20 Out, 2017

PSV. Da indisfarçável crise à potencial solução – parte II

Filipe CoelhoFevereiro 7, 201710min0

PSV. Da indisfarçável crise à potencial solução – parte II

Filipe CoelhoFevereiro 7, 201710min0

Oito meses depois da conquista do bicampeonato, são também oito os (muito) pontos de distância face ao líder Feyenoord. Sem outra competição para disputar que não a Eredivisie, a época ameaça ser amarga para Cocu e companhia. As causas da crise são várias mas a porta não está totalmente fechada – como pode ainda reerguer-se o PSV?

Depois de diagnosticadas as causas para uma campanha bastante abaixo do expectável, é altura de perceber por onde pode o PSV crescer para encurtar as distâncias para os dois primeiros – 8 pontos face a Feyenoord e 3 relativamente a Ajax – e, assim, sonhar com a intromissão na luta pelo título.

Balança de mercado

O mercado de inverno trouxe duas noticias relevantes. Por um lado, o retorno de Marco van Ginkel, emprestado pelo Chelsea, tal e qual como havia sucedido há um ano atrás. O médio holandês traz outra capacidade de chegada à área adversária, destacando-se pela notável veia goleadora.

Por outro lado, o PSV deixou partir Narsingh (Swansea) e Jozefzoon (Brentford). Ambos extremos, se o segundo pouca relevância e minutos apresentava na equipa principal, já o primeiro era figura constante e importante no onze titular. Estranha-se, por isso, que os Boeren, tendendo a canalizar uma importante fatia do seu jogo pelos corredores laterais, tenham deixado sair dois elementos que actuam nessa zona do terreno. Ainda mais porque Locadia continua a recuperar de uma grave lesão, não havendo ainda uma data definitiva para o seu regresso.

Da nuance ao dilema

Em virtude destas saídas, o próprio modelo do PSV tem sofrido, nas últimas semanas, algumas nuances. Se era relativamente expectável que fosse Steven Bergwijn – um jovem extremo puro de 19 anos, ainda mais rápido e imprevisível do que Narsingh, mas com notórios e naturais problemas ao nível da decisão, sobretudo no momento (ou não) de finalização – a assumir o papel interpretado, até então, pelo agora jogador do Swansea, Cocu tem optado por colocar Ramselaar na ala esquerda (com Pereiro na direita).

E isto apresenta implicações claras na forma como o PSV se predispõe a jogar. Contratado ao Utrecht no inicio desta temporada, Ramselaar tem sido, possivelmente, o jogador mais constante e consistente da turma de Eindhoven, destacando-se no centro do terreno pela forma como é capaz de acelerar o jogo com e sem bola, e quase sempre pelo chão. Um autêntico dínamo, que busca, dá, acelera e volta para dar linha de passe.

Colocar o pequeno médio holandês na ala e esperar que ele apareça em velocidade (à semelhança do que fazia Narsingh) é contra-producente. E é o próprio jogador que, pela sua intuição, procura o espaço central, não se deixando fixar na ala. Isto leva a que o PSV acabe por viver um dilema. Não pode estar tão dependente de um jogo directo, ainda para mais quando não tem extremos puros para ganhar as costas das defesas em profundidade.

Ramselaar a perceber as dificuldades da equipa e a ter sensibilidade para recuar. É neste espaço que pode realmente fazer a diferença.

Por outro lado, cambiar uma matriz de jogo tão enraizada não é fácil. Ainda para mais quando Luuk de Jong é o ocupante do espaço #9, destacando-se pela sua imponência física e pela forma elogiável como vence praticamente todos os duelos aéreos. Há, pois, um instinto natural de colocar a bola na frente de forma rápida e pelo ar, não se promovendo um jogo de conexões e apoios.

Isto leva a situações algo discutíveis em termos de eficácia. Tomando por referência a partida do Heerenveen, e numa altura em que o PSV se encontrava em desvantagem (2-3), a partir do minuto 79, os Boeren despejaram autenticamente 8 bolas directamente da defesa para o ataque, em menos de 10 minutos! Uma enormidade de passes longos, com um critério pouco racional, num momento em que não havia grande capacidade de largura no jogo da equipa, já que, depois de mexer, Cocu deixou Ramselaar e Van Ginkel nas alas. É certo que o conjunto de Eindhoven ainda consumou a reviravolta, mas não como consequência directa da opção por esse estilo de jogo mais primitivo.

Vejamos alguns lances que ilustram plenamente a forma como o PSV tenta atacar.

Sem grandes linhas de passe, Daniel Schwaab vai fazer um passe mal medido. O Heerenveen recuperará a bola e terá espaço e capacidade para ‘meter’ o ataque rápido.

