21 Ago, 2017

Na Galiza ao ritmo do tango: o Celta de Berizzo

Bruno DiasMarço 3, 201710min0

Na Galiza ao ritmo do tango: o Celta de Berizzo

Bruno DiasMarço 3, 201710min0

Finalizadas que estão 25 jornadas da La Liga, o Celta de Vigo encontra-se na 10ª posição, com 35 pontos. Lutam por uma classificação que lhes permita chegar às competições europeias, objectivo que atingiram na temporada passada. No leme, Eduardo Berizzo, um dos excelentes treinadores deste campeonato.

O técnico argentino, de 47 anos, está na sua terceira temporada em Vigo, e o seu Celta tem vindo a apresentar um desenvolvimento claro e crescente. Na primeira época, terminaram no 8º lugar do campeonato, e não foram além dos oitavos-de-final da Taça do Rei. Na temporada seguinte, um 6º lugar (que valeu a qualificação para a Liga Europa, competição onde já estão nos oitavos-de-final, tendo eliminado recentemente o Shakhtar Donetsk de Paulo Fonseca) e as meias-finais da Taça. Feito que, de resto, alcançaram novamente esta temporada, tendo sido apenas eliminados por um surpreendente Alavés. No campeonato, a repetição da prestação da época passada continua a ser um objectivo perfeitamente realista, e um que consolidaria mais uma boa época do Celta.

Eduardo Berizzo é mais um dos muitos treinadores que seguem uma filosofia futebolística baseada na posse da bola como instrumento para comandar a partida, numa reacção agressiva à perda da bola e num futebol ofensivo que providencie muitas oportunidades de golo e um bom espectáculo para quem assiste ao jogo. Tal como nomes como Pep Guardiola ou Jorge Sampaoli, também ele possui claras influências de Marcelo Bielsa, o “pai” desta corrente futebolística no futebol moderno.

É, pois, com naturalidade que se constata que o seu Celta se enquadra perfeitamente nessa filosofia de jogo. Uma equipa que raramente se atemoriza pelo nome do seu adversário ou pelo estádio em que joga (embora seja necessário fazer-se uma adenda a este ponto, para referir a excelente prestação da equipa em sua casa, o estádio de Balaídos, com 8 vitórias em 12 jogos) e que procura impor o seu futebol sempre que entra em campo. Que sendo relativamente segura no plano defensivo, se sente bastante confortável quando o jogo se parte e o plano ofensivo se apodera da partida.

[Foto: skysports.com]

 O futebol do Celta

Sendo Berizzo um “discípulo” de Bielsa, a flexibilidade táctica é algo que faz obviamente parte da matriz futebolística do Celta. A equipa adapta-se com facilidade a diferentes estruturas tácticas (Berizzo muda frequentemente a estrutura-base da equipa, seja de início ou durante a partida) e é capaz de demonstrar um fio condutor de jogo nos mais diversos contextos e circunstâncias.

O Celta alinha normalmente num 4x2x3x1, que possui duas formas distintas: uma com um “10” (principalmente, Daniel Wass), e outra com um avançado móvel (normalmente Iago Aspas). Por vezes, também utilizam um 4x3x3 mais clássico, com Nemanja Radoja a “6” (ou Marcelo Díaz). Procuram jogar um futebol apoiado, sempre que possível pelo corredor central, mas utilizando também os corredores laterais para chegar ao último terço adversário. Entre os centrais, sai mais Sergi Gómez que Gustavo Cabral na condução e/ou no passe (sendo que, estando em boas condições físicas, é provável que Andreu Fontàs assuma a titularidade, dada a sua superior qualidade). Bom envolvimento ofensivo dos laterais, especialmente pela direita, com Hugo Mallo. Os alas variam entre a largura e a procura do espaço interior (Pione Sisto é muito forte na procura do espaço interior com bola, através do drible). Quando em 4x2x3x1 com Aspas, este joga sempre entre a linha defensiva e a linha média adversária. Já Wass baixa mais para participar na construção em fases iniciais/intermédias. Radoja, algo limitado com bola, recupera e entra simples. Díaz entra em jogo nas fases iniciais de construção e procura associar a equipa, criando superioridade numérica no corredor lateral, procurando linha de passe vertical (procura normalmente Aspas ou o ala que aparece por dentro) ou lançando longo, procurando a profundidade com Guidetti, que está sempre em movimento e trabalha imenso sem bola. O sueco é muito forte a atacar as costas da defesa.

Na baliza, a rotação entre os dois guardiões do plantel tem sido a nota dominante. Sergio Álvarez – mais experiente – tem jogado ligeiramente mais, mas Rúben Blanco – mais jovem – é também uma boa opção, e possui ainda uma margem de progressão bastante interessante.

Na defesa, destaque para o capitão de equipa Hugo Mallo. Com apenas 25 anos, mas já com mais de 250 jogos pelo Celta – o único clube da sua carreira –, é um dos símbolos do clube. Lateral de clara propensão ofensiva, oferece consistência e profundidade ao flanco direito. Do outro lado, joga normalmente Jonny Castro, jovem defesa da formação que também joga como central, e que ganhou o lugar a Carles Planas, jogador teoricamente mais experiente e talentoso, mas que tem tido algumas complicações com lesões na sua carreira. Já no eixo defensivo, os centrais mais utilizados são Gustavo Cabral (algo lento e duro de rins, mas forte pelo ar e razoável em termos técnicos) e Sergi Gómez (central consistente e com qualidade na saída de bola). Depois, Facundo Roncaglia funciona como um defesa mais polivalente, que joga em qualquer posição do quarteto defensivo. Finalmente, sobra Andreu Fontàs, excelente central, seguro defensivamente e com muita qualidade na saída de bola, mas que leva menos jogos que os colegas de posição, resultado de uma grave lesão contraída na época passada, e que só debelou totalmente já com esta época a decorrer.

