16 Dez, 2017

Klopp aumenta o volume

Nélson SilvaNovembro 18, 20167min0

Klopp aumenta o volume

Nélson SilvaNovembro 18, 20167min0

Da monotonia de um ritmo aborrecido ao impacto frenético do “heavy metal”. O gigante há muito adormecido vai começando a reerguer-se, o “You’ll never walk alone” é agora empurrado por uma crença que parecia perdida no tempo. O tempo, esse que Klopp pediu e que vai justificando, esse que poderá, quem sabe, ditar o regresso ao trono. Não há títulos antecipados, mas é um facto que o Liverpool assume a liderança da Premier League, com uma alma renovada, em que a união e a entrega primam entre os valores mais altos.

É verdade, já chega de ficar a falar da história, de uma conquista épica da Liga dos Campeões frente ao AC Milan, ou até das vitórias morais da “era Suárez”. Benítez passou tempo a mais a tentar aquilo que parecia cada vez mais impossível. Brendan Rodgers era o sangue novo que entusiasmou embalado pelo talento assumido de Suárez e uma época inesquecível de Sturridge. No entanto, nada se conquistou. A “escorregadela” de Gerrard acabou por culminar, de uma forma muito injusta até para o capitão, o desastre de uma época que parecia prestes a pôr fim ao jejum. Ao longo deste largo período sem triunfar, uma carrada de tiros no escuro, investimentos absurdos e um leque de deceções onde os 41 milhões por Andy Carroll explicam muito do que estava errado nesta casa. Era o desespero, a sede de ganhar suplantava a necessidade de criar uma base sustentável, ia-se investindo “à toa” e logo se via se resultava.

Anos depois, chegou a oportunidade que o colosso inglês não podia deixar fugir. Dinheiro continuava a faltar, alguns bons jogadores e outros desaproveitados também não. Faltava um timoneiro à altura, alguém ambicioso, capaz de acreditar no projeto e levantar a equipa, com a paciência e motivação necessária. Jurgen Klopp estava disponível, depois de conseguir o impensável pelo Borussia de Dormund, relançando o clube à glória, com um título na Bundesliga e uma final da Liga dos Campeões. O alemão voltou a demonstrar o seu apetite por desafios e agarrou a vaga no Liverpool na temporada passada, em outubro, após um início dececionante dos Reds na temporada.

Foto: SkySports
Foto: SkySports

Rapidamente as coisas começaram a mudar. Aos poucos, aqueles suspiros de desespero em Anfield Road desapareciam. Por muito que lhe faltassem os “ovos”, Klopp ia fazendo omoletes e impondo a sua filosofia de jogo. O perfeito exemplo da sua “mão” no clube foi a afirmação de Roberto Firmino, a quem muitos já torciam o nariz, por ser mais um senhor 40 milhões desperdiçados. Apesar de não conseguir os resultados quantitativos necessários para a corrida ao título, a atmosfera ganhava outra vida. Os adeptos sabiam que era preciso tempo, um tempo agora precioso, para que o técnico alemão justificasse o seu talento. A grande prova de que Klopp merecia a paciência aconteceu numa reviravolta épica frente ao seu anterior clube, o Borussia de Dortmund. Klopp nunca deitou a toalha ao chão, ensinou os seus jogadores a levarem a crença até ao último lance da partida e conduziu a equipa à final da Liga Europa. Após a vitória frente ao antigo clube, uma ordem do alemão: ninguém toca no mítico quadro “This is Anfield” à entrada para o túnel, até que o clube ganhe alguma coisa. O Sevilha tirou a primeira tentativa ao vencer a Liga Europa, mas ficou bem patente a presença de novos ares, a confiança renovada, uma perspetiva risonha de um futuro onde Jurgen Klopp podia finalmente reforçar a equipa à sua maneira.

Foto: Mirror
Foto: Mirror

A presente temporada confirma, até então, todas as expectativas. Da baliza até à frente, Klopp não esqueceu nenhum setor e com um investimento ponderado (extremamente ponderado, se olharmos a Manchester City e Manchester United), montou um plantel equilibrado, capaz de lhe dar as garantias necessárias. Klopp não dorme, bem viu como o setor defensivo estava debilitado. Um simples Mignolet, para começar, não inspirava a confiança necessária e chegou Loris Karius para assumir a despesa, confirmando o seu talento. Daí para a frente, houve Matip e Klavan para o centro da defesa, Wijnaldum para o miolo e um Sadio Mané para o apoio a Firmino nas ofensivas a todo o gás do Liverpool. Da prata que havia em casa, se alguns jogadores já justificavam a sua preponderância, com o alemão colocam-se a um nível brutal. Clyne assume-se como um dos melhores laterais da Premier League, Henderson vive o seu momento mais alto da carreira, capitaneando a equipa e com uma preponderância nunca antes vista. Da mesma forma, o experiente médio James Milner parece rejuvenescido e a sua entrega delicia Klopp e as suas exigências para cada partida. Lallana, Emre Can, entre outros, são uma amostra que a mais valia está num plantel poderoso, capaz de se completar com diferentes soluções. Daí para a frente já nem há palavras. O nome Coutinho diz tudo. O brasileiro enche todas as medidas, alia a capacidade técnica à velocidade, visão de jogo e remate de meia distância. À sua frente, um Mané endiabrado. Se o senegalês já deixava os adeptos do Southampton com água na boca, o seu momento de forma em Liverpool coloca-o nos lugares do topo da lista de grandes sensações da liga. Frieza na finalização, velocidade e capacidade técnica e tática invejáveis, uma caixinha de surpresas de quem abusa da antecipação aos defesas contrários. Tão determinante que até caem no esquecimento outras soluções também muito utilizadas, como Divock Origi e o azarado Daniel Sturridge, que ainda assim vai deixando a sua marca no clube de Merseyside.

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Foto: Liverpool Echo

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Foto: Liverpool Echo

O conto de fadas até pode não ter o final mais feliz, há muito para jogar e inúmeros serão os fatores que ditarão quem levantará o tão desejado e disputado troféu de campeão inglês. Certo é que, nesta altura, o Liverpool comanda a liga, contrariando as expectativas em torno da chegada de Mourinho e Guardiola ao comando dos rivais de Manchester. Jurgen Klopp gosta de ver os focos virados para outros lados, os “outros” é que são favoritos e o Liverpool está apenas a tentar dar o seu melhor. Só quem não acompanha podia deixar passar despercebida a valia de Klopp, o seu incessável sorriso reflete sabedoria, ao passo que as suas lições de moral e motivação permitem unir um balneário de meter inveja a qualquer equipa. Aqui não há tensão, se uns se viram a tudo e mais alguma coisa para justificar os maus resultados, Klopp relativiza e aponta a um futuro risonho, porque o que virá será melhor. A alma está devolvida, o hino da casa entoa com uma paixão ainda mais intensa e se há candidato embalado pela euforia, este mora em Anfield. Os Reds estão à espreita, sem pressas e a mostrar que o futebol também se joga muito de sorriso no rosto.

Foto: Empire of the Kop
Foto: Empire of the Kop

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Foto: SkySports


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