23 Nov, 2017

Será Sérgio Conceição O treinador?

Diogo AlvesAgosto 10, 201716min0

Será Sérgio Conceição O treinador?

Diogo AlvesAgosto 10, 201716min0

Os portistas depositam bastante confiança no novo timoneiro dos Dragões, Sérgio Conceição. Com um plantel construído com base na época passada, o ex-Nantes, Braga e Vitória SC, quer voltar a dar ao Dragão a alma de outros tempos.

Artigo feito em parceria com Francisco Isaac

COMPRAR OU NÃO COMPRAR, EIS A QUESTÃO…

Dos verões menos animados que existiram para o Reino do Dragão, com a realização de apenas uma entrada: Vaná (CD Feirense). O guarda-redes brasileiro, que deu várias “dores de cabeça” no empate a zeros na época passada, foi o único reforço fora-de-portas para o FC Porto. Porém, desenganem-se quem pensa que isto é sinal de fraqueza, fragilidade ou “morte anunciada” dos portistas… os “novos” reforços estavam nos empréstimos de anos anteriores.

Depois de várias épocas a esbanjar euros em jogadores que pouco ou nunca jogaram no Dragão, o FC Porto de Sérgio Conceição recuperou uma série de activos que podem dar outra profundidade ao plantel, não gastando qualquer valor no processo.

Vejamos: Aboubakar, Diego Reyes, Hernâni, Ricardo Pereira, Sérgio Oliveira, Bruno Indi (por esta altura a negociar uma hipotética saída para Inglaterra) e Marega. Ou seja, ao todo foram sete os retornos à equipa principal do FC Porto com duas a ganhar uma dimensão bem relevante para o 11 dos Dragões.

Falamos de Ricardo Pereira e Vincent Aboubakar. O lateral/extremo português regressou ao FC Porto após dois anos no Nice e tem sido uma das grandes surpresas durante a pré-época, dando outra profundidade ao corredor direito, apetrechado de um belo poder de cruzamento, boa visão de jogo e um ritmo bem mais alto do que Maxi proporcionava.

Aboubakar foi um autêntico matador na pré-época, com 7 golos, munindo-se de uma grande confiança, poder de choque e capacidade de moer a defesa a cada investida. Depois de um empréstimo ao Besiktas e de problemas com a anterior equipa técnica do FC Porto, o camaronês mereceu confiança de Sérgio Conceição e tem respondido com golos, golos e golos. Mas será só pólvora de pré-época?

Por outro lado, as saídas de André Silva e Rúben Neves poderão fazer-se sentir a médio prazo. O avançado, que deixou quase 40M€ nos cofres dos azuis-e-brancos, dava outras “armas” ao ataque, naquela que poderia ser uma época de total afirmação.

Já Rúben Neves poderia ter encaixado com qualidade no 4-4-2 de Sérgio Conceição, mas os quase 20M€ do Wolves parecem ter convencido a SAD do FC Porto a desfazer-se do médio. E se a saída de Danilo Pereira ainda se verificar, ficará um “buraco” por tapar no meio-campo… problemas antes do início da época?

Outras saídas a destacar foram os empréstimos de Boly (Wolves) e Mikel Agu (Bursaspor) e as vendas de Laurent Depoitre (Huddersfield), Andrés Fernández (Villareal) e potencialmente Josué (em negociações com o SC Braga). Ao todo o FC Porto somou 63M€ em transferências, apresentando um saldo positivo que agradará à Troika da UEFA, uma vez que o FC Porto está sob avaliação do Fair Play financeiro até 2020 (se considerarmos que a transferências de Óliver Torres só entra nas despesas de 2017/2018, o FC Porto conseguiu 43M€ positivos em transferências, não mencionando aqui os salários).

Vendo bem o FC Porto suprimiu a vaga de Boly com a inclusão de Indi e Reyes, a posição de lateral direito com Ricardo (com Layun a ficar o suplente directo de Telles), Sérgio Oliveira por Neves (não sendo uma troca directa, mas garante mais um “cérebro” para o miolo do terreno), Aboubakar, Marega e Hernâni por André Silva e Depoitre (o belga quase nunca foi opção nos Dragões) acrescentando mais uma opção para a frente de ataque ou extremidades do campo, o que perfaz um plantel mais audacioso, com mais escolhas e com outras soluções para os momentos mais intensos da época.

