25 Set, 2017

Uma Azurra made in Bérgamo

Tomás da CunhaJunho 26, 20177min0

Uma Azurra made in Bérgamo

Tomás da CunhaJunho 26, 20177min0

Maus resultados, escassez de talento e, sobretudo, uma falta de identidade preocupante. As equipas de formação de Itália atravessaram um período bastante negativo na viragem da década e nos anos que se seguiram, o que fez surgir uma necessidade incontornável de reestruturação. Tão importante como o trabalho federativo é o contributo dado pelos clubes, que se começa a reflectir nas gerações que agora evoluem. Há talento espalhado por todos os emblemas da Serie A, campeonato do passado que ano após ano se coloca como um campeonato de futuro.

À selecção de sub-21, que já garantiu a presença nas meias-finais do Euro, ninguém fornece mais jogadores do que a Atalanta, que conseguiu um notável quarto lugar no Calcio. Com toda a naturalidade, o seleccionador Luigi Di Biagio convocou quatro jogadores dos nero blu (Grassi esteve emprestado pelo Nápoles), aos quais se pode juntar Roberto Gagliardini, transferido para o Inter em Janeiro mas com formação feita no clube. O sucesso desta Squadra Azurra deve-se, em boa parte, à aposta frutífera do emblema de Bérgamo.

Mattia Caldara, já contratado pela Juventus, foi um dos centrais em evidência no futebol europeu na última temporada e mantém o nível elevado ao serviço da selecção. Fazendo parelha com Rugani, possivelmente o seu futuro companheiro em Turim (e que dupla será!), o jovem da Atalanta tem sido praticamente intransponível, liderando o sector defensivo com enorme personalidade. Ficou no banco na segunda jornada e, por coincidência ou não, a Itália foi derrotada pela República Checa. Tem apenas 23 anos, mas reúne todas as características para vir a ser uma referência na posição. Muito concentrado sem bola, lendo e antecipando, destaca-se pelo que oferece ofensivamente, tanto no passe como em condução (ficou na retina o túnel a Dahoud). As bolas paradas são outro capítulo em que faz a diferença, tendo marcado uns incríveis 7 golos na Serie A.

Caldara em acção no Juventus Stadium
Foto: JN24.it

O entendimento eficaz de Caldara com Andrea Conti resulta das rotinas que foram criando ao longo da temporada. Tal como no clube, o lateral-direito da equipa projecta-se constantemente, sendo um dos principais receptores das bolas longas do central. Habituado a jogar como ala na Atalanta, devido ao sistema com três centrais, Conti é um autêntico cavalo de corrida no flanco, impressionando pela resistência com que executa o vaivém. Não sendo muito refinado, é um jogador com competências técnicas ao nível da recepção e do passe e explora o jogo interior com inteligência. Para o confirmar surge um registo assinalável de 8 golos apontados na Serie A, que o coloca como o segundo melhor marcador da equipa. Defensivamente, apesar de ter algumas lacunas ao nível do posicionamento, é forte a reagir à perda e muito agressivo em todos os duelos que disputa. Ao que tudo indica vai fazer parte do novo projecto do AC Milan, com a Atalanta a encaixar cerca de 25 milhões de euros.

Desta geração, Roberto Gagliardini foi o primeiro a cativar o interesse de um dos maiores clubes da Serie A. Emprestado pela Atalanta ao Inter, que tem opção de compra do passe, o médio conquistou rapidamente o seu espaço no Giuseppe Meazza e pode tornar-se um dos principais rostos do conjunto de Spalletti. Sempre de cabeça levantada, dá muita fluidez à saída de bola na construção, ora procurando o passe vertical a queimar linhas, ora variando o centro de jogo em busca do homem livre. Contra a Alemanha fê-lo de forma exímia, assinando uma exibição para mostrar como cartão de apresentação. Além do que ofereceu com bola, permitiu que a equipa pressionasse em zonas adiantadas, dando cobertura aos interiores Pellegrini e Benassi. Um ‘6’ bastante culto tacticamente.

