20 Out, 2017

Major League Soccer 2016 – Balanço

António Pereira RibeiroDezembro 14, 201615min0

Major League Soccer 2016 – Balanço

António Pereira RibeiroDezembro 14, 201615min0

Os Seattle Sounders sagraram-se campeões pela primeira vez na sua história em mais uma edição da Major League Soccer que chegou ao fim. 2016 ficou também marcado pelo salto qualitativo protagonizado por grande parte dos emblemas canadianos, que chegaram a ter um representante na final. Sebastian Giovinco voltou a brilhar ao mais alto nível, os Whitecaps estrearam um jovem de 15 anos, e Landon Donovan regressou aos relvados norte-americanos, ainda que por tempo limitado. Seguem-se as principais narrativas da Major League Soccer em 2016.

LODEIRO E SCHMETZER, MILAGREIROS DE SEATTLE

No dia 24 de Julho, uma derrota por 3-0 frente ao Sporting KC colocava os Sounders no nono e penúltimo lugar da Conferência Oeste, a dez pontos e três adversários de um lugar de acesso aos Playoffs. Face a este infeliz cenário, a direcção do clube optou por dispensar o técnico ‘Sigi’ Schmid, a meio da sua oitava temporada consecutiva em Seattle. Um longo reinado pontuado por qualificações ininterruptas para os Playoffs, e ao mesmo tempo, por constantes desilusões na fase a eliminar. O treinador interino assumiu provisoriamente o cargo, e dias depois chegava o internacional uruguaio Nicolás Lodeiro. Os Sounders nunca mais foram os mesmos.

XI dos Sounders na final

Dos 14 jogos que restavam, venceram oito e apenas perderam dois, terminando a Fase Regular na quarta posição. A influência de Lodeiro tornou-se inequívoca, com quatro golos marcados e oito assistências realizadas. Pelo meio, Clint Dempsey abandonou os relvados indefinidamente devido a problemas cardíacos, e o novo técnico teve o mérito de encaixar de forma perfeita as peças que tinha à sua disposição através de um engenhoso 4x2x3x1. Já nos Playoffs, eliminaram Sporting KC, FC Dallas e Rapids no caminho rumo à final, beneficiando novamente do papel de Lodeiro, que apontou mais quatro tentos na fase decisiva na época. Disputaram o título no terreno do adversário, em Toronto, onde conseguiram levantar o troféu sem fazer nenhum remate enquadrado com a baliza. Levaram a decisão para as grandes penalidades, e aí levaram a melhor. O central panamiano Róman Torres foi o responsável por converter o derradeiro penalti.

Brian Schmetzer, ex-interino, conseguiu recuperar animicamente uma equipa perdida na classificação, e soube utilizar o talismã Lodeiro a favor do colectivo. Entre os jogadores campeões, para além do médio uruguaio, destaque obrigatório para Jordan Morris e Osvaldo Alonso. O jovem norte-americano esteve à altura das expectativas, quer na ala, quer na frente de ataque, e mereceu o reconhecimento de Rookie do Ano, ao passo que o trinco Alonso protagonizou uma das suas melhores épocas na MLS, e por isso integra o Onze do Ano do Fair Play. Nota final para a média de espectadores dos Sounders, superior a 42 mil adeptos por encontro.

A AFIRMAÇÃO DO FUTEBOL CANADIANO

Já tínhamos assistido a alguns sinais. A final da Liga dos Campeões alcançada pelo Montreal Impact em 2014/15, algo que os clubes norte-americanos não conseguem desde 2010/11, ou então os dois jogadores canadianos que foram eleitos de forma consecutiva Rookies do Ano da MLS (Tesho Akindele em 2014 e Cyle Larin em 2015). Até que chegámos a 2016 com dois semifinalistas canadianos, realidade demonstrativa da evolução qualitativa dos emblemas deste país.

Comecemos pelo Toronto FC, finalista vencido da prova. Os comandados de Greg Vanney viraram desde logo favoritos a partir do momento em que decidiram finalmente investir racionalmente no seu plantel. Reforçaram o sector mais recuado com Drew Moor e Steven Beitashour, e contrataram o guarda-redes Clint Irwin. Três movimentações determinantes para a saúde da manobra defensiva, tão sofrível nas épocas anteriores. Trouxeram Tosaint Ricketts como alternativa à dupla atacante Giovinco-Altidore, e em Agosto ainda chegou Armando Cooper, médio panamiano de valores firmados. Um plantel equilibrado que tinha tudo para ser bem-sucedido.