Um minuto depois, idêntica situação: na zona central do terreno, onde há 4 jogadores do Heerenveen, um vazio de elementos do PSV.

Jogada-tipo do PSV. Passe longo (aqui de Moreno), disputa aérea, (neste caso de Pereiro), e recuperação para remate de Luuk de Jong (sinalizado a amarelo, tal como Propper). Situação de 3×2 em função de um mau posicionamento dos homens do Heerenveen.

Mais um lance da mesma estirpe, que acabará por redundar em golo. Passe longo de Moreno, três homens a atacar a profundidade e vai ser Propper a cabecear a bola na linha limite da grande área do Heerenveen (aproveitando um erro do keeper Mulder).

A circunstância do costume. Aqui haverá passe de Ginkel com a bola a perder-se pela linha de fundo.

De facto, muitas das dificuldades sentidas pelo PSV nesta temporada decorrem desse perfil de jogar. Perante blocos recuados e relativamente coesos, a reiterada opção pelo passe longo e directo tem uma eficácia tremendamente discutível. Assim, se os Boeren não pretendem uma mudança na forma preferencial como atacam, é pelo menos evidente que a 2ª linha tenha de estar mais avançada e mais junta, mais preparada para a recuperação da 2ª bola, não permitindo que o esférico ‘fuja’ do último terço ofensivo.

Por outro lado, e recuperando uma ideia atrás expressa, o recente arrastamento de Ramselaar para a esquerda – em Almelo, até começou à esquerda e acabou à direita – e a afirmação de Pereiro na direita, ambos com pés trocados em relação à faixa ocupada, acaba por levar a que aconteçam com mais assiduidade movimentos interiores destes dois elementos, o que, inadvertidamente ou não, torna a equipa mais ligada entre si.  

Comportamento e conexões estabelecidas entre os jogadores do PSV em três partidas recentes. Da esquerda para a direita, do mais recente para o menos recente, nota-se uma evolução, com os jogadores mais próximos entre si e suscitando, assim, maior número de ligações. (Fonte: 11tegen11)

A rectaguarda

Finalmente, o PSV, habitualmente uma equipa que sofre poucos golos, tem, nas últimas semanas, visto a sua baliza ser violada de forma reiterada. São 6 golos sofridos nos últimos 3 jogos, e ainda a sensação de que a equipa de Cocu é facilmente desmontável, pela frequência com que surgem espaços no corredor central (diante do Heerenveen isso foi recorrente).

No fundo, nota-se uma equipa que, em organização defensiva, tem problemas na coordenação na linha defensiva mais recuada, com distância excessiva entre os elementos que a compõem e um controlo nem sempre competente da profundidade. Por outro lado, até pela opção de fazer de Guardado médio-defensivo, vários são os momentos em que a cobertura do espaço central do terreno não é feita da melhor forma, surgindo clareiras evidentes. O mexicano é elemento fundamental na forma como inicia o processo ofensivo dos de Eindhoven, mas a amplitude da sua acção em termos defensivos está longe de ser o garante de noites tranquilas ao reduto mais recuado.

Evidentes duas situações. A fraca cobertura do espaço central, bem como uma distância desmesurada entre os elementos da linha mais recuada (sobretudo entre Arías, defesa direito, e Schwaab).

Uma equipa pouco fechada em si para melhor controlar os movimentos do adversário. Mais gritante ainda: o controlo deficiente da profundidade por parte da última linha defensiva, dando possibilidade ao jogador do AZ Alkmaar de surgir isolado diante da baliza.

Para diante

Em suma, a chegada de Van Ginkel aporta consigo mais um elemento de inegável qualidade ao meio-campo do PSV, hoje com maior capacidade de fogo e de … golo. Tem ainda o condão de possibilitar a derivação de Ramselaar para a ala esquerda. E aqui pode estar o maior dilema para Cocu. Tornar a equipa mais versátil e ligada no seu jogo, com outra capacidade de se espraiar em campo através de um jogo posicional mais evidente ou manter a opção pelo chamamento de Guardado como primeiro homem de potenciação de um jogo mais directo e de apelo à disputa aérea, mas já sem a velocidade de Narsingh para explorar. E finalmente o acerto dos mecanismos defensivos colectivos, algo que pode sofrer um input com a ansiada total recuperação de Jorrit Hendrix.

Os oito pontos de atraso face ao Feyenoord podem parecer uma distância demasiado longínqua, mas são ainda recuperáveis. Até porque o PSV terá de visitar a Banheira de Roterdão ainda este mês, tendo a oportunidade de relançar todo o campeonato. Para aquele que é possivelmente o plantel mais robusto da Eredivisie, ainda há tempo. Mas Cocu tem de fazer por potenciar algum talento que, por motivos vários, tem estado oculto ou negligenciado.


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