23 Out, 2017

Olímpico do Montijo: Um regresso anunciado aos palcos nacionais

Fair PlayMaio 1, 20178min0

Olímpico do Montijo: Um regresso anunciado aos palcos nacionais

Fair PlayMaio 1, 20178min0

O jornalista David Pereira conta-nos a bonita história do principal emblema futebolístico da cidade do Montijo, que está prestes a confirmar o seu retorno aos campeonatos nacionais.

Já lá vão os tempos em que o histórico Clube Desportivo do Montijo participou na I Divisão, em 1972/73, 1973/74 e 1976/77. Duas despromoções em três participações não impediram que a “Aldeia Galega” se tornasse uma cidade apaixonada por futebol, até porque o clube da terra continuou a ser presença assídua nos palcos nacionais até à viragem do milénio.

O concelho de onde são naturais os antigos internacionais Paulo Futre, Fernando Mendes e Ricardo viu-se sem o seu emblema mais representativo em 2007, devido a dificuldades financeiras.

Contudo, no seu lugar nasceu um outro clube, uma espécie de ressurreição chamada Clube Olímpico do Montijo. Com enorme pujança, alcançou a subida da II à I Distrital logo na temporada de estreia, em 2007/08. Daí aos campeonatos nacionais foi um pulinho. Não foi à primeira nem à segunda, mas à terceira tentativa os aldeanos lá foram promovidos à antiga III Divisão e conquistaram o título distrital, em 2010/11.

No entanto, a experiência nos nacionais não correu bem e registou-se nova queda a pique, com a II Distrital como destino. Uma passagem rápida pelo último patamar do distrito, uma vez que os montijenses foram campeões da II Distrital e consequentemente promovidos, em 2013/14. Daí para cá, uma trajetória ascendente na I Divisão da Associação de Futebol de Setúbal: 13.º lugar em 2014/15, 9.º em 2015/16 e, salvo alguma hecatombe, o título em 2016/17.

Duas a três centenas de adeptos, incluindo uma ruidosa claque, apoiam a equipa nos jogos em casa, no funcional e confortável Campo da Liberdade, dotado de uma bancada (do lado poente) com bancos cómodos, relvado sintético e bar, e localizado numa zona periférica da cidade.

Fotografia: Luís Pontes / Estádio 11

DEFESA DE BETÃO E ATAQUE DEMOLIDOR…COM SOTAQUE

O Olímpico do Montijo tem o melhor ataque e a melhor defesa da I Distrital, com 72 golos marcados e 23 sofridos, quando já se disputaram 26 jornadas – e tem dez pontos de avanço sobre o vice-líder Amora. Um mérito para o qual muito tem contribuído um trio de brasileiros que vai dando cartas em três setores: Raul Rocha na defesa, Jean Victor no meio-campo e Thiago no ataque.

O ingresso destes três jogadores no emblema aldeano está contemplado na parceria com uma empresa portuguesa de agenciamento de jogadores com capital saudita. Esse protocolo tem como objetivo a chegada do Olímpico à II Liga em seis anos, ao mesmo tempo que vai valorizando os atletas da empresa e vendendo-os, com o clube a beneficiar de uma percentagem de cada negócio.

Inicialmente, o treinador escolhido para encabeçar o projeto foi o experientíssimo Carlos Lóia, que só chegou a orientar a equipa num jogo. Depois, avançou para o comando técnico o até então adjunto David Martins, 38 anos, a viver a segunda temporada nos bancos depois de ter capitaneado os históricos Fabril e Barreirense. Em 2015/16, esteve perto da promoção ao Campeonato de Portugal pelo Amora e ainda conquistou a Taça AF Setúbal, mas não permaneceu na formação do concelho do Seixal.

RITMO E DINÂMICA

Nos jogos observados, dá para descortinar um 4x3x3 que em muitos momentos aparenta ser um 4x4x2. Isto porque o médio interior direito, Marcelo, sempre em alta rotação, aparece muito no flanco, funcionando como um extremo. E o próprio trio de atacantes muitas das vezes até aparenta ser um trio de pontas de lança, tal a forma como Cami, João Monteiro e Thiago (ou Carlitos) aparecem (e bem!) em zona de finalização. Se há algo que caracteriza o estilo do Olímpico do Montijo é o ritmo que a equipa imprime e a dinâmica que procura incutir, sobretudo, nos últimos 30 metros. Trocas de bola rápidas, dificultando a reação do adversário, tabelinhas constantes, trocas posicionais e reações intensas à perda do esférico são características do líder da I Distrital, que apresenta uma qualidade e intensidade de jogo digna de figurar no Campeonato de Portugal.