Outro dos aspectos decisivos para o triunfo italiano sobre os alemães foi a presença de Bernardeschi como falso 9, que acrescentou agressividade à primeira fase de pressão e condicionou a saída de bola do adversário. Andrea Petagna, titular nos dois encontros anteriores, perdeu o lugar na última partida, mas certamente não perdeu a confiança de Luigi Di Biagio. É, juntamente com Andrea Belotti, um dos pontas-de-lança italianos mais cotados, apesar de o registo de golos na Serie A não impressionar (apenas 5). Formado no AC Milan, encontrou em Bérgamo um espaço de afirmação e tornou-se uma peça indispensável para Gasperini. Mesmo sem marcar muito, é sempre a referência nas bolas longas e a sua presença entre os centrais impõe respeito. Não tem grande mobilidade mas associa-se facilmente, oferecendo apoios frontais constantes e aproveitando a capacidade de jogar de costas para a baliza, talvez a sua principal qualidade. Segura ou entrega ao primeiro toque (sobretudo com o pé esquerdo, o seu preferido), aspecto em que também é forte. Com as características que possui, será difícil que a próxima época não traga mais golos a Petagna.

Vender ou manter: o dilema da Atalanta

Kessié já se transferiu para o AC Milan
Foto: Goal.com

A concentração de jovens promissores ajuda a explicar o surpreendente quarto lugar da Atalanta. Não tendo o poderio financeiro de outros emblemas, os nero blu vão apostando de forma continuada na sua formação e têm tirado bastante proveito desse investimento, não só pelos resultados desportivos mas também pela extrema valorização dos seus activos. Agora, depois de uma época tão bem sucedida, o dilema está em vender ou tentar manter a base da equipa, o que parece difícil face ao assédio de vários clubes.

Os objectivos iniciais eram os de sempre: assegurar a manutenção rapidamente e tentar terminar na metade superior da tabela. Não haveria argumentos para melhor do que isso, poderia pensar-se. Mas Gian Piero Gasperini, treinador que guiou a Atalanta nesta época brilhante, aproveitou a vontade de afirmação de vários jogadores que se tinham destacado na Serie B e construiu uma equipa capaz de vingar na Serie A.

Todos os jogadores que fazem parte da selecção de sub-21 deram provas de valor no competitivo escalão secundário de Itália. Conti passou pelo Perugia e pelo Virtus Lanciano, ganhando o bilhete de volta para Bérgamo. Caldara foi um dos destaques do Cesena em 2015/16, já depois de ter representado o Trapani. Petagna, apesar de só ter 21 anos, jogou no Latina e no Vicenza, antes de uma época excelente ao serviço do Ascoli. Também Gagliardini esteve cedido, juntando ao currículo as passagens pelo Cesena, pelo Spezia e pelo Vicenza. Mérito para a Atalanta, que soube gerir da melhor forma a transição para seniores das suas principais promessas.

Além dos jovens italianos, Gasperini contou com o contributo importante de nomes como Franck Kessié, médio costa-marfinense que já se mudou para Milão, Jasmin Kurtic, desequilibrador esloveno com boa chegada à área, e sobretudo AlejandroPapu’ Gómez, que fez a melhor temporada da carreira. Criativo, tecnicista e com golo (apontou 16 no campeonato), o argentino aproveitou bem o facto de Petagna fixar os centrais para ter mais espaço em zonas de perigo. Um dos melhores jogadores do último Calcio.

Pouco habituada às andanças europeias, a Atalanta terá em 2017/2018 o desafio de se manter competitiva em várias frentes. Já se percebeu que será difícil segurar a espinha dorsal da equipa, pelo que a chave do sucesso estará no critério com que o clube vai atacar o mercado. Fazer muito com pouco foi o lema desta temporada mas, continuando assim, em breve deixará de ser. Para já, é preciso provar que 2016/2017 não foi um episódio único.


Entre na discussão


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS



newsletter