20 Set, 2017

Utrecht. Um pouco de outro futebol na Eredivisie

Filipe CoelhoAgosto 1, 20166min3

Utrecht. Um pouco de outro futebol na Eredivisie

Filipe CoelhoAgosto 1, 20166min3

Da instabilidade inicial à afirmação como um dos emblemas mais atraentes da Eredivisie 2015/2016, o Utrecht foi conduzido pela mão de Ten Haag, um holandês que bebeu em Munique. Com vários elementos assediados pelo mercado, qual a base de onde parte o Utrecht para encarar 2016/2017?

utrechtQuando em Março deste ano, nas vésperas de receber o Utrecht, Foppe de Haan, lendário técnico do Heerenveen (e que agora, aos 72 anos, deu por finalizada a sua carreira), apelidou o seu adversário de “mini Bayern de Munique” até poderia estar a exagerar. Como em outras partidas da anterior época, o Utrecht acabou mesmo por sair vencedor (0-4 foi o score final), sinalizando os 3 pontos com um futebol atractivo e tacticamente assente numa estrutura pouco vista na Eredivisie.

O óbvio elo de ligação ao clube da Baviera centra-se no nome de Erick Ten Hag. O actual técnico do Utrecht treinou, em 2013/2014 e 2014/2015, a equipa secundária do Bayern de Munique (onde conquistou o título regional da Baviera), tendo, por isso, tido a oportunidade de beber de Guardiola. Aos 46 anos, voltou à Holanda – do seu currículo já constavam passagens por PSV e Twente como treinador adjunto – para pegar no Utrecht e o balanço é bastante interessante.

Em 2015/2016, o arranque não foi auspicioso, é certo, e contou com algumas aventuras tácticas que não correram bem – o 532 inicial não soltava suficientemente o potencial da equipa e não foi bem-sucedido mesmo pensando em termos ‘resultadistas’. A mudança foi-se operando à medida que Rico Strieder consolidou a sua presença na equipa – o médio alemão veio com Ten Hag desde a Baviera e é um daqueles jogadores que guia a equipa de forma tão discreta quanto eficaz, dando e mostrando os caminhos certos para esta percorrer. Estabelecendo-se como #6, o Utrecht cresceu a partir daqui, ensaiando um 442 losango perfeitamente original na Liga holandesa.

Não se afirmando como uma equipa obcecada com a posse de bola, o Utrecht revelou-se um conjunto a procurar sair de forma apoiada, com várias soluções possíveis para o passe curto, privilegiando um futebol interligado. Porém, destacou-se ainda por ser um todo suficientemente descomplexado para abdicar de um estilo que, por certas insuficiências técnicas, lhe poderia ser contraproducente. E aqui emergiu Sébastien Haller: o avançado francês foi o jogador-alvo quando a equipa não conseguiu sair a jogar desde trás, optando, então, por esticar jogo. Aos 21 anos, alia uma dimensão física tremenda (187 cm e 82 kg) a uma vertente técnica que o transforma no plus da equipa, sabendo reter bola e aguardar pelos companheiros, servir através de jogo aéreo ou arrancar, ele mesmo, explosivo e com notável capacidade de drible (nos últimos 5 jogos, em 30 dribles tentados, saiu vitorioso em 22) – o que, tudo somado, já lhe valeu comparações com Thierry Henry. Não esquecendo os golos: 17 em 33 jogos.

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Sébastien Haller em acção (Foto: voetbal.com)

O conjunto de Ten Hag foi, no entanto, mais do que Haller. O meio-campo apresentou-se muito compacto, procurando invariavelmente que os actores que habitavam nesse espaço estivessem bastante próximos. Para além de Strieder, o destaque vai para Bart Ramselaar: aos 19 anos, já foi chamado à Laranja, e tal convocatória apenas foi o corolário de uma época de grande nível. Um #8 que enche todos os recantos do campo, com uma qualidade técnica assombrosa e fiel ao estilo do ‘recebe-toca-e-procura’, sempre disposto a servir de linha de passe ao seu colega mais próximo. A verdadeira intensidade cerebral. Actuando mais pela direita, foi ainda fundamental nas coberturas aos laterais, tal como Ludwig do lado oposto. Muitas vezes, em processo defensivo, o Utrecht abdicou do seu 442 losango, organizando-se num 433 puro, com a dupla avançada (normalmente Haller e Barazite, outro interessante jogador) a fechar os corredores laterais dos adversários, e o elemento do espaço #10 (tendencialmente o capitão Janssen) fixando-se no miolo do terreno, sendo relevante a sua acção na procura do condicionamento do jogo do adversário.

Fazendo jus à tradição holandesa, o Utrecht não foi uma equipa exemplar do ponto de vista defensivo. A linha mais recuada não se mostrou imune à abertura de espaços entre as suas unidades, e houve alguma exposição ao erro até pela enraizada tendência de seguir mais o homem do que a bola. Não obstante, foi neste sector que despontou mais um elemento entretanto chamado à selecção holandesa. Com 22 anos, e participando na totalidade dos jogos da edição da Eredivisie, Timo Letschert emergiu como o esteio defensivo do Utrecht, evidenciando-se pela sua agressividade, capacidade de impulsão e arrojo, tendo ainda qualidade técnica suficiente para conduzir e arriscar no passe.

Se, numa perspectiva estética, o clube da cidade do rio Reno foi uma das mais agradáveis surpresas da edição 2015/16 da Eredivisie, tal acabou por ter também materialização na (dura) frieza dos números.  O Utrecht logrou um 5º lugar final – a melhor classificação do século, igualando 2000/01 e 2012/13 –, o que lhe permitiu ainda buscar um lugar na Liga Europa por intermédio da Nacompetitie (playoff disputado entre os 5º, 6º, 7º e 8º classificados da Eredivisie). Todavia, acabou por soçobrar diante do Heracles – de forma algo surpreendente, até –, sentindo em demasia a ausência de Ramselaar e Letschert no embate decisivo. Por outro lado, marcou ainda presença na final da Taça da Holanda (perdida para o Feyenoord), depois de ter eliminado o campeão PSV em Eindhoven. No fundo, uma época protagonizada por uma equipa com a impressão digital de Ten Hag – ele que acabou por vencer o Prémio Rinus Michels, troféu que premeia o melhor treinador do contexto holandês em cada temporada.

Para a nova época, a expectativa passa por perceber se o Utrecht conseguirá manter a sua espinha dorsal – Letschert, Strieder, Ramselaar e Haller. Apesar de diversas movimentações e de incontáveis rumores, até ao momento Ten Haag não viu partir nenhuma destas peças essenciais. De relevante apenas as saídas de Christian Kum (lateral esquerdo utilizado sobretudo na 2ª metade da época) e de Ruud Boymans (ponta-de-lança autor de vários golos importantes mas sempre encarado como 2ª opção). Pelo contrário, a porta do Stadion Galgenwaard apenas se viu abrir para o retorno de Kristoffer Peterson, jovem extremo sueco que evoluiu positivamente no Roda JC na 2ª metade de 2015/2016.

Se, até ao final da janela de transferências, não for desmembrado na sua corporização, conseguindo ainda acrescentar alguma harmonia defensiva à performance da última época, então o Utrecht tem, definitivamente, tudo para ser uma das mais belas ideias a seguir na próxima Eredivisie.


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