14 Dez, 2017

Shanghai SIPG. A real ameaça ao trono made in André Villas-Boas

Ricardo LestreMarço 11, 201710min0

Shanghai SIPG. A real ameaça ao trono made in André Villas-Boas

Ricardo LestreMarço 11, 201710min0

A chegada de André Villas-Boas ao futebol chinês surpreendeu o planeta do futebol naquele que foi um all-in da direcção do Shanghai SIPG para terminar com a hegemonia do Guangzhou Evergrande na Super Liga. Após um início empolgante sob o comando do jovem técnico português, o Fair Play lança a sua análise integral à equipa que promete fazer história na China e em todo o continente asiático.

Um clube com (muita) tradição na cantera

Anos antes do investimento milionário levado a cabo no futebol, o clube agora conhecido como Shanghai International Port Group Football Club procurava canalizar todo o seu capital no desenvolvimento e na projecção de jovens jogadores. Rebobinemos, então, a cassete para trás.

A história remonta para o ano 2000, com a criação da Genbao Football Academy pelo homem forte do futebol chinês Xu Genbao. Genbao é uma figura incontornável na República Popular da China. No seu vasto curriculum contam-se inúmeras experiências como técnico – isto após terminar a carreira como futebolista -, quer ao serviço da selecção nacional (sub-23 e sénior) quer de clubes como o Shanghai Shenhua ou o velhinho Dalian Wanda. Hoje, é um empresário de enorme sucesso. A fundação da Academia foi o perfeito exemplo da visão de Xu Genbao em torno de um desporto menosprezado e com pouco motivo de interesse no país. Para além de formar, deu oportunidade a atletas de alimentarem o sonho face à escassa quantidade de competições exclusivas para as camadas jovens.

Por esse motivo em particular, na temporada de 2005, deu-se por oficial a parceria entre a Shanghai Genbao Football Training Base e a Shanghai East Asia Sports and Culture Center, empresa de gestão desportiva estabelecida pelo grupo Shanghai East Asia Co.Ltd que por sua vez se encontra subordinado à Administração Desportiva de Shanghai. Deu-se, assim, um grande passo no que toca à profissionalização do futebol na China. Xu Genbao, como primeiro presidente, carimbou de imediato o paradigma da instituição: foco total na formação. Imagine-se que, no primeiro campeonato disputado, ou seja, na terceira divisão, o plantel era exclusivamente composto por jogadores com idades compreendidas entre os 14 e os 17 anos.

Com o passar do tempo, o Shanghai East Asia foi lançando grandes fornadas de jogadores – muitos dos quais são titulares absolutos na selecção nacional – onde constaram nomes como Wu Lei, Zhang Linpeng, Cao Yunding, Gu Chao e Jiang Zhipeng, e, simultaneamente, vencendo títulos e escalando posições até ao topo do futebol chinês. Em 2013, com a entrada da Shanghai International Port (Group) Co. Ltd, gigante empresa que detém controlo de todos os terminais públicos no porto da cidade, o paradigma imposto sofreu uma transformação astronómica. Literalmente.

Xu Genbao, o “Padrinho do futebol”, na China Football Summit 2016, realizada em Chongming. (Foto: pioneersports.cn)

Chen Xuyuan, actual chairman do Shanghai SIPG, ao lado de Javier Tebas e Enrique Cerezo, na tour asiática do Atlético de Madrid em 2015. (Foto: atleticodemadrid.com)

O curto legado de Sven Göran-Eriksson

Já sob o desígnio do milionário Shanghai SIPG e após uma primeira temporada de afirmação, Eriksson foi apresentado no ano desportivo de 2015 numa clara tentativa de cimentar a posição da equipa no pódio da Super Liga. O status quo do Shanghai SIPG mudou automaticamente e, dado o rico plantel ao dispor do técnico sueco, as dúvidas relativas à hegemonia do Guangzhou Evergrande começaram a surgir. O objectivo, no entanto, passava apenas por assegurar um lugar de acesso à AFC Champions League.

O plantel escolhido por Eriksson, na primeira época ao serviço do clube, teve um grande selo de qualidade. A experiência de elementos como Darío Conca, Asamoah Gyan, Tobias Hysén e Davi contrastou na perfeição com a boa base de jogadores chineses existentes no plantel. Cai Huikang, Yu Hai, Wang Shenchao, Fu Huan, Shi Ke, Lü Wenjun, Sun Xiang e, obviamente, o prodígio Wu Lei, são alguns exemplos. A nível táctico, a equipa organizava-se num 1x4x2x3x1 com grande foco nas acções de Darío Conca. O argentino, além de dono e senhor das bolas paradas, desempenhava a grande função cerebral no meio-campo. Todo o futebol do Shanghai SIPG versão 2015 era pensado e executado por si.

Onze base do Shanghai SIPG 2015. (Fonte: Lineup11)

A maior virtude desta formação centrava-se, particularmente, na forma disciplinada e pragmática com que se impunha perante os adversários. O desequilíbrio entre os sectores era raro e havia uma facilidade tremenda em produzir jogadas quer em ataque posicional quer em contra-ataque. Não era nada fácil bater o Shanghai SIPG de há duas épocas atrás. Que o diga o Guangzhou Evergrande de Scolari, que terminou no primeiro lugar somente a dois pontos de distância.

