18 Dez, 2017

Pode o Hamburgo renascer da recente mediocridade?

Pedro CouñagoJulho 24, 201714min0

Pode o Hamburgo renascer da recente mediocridade?

Pedro CouñagoJulho 24, 201714min0

Quem analisa o decorrer dos últimos anos no Hamburgo SV percebe que o mesmo é, hoje em dia, um clube bastante diferente do que poderia e deveria ser. O FairPlay deixa aqui a análise ao que foi o passado, o que é o presente e o possível futuro de um dos maiores clubes da Alemanha.

O Hamburgo SV é o único clube que disputou as 54 edições da Bundesliga, é o único que está na primeira divisão desde que a liga foi criada no ano de 1963. Ser o único clube a disputar sempre a Bundesliga é, por si só, um símbolo daquilo que é a essência do Hamburgo. No entanto, nos últimos tempos, não têm faltado ocasiões para o clube cair no abismo. 

Uma história rica e de glória

O Hamburgo SV, como é regularmente designado em português, é um clube que representa a segunda maior cidade da Alemanha. Tem uma história riquíssima que inclui a conquista de seis campeonatos, três Taças da Alemanha, duas Taças da Liga, e ainda quatro taças europeias: a Taça dos Campeões Europeus, a Taça das Taças e duas Taças Intertoto. É uma das três equipas alemãs a conquistar o principal troféu europeu de clubes (mais o Bayern de Munique e Borussia de Dortmund), tendo perdido uma outra final.

Ambas as finais da Taça dos Campeões Europeus que o clube disputou tiveram lugar nos anos 80, os gloriosos anos do clube, sendo que a conquista dessa prova e da última Bundesliga coincidem, em 1983. A conquista da Taça das Taças surgiu no ano de 1977, pelo que se demonstra o poderio do clube na altura, com uma final perdida nove anos antes, em 1968.

Assim, conclui-se que o clube, entre 1968 e 1983, surgiu em quatro finais das principais provas europeias, tendo também conquistado os seus três títulos da Bundesliga (os restantes três surgiram antes da era Bundesliga), um período dourado que nunca mais se voltou a repetir na história do clube.

A falta de títulos, o início da decadência

O último título de real relevo foi a Taça da Alemanha, há exatamente trinta anos atrás, em 1987, não contando com duas conquistas da extinta Taça Intertoto e da também extinta Taça da Liga Alemã, que funcionava como uma espécie da atual Supertaça. Ainda que a Taça da Liga Alemã e da Taça Intertoto sejam títulos válidos e oficiais, não são títulos ao mesmo nível que os restantes, nunca foram títulos com tanto significado como os restantes.

Esta falta de títulos proporciona a decadência em que o clube foi lentamente mergulhando, sem nunca realmente cair no abismo, mas sempre em risco de tal acontecer. A última década tem sido o maior exemplo.

Com efeito, a equipa tem sido muito inconstante nos últimos dez anos, principalmente. Fixou-se como um clube de meio da tabela e, ao longo dos anos, tem cada vez mais estado em maiores dificuldades para se manter na primeira divisão. Nas últimas seis épocas, apenas uma delas ficou acima do décimo lugar (7º, em 2012/2013).

Nas épocas 13/14 e 14/15, o clube precisou de disputar o Play-off entre o 16º classificado da Bundesliga e o 3º classificado da 2.Bundesliga (a segunda divisão), frente a Greuther Fürth e a Karlsruher, conseguindo ter sucesso duas vezes consecutivas, embora com muitas dificuldades (1-1 e 2-1, respetivamente, no agregado das duas mãos).

Um dos craques da equipa, Lewis Holtby, após a vitória sobre o Karlsruher (Foto: Eurosport)

As duas idas ao playoff fizeram com que a equipa, em 15/16 e 16/17, melhorasse um pouco o seu desempenho, com uma subida ao 10º lugar e uma descida posterior ao 14º lugar. Mas a dúvida paira sobre a equipa, e prende-se com quantas mais épocas o clube aguentará se se mantiver com classificações medianas. Desde 08/09 que o clube não disputa as competições europeias, época em que até foi às meias finais da Liga Europa. E muita falta faz o clube aos palcos de decisões.

Um clube grande com grandes motivos de orgulho

O Hamburgo tem muito que se lhe diga para além do seu glorioso histórico. Possui o sexto maior estádio da Alemanha, o Volksparkstadion, que está sempre cheio com adeptos muito fervorosos. Nos últimos anos, muito têm dado o impulso e a força necessária para o clube conseguir manter-se na Bundesliga. Os adeptos têm feito a vez dos jogadores, que não têm sido da qualidade desejada, já que os recentes plantéis têm escasseado em qualidade e profundidade.

