13 Dez, 2017

Ekstraklasa: A Outra Face da Polska

Francisco da SilvaSetembro 24, 201612min2

Ekstraklasa: A Outra Face da Polska

Francisco da SilvaSetembro 24, 201612min2

Quem percorre as principais artérias das suas cidades dificilmente fica indiferente à frieza emocional e expressiva da Polónia, contudo, ocultado em cada rosto submisso, existe um país profundamente apaixonado pelo desporto e pela sua Polska. Neste espaço, pretende-se explorar uma das suas paixões, a Liga Ekstraklasa, e narrar a ponte futebolística Varsóvia-Lisboa, tentando posteriormente decifrar o seu futuro.

Ekstraklasa ID

A principal competição de clubes na Polónia começou a desenhar-se após a independência desta nação em 1918, contudo, só ganhou contornos oficiais em 1927 sob a insígnia Liga Pilki Noznej. Ao longo de quase 90 anos de existência, a rebatizada Liga Ekstraklasa, palavra polaca que significa liga de topo, atravessou capítulos inolvidáveis da história da Polónia e da própria Europa, tão inolvidáveis e transcendentes que culminaram na interrupção da competição no verão de 1939 quando a Alemanha invadiu a Polónia. Talvez em memória do heroísmo incomensurável de Stefan Starzynski, mayor de Varsóvia que recusou abandonar a cidade durante o cerco nazi de 1939, a Ekstraklasa respeitou um profundo silêncio futebolístico até 1945, altura em que a Polónia voltou oficialmente a existir.

Os resquícios do Pacto Molotov-Ribbentrop, acordo entre a Alemanha de Hitler e a Rússia de Estaline que dividiu a Polónia em 2, condicionaram também a história futebolística da primeira liga polaca que desde 1945 a 1989 viu-se subjugada às normas da potência invasora soviética. A partir da implosão da URSS, o sucesso económico da Polska permitiu à Liga Ekstraklasa estabelecer-se como um refúgio basilar do talento proveniente das ex-repúblicas soviéticas. Este Polacocentrismo, uma espécie de doutrina chauvinista inspirada no trabalho de Nicolaus Copernicus, permite que estrelas oriundas da Bósnia, Bielorrússia, Bulgária, Croácia, Eslovénia, Hungria, Letónia, Lituânia, República Checa, Sérvia ou Ucrânia orbitem em torno da Ekstraklasa e complementem em uníssono o talento das academias de formação polacas.

Aliás, é esta mesma complementaridade e heterogeneidade da liga doméstica polaca que a torna tão interessante do ponto de vista da prospeção pois agrega a disciplina tática soviética, a irreverência balcânica e a paixão futebolística polaca. Tudo isto devidamente condimentado permite proporcionar excelentes partidas de futebol onde não raras vezes se confunde intensidade com agressividade, paixão com obsessão e talento com momento. Em linha com o sucedido na Revolução Industrial, a lógica da proximidade geográfica tem uma preponderância avassaladora na forma como o talento formado e desenvolvido nos mais de 300 000 km2 da Polónia é difundido.

Os principais mercados premium continuam a ser a Alemanha e a Itália, contudo, também a Inglaterra começou a despertar para os encantos da Ekstraklasa com o recrutamento dos guardiões Wojciech Szczesny e Łukasz Fabianski (ambos para o Arsenal), do criativo Aleksandar Tonev (Aston Villa) e do prodígio Bartosz Kapustka (Leicester). A ligação umbilical entre a Polónia e a Alemanha permite que a Bundesliga seja o maior recrutador em bruto de jogadores da primeira liga polaca, gerando um forte impacto na dinâmica comercial dos clubes e contribuindo decisivamente para o desenvolvimento das academias de formação polacas. Ao longo dos últimos anos, são vários os nomes que fizeram a ponte Varsóvia-Berlim: Robert Lewandowski (Borussia Dortmund), Arkadiusz Milik (Leverkusen), Artjoms Rudnevs (Hamburgo) ou Ondrej Duda (Hertha Berlim). Já mais a sul, a Série A continua a desafiar a amplitude térmica dos profissionais da Ekstraklasa e a contratar em quantidades assinaláveis para temperar o seu clima mediterrânico, talvez à procura do próximo Boniek. Kamil Glik (Palermo), Lukasz Skorupski (Roma), Bartlomiej Dragowski (Fiorentina) e Karol Linetty (Sampdoria) foram/são alguns dos recentes embaixadores do gelo em Itália.

