17 Ago, 2017

A história de um guardião: Iker Casillas

Francisco IsaacDezembro 19, 201610min0

A história de um guardião: Iker Casillas

Francisco IsaacDezembro 19, 201610min0

Nunca gostei de Iker Casillas, é assim que se inicia este artigo. O guarda-redes espanhol que bateu recordes e números, para além de ter conquistado todos os títulos ao seu “alcance”, foi sempre alvo de uma eterna paixão ou irritação por parte dos adeptos do desporto Rei. Um olhar e uma opinião sobre quem é Iker Casillas

Nunca gostei de Iker Casillas, o guardião espanhol que conquistou um Mundial e dois Europeus ao serviço da Roja. Durante anos olhava para o madrileno com algum desdém, seja pelo olhar “arrogante” com que fitava os seus adversários, seja pelo modo como defendia “agressivamente” as cores do Real Madrid e a sua Espanha ou pelo facto de ter dominado o balneário dos madrilenos durante anos a fio depondo os treinadores que iam contra a “sua vontade”.

Casillas foi o epíteto de sucesso do Real Madrid durante anos a fio, com três Champions League em mais de 16 aparições na prova máxima de clubes na Europa. Para além disso, Iker Casillas conquistou mais 15 troféus (destaque para as 5 La Ligas) nos tais 16 anos ao serviço de um dos maiores colossos a nível Mundial.

Foram cerca de 725 jogos com a camisola dos merengues (no caso de Iker seriam outras cores), um número “pesado” e histórico para o futebol mundial. Outro número curioso é o cruzamento de jogos com golos sofridos. Em toda a carreira, o guardião espanhol somou cerca de 830 jogos, consentindo 798 golos, saindo “impune” em 291 ocasiões.

Casillas participou em mais de 10 competições diferentes (está incluída a Liga NOS, já que curiosamente o guarda-redes do FC Porto não participou nem na Taça da Liga nem na Taça de Portugal em dois anos no clube), defendendo remates, soqueando cruzamentos e organizando a sua defesa com grande qualidade.

Olhando para todos estes números e metas, qualquer apaixonado pelo Desporto Rei tem respeito pela imensa carreira do guardião. Porém, continuo a dizer que nunca gostei de Iker Casillas.

Casillas com a Copa na mão (Foto: The Guardian)

Aquela Bomba de Nuno Gomes em 2004

Tinha sempre mais gosto quando Portugal, ou as equipas portuguesas, conseguiam completar uma jogada com um golo ao portero da Roja. Recordo-me bem daquele remate do Nuno Gomes no Euro 2004: Casillas, com o nº23 nas costas, nem teve reacção ao potente remate do avançado do SL Benfica, levando os portugueses a uma emoção que iria continuar nos seus picos até à desditosa final.

Ver Casillas a cair na fase de grupos trouxe um sentimento “venenoso”, já que guardava algum rancor para com ele. Os anos passaram, a Espanha reergueu-se e conquistou – quase – tudo o que havia para conquistar entre 2008 a 2012. O seu mérito na baliza de la Roja ficou sempre algo “obstruído”, pois “viveu” com outros maestros durante esses anos de grandes vitórias.

O espectáculo que era aquele jogo dos espanhóis tinha vários responsáveis: entre o “namoro” táctico de Xavi, a “arte” apaixonada do drible e criação de Iniesta, a eficácia cruel de Fernando Torres ou a ligação surpreendente entre Ramos-Piqué. Mas Casillas estava lá e foi fundamental para que conseguissem levantar os troféus nas três competições máximas da FIFA/UEFA.

É ainda mais interessante quando observamos o Euro 2008 e 2012 e o Mundial 2010 e notamos que Casillas sofreu zero golos na fase a eliminar… Zero! É um número inédito para qualquer guarda-redes que tenha marcado presença em vários torneios europeus e mundiais.

Os golos sofridos foram só consentidos na fase de grupos. Curiosamente, no Euro 2008 sofreu três golos, no Mundial 2010 foram só dois os remates certeiros (começou com uma derrota frente à Suíça por 1-0) e no Europeu de 2012 só um remate é que encontrou o caminho da baliza do espanhol.

Mais uma vez, os números são interessantes e merecem respeito por toda comunidade do futebol… mas não garante que tenhamos de gostar da imagem de Iker Casillas. Para quem está de fora da capital espanhola, o guardião de 1,85 metro era encarado como o exemplo da arrogância máxima e desconsideração de Madrid perante os restantes territórios de Espanha.

As Peleas com Barcelona e o sanar do Conflito

As guerras entre Casillas e Piqué eram entendidas como uma batalha entre a Andaluzia e a Catalunha, entre o espírito de domínio e o de rebeldia anunciada, atingindo o seu êxtase em plenos clássicos entre os culés e os merengues.

Curiosamente, foi o próprio Casillas (com Xavi) a colocar “fim” ao intenso espírito de guerra que se sentia em La Liga, entre os catalães do Barcelona e os andaluzes do Real Madrid. A reunião foi alvo de críticas por parte das gentes de Madrid, mas Iker só queria pôr fim (motivado pelo balneário) a uma forma de se estar errada no desporto. Xavi, que também foi responsável por alguns episódios menos bons, trouxe o seu melhor lado para “cima da mesa” e o acordo de mútuo respeito ficou estabelecido. Este foi, talvez, um dos momentos mais categóricos da passagem do espanhol pelo futebol de nuestros hermanos.