Os adeptos do Hamburgo são verdadeiramente incansáveis (Foto: Trivela)

Não será certamente por acaso que o clube tem cerca de 76 mil sócios e está no top 5 dos clubes com mais apoiantes na Alemanha. Tal significa que existe uma tradição por parte do clube, um clube que arrasta massas. Essas massas fazem-se notar nos jogos com St. Pauli e com Werder Bremen, os principais rivais do clube. Contra o St. Pauli, joga-se o Hamburger stadtderby pela supremacia da cidade, com clara vantagem para o Hamburgo; contra o Werder Bremen, joga-se o Nordderby pela supremacia no Norte da Alemanha, um duelo mais apetecível. 

O que pode fazer o clube numa liga cada vez mais competitiva?

Com o treinador Markus Gisdol ao leme, um treinador experiente e com muita “tarimba”, a equipa pode começar uma espécie de renascimento e almejar à metade superior da tabela. Se o fizer, a médio prazo, acreditamos que o clube possa regressar às competições europeias. Mas tal não se afigura fácil, tal é a competitividade do campeonato alemão, a qualidade dos plantéis, o crescimento do investimento e o nível mais alto das equipas ditas pequenas. Além disso, a liga é pródiga em surpresas, excluindo as equipas que dominam o campeonato (Bayern), portanto nenhuma se encontra totalmente a salvo. Bons exemplos recentes deste facto são o próprio Hamburgo, o Estugarda (desceu em 2015/2016, para agora voltar à elite) e o Wolfsburgo (jogou playoff de despromoção na passada época).

Até ao momento, o plantel proposto para a época 2017/2018 parece ser um pouco mais equilibrado, com algumas boas alternativas para os três terços do campo, mas existem ainda algumas lacunas. Esperar-se-ia que os patrocínios da Fly Emirates e da Adidas pudessem trazer algum investimento sólido ao clube, principalmente o primeiro. Aqui esperamos para ver o que poderão ser as novas adições ao plantel. Veja-se.

Guarda-redes

Aqui, o Hamburgo fez uma excelente contratação sob a forma de Julian Pollersbeck, proveniente do Kaiserslautern, a quem cabe a missão de fazer esquecer um dos maiores símbolos do clube nos últimos anos: René Adler. O experiente guarda-redes saiu para o Mainz, deixando uma grande herança que ficará a cargo de Pollersbeck, que certamente tem a qualidade para corresponder. Este setor parece estar bem entregue, com Christian Mathenia, chegado na passada temporada, e Tom Michel a preencherem as restantes vagas.

Defesa

O defesa tem sido o calcanhar de Aquiles do clube nos últimos anos. A equipa, principalmente nos jogos com os denominados “grandes”, sofre muitos golos. Analisando apenas os últimos 4 anos, os duelos com o Bayern têm sido aterrorizadores para a equipa, tendo sido realizados 11 jogos, com 10 vitórias do Bayern e apenas 1 empate. Mas o mais grave não é isso. O mais grave é a quantidade de goleadas neste intervalo de tempo (duas vezes 8-0, duas vezes 5-0, 9-2). Tal traduz-se em 48(!) golos sofridos nos últimos 11 jogos com o Bayern, uma média de quase 4,5 golos por jogo, com apenas 6 marcados por parte do Hamburgo. Este é apenas um exemplo daquilo que tem sido reconhecido à equipa nos últimos anos. Poderiam ser dados outros exemplos, mas pensamos que este é o mais relevante e aterrador.

Aqui estarão as maiores lacunas, que devem ser preenchidas ainda neste mercado. Deve ser contratado um central que faça parelha com Kyriakos Papadopoulos, resgatado ao Bayer Leverkusen, com Mavraj a funcionar como principal alternativa, mas que não parece ter traquejo para ter titular semanalmente. Como tal, será importante recrutar um central mais móvel e rápido, que possa complementar com o estilo mais físico do grego. 

Quanto às laterais, parecem estar bem entregues, pelo menos do lado direito. Gotoku Sakai e Dennis Diekmaier são duas alternativas bastante boas para o lugar. O japonês, capitão de equipa, parte em vantagem, tendo uma qualidade ligeiramente superior e sendo mais franzino, mas o alemão é também um jogador muito útil e com maior capacidade física, sendo, neste momento, o jogador com mais tempo de balneário e alguém muito respeitado no seio da comunidade do clube. 

O lateral alemão permanece com a mesma camisola há sete anos (Foto: Zimbio)

Na lateral esquerda, temos Douglas Santos, um bom lateral brasileiro que chegou ao clube na época passada e que deve continuar a evoluir para fazer esquecer Marcel Jansen, outro dos maiores símbolos do clube e que acabou a carreira há um ano. Ainda assim, na ala esquerda, faz falta uma alternativa que possa servir de backup ao brasileiro.

Meio Campo

No que toca à sala de máquinas, o Hamburgo tem algumas boas opções, principalmente para o meio campo ofensivo, em que Lewis Holtby e Aaron Hunt prometem fazer as despesas criativas da equipa, destacando-se o primeiro pela sua técnica e capacidade de passe e o segundo pela sua capacidade finalizadora, ainda que tenha uma grande propensão a lesões. Como tal, Lewis Holtby, até pela sua notoriedade ganha ao longo do tempo, continuará a ser o principal motor da equipa. A sua falhada passagem pelo Tottenham não lhe retirou as qualidades que o destacam.