Assim foi. Toronto FC sagrou-se a quinta melhor equipa da Fase Regular, e obteve os primeiros triunfos da sua história em Playoffs. Derrubou Union, New York City FC (7-0 no agregado) e Impact. Contudo, após 17 golos marcados em cinco jogos a eliminar, o emblema canadiano viu-se incapaz de colocar a bola no fundo das redes durante os 120 minutos da grande final. A nível individual, temos de salientar mais uma temporada extraordinária de Sebastian Giovinco, incompreensivelmente ignorada, tanto pelo seleccionador italiano, como pelos especialistas norte-americanos que decidiram ignorá-lo na atribuição do prémio de Jogador Mais Valioso da temporada. Ao que parece, 21 golos e 19 assistências não são sequer suficientes para figurar no pódio individual oficial. Ora aqui no Fair Play, Giovinco foi o melhor de 2016.

Outro jogador que esteve entre os melhores foi o argentino Ignacio Piatti, dos Montreal Impact. Carregou às costas o peso de uma equipa irregular nas exibições e nos resultados (21 golos e 8 assistências), mas sobretudo indecisa quanto ao papel de Didier Drogba. O ano goleador de 2015 terá sido o “canto do cisne” para o avançado de 38 anos, cujo contributo se desvaneceu nos relvados na presente época. Esta transição de titular indiscutível para suplente revelou-se problemática para Drogba, que chegou inclusive a recusar viajar com os colegas quando soube que iria sentar-se no banco. De forma involuntária, abriu as portas ao italiano Matteo Mancosu, cujos golos se revestiram de um carácter determinante na recta final da época.

Contrariamente aos restantes, o terceiro clube canadiano em prova apresentou-se como uma das grandes desilusões do campeonato. Os Whitecaps pareciam, à entrada para o novo ano, candidatos a replicar ou mesmo a superar a boa prestação obtida em 2015. No entanto, a habitual consistência defensiva desapareceu, e a demanda por um verdadeiro homem-golo ficou por solucionar. Masato Kudo e Blas Pérez seriam as grandes esperanças na frente de ataque, mas os problemas físicos sucederam-se ao longo do ano. Até o jovem promissor Kekuta Manneh sofreu com as lesões, condicionando fortemente as opções ofensivas dos Whitecaps. Insucessos à parte, 2016 fica marcado pela estreia de uma versão canadiana de Freddy Adu. Chama-se Alphonso Davies, e estreou-se na MLS com 15 anos, tornando-se no segundo jogador mais jovem a pisar os relvados norte-americanos. Para que não restem dúvidas relativamente ao seu potencial, Davies totalizou oito partidas na MLS, e já marcou na Liga dos Campeões CONCACAF contra o Sporting KC, garantindo o apuramento dos Whitecaps para os quartos-de-final do torneio. Veremos o que fará com 16 anos.

RAPIDS: DE ANTEPENÚLTIMOS A SEMIFINALISTAS

Em Colorado assistimos a um dos saltos classificativos mais espectaculares da história da competição. Antepenúltimos em 2014 e 2015, os Rapids viraram a tabela do avesso, terminando a Fase Regular na segunda posição, com a mesmíssima equipa técnica. Pablo Mastroeni soube identificar as debilidades do seu conjunto, e construiu a partir daí. A contratação de figuras de peso internacional, tais como Tim Howard, Jermaine Jones e Shkelzen Gashi veio fortalecer substancialmente um grupo sem confiança.

Invencíveis no seu terreno até à segunda mão da meia-final dos Playoffs, os Rapids fecharam o ano com a defesa menos batida do campeonato (32 golos sofridos). O processo defensivo eficiente liderado no eixo pelo imperial Alex Sjöberg e acompanhado do robusto tridente de centro-campistas, revelavam-se sempre obstáculos difíceis para os adversários. Porém, a qualidade que sobejou atrás, faltou na frente. O registo obtido de 39 golos marcados foi o segundo pior da MLS. As lesões de Jones e de Marco Pappa trouxeram a lume a falta de segundas linhas para as posições mais adiantadas, e Gashi não pôde, compreensivelmente, apagar todos os fogos. Aliás, a caminhada dos Playoffs esbarrou precisamente nessa falta de dinâmica ofensiva.