Robert Lewandowski | Kamil Glik | Bartosz Kapustka
Robert Lewandowski | Kamil Glik | Bartosz Kapustka

Apesar de alguns episódios esporádicos de escândalos de corrupção, o fascínio pela Ekstraklasa permanece ativo e permite ter em cada jornada uma média de quase 50% da capacidade dos estádios ocupada, mesmo que haja casos de sobredimensionamento dos estádios devido à megalomania do Euro 2012 organizado pela Polónia e pela Ucrânia. Por forma a incrementar o espetáculo da Ekstraklasa também dentro das quatro linhas, o Comité da prova alterou o formato da competição a partir da temporada 2013/2014, segmentando-a em 2 fases: na fase regular as 16 equipas disputam 2 voltas entre si num total de 30 encontros, posteriormente, tendo em conta a classificação geral, as 16 formações são divididas em 2 grupos de 8 (Grupo I: 1º-8º classificado | Grupo II: 9-16º classificado); na fase final as equipas ficam com metade dos pontos da fase regular e disputam mais 7 jogos entre si para determinar quem é o campeão (1º classificado do Grupo I após a fase final) e quais são as 2 equipas relegadas para o segundo escalão (2 últimos classificados do Grupo II após a fase final).

O registo histórico dos consagrados na Ekstraklasa é bastante vasto e diversificado, gravando até ao momento e para a eternidade um lote de 16 formações, das quais apenas 5 delas ainda continuam no principal escalão do futebol polaco. O Wisla Cracóvia, formação polaca mais temida da 1ª década do Século XXI, e o Górnik Zabrze, histórico clube dos anos 60 e 80 que atualmente se encontra no 2º escalão, dominam em termos absolutos com 14 títulos cada um deles, no entanto, os 4 últimos anos foram completamente monopolizados pelo Légia de Varsóvia que arrebatou o título por 3 vezes. A presente temporada tem sido recheada de surpresas, desilusões, confirmações e revelações, bem à imagem do sempre intenso e imprevisível campeonato polaco. Do conjunto de equipas que compõem o leque dos 8ºs primeiros da Ekstraklasa, a que mais se tem destacado é o Légia de Gdansk que, após ter sido adquirido por um grupo de investidores em 2014, tem crescido consistentemente e está cada vez mais próximo de conquistar o primeiro cetro da sua história. Para todos os interessados em seguir e saber mais sobre a Liga Ekstraklasa, o melhor é acompanhar os próximos artigos do FP ou então seguir o facebook da prova aqui.
Previsão Fair Play para o 1º lugar: Légia de Gdansk

Eixo Varsóvia-Lisboa    

As relações diplomáticas entre Portugal e a Polónia iniciaram em 1923 no tempo da I República, contudo, estas só se estenderam ao desporto rei no início de 1986 quando o FC Porto decidiu apostar num guardião polaco, Józef Młynarczyk, de elegância suprema entre as quatro linhas e cujo pontífice era o seu característico bigode. Apesar de não ter viajado diretamente da Liga Ekstraklasa para o nosso país, o sucesso do veterano guarda-redes portista foi tal que rapidamente os dirigentes desportivos portugueses passaram a olhar com outros olhos para o “jogador polaco” e para a própria Ekstraklasa. No 2º ano da década de 90 foi a vez do Sporting CP arriscar agora num striker alto, forte e com boa técnica de finalização de seu nome Andrzej Juskowiak, ou como diria Sousa Cintra “André, o Polaco”. Durante 3 temporadas Juskowiak mostrou sempre faro para as redes adversárias, porém, a sua passagem por Portugal ficou também marcada pela irreverência e inconstância comportamental, que o diga Fernando Couto. Ainda na senda dos artilheiros e guardiões oriundos da pátria de Lech Walesa, o FC Porto apostava em Grzegorz Mielcarski e Andrzej Wozniak, mas sem grande sucesso, quer pelo infortúnio das lesões quer pela manifesta falta de qualidade, respetivamente.

Józef Młynarczyk | Andrzej Juskowiak | Przemysław Kazmierczak | Paweł Dawidowicz

O novo milénio futebolístico adveio com um novo paradigma: a contratação de talento bruto do gigante da Europa central era agora assegurada por outros emblemas históricos fora do grupo dos “três grandes”, que aproveitavam assim a liberdade de circulação entre os países gerada pela entrada da Polónia na União Europeia em 2004. Enquanto às margens do rio Lis chegava o possante avançado Bartosz Ślusarski, já antes aterrara no berço de Portugal o matador vitoriano Marek Saganowski cujo instinto goleador ainda hoje deixa saudades no D. Afonso Henriques. A 1ª década do Século XXI não ficaria meritoriamente completa se a dupla axadrezada Przemysław Kazmierczak e Rafał Grzelak não fosse mencionada, pois tanto o gigante centrocampista como o supersónico extremo foram figuras de proa de um Boavista à procura de voos mais altos. Przemysław Kazmierczak chegou mesmo a vestir as cores do FC Porto mas nunca revelou uma qualidade de jogo proporcional à sua estatura.