No que toca ao meio campo mais recuado, deve-se destacar o médio defensivo brasileiro Walace e ainda o sueco Albin Ekdal, com também uma menção a Gideon Jung, ainda que seja num papel mais secundário. Quanto a Walace, esta poderá ser a época de afirmação do jovem de 22 anos na Europa, ele que já conta com três chamadas à seleção canarinha. É um jogador muito possante, com 1.88m, mas que é muito bom com bola, devendo apenas moderar o seu temperamento em campo. Se o fizer, promete ser um alvo de grandes clubes europeus em próximos defesos.

Já Albin Ekdal é um elemento extremamente útil, em qualquer circunstância a que esteja sujeito, destacando-se pela sua inteligência em campo e pela sua polivalência na ocupação dos espaços no meio campo. Gideon Jung pode ser outra alternativa, principalmente ao vértice mais recuado do meio campo, ocupado por Walace.

Neste meio campo, faltará talvez um médio todo-o-terreno, que possa complementar com o poderio físico de Walace e a técnica de Holtby (previsivelmente titulares), isto num possível meio campo a três e porque Albin Ekdal não é jogador capaz de ser totalista nesta equipa. Este médio deve ser capaz de encurtar os espaços, mas também de sair com critério, acrescentando uma capacidade de pressão que, certamente, daria muito jeito a uma equipa que necessita de se afirmar no contexto do campeonato em que está inserido e que deve dar uma melhor imagem do que é o seu futebol. 

Ataque

No que diz respeito aos avançados da equipa, existem boas alternativas, principalmente no eixo de ataque, mas falta contratar, pelo menos, um extremo esquerdo. Filip Kostic, um belo esquerdino, de fino corte e um dos melhores jogadores da equipa, inclusivamente já apontado aos grandes clubes portugueses, tem o lugar de extremo esquerdo mais que assegurado, mas não existe ninguém que o possa substituir de uma forma satisfatória. Do lado direito, Nicolai Muller parece também ter a ala direita a si assegurada, com o jovem gambiano Bakary Jatta a prometer despontar na próxima edição da Bundesliga.

Tal como dito, o centro de ataque parece bem preenchido com Bobby Wood e André Hahn, até agora a melhor contratação do clube para a próxima temporada. O norte americano foi dos melhores da equipa na última temporada. Embora só tendo marcado 5 golos, Wood fez uma época consistente, que lhe permitiu chegar à seleção e ser uma das suas maiores figuras. Será outro jogador que poderá saltar para outros voos com uma boa temporada.

Espera-se muito de Wood, veremos se será o seu ano de explosão e se levará o Hamburgo para voos mais altos (Foto: Bundesliga.com)

Quanto a Hahn, é uma excelente contratação por parte do clube. Foi uma grande promessa do futebol alemão, tendo perdido um pouco de fulgor na sua passagem pelo Borussia Mönchengladbach. Ainda assim, num patamar ligeiramente inferior, como em Hamburgo, este avançado pode dar muito à equipa, não como ponta de lança fixo, mas como um avançado móvel.

Existe ainda Pierre-Michel Lasogga, a quem é reconhecido poderio físico mas também inconsistência (nas últimas 3 épocas pelo clube marcou 15 golos), e Sven Schipplock, que nunca realmente se conseguiu destacar depois de mostrar o seu valor quando era mais jovem e que vem de um empréstimo falhado. Veremos o que estes dois jogadores podem dar à equipa.

O Hamburgo pode ambicionar e não apenas relembrar

Esta é uma análise àquilo que vem sido o Hamburgo ao longo do tempo, principalmente a sua decadência, mas também aquilo que pode ser o futuro do clube e ainda os destaques do plantel que poderão começar a tentar reverter o que vem sido feito. É um clube atrativo, que certamente tem o apoio de muitos adeptos fora da Alemanha, não só por representar uma bela cidade como por representar uma dinastia como nenhuma outra na Bundesliga.

É um clube com história, que deve tentar alterar a imagem que vem deixando de clube mediano na última década. Tem capacidade para isso, mas é preciso mais que capacidade, é preciso luta e persistência. No dia 13 de agosto, começa uma nova época para o Hamburgo, com o jogo da primeira eliminatória da taça, e dia 19 ocorre o primeiro duelo para a Bundesliga. Aí se ficará a ter uma melhor oportunidade de perceber o que este grande clube quer para o seu futuro.

O futuro pode ser mais risonho para o Hamburgo SV, é preciso que quem sente o clube internamente o queira tanto como quem está de fora e o apoia incondicionalmente. Essencialmente, espera-se que os correntes e futuros intérpretes deste grande clube tenham sempre como objetivo honrar o seu glorioso passado e solidificar a dinastia na principal liga alemã, bem como renascer nas competições europeias.

 


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