ÓSCAR PAREJA E OUTROS BONS EXEMPLOS

A eleger o melhor treinador do ano, a escolha recairia no colombiano que orienta o FC Dallas, Óscar Pareja. No clube desde 2014, o técnico tem vindo a superar progressivamente a sua classificação na Fase Regular, sinal demonstrativo do crescente poderio dos texanos (sexto em 2014, segundo em 2015 e primeiro em 2016). Esta evolução deve-se sobretudo ao constante aperfeiçoamento do plantel que tem à sua disposição. Pareja reuniu em 2016 um dos plantéis mais fortes, senão o mais forte de todos os concorrentes. Foi por isso que conseguiu triunfar na Fase Regular, vencer a Taça dos EUA, apurar-se para os quartos-de-final da Liga dos Campeões CONCACAF, e manter um nível competitivo elevado durante os Playoffs, mesmo quando já não podia contar com os seus dois melhores jogadores: Fabian Castillo, emprestado em Agosto ao Trabzonspor, e Mauro Díaz, vítima de uma lesão que o afastou da fase decisiva da temporada. Também fez emergir o talento do jovem Walker Zimmerman, Defesa do Ano para o Fair Play, que terá decerto a sua chance na selecção dos Estados Unidos.

Outro bom exemplo de liderança é Ben Olsen, técnico do DC United, que continua a fazer milagres com um plantel composto sobretudo por figuras subvalorizadas. Taylor Kemp, por exemplo, é um dos melhores laterais norte-americanos, completamente desprezado pelo ex-seleccionador Klinsmann. Patrick Mullins, o suplente com a melhor média de golos por minuto em todos os clubes por onde passou, recebeu finalmente a oportunidade de ser titular, e não desiludiu. Lamar Neagle, Patrick Nyarko, Luciano Acosta, são outros jogadores que muitos colocam numa categoria secundária. Olsen tem o condão de criar um colectivo forte, sem vedetas e com uma capacidade de sacrifício notável. Cumpriu pelo terceiro ano consecutivo o objectivo de alcançar os Playoffs, e fê-lo sem grande aparato.

Peter Vermes, do Sporting KC, merece igualmente elogios. Sobreviveu à dura Conferência Oeste com uma verdadeira manta de retalhos, que encurtava constantemente ao longo do ano devido a sucessivas lesões e compromissos internacionais. No próximo ano, terá certamente o cuidado de aumentar substancialmente as opções, para que não seja surpreendido por novas infelicidades. Potenciou os jovens laterais Saad Abdul-Sallaam e Jimmy Medranda, numa época marcada pelas excelentes exibições de Benny Feilhaber e Dom Dwyer, avançado já analisado em detalhe pelo Fair Play.

O REGRESSO DE UMA LENDA NORTE-AMERICANA

Apesar dos habituais rumores incansáveis sobre possíveis reforços da MLS em alturas de mercado de transferências, a hipótese Landon Donovan nunca passou pela cabeça de ninguém. O melhor jogador norte-americano de todos os tempos havia anunciado a sua retirada no final de 2014, e tudo indicava que seria em definitivo. No entanto, ainda restava espaço para uma última aparição nos relvados. Corria o mês de Agosto quando Jelle van Damme, Steven Gerrard e Gyasi Zardes sofreram lesões graves quase em simultâneo. Para piorar a situação, Nigel de Jong rumou ao Galatasaray. O plantel dos Galaxy encontrava-se seriamente enfraquecido, com a presença nos Playoffs ainda por garantir. É aí que Donovan, aos 34 anos, decide voltar, numa missão pontual de salvar a equipa. 362 minutos, um golo, e muita mística à mistura. Os californianos acabaram eliminados nas grandes penalidades dos quartos-de-final, às mãos dos Rapids, mas o carácter épico deste regresso permanecerá para sempre na história da MLS.

AS PRINCIPAIS DESILUSÕES

Quando falamos de equipas que desapontaram este ano, torna-se inevitável referirmos os Timbers e os Crew SC. Os finalistas de 2015 falharam o acesso aos Playoffs, realidade esmiuçada previamente pelo Fair Play. Reconstrução deficitária do plantel, problemas no balneário ou a inexistência de segundas linhas fortes, foram alguns dos motivos apontados para justificar este fracasso competitivo dos dois emblemas.

Igualmente decepcionante revelou-se a prestação dos Revolution. Substituir Jermaine Jones por Xavier Kouassi à beira do arranque do campeonato foi um dos sinais do apocalipse. O médio costa-marfinense viu-se impedido de actuar durante toda a temporada devido a uma lesão grave. Do meio-campo para trás, o cenário era mais preocupante. À falta de um guarda-redes de categoria aliaram-se exibições comprometedoras de London Woodberry, e até mesmo do central português José Gonçalves. O que parecia ser um conjunto consistente, acabou por soar a acomodado, sem faísca para se reinventar.