Todavia, um aviso aos mais esperançosos… a inclusão de Diogo Dalot (o lateral direito pode estar na calha para substituir Maxi ou Layun no plantel principal) e Rui Pedro não serão sinais que há alguma falta de recursos para ter opções mais experientes no plantel principal? Não faltará um ponta-de-lança suplente para entrar por Soares e Aboubakar? E não teria sido proveitoso chamar de volta Quintero, tendo um 10 “puro” como solução a Brahimi?

Vaná Alves a única contratação do FC Porto 2017/18 [Foto: fcporto.pt]

QUEM SAI NA FRENTE

A Pré-época é aquele período de trabalho das equipas que proporciona uma reviravolta na carreira de alguns jogadores… que o diga Vincent Aboubakar ou Ricardo Pereira, dois dos melhores jogadores do FC Porto durante todos os jogos da pré-época.

Ricardo Pereira encantou por completo as bancadas, com um futebol de classe, bem pautado, onde as investidas no ataque fizeram-se sentir, apresentando uma assertividade bem superior a Alex Telles no apoio aos extremos ou avançados dos Dragões. Para além disso, Ricardo traz velocidade, ritmo e resistência, ficando agora por confirmar a sua capacidade emocional para aguentar com o Tribunal do Dragão.

Aboubakar teve com Sérgio Conceição uma espécie de renovação aos olhos dos adeptos dos azuis-e-brancos… se os golos não foram os suficientes para agradar, o futebol aguerrido polvilhado com algum perfume (a fazer lembrar os primeiros tempos com a camisola do FC Porto) e raça na entrega acabaram por sanar o conflito com as bancadas, entrando numa nova reconciliação.

Sérgio Oliveira não tendo sido fantástico, fez o suficiente para agradar tanto o treinador como uma boa parte dos adeptos, denotando-se a capacidade para lançar jogo ao passe, comunicação intensa e boa capacidade de colocação (a velocidade e ritmo de jogo continuam a ser problemas no internacional sub-21 português).

Não deu para observar Diego Reyes com os “olhos” que todos queriam, mas o central mexicano parece ter amadurecido após dois anos de empréstimo na La Liga. Mais confiante, “raçudo” e competente, o central pode ser a solução para Marcano ou Felipe e durante os poucos jogos que fez cumpriu sempre com as suas obrigações.

Depois Soares voltou a deixar a sua marca com golos e entrega (continua a faltar visão de jogo mas já tem outra capacidade de ajuda na defesa). Brahimi com a classe do costume e sempre sob um bom certame, dominando bem as ingressões no meio-campo adversário, aplicando-se isto também a Corona.

Contudo, também houve lugar para desencantos com alguns jogadores nomeadamente com Hector Herrera (cada vez mais longe do jogador que foi em 2014/2015), Maxi Pereira e Miguel Layún.

O mexicano nunca demonstrou o porquê de ser um dos capitães no FC Porto durante os jogos de pré-época, realizando apenas um bom jogo em toda a pré-época (Cruz Azul). Falta de posicionamento, o ritmo nunca foi ideal e a sua participação no ataque foi longe da que Sérgio Conceição aprecia… para além disso, está atrás de Otávio e André André para opções no meio-campo. Estará o tempo do mexicano a terminar?

Maxi Pereira já não tem a intensidade de outrora e a perda de lugar para Ricardo Pereira prova, em parte, essa teoria. Para além disso, quando entrou em campo o lateral nunca foi a unidade mais competente, comprometendo o ataque em alguns momentos e a ter dificuldades em aguentar com adversários mais exímios a explorar as suas costas (pela qualidade mais baixa dos adversários, o FC Porto nunca teve um teste de fogo durante este início de época).

Por fim, Miguel Layún está definitivamente relegado para o banco de suplentes ou para a “equipa de reservas”, já que só pela sua polivalência irá convencer Sérgio Conceição a inclui-lo nos 18 convocados de cada semana. Layún está longe do lateral de 2015/2016 e uma hipotética transferência poderá estar para acontecer num futuro próximo.

