24 Nov, 2017

Vincenzo Montella. A arte de fazer muito com muito pouco

Ricardo LestreAbril 20, 20177min0

Vincenzo Montella. A arte de fazer muito com muito pouco

Ricardo LestreAbril 20, 20177min0

13 de Abril de 2017 é uma data que ficará para sempre na história do Associazone Calcio Milan. Silvio Berlusconi e Adriano Galliani, a dupla maravilha, estará para sempre cravada nos tempos de ouro do clube, mas, como em tudo na vida, existe um fim. Depois de dois longos anos de negociações, os impasses entre a Sino-Europe Sports, consórcio chinês que pretendia adquirir o clube, e a Fininvest, empresa fundada e liderada pelo próprio presidente terminaram e ficou estabelecido um acordo final de 740 milhões para a aquisição do gigante de Milão. Pelo meio de toda esta situação, surge Vincenzo Montella que dentro de campo foi afastando os maus olhados do exterior conquistando o possível e o impossível para aquela que se tornou, de facto, a triste realidade rossoneri.

De Allegri a… Mihajlović

Desde 2014, ano do despedimento de Massimiliano Allegri, curiosamente o último técnico que se sagrou campeão ao serviço do clube, o AC Milan embarcou num declínio gigantesco desportivo e, consequentemente, económico. A verdade é que Allegri caminhava para a segunda temporada consecutiva sem alcançar resultados palpáveis e o momento algo crítico que a equipa atravessava não parecia ter solução. O grande problema, no entanto, prendeu-se com a terrível gestão do plantel e com a escolha dos seus sucessores.

Jogadores de maior calibre começaram, pontualmente, a rumar a outras paragens – muitos deles por valores pouco significativos –  e, face aos poucos recursos disponíveis, as apostas da direcção recaíram em dois nomes bem conhecidos como Clarence Seedorf e Pippo Inzaghi. Pelos demais motivos, ambas as experiências não obtiveram os resultados desportivos desejados e a crise interna do AC Milan foi, oficialmente, anunciada. Em 2013/2014, os rossoneri terminaram em 8º lugar e, na temporada seguinte, em 10º.

AC Milan versão 2016/2017 Vs. AC Milan versão 2013/2014

Não existe comparação possível, pelo menos em termos qualitativos, entre os plantéis acima destacados. Hoje, na matéria prima que Vincenzo Montella tem ao seu dispor, existem várias peças de enorme potencial cujo valor de mercado disparou de forma acentuada. Contudo, isso deve-se, em grande parte, a Siniša Mihajlović. Se o AC Milan hoje mantém uma identidade própria, é porque o técnico sérvio assumiu, na época anterior, um papel de grande relevância no seu processo de reconstrução. Para além da aposta frutífera em Gigi Donnarumma, Mihajlović retirou o melhor, desportivamente falando, de elementos como Giacomo Bonaventura, M’baye Niang, Alessio Romagnoli ou até Juraj Kucka, adaptando as qualidades de cada um às suas maiores necessidades.

A equipa foi, aos poucos, demonstrando fases de maior fulgor exibicional, assim como outras menos positivas e conseguiu, à sua maneira, incomodar os seus rivais directos por muito que se denotasse uma diferença desportiva e económica abismal. Resultados atingidos, esses, longe de demonstrarem a verdadeira dimensão do clube. A relação entre Mihajlović e a direcção conheceu o seu ponto final a 11 de Abril de 2016, com o interino Christian Brocchi a assumir as rédeas nas poucas jornadas de sobra do campeonato. Na verdade, essa relação foi conhecendo alguns sobressaltos ao longo do tempo embora a justificação dada se prendesse com a sequência de maus resultados. Miha foi, ao contrário do que possa parecer, fundamental, em várias vertentes, para o AC Milan dos dias de hoje.

Foto: ESPN

O indesejado Vincenzo Montella

Curioso verificar que após as experiências falhadas com homens da casa como Seedorf e Inzaghi, o corpo directivo virou as suas atenções para dois técnicos com passados gloriosos em clubes rivais dos rossoneri como o Internazionale e a AS Roma. Montella, tal como Mihajlović numa primeira instância, não recebeu apoio da massa adepta. A impugnação logo se fez sentir e mais uma vez a divisão entre a direção e os adeptos entrava em decadência.