Depois chegou o “adeus” ao Real Madrid, um dos momentos mais trágicos da história recente dos madrilenos. Por que é que falamos em tragédia? Pela forma como a direcção do clube espanhol “despachou” o guarda-redes, sem direito a honras nem mercês, sentado sozinho perante os repórteres que, acima de tudo, ficaram pasmados com a situação que estavam a viver.

Para surpresa de muitos, o lendário guardião escolheu (se assim o podemos dizer) o FC Porto como novo destino profissional. Sair de uma “casa” que habitava desde sempre para agora um destino desconhecido era, no mínimo, “assustador”.

A primeira temporada nos dragões não foi satisfatória, apesar de ter brilhado em alguns jogos: na Luz e no Dragão frente ao SL Benfica (fenomenal no 1×1 frente quer a Jonas quanto a Pizzi); em Tondela (segura um penalty que daria o empate à equipa da casa); ou diante do Vitória de Guimarães, em casa; entre outros tantos.

Em abono da verdade, Casillas também falhou em momentos críticos da época para o FC Porto, com aquele lance em Guimarães a ficar como uma “mancha” pesada no seu reportório. Porém, subitamente ocorreu algo que mudou a minha opinião perante Iker Casillas.

No meio daquele marasmo de temporada que foi 2015/2016 para os azuis-e-brancos, o espanhol teve sempre uma postura de defesa dos ideais do clube, de trabalho intenso que muitas vezes não teve retorno e uma forma de estar com os adeptos mais próxima do que a maioria alguma vez pensou.

A época terminou sem títulos (no jogo da Taça de Portugal ficou no banco, não deixando de ficar histérico com o 2º golo de André Silva), com críticas “agressivas” a todos os parâmetros e secções da equipa, com a própria permanência de Casillas a ser questionada.

A saída fácil para a lenda da Roja seria o abandono do Dragão para ir em busca de outras paragens mais rentáveis (Estados Unidos da América ou Inglaterra), terminando a carreira de forma mais segura, estável e calma.

Aquelas defesas… (Foto: Ojogo)

A grandiosidade da carreira no Dragão

Todavia, para surpresa de todos aqueles que seguem a carreira de Casillas, o guarda-redes decidiu ficar na cidade do Porto, apostando em mais uma temporada na Invicta. Com esta decisão o respeito pela sua imagem cresceu, os adeptos ganharam um “carinho” especial e até os seus adversários “aplaudiram” a humildade de Iker.

Em 2016/2017, a equipa do FC Porto sofreu, até agora, 9 golos em 22 jogos, tendo Casillas alinhado em 20 partidas. Na Champions League os dragões foram a 3ª defesa menos batida (só Juventus e Atlético Madrid se saíram melhor); e, em termos internos, é a formação com menos golos sofridos na Liga. Para tal registo, Casillas já foi “senhor” de uma série de belas defesas a remates complicados, especialmente em jogos que culminaram em empates para os dragões – no estádio do CF “Os Belenenses” salva a sua equipa de um golo de Camará que poderia ter sido fatal.

Para além disso, nota-se uma excelente comunicação com os seus parceiros da defesa, como demonstram as situações nas bolas paradas (apesar de alguns golos terem provindo dessa situação, isto no início de temporada), ou a leitura de várias situações de perigo iminente (destaque para a reacção e estratégia a defender em situação resultante de contra-ataque).

Nota-se um Casillas mais “calmo”, concentrado e “alegre” com a vida na Invicta, com uma raça mais fiel ao código do que é o FC Porto.

“Nunca gostei de Iker Casillas” – foi assim que começámos esta breve rábula de ideias… No final, posso dizer que não sou apaixonado pela forma de ser do espanhol, mas ganhei um respeito e carinho especial pela forma como tem representado a sua carreira enquanto guarda-redes.

Façam um simples exercício de reflexão: Iker Casillas passou mais de 820 jogos “sozinho” entre os postes. Sentiu várias as vezes o “Mundo” contra si, com um coro de assobios, de críticas e de vexame escusado.

Em Madrid a relação com a direcção, treinadores e afición foi sempre de amor-ódio, onde foi “obrigado” a provar que era o melhor dos melhores entre os merengues. Salvou o Real de muitas derrotas, levou a que a Espanha subisse aos pódios e carimbou o seu lugar entre as maiores lendas do Desporto.

Casillas jogou com e contra todas as grandes lendas da viragem do século XX para o XXI, festejou com os Ronaldos, sofreu golos de Messi ou Henry, digladiou-se com Tévez e Kluivert, trocou de camisolas com Kahn ou Buffon, entre outros marcos.

Uma lenda do futebol mundial, um mito da sua Espanha e um “bombeiro” de categoria mundial, Iker Casillas merece mais respeito, carinho e consideração pela enormidade de guarda-redes que foi/é e será na memória histórica do Desporto Rei.


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