20 Out, 2017

O Oportunismo de Nuno Espírito Santo

Francisco IsaacMarço 2, 201710min0

O Oportunismo de Nuno Espírito Santo

Francisco IsaacMarço 2, 201710min0

No meio de uma época em que o FC Porto só caiu derrotado por 5 vezes, Nuno Espírito Santo vai fintando (algumas) críticas que lhe tinham sido etiquetadas. Mas estará o FC Porto assim tão forte? As decisões do técnico são sempre bem tomadas? E há um sentido de oportunismo? Um treinador que só “deseja” ganhar para sobreviver

Definição de Matrioska: Também conhecida como “boneca russa”, a matrioska é caracterizada por reunir uma série de bonecas de tamanhos variados que são colocadas uma dentro das outras. De acordo com a cultura russa, as matrioskas simbolizam a ideia de maternidade, fertilidade, amor e amizade.

Começámos o texto de forma estranha e que poderá criar algum tipo de reacção menos comum, mas passamos a explicar. Desde André Villas-Boas que o Dragão “comprou” uma autêntica Matrioska de treinadores… começou com um resiliente e apaixonado Vítor Pereira, passou para o perdido mas com nuances de génio Paulo Fonseca, seguindo para o (in)carismático e intransigente Julen Lopetegui, finalizando em o recurso do recurso do último recurso, José Peseiro.

Como a Boneca da Matrioska os treinadores do Porto parecem estar a decrescer em qualidade, em esclarecimento técnico, pecando tanto no discurso como a postura. Poderíamos acrescentar outros pedaços como Luís Castro ou Rui Barros, mas não seria justo para nenhum deles receber essa (des)honra pelo facto que foram decisões internas para “tapar um buraco” no imediato mas nunca a prazo.

Nuno Espírito Santo chegou em 2016 e nem com desenhos (que fariam corar Pablo Picasso) ou moldes tácticos tem conquistado o interesse dos adeptos, colocando a mesma dúvida que os seus antecessores: será Nuno mais uma “camada” da Matrioska?

Matrioska Azul e Branca (Foto: Lusa)

O FC Porto fracassou na Taça de Portugal, deixou ir a Taça da Liga para o Moreirense (a culpa é do Porto!) e está, praticamente, fora da Liga dos Campões (a derrota por 2-0 em casa, frente à Juventus terá sido o princípio do ponto final).

Resta só uma competição… o Campeonato Nacional. A Liga NOS foge aos dragões desde 2013, um ano que serviu de prova que o FC Porto estava a iniciar o seu processo de crise a nível do departamento de futebol.

A 1 ponto do SL Benfica, com ainda muito campeonato pela frente e um jogo na Luz, Nuno Espírito Santo tem todas as possibilidades de se sagrar campeão Nacional. Porém, algumas questões abrem-se no seio da equipa azul-e-branca.

O FC Porto tem apresentado um futebol de domínio, de classe e de carisma?
Nuno Espírito Santo tem guiado os seus “homens” da melhor forma, pondo-os num nível alto de confiança e harmonia?

São questões pertinentes e que ocupam (e vão ocupar) o espaço de discussão nas próximas semanas, especialmente antes do dérbi com o tri-campeão Nacional, SL Benfica… até porque a imprensa portuguesa gosta de criar um sentimento de destabilização ou propaganda (dependendo para onde sopra o “apoio” dos vários serviços de comunicação social) antes dos grandes confrontos.

Mas sem controvérsia e polémica, vejamos como se desenrolam estas questões, o contexto em que estão inseridas e para onde caminha o FC Porto.

Nos últimos 5 encontros (de Rio Ave até ao Boavista) a equipa do Dragão só apresentou bom futebol em 95 minutos, divididos pelo jogo contra o Sporting CP (35 minutos sensivelmente), Rio Ave (10 minutos), Tondela (40 minutos) e Guimarães (cerca de 10 minutos).

Nos restantes minutos de jogo, o futebol de Nuno Espírito Santo foi sofrível, com o meio-campo a tornar-se um passadouro, valendo a acção de Danilo Pereira em segurar a equipa em certos momentos de maior aflição (veja-se a contribuição do trinco nos jogos frente ao Rio Ave, Estoril ou Sporting).

Para além disso, a equipa re-aprendeu a defender com eficácia e equilíbrio, algo que escapava ao FC Porto desde os tempos de Paulo Fonseca. É aqui, talvez, o maior mérito de Nuno Espírito Santo… pôs a defesa do Dragão à altura do que é exigido de um clube de grande dimensão europeia.

Uma verdadeira equipa? (Foto: Lusa)

Marcano e Felipe têm feito uma dupla de excelência, com o central espanhol a mostrar o seu melhor e, mais importante, a ter eliminado (para já) todos os pormenores que em tempos faziam o Porto perder jogos (ver o jogo da final da Taça de Portugal em 2016).

Iker Casillas parece ter voltado aos seus 20 e poucos anos, com defesas de alto quilate, uma comunicação de ponta e uma capacidade de organizar a equipa que tem merecido um “amor” por parte da massa adepta do FC Porto que o pôs quase em Cheque-Mate em 2016.

Por isso, de Casillas a Danilo, o FC Porto tem sido, praticamente, perfeito… tirando o golo sofrido do SL Benfica (no empate 1-1) e mais um ou outro pormenor (notem pormenor e não Lei como aconteceu nos últimos três anos).

A acrescentar a isto, é o facto de até Yacine Brahimi, um mal-amado (e que dava razões para tal comportamento) auxiliar a equipa na Arte de Defender por Nuno Espírito Santo, o Sun Tzu do Norte.

