23 Out, 2017

Sporting na Liga dos Campeões: quando a imaturidade trai a qualidade

José DuarteDezembro 10, 20169min0

Sporting na Liga dos Campeões: quando a imaturidade trai a qualidade

José DuarteDezembro 10, 20169min0

O Sporting regressava esta época ao clube exclusivo dos grandes europeus, depois de não ter conseguido ultrapassar o loby de entrada na época anterior e quando, em iguais circunstâncias, 2014/15 tinha ficado com um profundo sabor a injustiça. Para a tão ambicionada retoma do clube, a presença na companhia da “creme de la creme” do futebol europeu é um degrau imprescindível de ser subido.

Ninguém certamente estaria à espera que o Sporting se assumisse como candidato a um longo percurso na competição, muito menos à conquista do troféu e nem sequer à chegada aos seus momentos de decisão. Mas uma participação digna, conquistando a atenção de todos, com pontos e exibições meritórias era desejada e mesmo até essencial para esse projecto de recuperação em curso.

Uma parte substancial do fosso cavado para os seus tradicionais opositores na Liga Portuguesa nasceu precisamente na vitaminação que as receitas directas (prémios de participação, bilhética) e indirectas (valorização de jogadores, receitas com publicidade, etc.) proporcionaram à competitividade dos seus rivais.

Adicionalmente, o orgulho ferido por muitos anos de ausência e muitas páginas de glória por preencher na melhor competição de clubes do Mundo, que os rivais gostam de lembrar, completando com a exibição dos troféus conquistados. De facto a participação nesta competição, na actual designação e formato e nas que lhe serviram de origem, nunca foi muito feliz. Isso é observável na ausência do quadro que se segue, onde se pode visionar o top 25 de clubes com mais jogos na competição europeia mais importante. E para o inverter nunca é demasiado cedo para começar.

Top 25 de clubes com mais jogos na Taça dos Campeões/Liga dos Campeões

O sorteio, crónica de uma morte anunciada

Saindo do pote 3, era preciso muita sorte para que do emparelhamento com os possíveis adversários a ideia de qualificação para fase seguinte da competição pudesse ser encarada com alguma segurança. Mesmo que o sorteio pudesse ser substituído por um processo de escolha, as dificuldades dificilmente seriam menores. Isso é facilmente compreensível olhando para o resultado do sorteio.

Observando agora os clubes apurados para a fase seguinte da prova, verifica-se que o ponto de partida para o sorteio foi determinante: nenhuma equipa saída do pote 3 logrou vencer o destino de figurantes a que estão sujeitos todos os que não saem do par de potes superior. Ora isto reforça o que é dito no ponto inicial e que empurra o Sporting para a obrigação de ser campeão para não ter que estar permanentemente de passagem nesta competição. Porque para o prestígio e para a sua necessária subida no ranking esta passagem pela Liga dos Campeões foi um acto falhado.

Entrada de Leão

Foi feérica a entrada do Sporting no jogo inaugural. Nunca poderia ser um jogo qualquer aquele em que de outro lado estava o lidimo representante da sua escola, que em Madrid se tornou primeiro filho querido e muito rapidamente bandeira do clube. De tal forma feérica que ele mesmo, Ronaldo, se terá surpreendido com as dificuldades em fazer vingar o seu jogo e o da sua equipa.

Fonte: UEFA Champions League

A ideia que os madrilenos poderiam acalentar de ter pela frente descendentes de Egas Moniz, de corda ao pescoço, prontos a prestar vassalagem, depressa se revelou um logro. Tudo porém se havia de desmoronar num ápice, já quando o jogo se encaminhava para o final do tempo regulamentar, quando a ideia de uma vitória inédita parecia estar à nossa espera,  acenando-nos à despedida no Passeio da Castelhana. Ronaldo, primeiro, e Morata depois, encontraram o ponto limite da nossa resistência.

Promessas perdidas algures na viagem de regresso

Não sendo bom o resultado, a verdade é que o Sporting chegou a assustar e a impressionar. Não faltou quem antecipasse que aquela boa exibição, ainda por cima num cenário tão exigente,  era a promessa de uma equipa sólida, à altura das provas que ainda tinha para prestar enganar. Os mais optimistas atreviam-se a pensar que aquela equipa audaz, mesmo atrevida, era capaz de disputar a qualificação com alemães e espanhóis. Mas esse Sporting ficou perdido algures na saída de Madrid, sendo claro nos compromissos seguintes, quer a nível doméstico, quer fora de fronteiras, que havia danos por reparar.