O papel de supra-sumo da conotação entre o futebol português e o polaco cabe ao guarda-redes Paweł Kieszek que há quase 10 anos passeia-se nos relvados portugueses com razoável ostentação. Face ao menor fulgor financeiro dos clubes portugueses e ao recente regresso de Maciej Makuszewski ao seu país, a ligação futebolística entre Varsóvia-Lisboa é hoje alimentada em território nacional pelo experiente Kieszek e ainda por 2 jovens: Tomás Podstawski e Paweł Dawidowicz. Podstawski, resultado de uma joint-venture entre um polaco e uma portuguesa, é visto como um ativo polivalente e influente produzido pela escola de formação portista, enquanto o gigante Dawidowicz viajou de Gdansk para representar a equipa secundária do SL Benfica.

Se a importação de talento polaco para o nosso país conheceu vários capítulos e versículos ao longo dos últimos 30 anos, o mesmo não se pode dizer da exportação de produtos com o código de barras 560. Os primeiros cicerones lusos começaram a chegar à nação de Frédéric Chopin corria o ano de 2007 pelas mãos do Zagłębie Lubin, campeão nacional polaco à data. Rui Miguel e Tiago Gomes abriram assim as portas de um mercado claramente chauvinista, apaixonado e capaz de pagar bons salários ao refinado “jogador português”. Ao dia de hoje, bem no coração do Velho Continente, vão-se somando assistências, golos, vitórias e troféus com sotaque de Camões, numa demonstração inequívoca do elevado valor acrescentado incorporado no produto português. A efémera e incansável ampulheta temporal vai registando os inúmeros embaixadores tais como, David Caiado, Manú, André Micael, Orlando Sá ou os irmãos Paixão, que desafiaram o frio da Polska à procura da glória eterna na Ekstraklasa.

(acima estão apenas mencionados os principais jogadores que se estabeleceram nos dois países, sendo certo que mais alguns nomes poderiam também aqui constar)

Tiago Gomes | Orlando Sá | André Micael | Irmãos Paixão

E o futuro?

O Campeonato da Europa de 2016 realizado em França foi um excelente cartão-de-visita para o “jogador polaco” mas também para a própria Ekstraklasa, que no mercado de transferências de Verão viu assim sair 5 dos seus principais ativos. Em 2016/2017, os tradicionais mercados de exportação continuarão bastante atentos a todo e pequeno génio que desponte nos mais de 300 000 km2 da Polónia, todavia, há também que incluir no lote de potenciais compradores alguns mercados que, outrora fortes investidores em países emergentes sul-americanos, sofrem com a hiperinflação do talento argentino, brasileiro, uruguaio, chileno e colombiano. Neste último leque de países afetados pela valorização sul-americana temos os clubes portugueses, que têm sido obrigados a procurarem outras alternativas válidas com um custo de oportunidade igualmente atrativo. Ora, é nessa equação de forças da oferta e da procura que se encontra precisamente a Liga Ekstraklasa. Longe de pertencer à mais refinada nata competitiva do panorama europeu, a principal liga polaca afirma-se como o epicentro futebolístico de várias ex-repúblicas soviéticas e da ex-Jugoslávia que procuram desenvolver o seu engenho em Varsóvia, Cracóvia, Poznan, Wroclaw ou Gdansk. Assim, esta “sociedade das nações” permite reunir ativos taticamente evoluídos, imunes à pressão e habituados a um ritmo frenético que podiam ser bastante úteis e fazer a diferença no campeonato português. Até ao momento, não só os “grandes” como os restantes clubes têm marginalizado os termos qualitativos da Ekstraklasa, porém, como decreta um famoso provérbio polaco “Potrzeba jest matka wynalazków”, a necessidade é a mãe das invenções, nesse sentido, face às restrições financeiras e de prospeção de outras paragens, talvez os emblemas da Liga NOS prestem mais atenção ao mercado polaco e garantam o próximo sucessor de Boniek ou Lewandowski. Powodzenia!


2 comments

  • Filipe Coelho

    Setembro 24, 2016 at 10:37 pm

    Belíssimo artigo, Francisco!
    A Polónia tem evoluído muito nos últimos anos e tem uma Selecção e um Campeonato que mereciam outro interesse mediático.

    Reply

    • Francisco da Silva

      Setembro 25, 2016 at 8:43 pm

      Caríssimo Filipe, obrigado desde já pelo feedback!
      A Polónia tem feito um trabalho muito interessante com a matéria-prima nacional mas também com o talento proveniente de ex-repúblicas soviéticas. Nota-se que a qualidade competitiva das equipas polacas tem melhorado significativamente, apesar de ainda revelarem alguma inconsistência nas provas europeias.

      Para melhor elucidar os interessados pela Ekstraklasa, em breve farei um artigo com os melhores valores desta competição.

      Saudações

      Reply

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