25 Set, 2017

Feyenoord. Como 1999 ou como ‘sempre’?

Filipe CoelhoNovembro 7, 20166min0

Feyenoord. Como 1999 ou como ‘sempre’?

Filipe CoelhoNovembro 7, 20166min0

De nove jogos temperados com igual número de vitórias a dois pontos em três rondas, o Feyenoord regressa ao limbo entre a ilusão (da conquista) e o fantasma (de mais uma decepção). Os bons feelings do óptimo arranque de 2016/2017 tiveram sustentação – mas serão eles capazes de se auto-alimentar para garantir o doce sabor do título que foge desde 1999?

Giovanni van Bronckhorst não viveu esse ano de glória – comandados por Leo Beenhakker, os vermelhos e brancos venceram a liga holandesa com 15 pontos de avanço sobre o Willem II –, pois que já havia saído para o Rangers no defeso anterior. Mas é este antigo lateral esquerdo um dos principais responsáveis pela ascensão e cada vez maior consideração que o Feyenoord acumula enquanto competidor pelo título.

‘Gio’, à semelhança do ano passado, tem optado por dispor a equipa próxima de um 4231. À estabilidade táctica juntou-se a permanência das unidades mais relevantes e acrescentou-se um trio que se tem revelado fundamental no upgrade dos donos do De Kuip: Brad Jones (ex-NEC, veio acautelar a ausência de Vermeer devido a grave lesão e é tremendamente competente na saída dos postes), Steven Berghuis (emprestado pelo Watford, aportou  criatividade e repentismo ao lado direito do ataque) e Nicolai Jörgensen (ex-Copenhaga, um ‘9’ que elevou o jogo associativo do Feyenoord, destacando-se pela sua veia goleadora – é o melhor marcador da Eredivisie, com 8 golos em 12 jogos).

Não sendo uma equipa brilhante, empolgante ou completamente dominadora – à semelhança da esmagadora maioria das turmas holandesas, apresenta défices no processo defensivo, com uma indesmentível tendência para a marcação H-H –, o Feyenoord tem vindo a apresentar um futebol mais pensado e ligado do que na época anterior. Há vários factores que confluem para essa evidência.

Por um lado, a afirmação plena do ‘velhinho’ Kuyt como elemento de ligação entre os sectores intermédio e avançado. É o homem de 36 quem ocupa esse espaço pelo corredor central, afirmando-se verdadeiramente como a alma mater da equipa, futebolística e espiritualmente falando. Mantém toda a sua entrega ao jogo e – ate pela sua experiência – sabe sempre o que fazer com a bola, oferecendo inteligência à criação ofensiva – ademais, preserva a capacidade de surgir em zona de finalização (3 golos em 9 jogos), ligando muito bem com Jörgensen.

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Dirk Kuyt (Foto: omroepwest.nl)

De facto, este avançado dinamarquês de 25 anos terá de ser visto como um plus em relação a Kramer. Alia a imponência física (1,90 m) e, por isso, a capacidade de servir como jogador-alvo (desde logo nas saídas de bola) a um à-vontade com a bola interessante, que potencia a capacidade que tem para recuar e se envolver no jogo colectivo, oferecendo destreza na movimentação, qualidade nos apoios frontais e fiabilidade na hora de segurar e esperar que a equipa se aproxime.

Finalmente, a dupla El Ahmadi- Vilhena tem sustentado muita da capacidade do Feyenoord de se superiorizar aos seus opositores. O primeiro destaca-se pela qualidade nas coberturas defensivas e pela segurança/tranquilidade que transmite no controlo do espaço central (revelando-se ainda muito equilibrado na integração no processo ofensivo) – fabulosa a forma como se exibiu na vitória no clássico diante do PSV, em Eindhoven; já Vilhena, de raízes angolanas, tem perfume no seu pé esquerdo, evidenciando-se pela qualidade de passe e pelo poderoso remate (a que acrescenta a skill da bola parada), sendo perceptível a nuance táctica que oferece à equipa com não raras trocas posicionais com Toornstra, um médio versátil muitas vezes utilizado a partir do flanco esquerdo. São estes dois homens que, nas costas de Kuyt, permitem que o Feyenoord tenha um jogo mais pensado, pausado e fluido do que em momentos precedentes.

Um perfil de jogo colectivo mais integrado e conectado – não se vê actualmente os fortes centrais em espaço aéreo Botteghin e Van der Heijden a libertar de forma directa a bola de modo tão assíduo quanto anteriormente, por exemplo – mas que mantém alguns vícios do passado, como sejam a (ainda) excessiva propensão para atacar pelas bandas (bons valores como Elia, Berghuis e o rato atómico Basacikoglu também assim o ‘obrigam’, para além da capacidade de galope por parte do lateral direito Karsdorp) e alguma negligência no momento defensivo (vislumbrada na recepção ao Roda JC, apesar da folgada vitoria, ou diante do Go Ahead Eagles).

Durante o exercício de 2015/2016, o conjunto de Roterdão guindou-se aos lugares de decisão mas uma queda considerável pós-interregno de Inverno (com derrotas consecutivas) voltou a adiar o longo sonho da reconquista da Eredivisieschaal. Agora o arranque com o registo interno de 9 vitórias em outros tantos jogos elevou o conjunto de Roterdão a figura principal, considerando que, tal performance, neste século, ainda não havia sido alcançada por qualquer outro emblema. Porém, tal élan parece desvanecer-se …

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A derrota diante do Go Ahead Eagles poderá ter reaberto feridas não totalmente cicatrizadas (Foto: Sportfeed)

Os dois pontos conquistados nas últimas três jornadas desbarataram uma liderança que aparentava ser sólida. E pior poderia ser caso os mais directos perseguidores não tivessem também eles tropeçado – o PSV conquistou 7 em 9 pontos (segue em 3º) e o Ajax logrou 5 em 9 (segue em 2º). Sobretudo nas duas últimas partidas observaram-se circunstâncias com que os rotterdammers ainda não se haviam debruçado: diante do Heerenveen, os pupilos de Gio depararam-se com uma equipa que quis jogar e ter bola, condicionando imensamente o jogo dos homens de Roterdão e ameaçando com propriedade a baliza de Jones; e na derrota diante do Go Ahead Eagles, ficaram expostas as debilidades de um plantel que não resistiu à ausência do duplo pivot El Ahmadi-Vilhena (para além do keeper Jones), sendo ainda tremendamente penalizado por falhas defensivas comprometedoras (como o erro individual de Van der Heijden) e pela inoperância em termos ofensivos para dar a volta ao contexto negativo.

A pausa para os jogos competitivos das selecções é assim recebida, em Roterdão, com tons de alívio. O Feyenoord necessita de reencontrar-se, e sobretudo espantar o espectro negativo que sempre se abate a cada ciclo – por mais pequeno que seja – de resultados negativos. Um aspecto que terá muito mais que ver com questões psicológicas e motivacionais do que puramente tácticas. Ainda que neste último campo também haja espaço para crescer. É que mesmo com um plantel inferior em termos de soluções relativamente aos crónicos candidatos Ajax e PSV, Giovanni van Bronckhorst deverá garantir o regresso da solidez exibicional evidenciada nas primeiras semanas de 2016/2017. E assim talvez a longa espera termine.


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