E até ao jogo que marcaria mais uma passagem de Ronaldo pela casa que o viu despontar para a imortalidade, esse Sporting não voltou a ser visto. Pelo meio ficaram exibições sem vigor suficiente para afrontar os alemães de Tuchel e uma pálida vitória, em tons de verde desmaiado, ante os polacos do Légia. Um prenúncio do que estava reservado para os jogos finais do grupo e da sorte que lhe caberia na competição.

A hora do absurdo

No futebol, como na vida, o absurdo está sempre à espera da sua deixa para conquistar a boca de cena este acabaria por ser convocado para os momentos finais da recepção ao Real Madrid e oferecer bilhete de viagem para Légia. O hara-quiri de João Pereira, quando o Real dava mostras de incómodo e cansaço, havia de ser aprimorado na Polónia, quando Jorge Jesus decide decepar a identidade da sua equipa, baralhando-lhe as vértebras, tornando-a disfuncional. Quando quis rectificar o erro evidente já era tarde.

Laivos de qualidade sem maturidade e resiliência que a sustentem

A leitura dos dados finais da pole de qualificação é inequívoca e, juntamente com o súbito desaparecimento da Europa do futebol, sepultarão para sempre os bons sinais que o Sporting foi espalhando aqui e ali. Caído o pano, desligados os holofotes e com as objectivas à procura de palcos onde as atenções se passarão a concentrar, a estupefacção por este desfecho ainda assombrará por mais tempo as cabeças de técnicos, dirigentes e sobretudo adeptos. O que aconteceu? Porque tudo acabou assim, da pior maneira, como se fosse um castigo?

Olhando aos pormenores verifica-se que o Sporting só logrou pontuar no jogo em que não sofreu golos. Alguns deles nasceram de fragilidades defensivas sobejamente discutidas e identificadas assim que começou a ficar evidente que segurança do sector exibida no final do campeonato transacto se tinha perdido. Ora, a este nível as falhas, sejam de que natureza for, são punidas com um requinte quase cruel.

Vitima da pequenez de horizontes e experiências

Se é claro que esta equipa tem qualidade para conseguir outros resultados e que o clube, ao fazer um esforço financeiro importante, contraiu responsabilidades perante os seus adeptos que a obrigavam a outros resultados, parece resultar também claro que faltou maturidade e experiência para sustentar a ambição.Do ponto de vista disciplinar, além da já aludida expulsão de João Pereira, há a somar-lhe acto igualmente ingénuo de William no derradeiro jogo e de idêntico teor de Jorge Jesus, todos por certo limitados pelas experiências domésticas, onde a tolerância para estes actos não têm paralelo lá fora.

Falta de maturidade também notórias na falta de matreirice com que abordou vários momentos dos jogos e que resultam também do facto de por cá estar mais habituada a impor o seu jogo do que ao que lhe é imposto pelo adversário. Isso notou-se com o Real Madrid, quando podia e devia ter atirado a bola para lá de Vallecas, como quando a devia ter escondido do adversário, enervando-o, cansando-o. Ou com o Borussia de Dortmund, quando podia ter aguardado e provavelmente ter adoptado uma postura mais especulativa sobre o jogo, o que pode ser considerado também uma sobranceria resultante do hábito de impor o seu jogo por cá.

Parece por isso também que esta equipa não está habituada a sofrer nem o seu modelo de jogo a prepara muito para essa necessidade, que ao mais alto nível acaba por ser imprescindível, atendendo à diferença de valores. Quando tal foi necessário, (como em Madrid, por exemplo) a equipa foi denotando incómodo e desorientação, deixando-se resvalar até o cansaço se instalar e o valor dos adversários fazer o resto.

Uma nota final para o desastre comunicacional que se associou a este momento particularmente difícil de digerir para o clube e respectivas ambições. Da parte de quem dirige ser assim afastado pareceu “um dia normal no escritório”, aceite sem qualquer pestanejar. Da parte do treinador uma impassividade assustadora, revelador de um preocupante desfasamento e falta de identidade com os objectivos do clube. A promessa da possibilidade de uma carreira auspiciosa na Liga Europa feita na véspera depressa se esfumou. Aceitar tudo isto é também uma promessa de ver em breve, numa competição perto de nós, uma versão revista e aumentada.


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