenas meio milhão.

Em França já há uma série de clubes a seguir atentamente o nosso mercado: 9 das 25 transferências mencionadas ocorreram de Portugal para França. Seri, muito elogiado por Paulo Fonseca nos seus tempos de Paços, está juntamente a Dalbert a surpreender ao serviço do Nice. O costa-marfinense tem 9 assistências esta temporada, ninguém tem mais nas grandes ligas europeias. Fabinho continua as excelentes exibições pelo Monaco e, com maior ou menor influência de agentes, também ele passou por Portugal antes de dar o salto. Apesar do último lugar na tabela, Cafú tem mais de 1000 minutos jogados pelo Lorient e a ele se juntou Wakaso. Interessante ainda o estranho caso de Afonso Figueiredo que, após uma grande temporada pelo Boavista e muitos rumores que o ligavam aos grandes, seguiu para o Rennes mas infelizmente ainda só tem 90’ jogados pelo clube.

Por fim, temos ainda os países da Península Arábica e o aumento da quantidade de jogadores que assinam por estes clubes de grande capacidade económico-financeira. Para o Al-Fateh foram Ukra e Nathan Júnior, de momento cada um tem cinco golos e quatro assistências em 18 e 19 partidas respetivamente, sendo simultaneamente os melhores marcadores e melhores assistentes da equipa. Leo Bonatini, fora da lista por falha minha, assinou pelo Al Hilal após a sua época fantástica com o Estoril – demonstrando todo o seu poder económico, a equipa saudita pagou 5M€ pelos seus serviços (2M€ valor de mercado na altura, 3.5M€ agora).

Ukra também deixou a Liga NOS rumo a um destino exótico (Foto: Público)

Não se encontram aqui incluídas as transferências de jogadores que deram o salto de equipas menores em Portugal para os “quatro grandes”. Mas Soares, André Horta, Paulo Oliveira, Sérgio Oliveira e Ricardo Ferreira são exemplos daquilo que seria outra enorme lista.

Existe qualidade e preços baixos em Portugal comparativamente àquilo que encontraríamos noutras ligas europeias de cariz similar e tanto o mercado internacional tem de tomar a Liga Portuguesa mais em conta para o seu próprio benefício, como os próprios grandes têm de aproveitar as oportunidades, apostando em talento já com provas dadas em Portugal, contraditoriamente às apostas em jogadores incertos do mercado internacional que contribuem ainda mais para o agravamento das suas folhas salariais.

Artigo da autoria de Tiago Estêvão, analista de futebol português nas plataformas WhoScored e PortuGOAL.net 


One comment

  • wacfwaef

    Março 3, 2017 at 6:44 pm

    Este artigo é muito interessante e vai de encontro com as ideologias que tenho sobre o mercado nos clubes ditos “não grandes”.

    Quanto aos valores de mercado, fazendo parte da equipa do transfermarkt.pt, posso dizer que concordo quando afirma que os valores de mercado não garantem o potencial e qualidade do jogador, mas é um indicador relativo e quantitativo, tendo em conta o desempenho, o clube, a idade e muitas outras variantes que vão se tornando mais facilmente conhecidas e com o qual a avaliação se possa tornar mais exata.

    Contudo, há variáveis com impossível previsão que levam à diferença entre o valor de mercado e valor de negócio como a valorização que o agente dá e que ambos os clubes dão (vendedor e o interessado em contratar) para que todos cheguem a acordo.

    Quanto aos jogadores das respetivas equipas, tenho a dizer que há planteis com bastante qualidade e cada vez mais com jogadores formados em Portugal pelo meio desses planteis. O sucesso de Portugal nos escalões inferiores tem levado a que haja uma aposta nos jogadores que são “dispensados” ou emprestados pelas equipas de maior dimensão.

    Já agora, o Jorginho foi para o Saint-Étienne num empréstimo com opção de compra obrigatória de 1M € e é mais um caso de um jogador que foi por um valor superior ao seu valor de mercado (800m € nesta altura).

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