19 Ago, 2017

Inter e Frank De Boer. Incompetência técnica ou má gestão?

Ricardo LestreNovembro 3, 20167min0

Inter e Frank De Boer. Incompetência técnica ou má gestão?

Ricardo LestreNovembro 3, 20167min0

A capacidade de gestão dos dois gigantes de Milão nos últimos anos tem sido alvo de fortes críticas. Os resultados desportivos alcançados continuam a não reflectir o milionário investimento efectuado, inclusive, o das novas entidades asiáticas e reguladoras de ambos os clubes. Em particular, o caso do Internazionale tem sido bastante debatido porque, ao contrário do seu eterno rival na vigente época, não tem conseguido materializar todo o seu potencial técnico-financeiro numa saudável e próspera evolução.

A curta era Mancini

O regresso de Roberto Mancini ao banco dos Nerazzurri em 2014, depois da fraca réplica ao leme de Walter Manzarri, pretendia devolver a glória de tempos passados a uma instituição que continua a viver na sombra das conquistas de José Mourinho. Para além de um valor exorbitante despendido a nível de infraestruturas e expansão da marca, o reforço do plantel foi um dado essencial e assinalável que colocou, no imediato, o Inter de Milão num patamar altíssimo, aos olhos do resto do mundo. Mancini teve, de facto, um enorme leque de opções de qualidade à sua disposição.

Imagem: transfermarkt.pt
Imagem: transfermarkt.pt

O saldo final calculado entre as muitas compras/vendas no ano civil de 2015, sorriu aos cofres da direcção liderada por Erik Thohir. Na vasta lista acima indicada, o valor total corresponde a 90 milhões de euros divididos entre inúmeros empréstimos com opção de compra e aquisições em definitivo. Em contrapartida, o total de vendas atingiu um montante astronómico de 105 milhões de euros (!), o que, para além de demonstrar uma gestão aparentemente bem conseguida, sobretudo a nível financeiro, significou uma remodelação global do plantel.

O desafio não seria fácil. No entanto, e por muito que seja motivo de desacordo entre as massas, o palmarés de Roberto Mancini mostrava que este, como havia trabalhado no Manchester City, estava à altura do desafio. Com a queda do pano na Serie A 2015/2016, o Internazionale terminou num amargo 4º posto da tabela classificativa, a uma distância considerável da AS Roma e do Nápoles de Maurizio Sarri. Foi um ano de altos e baixos. A equipa demonstrou, por um lado, uma excelente coesão defensiva, com a dupla de centrais Miranda-Murillo em evidência, mas, por outro, uma certa dificuldade do meio-campo para a frente. Isto porque a criatividade produzida no apoio a Icardi só funcionou realmente em algumas partidas e o internacional argentino encontrou-se desapoiado de forma frequente. A indecisões tácticas de Mancini, variando entre os sistemas 4-2-3-1, 4-3-3 e/ou 4-4-2, foram, assim, o espelho da inconstância do polo azul de Milão.

Foto: Manchester Evening News
Foto: Manchester Evening News

Incessante procura da salvação em solo holandês

A degradação das relações internas de Roberto Mancini levou ao seu despedimento apenas a duas semanas do início do presente campeonato italiano. Para o seu lugar aterrou o já esperado Frank De Boer, após inúmeras épocas ao serviço do Ajax de Amesterdão. Com um plantel já formado e com uma discrepância gigante entre compras e vendas  (de 129 milhões para uns meros 12 milhões), ao contrário do ano anterior, o timing da apresentação do ex-internacional pela Laranja Mecânica não foi, obviamente, o ideal. Bem longe disso.

Imagem: transfermarkt.pt
Imagem: transfermarkt.pt

O reinado de De Boer foi longo em Amesterdão. Foram mais de 260 jogos divididos por 6 épocas, com 4 títulos da Eredivisie conquistados (tetra entre 2011 e 2014), mas o seu epílogo vestiu-se cores fúnebres, que o Ajax viu escapar os últimos dois campeonatos para o seu arqui-rival PSV. Em 2015/2016, aliás, tal sucedeu na última jornada, e mais precisamente nos últimos 20 minutos de uma longa época que agudizou ainda mais o desgaste (natural) de De Boer.

Ainda que com números interessantes – no último exercício, o Ajax esteve 18 jogos sem sofrer qualquer golo e assinou uma 2ª volta sem experimentar o sabor da derrota –, o técnico holandês era, não raras vezes, acusado de não ter o rasgo e agilidade necessários para ultrapassar os problemas que o seu robotizado 4-3-3 enfrentava num ou noutro momento. A turma de Amesterdão vivia sobretudo de um jogo marcadamente exterior, com grande intervenção dos extremos, apelando à superior qualidade individual em terrenos holandeses. Essa capacidade de desequilíbrio – em muitos momentos fruto, precisamente, de mais mérito individual do que capacidade colectiva –, aliado a uma capacidade para saber congelar o jogo com bola – muitas vezes, até, tornando-se uma equipa algo monótona nos seus processos – era praticamente garante de ascendente interno no país das tulipas. Lá fora, porém, com um upgrade da dimensão competitiva, no referido ciclo temporal de 6 épocas, não houve uma única campanha digna de realce na Europa da parte do Ajax, falemos da Liga dos Campeões ou de Liga Europa. A saída do comando técnico dos Ajacieden configurou, assim, como que um alívio para ambas as partes. Para o próprio clube/equipa, que precisava de soltar as amarras que, muitas vezes, Frank lhe impunha; e para o técnico holandês, desgastado (e quiçá desmotivado), depois de longas seis épocas e de já pouco ter a provar no contexto interno.

Em Itália, a aplicação dos mecanismos do seu tradicional 4-3-3 não surtiu efeito. O Inter rubricou exibições paupérrimas e saiu várias vezes do Giuseppe Meazza sob forte contestação dos adeptos. A pressão acrescida a que De Boer estava sujeito, não só pela elevada injecção de capital mas também pela crise de troféus que o clube atravessava e atravessa de momento, colocou o holandês prontamente numa situação instável. Posto isto, o seu afastamento premeditado conheceu a oficialização no pós-Sampdoria, encontro em que o Inter saiu derrotado por uma bola a zero no Luigi Ferraris, relegando a equipa para um inacreditável 12º lugar.

As ilações que se retiram da estadia de Frank De Boer são claras. Numa altura em que considerava a possibilidade de fazer um ano sabático, o convite do Inter assumiu-se como um verdadeiro presente envenenado. Pelo timing em que surgiu, após a saída de Mancini e a escassos dias do arranque da época; pelo facto da pouca (ou nenhuma) influência que teve na construção e formatação do plantel; e ainda porque o Inter continua a viver entre o limbo de uma gestão ilusória e de expectativas atraiçoadas.

Foto: quotidiano.net
Foto: quotidiano.net

Artigo elaborado em parceria com Filipe Coelho, redator do futebol holandês.


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