A título individual, a desilusão do ano vai para Antonio Nocerino. Em queda livre desde a sua saída do Milan, a carreira do médio italiano bateu ainda mais fundo em 2016. Participou num total 21 partidas pelo Orlando City SC, com a sua influência a roçar o zero. O estatuto do jogador abrirá certamente espaço a uma nova oportunidade em 2017, que não se poderá dar ao luxo de desperdiçar.

AS ESTREIAS DISTINTAS DE VIEIRA E PAUNOVIC

A dupla de treinadores europeus que experimentou a MLS pela primeira vez terminou em extremos opostos na Conferência Este. Vieira fixou o New York City FC na segunda posição (quarta na classificação global), ao passo que Paunovic e os Fire ocuparam o último lugar da tabela.

No caso do treinador francês, é difícil fazer um balanço, tendo em conta os altos e baixos do ano, e a constante variância dos sistemas tácticos apresentados. Conseguiu apurar pela primeira vez os nova-iorquinos para os Playoffs, mas caíram com estrondo diante de Toronto FC, num resultado agregado de 0-7 (0-5) em casa. Marcaram mais golos do que qualquer outra equipa na Fase Regular (67), mas só três clubes sofreram mais do que os 57 golos consentidos. Venceram finalmente os Red Bulls em Julho, mas foram atropelados em Maio pelos rivais, no Yankee Stadium, por 0-7. Para desempatar a favor do Vieira, destacamos ano fantástico de David Villa, que chegou aos 23 golos.

Depois de ter conduzido a selecção sérvia à conquista do Campeonato do Mundo Sub-20, esperava-se que Veljko Paunovic pudesse inverter a onda negativa dos Fire. Começou logo mal, ao dispensar Harry Shipp, um dos jovens promissores do clube, e o mais adorado pelos adeptos. Ter-lhe-á feito falta, certamente. Ao longo do ano fomos percebendo que Paunovic utilizou 2016 para preparar 2017, como se de um grande torneio de pré-época se tratasse. Preocupou-se inicialmente em encontrar as unidades defensivas mais fiáveis, e no Verão, trouxe uma verdadeira armada ofensiva que aumentou substancialmente o poder de fogo dos Fire, passo a redundância. Michael de Leeuw, que marcou sete golos em pouco mais de meia época, David Arshakyan e Luis Solignac. Ficam a faltar as mexidas do mercado de Inverno e os acertos da pré-época, para que Paunovic tenha finalmente a equipa à sua imagem

DESTAQUES INDIVIDUAIS EM COLECTIVOS INSUFICIENTES

É mais inglório ser o herói de uma equipa derrotada, e por isso decidimos honrar algumas das figuras que fizeram tudo para contrariar o desfecho infeliz dos emblemas que representam, e que ao mesmo tempo não cabem nas estórias acima citadas. Em Orlando City SC, por exemplo, Cyle Larin e Kevin Molino lutaram sozinhos contra o mundo (e também contra Antonio Nocerino). É fácil eleger o avançado canadiano como o Jogador Jovem do Ano, após uma época de 14 golos apontados no meio de um grupo disfuncional. E o que dizer de Molino? O extremo tobaguenho foi inúmeras vezes responsável por devolver a esperança aos adeptos, mesmo nos jogos menos favoráveis. Onze golos e oito assistências mereciam outra sorte.

Nos Red Bulls, apesar da qualificação exemplar para os Playoffs, a eliminação precoce foi extremamente desapontante, tendo em conta o futebol positivo promovido pelo técnico Jesse Marsch. A história diz-nos que os Playoffs não querem nada com os Red Bulls, e 2016 foi mais um capítulo nesse sentido. Ficam as memórias das temporadas estupendas de Luis Robles (Guarda-redes do Ano para o Fair Play), Sacha Kljestan (melhor assistente) e de Bradley Wright-Phillips (melhor marcador). Kljestan fechou o ano com 20 (!) passes para golo, e o avançado inglês com 25 (!) remates certeiros.

DISTINÇÕES FAIR PLAY

XI do Ano para o Fair Play

Jogador do Ano – Sebastian Giovinco (Toronto FC)

Guarda-redes do Ano – Luis Robles (New York Red Bulls)

Defesa do Ano – Walker Zimmerman (FC Dallas)

Rookie do Ano – Jordan Morris (Seattle Sounders FC)

Treinador do Ano – Óscar Pareja (FC Dallas)

Jovem Jogador do Ano – Cyle Larin (Orlando City SC)

Jogador Confirmação – Alex Sjöberg (Colorado Rapids)

Jogador Revelação – Ola Kamara (Columbus Crew SC)

Jogador Desilusão – Antonio Nocerino (Orlando City SC)

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