18 Ago, 2017

O que é ser Campeão Europeu?

Filipe CoelhoSetembro 1, 20167min0

O que é ser Campeão Europeu?

Filipe CoelhoSetembro 1, 20167min0

O pontapé de sonho – e do sonho – de Éder tem uma dimensão que hoje, mais de um mês e meio depois, continua a ser impossível de descortinar. O clímax de uma trama que foi escrita da forma mais inaudita possível e realizada da forma mais improvável possível. Ter-se-á festejado pouco tamanha a grandeza daquele sucesso?

Dentro da lógica de que “é apenas futebol”, o Rio’2016 devolveu-nos à Terra, fazendo-nos entender que, desportivamente, Portugal é apenas uma potência no futebol e em duas ou três outras modalidades colectivas, como o hóquei em patins, o futsal ou o futebol de praia. Por muitas e diversificadas razões – e, muitas vezes, com os atletas a serem os menos culpados –, a nossa baliza de actuação limita-se a resultados medianos com um ou outro momento brilhante, aqui e ali, em Los Angeles ou Pequim.

O futebol é a excepção. O título europeu colou-se-nos na pele sem que sequer nos apercebêssemos. Os assomos de realidade tomam-nos quando, num qualquer tasco alfacinha, solicitamos um prego no pão e, desviando o olhar, percebemos o poster de vinte e três lusitanos a erguerem uma brilhante e torneada taça – somos nós?; ou quando um qualquer turista, numa tentativa inócua de ser mais amistoso, invoca o nome ‘Eder’ vislumbrando a possibilidade de nos retirar um sorriso – somos nós?; ou ainda quando pelas webs da vida nos deparamos com um qualquer artigo de um meio internacional que acaba com ‘Por qué ganaron la final? Porque la Euro se lo debía’ – somos nós? Somos nós!

2016 mudou o nosso eterno estatuto de ‘quase’ e transformou 23 nomes que tantas desconfianças levantavam (e levantaram) em reis do Olimpo. Voltaram a sentir essa condição ontem, no Porto, que acarinhados e empolados pelos nortenhos o foram; e depois quando o Presidente Marcelo lhes conferiu a Ordem de Mérito – e como a denominação faz realmente sentido! O jogo de hoje frente a Gibraltar marca o epílogo de uma comemoração que se prolongará sentimentalmente por muito tempo, enquanto a História etiquetará este 1 de Setembro de 2016 como “o primeiro jogo em casa de Portugal enquanto nação futebolística vitoriosa”. Enquanto Campeão da Europa, claro.

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(Foto: CNN)

Catalisar o sucesso

Se a ressaca do triunfo em terras gaulesas se vai ‘curando’, cabe à Federação Portuguesa de Futebol (FPF) transformar o sucesso atingido num acontecimento menos improvável de voltar suceder no futuro. Em suma, criar condições para que a vitória lusa não tenha sido mais do que um mero acaso. Em termos federativos, é certo que o futebol português aparenta ter dado um passo em frente de forma consistente no pós-Madaíl/Scolari. Passou, por um lado, a olhar-se de outra forma para as categorias de base e para a aposta no jogador nacional e, por outro, a preocupação com as infraestruturas tem sido ponto central na actividade da FPF, como o comprova a edificação da Cidade do Futebol, junto ao Complexo Desportivo do Jamor.

Desta perspectiva, o futuro pode encarar-se com optimismo. De facto, e olhando apenas às performances de 2016, para além do título a nível sénior no Europeu de França, há que demonstrar regozijo pelo título alcançado pelos sub-17 no Europeu da categoria; pelas meias-finais atingidas no Europeu sub-19; e até pela presença nos quartos-de-final do Torneio Olímpico, com uma selecção repleta de imprevistos e dificuldades na sua composição. E podemos ainda recuar um ano, até ao Europeu Sub-21, em que Portugal saiu derrotado apenas na final, com um desaire diante da Suécia nas grandes penalidades. Na maioria dos casos – e valha esta ressalva –, para além dos resultados de sucesso, Portugal exibiu qualidade no seu processo futebolístico com variadíssimas demonstrações de um futebol atraente.

Ainda assim, há espaço para melhorar. Talvez o exemplo mais utópico mas, igualmente, mais sintomático do que deve ser o pensamento de uma estrutura federativa seja aquele que os germânicos adoptaram com tremendo sucesso nos últimos anos. E que passa pela definição clara de uma forma de jogar, transversal a todos os escalões e categorias, cimentando um processo que desembocará (desejavelmente) na integração das individualidades no escalão máximo da Mannschaft de forma perfeitamente natural e harmoniosa. E, aliada a esta visão, a concepção de um determinado perfil de jogador com certas valências e competências – muito mais centradas hoje no aspecto técnico e cognitivo do que no físico e condicional como em tempos idos. Um plano absolutamente abrangente, edificado de forma encadeada e executado sem desvios. Fazê-lo quando há uma base de recrutamento da dimensão da alemã será, no entanto, bastante mais fácil do que no contexto português. Mas seria interessante se a FPF pudesse encarar o título europeu como o catalisador de uma forma mais coerente e congruente de olhar para as diversas Selecções nacionais, da base ao topo.

Ainda que fora do enquadramento federativo, a conquista do Europeu de 2016 deveria servir como a melhor alavancagem possível para a promoção, dinamização e organização da própria Liga. Olhando aos 23 que estiveram em França, 20 deles já passaram pela (hoje) Liga NOS. Haverá melhor publicidade do que essa?

Em suma, sendo da competência de uma ou de outra entidade – ou, melhor ainda, em cooperação –, seria relevante:

  • (E)Levar o nome da Liga NOS mais longe, com a marca que hoje representa, através de contratos de patrocínio e parcerias, tornando-a tanto quanto possível num produto apelativamente mais próximo das Big5 (e quão importante seria a possibilidade da eterna questão da negociação dos direitos televisivos centralizar-se e ser da competência da Liga);
  • Apostar no jogador português, zelando pelo seu acompanhamento nos escalões mais jovens e evitando (ou restringindo) a proliferação de atletas estrangeiros que invadem mesmo as camadas jovens dos maiores (e mais preparados) clubes;
  • Tornar a actuação das instâncias disciplinares da FPF mais célere, transparente e sensata (a nomeação de José Manuel Meirim para Presidente do CD alimenta essa expectativa neste âmbito);
  • Agilizar a justiça desportiva, sendo que a criação do Tribunal Arbitral do Desporto cria a ilusão de maior celeridade e especialização na tramitação de determinados processos.

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(Foto: indianexpress.com)

That feeling …

Certamente que qualquer um dos pontos mencionados anteriormente (e tantos outros sobre que valeria a pena reflectir…) acabou por ter, de forma directa, uma quota mínima de importância na vitória em território francês. Mas quão mais candidatos a cada competição e a cada torneio nos poderíamos tornar com um maior nível de organização e estruturação do nosso futebol?

Importa no presente, olhando ao espelho da Taça Henri Delaunay, criar bases para que um sucesso retumbante como este (que ainda vivemos) tenha reais e fundadas expectativas de ser repetido. Por ora, é normal que a embriaguez não tenha ainda passado, que o orgulho se mantenha no pico máximo e que o Estádio do Bessa se engalane para receber uma Selecção Portuguesa com um ressoante equipamento vermelho hoje mais completo: com o logo de Rei da Europa na camisola.

Talvez quando outros repetirem este nosso sucesso seja possível – como diria Pessoa – intelectualizar a emoção. Hoje, ser campeão europeu é nem sequer perceber que se é campeão europeu.


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