17 Dez, 2017

Um misto de sensações

Ruben CardosoAgosto 4, 201613min0

Um misto de sensações

Ruben CardosoAgosto 4, 201613min0

A pré-época leonina não foi a melhor, em termos de resultados, mas outros valores acabaram por se elevar, e a permitir uma maior tranquilidade ao trabalho de Jorge Jesus. Os golos sofridos, muitos deles por parte da defesa habitualmente titular, são um dos sinais de alerta, bem como o da ausência de uma verdadeira alternativa a Islam Slimani.

A calendarização protagonizada pelo Sporting, para a pré-época de arranque para a temporada 2016/2017, colocou desde logo algumas questões. É sempre um tema que divide o mais comum dos adeptos: jogar contra equipas de maior-valia, para habituar os jogadores, por exemplo, à exigência da Liga dos Campeões, mas correndo o risco de ter o efeito contrário, e permitir resultados menos positivos; ou jogar contra conjuntos de menor valia individual e colectiva, com o foco no resultado, mas que poderá mascarar algumas das debilidades da equipa? Jorge Jesus optou pela primeira, certamente ciente dos riscos que iria correr. A escolha, por exemplo, de equipas como o PSV ou o Zenit, já bastante adiantadas na sua preparação para a próxima época, com índices físicos mais elevados, revelou-se um osso duro de roer para os leões, que encaixaram só nesses jogos 9 (!) golos. Para quem dá demasiada importância aos resultados na pré-época, os alarmes soaram bem alto.

A explicação mais lógica para a grande percentagem de problemas que o Sporting enfrentou nesta pré-época prende-se com a ausência daquele que pode ser considerado o coração e o núcleo duro da equipa. O trio composto por William Carvalho, Adrien Silva e João Mário oferece ao Sporting uma capacidade incrível tanto com bola como sem bola, e uma maior capacidade em controlar o jogo em todos os seus momentos. Jesus testou uma solução pouco ortodoxa no meio-campo, ao colocar Bryan Ruiz como 8, muitas das vezes apoiado por um dos novos reforços, Radosav Petrovic. O médio sérvio, como seria expectável, ainda está em período de adaptação e a tentar ganhar os melhores índices físicos, mas órfão de um elemento mais posicional que lhe desse outro apoio na transição defensiva, muitas vezes teve dificuldades em suster a capacidade ofensiva dos adversários. O jovem João Palhinha também foi chamado à acção, mas nota-se ainda algum receio em alguns momentos, fruto da idade e da pouca experiência na equipa principal.

Foto: Site Oficial do Sporting Clube de Portugal
Foto: Site Oficial do Sporting Clube de Portugal

Também se pode juntar à equação a ausência de Rui Patrício, se tivermos em conta que tanto Vladimir Stojkovic e Azbe Jug tiveram situações no mínimo irreais para um guarda-redes que quer ser tido em conta nas cogitações de Jorge Jesus para a próxima época, com vários erros a manchar este início de época. Aqui pode estar um dos grandes problemas do Sporting em 2016/2017. Se por alguma eventualidade o guardião da selecção nacional tiver algum impedimento ou lesão, não existe no banco capacidade para o substituir devidamente.

Os verdadeiros reforços

 Nem tudo foi negativo na pré-temporada verde e branca, e se é verdade que a produção ofensiva nem sempre foi o ponto forte da equipa, foi neste sector que surgiu uma das boas surpresas. Alan Ruiz, virtuoso médio-ofensivo do Cólon, estabeleceu-se como um dos indicadores positivos na equipa desde os primeiros minutos em campo. A sua qualidade técnica é deliciosa, e a capacidade que tem de tirar os adversários da frente, com a bola colada ao pé esquerdo, para conseguir ficar de frente para o jogo, pode ser uma arma fortíssima para a manobra ofensiva dos leões. Ainda procura ganhar a melhor forma física (veio com algum peso a mais do período de férias, algo que ficou bastante notório pela sua falta de stamina nos primeiros encontros), e o entendimento com Slimani, com o qual ainda teve poucos minutos em simultâneo, precisa ainda de ser trabalhado e aperfeiçoado.