No ano seguinte, retirando a bombástica contratação de Elkeson, o plantel, assim como Eriksson, manteve-se intacto. E a ansiedade também. Com a história participação na Liga dos Campeões Asiáticos em disputa, o esforço teria de ser redobrado. O certo é que a equipa conseguiu uma prestação interessante na competição, mas, ao invés, foi revelando uma maior inconstância no campeonato e perdeu por completo o comboio do título. No somatório total, o Shanghai SIPG atingiu o terceiro posto e ficou a cinco pontos atrás dos rivais do Jiangsu Suning e a doze do Guangzhou Evergrande. Terminava, assim, o curto mas importantíssimo legado de Svennis.

Foto: ESPN

A aposta surpresa em André Villas-Boas

“Queremos trazer o troféu de campeão para Shanghai em 2017!”

Foi assim, sem qualquer tipo de relutância, que o dono e senhor do clube Chen Xuyuan se pronunciou na antevisão à presente temporada. O main target das Águias Vermelhas é, oficialmente, terminar com o longo reinado do Guangzhou Evergrande Taobao e o investimento efectuado teria de acompanhar tamanha ambição.

O xeque-mate da direcção em André Villas-Boas surpreendeu e agitou todo o mercado europeu. Um treinador jovem, com qualidades reconhecidas e com muitos pretendentes nas Big-5 que acabaria, no final das contas, por rumar ao emergente campeonato chinês. AVB foi, de facto, anunciado no timing ideal não só pelo tempo que teria para estudar o plantel, mas também pela antecipação negocial, diga-se, a outros clubes europeus de grande relevo.

Relativamente à composição do seu grupo de jogadores, Villas-Boas não usufruiu inteiramente da ‘carta branca’. Hulk e Elkeson já preenchiam duas vagas de extracomunitários, porém, a lesão prolongada de Darío Conca e a iminente saída de Kim Ju-young para o Hebei China Fortune abriram espaço para mais dois jogadores da sua preferência. Odil Akhmedov (FK Krasnodar) e Oscar (Chelsea FC), este último envolvido na transferência mais cara de sempre do futebol chinês, vieram colmatar essas mesmas lacunas.

As entradas no plantel em 2017. (Fonte: transfermarkt)

A época está ainda no seu começo, mas, tacticamente, já são visíveis as ideias de AVB. Algumas das quais bem conhecidas. Não obstante, a recente alteração da Associação Chinesa de Futebol para a utilização de jogadores estrangeiros veio atrapalhar um pouco o trabalho do técnico português ainda que noutros clubes a situação seja bastante mais complicada. De acordo com a nova regra, apenas três jogadores estrangeiros poderão ser utilizados em simultâneo e pelo menos um de dois jogadores sub-23 tem de entrar nas contas iniciais. Posto isto, ao contrário do que se tem sucedido na Liga dos Campeões, André Villas-Boas vê-se forçado a colocar Zhang Huachen no onze inicial, acabando por proceder à polémica substituição após poucos minutos decorridos no primeiro tempo. Na imagem seguinte, consta aquele que é o onze mais forte do Shanghai SIPG até ao momento.

Esquema táctico do FC Seoul 0-1 Shanghai SIPG (21/02), a contar para a AFC Champions League.  (Fonte: cortesia de Emilio @Scout5Continen)

Mesmo numa fase tão precoce da época, o futebol ‘espetáculo’ característico do português tem sido notório. A equipa soma 5 vitórias consecutivas em 5 encontros e um total de 16 golos marcados e 2 sofridos e demonstra uma assimilação de processos excepcional.

Na baliza consta Yan Junling, um dos melhores keepers chineses da actualidade, que transmite enorme segurança aos companheiros. A linha defensiva é coesa e acima de tudo muito rotinada – não tão alta como noutras experiências do português – conta com dois laterais de grande propensão ofensiva como Fu Huan e o capitão Wang Shenchao e ainda dois defesas-centrais posicionais como He Guan e Shi Ke. Inicialmente a defesa do Shanghai SIPG era apontada como o tendão de Aquiles, mas a verdade é que tem surpreendido bastante pela positiva. No meio-campo, o duplo-pivot com Cai Huikang e Odil Akhmedov torna-se vital no contraste com o maior peso atacante da restante equipa. Huikang mais posicional e defensivo e Akhmedov com um papel mais próximo de um box-to-box, actua com maior liberdade dentro das quatro linhas. Por fim, segue-se o quarteto genial composto por Oscar, Hulk, Elkeson e Wu Lei no último terço. Oscar, ainda que muito diferente de Conca na distribuição de jogo, combina, de forma exímia, com os restantes colegas em espaços reduzidos. Se a frente atacante da máquina de Felipão encanta à primeira vista, a de Villas-Boas não fica nada atrás.

O Shanghai SIPG versão 2017 vive do seu ataque e da forma como o quarteto Oscar-Hulk-Elkeson-Wu Lei se envolve para chegar ao golo. No mapeamento de passes que se segue relativo ao jogo frente ao Changchun Yatai a 4/03, cortesia de @11tegen11, é visível a frequência com que todos os membros de outros sectores se procuram ligar com os jogadores mais adiantados. É quase um sufoco para o adversário. Todos estes quatro membros jogam muito próximos entre si, produzem triangulações constantes e, consequentemente, momentos fantásticos de futebol.

Fonte: cortesia @11tegen11

Dadas as presentes circunstâncias, (re)nasceu um novo titã do futebol chinês. A essência da formação de jogadores perdura embora as aquisições milionárias tenham um peso tremendo a curto prazo. Assim surgiu o primeiro treinador a contrariar o tradicional cliché. O temível Shanghai SIPG Football Club de 2017 é um produto de grande qualidade made in André Villas-Boas.


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