No meio-campo, existem várias opções à disposição de Berizzo. Nemanja Radoja é o médio mais defensivo, vulgo “trinco”. Possui algumas limitações ofensivas, que são normalmente compensadas por Marcelo Díaz no duplo-pivot. O chileno, pleno conhecedor desta ideia de jogo (por já ter trabalhado durante vários anos com Jorge Sampaoli), funciona aqui como médio de maior ligação e construção. Jogador incrivelmente inteligente, fortíssimo na decisão, com boa visão de jogo e muita qualidade no passe. No duplo-pivot, são ainda opções Jozabed, médio clarividente e evoluído tecnicamente emprestado pelo Fulham em Janeiro; Pablo Hernández, médio chileno que acrescenta maior dimensão física ao jogo; e o próprio Daniel Wass, um antigo lateral direito que passou pelo Benfica, e que agora joga como médio mais criativo (ou, ocasionalmente, numa das alas). Este dinamarquês caracteriza-se por ser um jogador forte no drible, criativo q.b. e com uma meia distância acima da média.

Nas alas, há claramente um nome mais sonante que os outros. Pione Sisto chegou esta época ao clube, e já provou ter sido uma excelente contratação, pois tem sido um dos destaques da época do Celta. Este jovem extremo, sobejamente conhecido pelos fãs da saga Football Manager, tem demonstrado que o seu valor real não fica a dever nada ao seu valor virtual. Um desequilibrador puro, com uma velocidade de execução tremenda, um vasto leque de recursos e uma objectividade incomum em jogadores do seu perfil. O seu potencial é massivo. Para além dele, há também Theo Bongonda, extremo rápido e vertical, que gosta de apostar no 1×1 e que acelera constantemente o jogo, e o espanhol Josep Señé. Até Janeiro, Berizzo contava também com o chileno Fabián Orellana, jogador de grande valia e que era uma peça bastante importante da equipa. No entanto, Orellana saiu emprestado para o Valencia em Janeiro, devido a um desentendimento com o treinador.

Por fim, no ataque, três figuras de proa. De Iago Aspas falarei mais à frente, pelo que nos restam Giuseppe Rossi e John Guidetti. O primeiro é um jogador de enorme qualidade, emprestado pela Fiorentina, e que poderia ter chegado muito mais longe se não fosse o calvário das lesões, que tantas vezes foram um obstáculo na sua carreira. No Celta, procura voltar às grandes épocas. No entanto, a titularidade tem sido complicada de conquistar, pela sua condição física e principalmente por causa da importância de Aspas para a equipa. Já o sueco é o ponta-de-lança titular da equipa de Vigo. Apesar de ter apenas 7 golos nesta temporada (números aquém dos esperados), é um jogador que serve de referência para o resto da equipa e segura bem a bola na frente. Tem qualidade técnica, facilidade de remate e destaca-se também pela sua combatividade e personalidade carismática dentro do rectângulo de jogo, aspectos que certamente terão sido preponderantes para que Guidetti se tenha tornado, num curto espaço de tempo, um dos jogadores favoritos dos adeptos.

Pione Sisto, uma das boas contratações do Celta esta temporada [Foto: marca.com]

Destaque: Iago Aspas

O craque da equipa. 29 anos, 1,76m e um único jogo pela selecção espanhola (em Novembro de 2016), onde também marcou um golo. Teve uma passagem falhada pela Premier League, no Liverpool, e após uma breve passagem pelo Sevilha (por empréstimo do clube inglês) regressou ao “seu” Celta, clube onde fez a formação e onde se notabilizou no início da carreira. Leva cerca de 250 jogos e 89 golos pelo clube, e está a fazer provavelmente a melhor época da sua carreira, com 17 golos e 7 assistências em 31 jogos.

Avançado móvel, joga melhor como segundo avançado, entre linhas e atrás de um jogador mais fixo. Possui um pé esquerdo repleto de virtuosismo e magia. Muda com facilidade o ritmo do jogo, devido ao seu grande poder de aceleração, combinado com a sua agilidade acima da média. Evoluído tecnicamente, tem facilidade no remate e “faro de golo”. É fortíssimo em espaços curtos e no drible, possui uma excelente visão periférica e tem criatividade a rodos, que lhe permite criar oportunidades quase “do nada” e fazer golos que, por si só, valem o preço do bilhete. É um jogador com a cultura típica do futebolista espanhol, inteligente e que sabe explorar muito bem os espaços que encontra nas organizações defensivas adversárias. Pela combinação de características e qualidades que possui, é um jogador dificílimo de travar nos seus melhores dias.

Estamos às portas de Março, e a La Liga está ao rubro, com uma competitividade impressionante, com imprevisibilidade quase total na luta pelo título e pelas competições europeias e já com vários jogos de altíssimo nível, seja no plano táctico, seja no plano emocional. É em Espanha que moram os melhores do mundo, pelo que acompanhar a La Liga será sempre requisito obrigatório para qualquer fã de futebol.


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