21 Ago, 2017

PSV. Da indisfarçável crise à potencial solução – parte I

Filipe CoelhoJaneiro 27, 20176min0

PSV. Da indisfarçável crise à potencial solução – parte I

Filipe CoelhoJaneiro 27, 20176min0

Oito meses depois da conquista do bicampeonato, são também oito os (muito) pontos de distância face ao líder Feyenoord. Sem outra competição para disputar que não a Eredivisie, a época ameaça ser amarga para Cocu e companhia. As causas da crise são várias mas a porta não está totalmente fechada – como pode ainda reerguer-se o PSV?

Era pouco expectável que, à entrada para o inicio da 2ª volta, e ultrapassado o interregno invernal, oito pontos separassem PSV de Feyenoord. Pelo menos da forma como a tabela está montada, com o bicampeão tão atrás do rival de Roterdão.

Mas vários factores parecem contribuir para uma época perfeitamente abaixo das expectativas. Com efeito, para além da distância a separar da liderança, o conjunto de Eindhoven está já fora da Liga dos Campeões (e não conseguiu sequer a repescagem para a Liga Europa, quedando-se pelo último lugar do grupo D da Champions, com apenas 2 pontos) e viu-se afastado da Taça da Holanda às mãos do Sparta de Roterdão (derrota contundente por 3-1 em Outubro passado).

A performance do PSV na actual Eredivisie. (Fonte: statoo.com)

A culpa certamente se poderá repartir por várias aldeias. É certo que o bicampeão holandês, mesmo ostentando tal estatuto, nunca foi o protótipo de equipa apaixonante, com um jogo ofensivo, dominador, agressivo ou enleante. Pelo contrário, a sua coesão, pragmatismo, versatilidade e profundidade do plantel foram fulcrais para o sucesso das temporadas transactas.

As coisas parecem ter-se alterado em Eindhoven. Não em termos tácticos – de sistema, princípios ou modelo de jogo. Cocu continua fiel às suas ideias, optando invariavelmente por um 433 com jogo tendencial pelas alas, com ataques lestos e sem privilegiar uma posse de bola muito elaborada (diferentemente do Ajax).

Assim, ainda que, da espinha dorsal, apenas Jeffrey Bruma tenha deixado Eindhoven – rumo ao Wofsburgo da Alemanha –, o PSV tem sofrido imenso com uma dupla incapacidade num duo relevantíssimo. A saber, Andrés Guardado – hoje em dia a jogar no espaço #6 à frente da defesa – tem sido propenso a lesões, apresentando, ainda, um rendimento bastante inferior ao que lhe é habitual nas vezes em que tem sido opção. De grande municiador do ataque dos de Eindhoven, o mexicano apresenta-se hoje mais lento na execução e aparentemente com mais dúvidas na hora da decisão, com efeitos imediatos na sua principal arma: o passe.

Por outro lado, outro dos elementos com uma queda abrupta no seu rendimento é Luuk de Jong. O capitão de equipa e melhor marcador da Eredivisie em 2015/2016 mantém intactas as valências ao nível do jogo aéreo (é fortíssimo na impulsão). Contudo, apenas conheceu o doce sabor do festejo por 5 ocasiões esta época, atravessando uma grave crise de confiança e com uma nítida incapacidade em ser o serial killer que a sua equipa tanto necessitava. E que estava habituada, diga-se. Está é, aliás, a principal pecha do PSV na actual temporada. Se os Boeren continuam a ter capacidade de criar oportunidades de golo – ainda que em menor número do que em 2015/2016 –, têm sido gritantes as lacunas na finalização.

E é a partir daqui que se conseguem explicar empates poucos admissíveis, como os cedidos diante de Groningen (em casa), Willem II e Roda – todas estas partidas terminaram 0-0 (número ‘assustador’, se pensarmos que, nas anteriores cinco temporadas, o PSV apenas tinha concedido um 0-0). E tal trauma adensa-se, que nem mesmo as grandes penalidades escapam. Nas últimas 21 ocasiões em que pôde converter um penalty, o PSV desperdiçou 13, num problema que, em abono da verdade, se arrasta já desde a última temporada.

Por outro lado, para além de Guardado, elementos importantes na caminhada para o bicampeonato têm também sido alvo de infortúnios ao nível das lesões, como são os casos de Jorrit Hendrix (unidade relevante no meio-campo) e Jürgen Locadia (veloz extremo esquerdo). Ao que se pode aliar, ainda, os nomes de Siem de Jong e Oleksandr Zinchenko – ambos centrocampistas, emprestados por Newcastle e Manchester City, respectivamente, mas também eles atrapalhados por lesões sem conseguirem, até ver, afirmar-se como verdadeiros reforços na nova temporada.

Quanto a Siem, aliás, a expectativa era grande, pela forma como o médio poderia vir a interligar-se com o seu irmão Luuk. Todavia, tal conexão tem-se ficado sobretudo pelos intentos. Uma das raras excepções viu-se na partida da Arena de Amesterdão, frente ao Ajax (1-1), em que a entrada do jogador do Newcastle a meio da segunda parte foi fundamental para a equipa capitalizar um estilo de jogo mais directo. Com ele em campo, o PSV forjou uma aproximação a um 442 clássico, com maior presença na área e, por conseguinte, maior perigo. E Siem marcou mesmo, num lance em que a reconhecida visão de jogo de Pereiro foi essencial.

A forma como o PSV se comportou em campo diante do Ajax. (Fonte: 11tegen11)

Seja como for, as dificuldades do PSV esta temporada têm sido recorrentes. Poucas são as vitórias inequívocas, e as perdas de pontos sucedem-se. Dentro do terreno de jogo, perante blocos baixos, compactos e minimamente organizados, os pupilos de Cocu revelam uma imensa imperícia, optando grosso modo por um jogo carrilado pelas bandas laterais e/ou através de passes por alto na busca da profundidade. É raro ver os Boeren com um jogo mais ligado, através de um futebol mais apoiado, com soluções entre linhas e com uma maior dose de racionalidade.

Não obstante, o timoneiro Cocu não atira a toalha ao chão. Ainda há dias referiu-se à experiência que o PSV tem na disputa e conquista por títulos, por comparação com o Feyenoord, há muito tempo arredado das grandes decisões. E não teve papas na língua ao afirmar que a não conquista do título significará o falhanço da época desportiva.

A porta não está totalmente fechada para a equipa de Eindhoven. Mas para que o tricampeonato seja uma realidade há um claro upgrade a fazer no jogo da equipa, com várias unidades que podem dar mais de si e com outras a poderem surgir, encaminhando o conjunto para uma maior consistência, fiabilidade e qualidade ao nível exibicional. É esse o objecto da parte II.

Odds actuais relativamente à conquista da Eredivisie (Fonte: 11tegen11)

Evolução das odds relativamente à conquista da Eredivisie. (Fonte: 11tegen11)


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