Estes foram os jogadores a destacar por cima e por baixo da pré-época do FC Porto, com os retornados a ganhar um papel de destaque nos convocados do novo treinador dos Dragões.

Regressou, viu e venceu. A estrela da pré-época, Vincent Aboubakar [Foto: noticiasaominuto.com]

«Ardente voz»

Sérgio Conceição espelha na perfeição uma das frases marcantes do hino do FC Porto, com uma voz ardente e flamejante. Um homem íntegro, honesto, directo e frontal, sem medo de assumir riscos e de dizer o que lhe vem à alma no preciso momento. Transparente e igual a si mesmo em todas as conferências de imprensa ou flash-interview. Não deixa passar nada, não deixará nada por dizer.

Do discurso melancólico, monótono e monossilábico, os dragões agora têm um treinador com um discurso inflamado, directo e com imenso conteúdo. Conteúdo que deixou bem claro desde o primeiro dia, avisando desde logo toda a navegação que com ele sentirão pressão desde o dia 1, com processos de treino de qualidade e não esperem paninhos quentes nas horas mais duras.

Emocionado pela chegada ao seu lugar, à sua cadeira e ao seu Dragão, Sérgio Conceição tem sempre uma ponta emocional em todos os momentos. De lágrima no olho e voz algo embargada, procura fugir à emoção, até porque, como o próprio diz, a emoção retira-lhe a razão e no banco do Dragão a razão tem de estar acima de qualquer emoção.

Falou sempre do jogo, dos aspectos do jogo, do que pretende e do que não gostou e quer “afinar”. Não procurou os lugares comuns ou chavões da praxe em época onde tudo é treino, tudo é uma questão física. Não se refugia nos 20 remates conseguidos, não aponta a ineficácia como o mal para o empate ou derrota. Procura logo focar-se no que esteve menos bem, os 15’ minutos finais, do que os 75’ onde a equipa esteve realmente bem. Perfeccionista vai ao detalhe e não deixa escapar nada.

No banco de suplentes já vimos alguma da sua azia e da sua ginástica habitual. Não para nunca, gesticula, assobia, chama pelo jogador e se for preciso mandar um berro ele fá-lo. De garrafa de água na mão e com a mirada atenta no relvado, não deixa escapar um detalhe que seja, pede para a linha defensiva subir mais ou menos, questiona o jogador porque não deu cobertura ou porque “fugiu” da jogada. Nem os auxiliares e árbitro escapam ao novo timoneiro do Dragão.

Foi visível no jogo de apresentação, diante do Deportivo La Coruña, questionando Jorge Sousa (de forma respeitosa) se não havia um penalti. «Jorge, mão ali, não?». No México não deixou que o árbitro fizesse farinha com ele e ordenou que os jogadores não batessem as grandes penalidades, saindo assim de campo após o apito final.

[Foto: noticiasaominuto.com]

Porto à Porto

Na vertente mais técnica e táctica, o novo timoneiro prometeu um Porto diferente, nem melhor, nem pior mas diferente dos últimos 4 antecessores. Quer um Porto mais à imagem dos bons velhos tempos, agressivo, a jogar com bola, a sufocar o adversário desde o apito inicial até o final. Sem medo de assumir riscos para obter o resultado pretendido, procura um Porto mais à imagem do Porto. Determinado, ambicioso e de vertigem.

Em campo já se vê a imagem do treinador, a forma como ele quer que o Porto jogue, ainda não ao máximo, mas os jogos de pré-época deram para limpar a vista e elevar as expectativas, até mesmo dos mais pessimistas. Agressivos com bola e sem bola, a querer procurar baliza desde o primeiro instante, assim que há perda de bola o objectivo é logo recuperá-la com uma pressão muito sui generis e que não se via há algum tempo no Dragão. Alta, sufocante e até por vezes desordenada. O objectivo é atacar quando se tem bola, sem bola passa por recuperá-la para voltar atacar.