CARACTERIZAÇÃO INDIVIDUAL

Na baliza mora um veterano. Após muitos anos nas categorias nacionais, onde chegou a representar o Montijo original, Carlos Miguel vai defendendo as últimas bolas da longa carreira aos 42 anos. Acumula a defesa da baliza com a função de treinador de guarda-redes, mas apesar da veterania não se livrou de cometer um erro infantil na recente receção ao Comércio e Indústria, tendo agredido um jovem adversário, o que motivou uma suspensão de duas partidas.

XI base do Olímpico do Montijo

Bem mais jovens são os dois centrais. O possante brasileiro Raul Rocha, 23 anos, é o típico ‘centralão’, muito alto (1,93 m) e fortíssimo no futebol aéreo (defensivo e ofensivo), mas com alguma falta de velocidade e de qualidade no jogo de pés. Para o complementar, o muito assertivo embora mais baixo (1,80 m) Mota, 28 anos. A alternativa é Nuno Cunha, um jovem de 21 anos, mas já com alguma experiência em campeonatos nacionais, por Pinhalnovense e Barreirense, tendo ainda passado pela formação do Vitória.

Nas laterais, dois homens da casa. O capitão Paulinho, 31 anos, na equipa principal desde 2004/05, ainda no Montijo original, é o dono e senhor do corredor direito, ao qual oferece muita consistência. Bem mais ofensivo, habilidoso e jovem é Projecto, 23 anos, que dá imensa profundidade ao flanco esquerdo e tem o selo das ‘canteras’ de Benfica e Sporting.

Como segundo médio, mais um homem da casa, Queijinho, 24 anos, um especialista na execução de livres diretos. Está no clube há 15 anos – com um hiato de três, passados no vizinho Alcochetense -, onde já colabora enquanto treinador nas camadas jovens. Também muito utilizado na posição ‘8’ é Iuri.Um pouco mais à frente, o brasileiro Jean Victor é o elemento mais posicional do meio-campo. Oferece qualidade à construção de jogo, mas tem como imagem de marca a intensidade e a determinação com que aborda aos lances, ganhando muitas disputas de bola no miolo.

O mais ofensivo e híbrido do habitual trio de centrocampistas é o jovem Marcelo, 20 anos, um dos atletas mais promissores do conjunto montijense. Sempre em alta rotação, é um médio interior que aparece muito por fora, aparentando tratar-se de um extremo em muitos momentos. Outro conhecedor do sentimento aldeano, está no Olímpico há uma década.

Mais adiante, no ataque, há soluções para todos os gostos. E é precisamente essa abundância de recursos que faz com que o treinador David Martins varie muito na escolha do tridente ofensivo. Contudo, Cami, 26 anos, é quem mais se tem destacado. Bastante rápido e ágil, é um extremo que aparece muito em zona de finalização. Tais qualidades vão lhe valendo a vice-liderança da tabela de marcadores da I Distrital, com 18 golos. Tem vindo a ganhar o seu espaço com o decorrer da temporada num emblema que representa há cerca de 15 anos.

As outras soluções passam por três homens que têm alternado a titularidade nas restantes duas vagas do tridente ofensivo e, curiosamente, têm todos oito golos apontados na I Distrital. Carlitos diferencia-se por ser um extremo puro, o brasileiro Thiago pode atuar em qualquer posição do ataque e João Monteiro fixa-se mais na área adversária. O primeiro é mais um que conhece os cantos à casa, uma vez que está no clube há década e meia, ainda que com um hiato de um ano e meio pelo meio. O segundo foi dos que mais nos impressionou, por se tratar de um jogador possante (1,86 m) mas simultaneamente muito veloz, com grande poder de aceleração, capacidade de drible e remate forte. Por último, João Monteiro é um ponta de lança que joga bem de costas para a baliza e tabela bem com os companheiros, tendo passagens pelas formações de Benfica e Vitória de Setúbal no currículo. E ainda há João Lagoa, João Castiço e Rúben Goiás.

O presente texto foi publicado originalmente pelo jornalista David Pereira em O Blog do David.


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