14 Dez, 2017

Sporting – Soluções do foro interno

Ruben CardosoDezembro 3, 20167min0

Sporting – Soluções do foro interno

Ruben CardosoDezembro 3, 20167min0

Com quase metade de campeonato jogado, a época do leão tem sido de altos e baixos. Desde exibições de valia contra gigantes europeus, a resultados que roçaram a humilhação, como em Vila do Conde. Mas algo que nunca faltou na análise aos jogos do Sporting, foram as dúvidas em relação às opções de Jesus, e à forma como consegue motivar (ou não) as suas equipas mediante o adversário.

Quando os leões abandonaram o Santiago Bernabéu no passado dia 14 de Setembro, poucos seriam aqueles que colocariam em dúvida a qualidade da exibição que o Sporting protagonizou na capital espanhola, uma performance que poderia catapultar a equipa para novos níveis de motivação e intensidade. Mas cedo a queda ocorreu, e uma nova tendência começou a surgir, logo com a derrota inacreditável em Vila do Conde: após os compromissos europeus realizados até à data de lançamento deste artigo, apenas em duas ocasiões o Sporting conseguiu vencer, somando dois empates e uma derrota.

A componente emocional e motivacional pode ter um papel determinante neste tipo de situações. Com naturalidade, e para qualquer jogador do futebol mundial, o prazer de jogar no Santiago Bernabéu é algo único nas suas carreiras, e que a nível anímico, pode sempre aumentar os índices do mais comum dos jogadores. O mesmo não acontece, obviamente, na altura de receber o Arouca em Alvalade, ou numa deslocação à Choupana. E não acontece pois os jogadores não encaram os jogos da mesma forma, o que num campeonato como o português, pode perfeitamente custar a conquista de um título.

Cabe a Jorge Jesus encontrar o equilíbrio necessário, e gerir as emoções dos jogadores neste capítulo em específico. Mas não apenas de sentimento se faz a situação algo oscilante do leão, na generalidade das competições. Se é verdade que a equipa não tem estado sempre à altura dos desafios que encontra, as opções do técnico leonino são um dos motivos que mais pode levar a contestação por parte do adepto regular do clube. Optar por jogador X em vez de jogador Y, quando é notório à generalidade da opinião pública que o jogador Y tem muito mais qualidade é uma situação que tem sido recorrente ao longo destes anos na vida de Jorge Jesus.

Fonte: Record
Fonte: Record

Uma questão lateral

Desde logo, as escolhas nos laterais têm levantado uma série de dúvidas entre a massa associativa, e inclusive na cabeça do técnico do Sporting. Schelotto e Zeegelaar, os habituais titulares, são os típicos laterais à Jesus, que primam mais pela capacidade física do que técnica, e que apesar de conseguirem subir sem grandes dificuldades no terreno, não têm um leque de recursos que os faça serem imprevisíveis perante os adversários. A opção lógica do lado direito, porém, parece ser a menos valorizada por Jesus. João Pereira, pese embora já ir avançando em idade, continua a ter a clarividência necessária para conseguir diversificar o seu jogo, e tem já uma experiência considerável, vital num conjunto que normalmente prima por alguma juventude. No entanto, a menor frescura física do português pode ser um handicap.

Já do lado esquerdo, as opções não são assim tão fáceis para Jorge Jesus. Entre Zeegelaar e Jefferson, têm sido somados erros incontáveis, e nenhum dos dois chega sequer perto do nível que apresentam as soluções de Porto e Benfica. Uma alternativa que Jesus já explorou na temporada transacta foi a adaptação de Bruno César ao lugar, mas com o bom momento deste em terrenos menos adiantados, não têm sido opção para a lateral esquerda. Jesus pode, no entanto, ainda ter em consideração duas escolhas. Primeiro, Jonathan Silva. O lateral argentino ainda não teve uma verdadeira oportunidade sob a tutela do mister, e parece inclusive ter algumas características que podem agradar ao treinador do Sporting. A outra, muito menos possível, tendo em conta o historial de aposta na formação de Jesus, seria Pedro Empis, que continua a ganhar pontos com algumas prestações de qualidade na equipa B dos leões.

Fonte: Olé
Fonte: Olé

Equilíbrio ou desequilíbrio?

Não só de más dores de cabeça se pode queixar Jorge Jesus, se olhar para as opções que tem à disposição do meio-campo para a frente. Se é verdade que Castaignos ainda não convenceu em nenhuma da ocasiões em que foi utilizado, tanto os reforços André, Ruiz, Campbell e Markovic já demonstraram serviço de leão ao peito. Todos com aparições frequentes na equipa (seja como titulares ou suplentes utilizados), são elementos que dão acima de tudo profundidade ao plantel leonino. Neste particular, apenas para a posição de Adrien poderão existir algumas dúvidas, pois durante o período em que o capitão esteve lesionado, apenas Bruno César conseguiu dar alguma qualidade naquela posição, coisa que Elias e Petrovic não conseguiram em qualquer circunstância.

A verdade é que alguns onzes montados por Jesus, na sua essência, acabam por desequilibrar a equipa logo no ponto de partida. Desde logo, quando Bryan Ruiz é o eleito para jogar no flanco esquerdo, não tem em nenhuma altura um lateral que seja capaz de acompanhar a inteligência dos seus movimentos e o seu posicionamento. Um facto ainda mais relevante, quando a esmagadora maioria dos ataques do Sporting são conduzidos pelo flanco direito, onde está um jogador que é a total antítese do futebol do costa-riquenho. Gelson Martins, fruto da sua explosão e irreverência, é naturalmente mais solicitado, e chama mais a si a responsabilidade do jogo, não só porque tem do seu lado laterais mais competentes no momento ofensivo, como tem outra capacidade de desequilíbrio, que Ruiz por norma demonstra não ao nível da velocidade ou drible, mas através do passe e da sua visão de jogo.

Fonte: UEFA
Fonte: UEFA

Uma das grandes diferenças para o Sporting versão 2015/2016 está na forma como a equipa aborda o jogo e se distribui em campo. Com um jogador como João Mário do lado direito do meio-campo, e com Montero ou Teo a serem as alternativas a Slimani, os leões tinham uma aptidão mais natural para controlar o ritmo do jogo, jogar de forma mais pensada e elaborada, e raramente perder o controlo do jogo. A versão de 2016/2017 é muito mais desequilibrada, e ver um jogo em que o Sporting consiga controlar as operações durante os 90 minutos é, até agora, uma miragem. Muito se deve às diferenças nos jogadores que Jorge Jesus tem utilizado. João Mário mais cerebral, Gelson mais vertical. Slimani mais em profundidade, Dost mais posicional. Pequenas modificações, que mudaram drasticamente a forma de jogar da equipa. Se será para melhor ou para pior, será um facto a tirar a limpo no final da época.

É uma situação complexa, mas que não terá uma solução lógica, pois as saídas foram compensadas com jogadores de igual ou melhor valia. Simplesmente são jogadores de características distintas, e que não conseguem oferecer as mesmas soluções ao Sporting da época passada. Daí que neste momento, a equipa de Jesus possa estar a atravessar uma nova fase de adaptação a uma ideia de jogo implementada pelo técnico leonino, e que está a revelar-se ainda não ter sido completamente apreendida por alguns jogadores. O melhor a fazer, é esperar para ver como serão os resultados finais, sendo que, neste momento, o objectivo Liga dos Campeões já está fora do alcance, mas ainda existem outras competições em que o Sporting terá que entrar com a meta de as vencer.


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