Todavia, defender extraordinariamente bem não quer dizer que se tenha de atacar mal ou com alguma inoperância, especialmente em dois sectores. Verticalidade e velocidade entre a saída do meio-campo até à grande área e eficácia/agressividade na hora de finalizar.

A chegada de Soares (apelidado por alguns adeptos e jornais por o novo “Hulk”, algo que explica a banalização dos super-heróis nos dias correntes) trouxe golos. Cinco, para ser mais preciso.

O brasileiro tem jeito para ser um finalizador de área, tem faro de golo e descola-se bem da defesa nos últimos centímetros. E será só isto que define Soares e nada mais? É verdade que pressiona tanto os centrais como os laterais, tenta apoiar a defesa (especialmente cobrir a triangulação entre Marcano, Telles e Brahimi)… mas não consegue chegar perto do trabalho que André Silva faz.

Porém, e mais uma vez é importante ressalvar este facto, trouxe cinco golos… e Nuno Espírito Santo demonstrou o seu sentido de oportunismo com a mudança do nº1 do ataque de André Silva para o avançado brasileiro.

Já tinha sido assim com Layún, que assumiu a posição de titular após a lesão de Maxi em Roma. Nuno aguentou e destacou o lateral por inúmeras vezes, “gritou” algumas odes de amor ao mexicano e… deixou-o cair no jogo frente ao SL Benfica.

O comum adepto pode defender-se que Layún sofreu uma lesão e assim foi atirado às “cordas”, o que não deixa de incluir alguma verdade (Layún esteve a contas com uma mialgia de esforço entre Dezembro e Janeiro). Porém, passou de titular para suplente pouco ou nada utilizado.

E na verdade, é que quando foi chamado para substituir Maxi Pereira foi responsável sempre por erros preocupantes… contra o Rio Ave não foi expulso por “simpatia” do juiz de jogo (já tinha um amarelo quando rasteira Roderick para o penalti do Rio Ave) e contra a Juventus faz uma assistência para Pjaca.

O mesmo está a acontecer com André Silva, o jovem talentoso avançado que tem sido uma das coqueluches da equipa deste ano. Com 38 jogos (inclui os da Selecção Nacional), André conta com 22 golos e 9 assistências.

O “escape” de Nuno (Foto: Ojogo)

Isto são dados directos, ou seja, influência directa no placard de jogo, o que faz dele um avançado com um potencial enorme e que deveria ser bem trabalhado, educado e explorado.

Porém, o oportunismo de Nuno Espírito Santo vai ditar o “até já” de André Silva à titularidade, a ser a coqueluche e nº1 do ataque. Diogo Jota já o tinha sofrido com a chega de Soares (bastou o jogo com o Estoril, onde foi retirado logo aos 30 minutos de jogo por opção) e agora é outro avançado português a sofrer com o sentido de oportunismo de Nuno.

Podemos discutir e dizer que André precisava de descanso, que a sua qualidade de jogo estava a “divagar” e que não marcava golos. Tudo pontos válidos, mas não correctos.

É fácil ver que no 1º golo de Soares, frente ao Sporting, a influência directa de André Silva na captação da defesa dos leões… está a ser marcado por dois jogadores (Semedo e Coates), o que liberta Soares para cabecear, sem oposição, para o golo.

Em Guimarães, a defesa do Guimarães centrou-se toda no que André Silva ia fazer… saiu um remate “furado” que surtiu em passe… golo de Soares.

São duas situações interessantes e que se repetem bem mais vezes do que o comum adepto pode pensar… o jogo de futebol é jogado, principalmente, nestes detalhes sórdidos que determinam o resultado final.

Nuno Espírito Santo aproveita-se do melhor que a equipa produz para se “agarrar” e estampá-lo na sua ideia de jogo… mesmo que isso implique trocar para um 4x3x3 como aconteceu no Bessa (jogo muito “suado” do FC Porto, que pouco fez para além do golo).

É maquiavélico, chega a ser desrespeitoso para o plantel e não há espaço para “ensinar”… Nuno está sob pressão, é a sua 5ª época como treinador sem títulos para mostrar, com poucos resultados óbvios e com plantéis de bom calibre (apesar do FC Porto ter algumas lacunas deficitárias).

Há um sentido de oportunidade que vai resultar até ao fim de época, se o Porto ganhar todos os jogos. A equipa vive numa aura de positivismo, tudo é possível, não há desistências no jogo, há um sentimento de “revolta” com tudo o que seja fora da Invicta e há uma “paixão” esmagadora com o público (que tem sido o verdadeiro motor do FC Porto em 2016/2017, veja-se o apoio no Bessa) o que eleva os Dragões até ao topo (ou praticamente).

Reergueu Marcano, “resgatou” Brahimi, descobriu a utilidade de Jota e tornou a defesa do Porto um baluarte… tudo pontos a favor de Nuno Espírito Santo.

Porém, se o Porto vacilar, se vir o SL Benfica a ganhar na Luz, o plantel pode “quebrar”, a confiança na postura de Nuno irá ser questionada e a pressão vai “arruinar” com o sentido de oportunidade tão bem explorada pelo técnico.

Em suma, Nuno não tem conseguido impor um futebol “bonito de se ver”, o FC Porto está longe de ser uma equipa dominante no campo (até Dezembro foi possível ver o Porto dominador em certos momentos) e não há muito espaço para criar um meio-campo de génio… há uma necessidade de bombear a bola para área onde está o oportunista Soares.

O cronómetro está a correr, a bomba-relógio existe e poderá “arrebentar” no dérbi de todas as decisões, um clássico que vai prometer tudo e no final nos dará nada, em termos de espectáculo bonito, fairplay e qualidade de jogo.


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