Ainda que do ponto de vista mais da organização o processo defensivo ainda terá de sofrer ajustes, de forma a torna-lo mais efectivo, já vemos coisas interessantes, e que, dentro de portas poderão funcionar muito bem. O Porto ainda sofre quando a 1ª linha de pressão é batida e quando começa a defender no seu próprio meio-campo, faltando melhores ligações entre sector médio e defensivo. Ainda assim é visível a melhoria de jogo após jogo durante a pré-época, sinais do perfeccionista Conceição.

Rasgar com o passado

Sérgio Conceição marca um fim de uma era, a era do 1-4-3-3, sistema muito utilizado desde os anos 80 no Porto. Desde Pedroto, passando por Mourinho e acabando em Lopetegui. O sistema que fez escola, marcou décadas e que deu títulos, vê agora o seu fim, pelo menos para já. O 1-4-3-3 era como uma pele para os portistas. Quem se atrevia a chegar e mudar com o seu sistema era logo olhando com desconfiança.

Que o digo Paulo Fonseca que tentou de uma forma tímida implementar um 1-4-2-3-1, e acabou engolido pelo Tribunal do Dragão. Mourinho é o único caso de sucesso com títulos, o seu 1-4-4-2 usando nas competições europeias, nomeadamente na Liga dos Campeões em 2004, foi essencial para a conquista de Gelsenkirchen.

Nuno Espírito Santo plantou a semente e agora cabe a Sérgio Conceição dar as dinâmicas de acordo com o clube. O 1-4-4-2 desta época é diferente do ponto de partida da época passada, desde logo porque as dinâmicas de jogo são muito diferentes. O calculismo e pragmatismo, deu a lugar à verticalidade e ao risco.

Afinal como joga este Porto de Sérgio Conceição

Dispostos em campo em 1-4-4-2, como já referido, o FC Porto procura agora um tipo de jogo mais posicional e menos anárquico, usando a ordem para desordenar o adversário, elaborando sempre com posse de bola como um meio e não um fim. Procurando provocar o adversário, chamando-o para zonas interiores – onde há desde logo mais unidades – para libertar os corredores.

Laterais a garantir amplitude e profundidade, com Alex Telles e Ricardo, os vaivém nos corredores estão garantidos e desde logo com boa variabilidade na forma de atacar. Sobretudo com Ricardo quem evidencia uma boa capacidade de atacar a profundidade para cruzar, ou diagonais interiores para chegar a zonas de finalização. Os centrais terão também um papel fundamental na manobra ofensiva, sendo eles com Casillas, os primeiros construir com bola.

Dois médios-interiores, com papéis distintos mas de complementaridade. Um médio mais posicional, mas de construção e menos de destruição. Danilo será esse jogador, mas tem mostrado muitas dificuldades com bola, o que poderá obrigar a uma adaptação de André André à posição. À sua frente jogará um médio com maior raio de acção e que será o cérebro do jogo, o processador, Óliver Torres. Com os dois extremos – Brahimi e Corona – metidos bem por dentro para libertar os corredores para os laterais, mais entrelinhas para participarem em criação nas zonas de decisão.

Na frente dois homens de área – Aboubakar e Tiquinho – mas que têm a missão de à vez irem baixando para dar suporte aos médios, e assim existirem uma maior ligação entre todos. Com dois avançados “puros” o Porto terá mais força dentro da área e aumentado assim a percentagem de sucesso em zonas de finalização. Algo que na época passada foi muito debatido.

A defender haverá uma pressão imediata sobre o recuperador da bola, aumentado assim o sucesso de recuperação em zonas mais adiantadas. Pressionar logo que possível para roubar a bola ao adversário e voltar atacar. Sempre com 6 unidades no meio-campo alheio, formando muitas vezes um losango com os médios para dificultar as tarefas de construção ao adversário.

Em suma, teremos um Porto mais à sua imagem, onde irá imperar a sua força e vontade de querer muito vencer e dominar os jogos. Voltará o Porto de maior posse de bola, mas com a diferença de ser uma posse de mais qualidade e menos estéril. Havendo espaço ataca-se, não havendo provoca-se esse espaço. O futebol Rock N’Roll parece estar de volta ao Dragão depois de vários anos de ausência.


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