O ex-técnico da Sampdoria, clube onde não teve vida facilitada até ver assegurada a permanência na Serie A, foi aos poucos ganhando a confiança dos mais críticos depois de um arranque de temporada razoável. Por outro lado, viu apenas algumas posições da sua equipa serem cirurgicamente reforçadas com as aquisições de Matias Fernández, Mario Pasalic, José Sosa, Gustavo Gómez e Gianluca Lapadula. Retirando da lista Matias e Pasalic, ambos sob o título de empréstimo, o AC Milan despendeu cerca de 25 milhões de euros em três jogadores.

Fonte: transfermarkt

Obviamente que para um adepto do AC Milan a lista acabou por não deslumbrar, mas já em épocas anteriores o cenário havia-se repetido. Dinheiro investido em quantidades astronómicas em poucos jogadores – em alguns casos só mesmo num – precisamente quando o clube vivia tremendas dificuldades financeiras. O certo é que Montella, mesmo tendo-se apercebido bem cedo das maiores debilidades do seu plantel, suprimiu-as de forma exemplar. E isto deve-se, sobretudo, à identidade que devolveu à equipa. É notória a coesão do balneário. Os jogadores jovens têm-se integrado na perfeição – basta olhar para Donnarumma, Locatelli e Calabria – e a contribuição de alguns elementos experientes acabou por facilitar a mensagem do treinador.

Relativamente ao desenho táctico, a filosofia de Montella, ainda que com ligeiras diferenças, é praticamente idêntica à que elevou a Fiorentina a um outro patamar entre 2012 e 2015. Utilizando o esquema clássico 1x3x5x2 e um estilo assente na posse de bola – o meio-campo composto por Borja Valero, Alberto Aquilani e David Pizarro era, de facto, o motor da equipa – surpreendeu totalmente o mundo do futebol durante os anos em que esteve ao serviço dos Viola.

Em Milão, definiu o 1x4x3x3 como seu esquema base. A defesa volta a ser crucial na construção de jogo, cuja função Romagnoli desempenha quase na perfeição, da mesma forma que os extremos no auxílio defensivo aos laterais. A Montella, mais do que a vertente táctica, reconhece-se a valentia de apostar em jovens jogadores. A sua maior conquista, e afastando a projecção absolutamente fantástica de Donnarumma, foi, muito provavelmente, Manuel Locatelli. O jovem médio de 19 anos, que assumiu a posição de um ícone como Riccardo Montolivo fustigado pelas lesões e já sentindo o peso da idade, estreou-se no encontro frente à Sampdoria e deixou óptimas impressões sobre o seu futuro. Locatelli é um puro regista à italiana. Fã de Andrea Pirlo e com qualidades um pouco semelhantes ao pequeno maestro, Loca abarca uma excelente visão de jogo, qualidade de passe e, sobretudo, inteligência na ocupação de espaços. Dono de remate fácil e de boa capacidade de desarme, o talentoso médio atingiu o clímax da sua carreira com um golo memorável frente à Juventus, em pleno San Siro, que posteriormente ditou a vitória final do AC Milan sobre os campeões em título.

O posicionamento de Locatelli no encontro frente ao Chievo. (Fonte: calciomercato)

São vários os aspectos positivos que podem ser apontados a L’Aeroplanino. Desde a conquista da Supertaça à confiança depositada em Gabriel Paletta, passando ainda pela revitalização da carreira de Gerard Deulofeu – a grande sensação da segunda metade da época –, pela forma como lidou com a lesão grave de Bonaventura e terminando nos minutos concedidos a Leonel Vangioni, um autêntico desconhecido até então. Se nos próximos anos se projecta um AC Milan de volta à elite do futebol europeu, Vincenzo Montella já demonstrou, para todos os efeitos, que merece uma injecção de total confiança para conseguir alcançar tal proeza.


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