No entanto, os reforços em maior destaque acabaram, em certa parte, por ser homens já da casa, isto porque já faziam parte dos quadros do clube, estando ou na equipa B, ou em empréstimos para poderem ter tempo de jogo e ganhar outra experiência. Um dos casos cabais é o de Iuri Medeiros. O jovem extremo não foi desde logo opção na pré-época, mas aos poucos foi ganhando tempo de jogo, e revelou-se uma aposta ganha, especialmente pela sua visão de jogo e capacidade de criar jogadas de perigo quase do nada. Em alguns destes lances, até ficava a ideia de que o jovem Iuri estava a pensar muito para além dos demais colegas, com uma capacidade de analisar o jogo ao alcance de poucos jogadores ao serviço de Jorge Jesus. Também de notar uma notável evolução na vertente defensiva, com muito mais disponibilidade para fechar o flanco e apoiar o lateral.

Também Daniel Podence aproveitou bem a oportunidade, nomeadamente no estágio realizado em solo suíço. O pequeno avançado, jogando como apoio ao ponta-de-lança, realizou exibições muito interessantes, jogando bem entre-linhas, a dar apoios, e a aproveitar os espaços para fazer uso da sua velocidade de ponta, criando problemas às defensivas adversárias. Nos jogos em casa, e no confronto frente ao Villarreal, em Badajoz, foi menos eficaz nas suas acções, e até demasiado individualista em determinados momentos. A pior notícia, no que diz respeito aos reforços, que Jorge Jesus poderia receber, foi a grave lesão de Lukas Spalvis. O avançado lituano, que até deu boas indicações nos primeiros minutos de leão ao peito. Uma ruptura do ligamento cruzado anterior e do menisco interno do joelho direito vai provocar uma paragem de 6 meses a Spalvis, que perde assim o comboio da adaptação ao futebol português, numa altura em que começam a escassear opções para o técnico leonino para a frente de ataque.

O regresso dos campeões

Com a chegada do dia 27 de Julho, chegariam aqueles que Jesus encarava como os verdadeiros e necessários reforços para que a equipa estabilizasse. O regresso dos campeões europeus resolveu por si só uma série de problemas (para além das especulações que eliminou, nomeadamente em relação a João Mário). Como ponto de partida, Rui Patrício eliminou desde logo o problema na baliza, com as oportunidades desperdiçadas por Jug e Stojkovic para impressionar o treinador. E o guardião não só reclamou o seu lugar, como realizou uma excelente exibição frente ao Wolfsburgo, com um par de intervenções decisivas. A atravessar provavelmente o melhor momento da sua carreira, Rui Patrício é um dos grandes esteios da equipa, tanto a nível futebolístico como emocional, pela liderança que passa para dentro do campo.

Foto: Bleacher Report
Foto: Bleacher Report

Mas a zona que mais se ressentiu com as ausências devido a compromissos internacionais, foi o sector intermediário, que se viu desde o início refém de João Mário, William Carvalho e Adrien Silva. O trio português foi, na época passada, a sala de máquinas que fez todo o futebol leonino funcionar. A dinâmica que os três imprimiam ao jogo da equipa, a capacidade de organizar e de estarem presentes em todos os momentos da partida – seja defensiva como ofensivamente -, dá ao Sporting uma qualidade no meio-campo como há muito não se via. Principalmente a influência do capitão Adrien, que com Jorge Jesus elevou o seu jogo para níveis que ainda não tínhamos visto no internacional português. O mesmo espírito guerreiro que lhe era característico, mas toda uma nova dinâmica pela forma de trabalhar com ex-técnico do benfica.

Já João Mário e William, parecem ter o futuro mais incerto no clube, pois o assédio de grandes emblemas do futebol europeu promete intensificar-se neste mês de Agosto. William está, como há 2 anos, no ponto para poder dar o salto para um campeonato mais competitivo, e será sempre um elemento difícil de substituir, pela calma, tranquilidade com que trata a bola, e porque melhorou bastante a nível de intensidade sem bola e capacidade defensiva na segunda metade da época passada. João Mário é, provavelmente, o grande ativo que o Sporting tem nas suas fileiras, neste momento. Se for verdade o que se veicula na comunicação social, estão a chegar junto de Bruno de Carvalho propostas na ordem dos 50 milhões de euros, valores que, racionalmente, são praticamente irrecusáveis no futebol português. E a saída de João poderá ter ramificações profundas no seio da equipa e na sua dinâmica.

Foto: Record
Foto: Record

Uma nova abordagem de Jorge Jesus

Com a chegada tardia de Slimani, a pouca afirmação de Barcos (apesar de ter mostrado bons índices físicos e movimentações interessantes, principalmente de costas para a baliza), Jorge Jesus tentou explorar outras variantes do seu afamado 4x4x2. Uma das vertentes que tentou introduzir foi um ataque mais móvel, assente na presença de dois jogadores que tenham menos capacidade como pontas-de-lança, mas sim como segundos avançados, no apoio ao homem-alvo.

