24 Nov, 2017

A “Džeko-dependência” da AS Roma

Tomás da CunhaMarço 12, 20175min0

A “Džeko-dependência” da AS Roma

Tomás da CunhaMarço 12, 20175min0

Um clube que contrata um jogador como Edin Džeko espera certamente que tenha impacto imediato na equipa, sobretudo no que toca aos golos. Pela qualidade e pelo percurso que tem realizado ao longo da carreira, as expectativas sobre o bósnio são naturais e reveladoras de um estatuto importante que foi construindo. Apesar disso, o avançado da AS Roma não tem sido capaz de deixar uma primeira impressão fantástica por onde passa. Fazendo uma retrospectiva, nota-se uma tendência bastante curiosa: o ano de estreia de Džeko nunca é famoso, mas a segunda época é simplesmente extraordinária. Com paciência, os golos lá aparecem.

Em Roma não tem sido excepção. Depois de uma época aquém do esperado, que até pode ser considerada um fracasso, o bósnio disparou para uma segunda temporada de luxo, mais de acordo com as suas reais capacidades. Os números não mentem e colocam-no como um dos avançados em evidência no futebol europeu, com 29 golos em 39 jogos e um papel decisivo em várias competições. Quando está bem, torna-se uma referência ofensiva temível.

A fase auspiciosa do ex-Man City durava desde o início da época, mas o melhor momento de forma surgiu recentemente, quando conseguiu deixar a sua marca em 8 jogos consecutivos – o destaque vai para o hat-trick no El Madrigal, num jogo em que lhe saiu tudo bem. Esse período foi também o ponto alto da temporada da AS Roma, com vitórias sobre adversários de respeito (Fiorentina, Villarreal e Inter, sobretudo) e exibições bastante convincentes.

Džeko parou de marcar e os giallorossi pararam de ganhar. A quebra de rendimento do bósnio está longe de ser a única causa para o mau momento da AS Roma, mas a dependência excessiva que a equipa sente do seu ponta-de-lança tem sido prejudicial nos últimos encontros. Ofensivamente, o modelo de jogo de Spalletti está bastante condicionado pelas características do seu ‘9’, dando a ideia de ter poucas soluções e tornando-se previsível e fácil de anular.

A AS Roma tenta explorar de forma constante o poderio físico de Džeko através do jogo directo (muitas vezes a partir dos centrais), diminuindo drasticamente as probabilidades de os lances de ataque serem bem sucedidos. Por muito forte que o bósnio seja no jogo aéreo, terá sempre dificuldades para garantir a posse de bola e dar a melhor sequência à jogada. Sabendo que uma das mais valias do avançado de 30 anos é a capacidade de dar apoio frontal e soltar com um ou dois toques apenas, permitindo a progressão da equipa, explorar esse aspecto será sempre melhor solução.

O guião errado de Spalletti

Spalletti não tem tirado o melhor proveito da qualidade de Strootman [Foto: Voetbal International]
 

Chegámos à fase decisiva da temporada e todas as expectativas que a AS Roma criou foram defraudadas. Spalletti, apesar de ter estabilizado a equipa a nível de resultados, está a demonstrar-se incapaz de tirar o melhor partido de um plantel recheado de bons intérpretes. O guião que o técnico italiano passa aos seus jogadores é frágil, mas acima de tudo desadequado. Tendo médios que se relacionam muito bem com a bola, é pouco inteligente pedir-lhes que se livrem dela tão facilmente. A obsessão pela vertigem, neste caso, está longe de aproximar a equipa do sucesso continuado.

Quem mais beneficia com o jogo de correrias é Salah, que vive das mudanças de velocidade. O egípcio tem sido o jogador mais próximo de Džeko desde a mudança para o 3-4-2-1 (Nainggolan é habitualmente o médio mais adiantado), que tão bons resultados trouxe inicialmente. Desde então, a AS Roma tem privilegiado cada vez mais a largura através dos laterais Bruno Peres e Emerson, ambos muito acutilantes, em detrimento das combinações pelo corredor central, não aproveitando convenientemente os espaços que conquista entre as linhas do adversário.

Neste momento, Rüdiger e Strootman são praticamente dois “lançadores”, bem ao estilo de um quarterback de futebol americano. É um desperdício ter jogadores com tanta qualidade a desempenhar este papel, ora procurando Džeko, ora tentando encontrar Salah nas costas da defesa contrária. A equipa divide-se, ataca com menos elementos e oferece inúmeras vezes a bola ao adversário.

Aumentar o tempo e a qualidade do ataque deveria ser uma prioridade para Spalletti nesta altura. O problema está na falta de ideias do treinador romano, que já terá chegado ao limite do que pode oferecer à AS Roma. Para poder pensar em ombrear com a Juventus nos próximos anos, é necessário que existam outros estímulos e é fundamental que os jogadores estejam no seu potencial máximo. Imagine-se se esta equipa procurasse construir mais pacientemente, aproveitando a qualidade dos seus médios, e se passasse mais tempo em organização ofensiva, jogando com maior critério. Daria certamente um salto que, assim, dificilmente irá dar.


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