O caso mais claro foi o de Alan Ruiz, muitas vezes utilizado como principal referência. Poderá ser uma solução interessante a médio-prazo, mas que para já, não passará de uma opção de recurso, visto que sendo o argentino o preferido para fazer esse papel, não tem ainda a disponibilidade física e entendimento da posição que deve ocupar. Acompanhado quase sempre por Podence, apareceram movimentações com alguma qualidade, mas deixa dúvidas que consiga ser algo a aplicar no imediato. Mas terá que ser algo a que Jesus tem necessariamente que dar alguma atenção, pois esta época vai trazer um problema acrescido.

Foto: A BOLA
Foto: A BOLA

A presença mais do que provável de Slimani na Taça das Nações Africanas promete deixar o ataque do Sporting “manco”, e muitas dores de cabeça ao técnico leonino. Se é verdade que o Sporting já se viu privado do avançado argelino noutras alturas nos últimos 3 anos, foi na época passada que ele demonstrou todo o seu futebol, chegando a números fantásticos, em todas as competições. Mais do que isso, a sua entrega, capacidade física e energia são um dos principais factores do relativo sucesso da época 2015-2016 em Alvalade. É ele que começa o processo defensivo, é ele um dos grandes responsáveis pelo facto de a equipa conseguir recuperar a bola em zonas adiantadas do terreno. Sem um elemento deste calibre, Jorge Jesus terá que inventar uma alternativa (a não ser que ainda cheguem reforços) para tentar suavizar a ausência forçada de Slimani. Se vai ser por intermédio de uma mudança apenas de um jogador, ou pela modificação de praticamente todo o processo ofensivo da equipa, é esperar para ver, mas o técnico dos leões com certeza quererá estar preparado para os dois cenários.

Com a possibilidade de inserir outro elemento mais móvel na frente de ataque, Jesus procurará decerto que, através das suas movimentações constantes, jogadores como Bryan, Alan Ruiz, Iuri Medeiros ou Gelson, consigam deambular pelo campo, arrastando marcações, criando espaços de penetração para os colegas, e aproveitar a zona interior para perfurar, com apoio dos médios mais posicionais. É uma perspetiva de jogo que promove uma alta dose de criatividade e de magia, dependendo dos executantes, jogadores com capacidade para rasgar uma linha defensiva através de um passe que mais ninguém viu, ou de um drible a aproveitar a zona interior para desequilibrar.

Foto: Jornal de Notícias
Foto: Jornal de Notícias

Veredito da pré-época do Sporting

A pré-época leonina não produziu os melhores resultados, do ponto de vista do adepto comum. Mas foram lançadas algumas bases e acima de tudo Jorge Jesus está a tentar criar um plano B para a equipa, para quando alguma eventualidade lhe tira algum dos melhores jogadores. Vai acontecer inevitavelmente, seja por competições continentais de seleções (caso da CAN), ou por eventuais lesões que possam surgir, ou mesmo castigos para algum jogador, e o treinador do Sporting está atento e a tentar habituar os jogadores a outras formas de abordar o jogo, sendo que não só a equipa se torna mais versátil, como os próprios jogadores ganham outra capacidade de entender o jogo, nos seus mais variados momentos. O trabalho intensivo que tem feito com elementos como Iuri ou Alan Ruiz é prova disso mesmo, e ambos estão a evoluir gradualmente nesta pré-época, e praticamente no ponto para serem opções válidas para Jesus.

A grande interrogação do Sporting, nesta fase, é saber se vai conseguir aguentar os jogadores nucleares da equipa, perante o assédio dos tubarões do velho continente. É certo que a reputação de dureza de Bruno de Carvalho, no momento das negociações, é um cartão de visita que pode afastar alguns clubes, mas o talento presente no plantel leonino deixará com certeza atentos os emblemas que ainda se pretendam reforçar neste defeso. Continua também no ar a possibilidade de chegarem mais reforços a Alvalade, nomeadamente um ponta-de-lança – falta saber se será para ser uma alternativa aos titulares, se será um substituto direto, para uma hipotética saída de Slimani -, e de alguns nomes para entrarem nas laterais defensivas. Na cabeça de Jesus, tudo estará já praticamente pronto para o arranque do campeonato, a 13 de Agosto, frente ao Marítimo.

Foto: Diário de Notícias
Foto: Diário de Notícias


Entre na discussão


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS




Newsletter


Categorias


newsletter