13 Dez, 2017

Os custos do sonho da Sanjoanense (ou como os semi-profissionais não devem agir)

Marcelo BritoFevereiro 13, 20179min0

Os custos do sonho da Sanjoanense (ou como os semi-profissionais não devem agir)

Marcelo BritoFevereiro 13, 20179min0

O sonho da Associação Desportiva Sanjoanense, clube que milita no Campeonato de Portugal Prio, caiu por terra. Depois da saída com sabor amargo da Taça de Portugal, a esperança em continuar a lutar pela subida à Ledman Liga Pro viu-se extinta. A montra, a formação, está esquecida e não se avizinham anos prósperos. A actual estruturação do CPP beneficia quem investe de meio em meio ano. Algo deve mudar.

Há largos anos que o histórico emblema de São João da Madeira não consegue colocar-se na elite do futebol nacional. A crise financeira, outrora acentuada e que quase cravou o último prego do caixão do clube, atirou a Associação Desportiva Sanjoanense para fora dos nacionais, mas os campeonatos distritais não são o aquário de um emblema que na presente temporada sonhou, e bem, com feitos extraordinários na Taça de Portugal e com a subida à Ledman Liga Pro.

Mas não convém avançar capítulos. Foi neste clube, de uma cidade com pouco mais de 20 mil habitantes, que jogadores como António Sousa, Ricardo Sousa, Vermelhinho, Secretário, Rui Correia, Veloso ou Litos – e outros –, começaram a despontar. O auge do clube alvinegro deu-se na época de 1965/66 quando conquista a segunda divisão nacional conseguido manter-se entre a elite portuguesa.

A nível distrital, é vasto o legado deixado pela Sanjoanense. Três, anteriormente denominados, Campeonatos de Aveiro (1936/37, 1939/40, 1946/47), sete títulos da primeira divisão (1936/37, 1939/40, 1946/47, 1952/53, 1988/89, 2010/11, 2013/14), um da segunda (1987/88), uma Taça (2012/13) e duas Supertaças (2010/11, 2013/14), segundo dados do portal informativo desportivo, zerozero.pt.

Estrangeiros ofuscam formação

Conhecida pela sua consistente formação, a Associação Desportiva Sanjoanense decidiu mudar de rumo e começar a pescar no mercado sul-americano. Recentemente, e como exemplo, de São João da Madeira saíram jogadores como Gil Dias, agradável surpresa da Liga NOS, actualmente titular indiscutível no Rio Ave com passagens por Braga e Varzim, ainda vinculado ao Mónaco de Leonardo Jardim. Esta é apenas uma das muitas provas da qualidade existente (ou que existira) nos escalões não profissionais do emblema nortenho.

Segundo os dados apresentados pelo portal informativo zerozero.pt, o actual plantel sanjoanense é composto por apenas 12 portugueses, tendo nove estrangeiros (sete brasileiros, um colombiano e um nigeriano), mas atenção: em nada esta comparação objectiva retirar valor a qualquer um deles! A qualidade não está em causa. Em causa está uma mudança repentina do paradigma sanjoanense que, consequentemente, arruinou com a formação do clube.

Os juniores, que nem há meia dúzia de anos competiam na primeira divisão nacional, lutam agora pela manutenção na segunda; os Juvenis, que outrora militavam no campeonato nacional, nada fazem além da manutenção na primeira divisão distrital; e os Iniciados, habituadíssimos ao ritmo de uma competição nacional, desceram no ano transacto aos distritais e dificilmente conseguirão, já este ano, a promoção. A Sanjoanense está refém de empresários e isso não está certo quando nunca o foi nem nunca precisou (pelo menos para debater-se na categoria que o faz actualmente).

Mas a Sanjoanense não é caso único. Muitos são os clubes que centram as atenções para a montra do emblema – o plantel sénior – e deixam esquecida aquela que devia ser a sua fonte de alimentação. Muitos desculpam-se da falta de qualidade nos plantéis jovens dos clubes para contratar fora, mas, garantidamente, esse nunca foi o problema da Sanjoanense.

Os adolescentes deixaram de querer representar a Sanjoanense e passaram a escolher outros clubes da região e, diga-se, de menor dimensão. E admire-se… esses detêm agora uma formação próspera, com escalões nos campeonatos nacionais com o objectivo de potenciar os jovens e elevá-los ao plantel sénior. Tudo o que fizeram foi seguir o exemplo utilizado anteriormente pela Sanjoanense. Este, um clube que deixou de investir na formação e onde os jovens deixaram de acreditar. Claro que para apostar numa subida aos escalões profissionais é preciso adquirir valências que só a experiência traz, mas a irreverência e o amor ao clube, esse ninguém o traz de fora.

Um exemplo a não seguir

Não quero com isto dizer que os clubes deviam ser expressamente proibidos em apostar nos mercados estrangeiros, mas que deviam ser impostos limites, começando, desde logo, pelos profissionais. Esses, não o fazem.

As direcções de clubes como a Sanjoanense não devem reger-se por reportagens que vêem ou por histórias que ouvem. Devem analisar a sua realidade desportiva e financeira e traçar um plano a, sejamos sinceros, longo prazo para conseguir adquirir valências competitivas adequadas à sua realidade e não dar o tradicional ‘passo maior que a perna’. A não ser que tenham definitivamente orçamentos irreais. O que não acontece.

Para já, muitos clubes – aqueles que os tenham – vão mantendo os problemas submersos com alguns bons resultados que exaltam a paixão do fiel adepto, mas quando eles emergirem, o descalabro vai ser inquestionável.

Sem capitão (e mais), manutenção compromete-se?

No caso específico da Sanjoanense, e puxando a cassete atrás, o esquecimento pela formação é tal que a direcção continua a fazer chegar jovens jogadores do continente sul-americano para colmatar os – calculo – bons negócios que o clube tem feito.

E falo em bons negócios porque vender o capitão de equipa, Rúben Neves ao Salgueiros, rival directo que inclusive ficou na posição ambicionada pela Sanjoanense, só pode acarretar números compensatórios. Não é só a saída de Rúben Neves que pode comprometer a manutenção do clube alvinegro. Zé Pedro, vinculado ao FC Porto rumou ao Gafanha; Vasco Nogueira ingressou no Maia Lidador; Samuel Teles, ex-Sp. Braga, assinou pelo Lourosa; André Pereira foi contratado pelo FC Porto; Gradíssimo e o argentino Kevin Wolf (que chegou, disputou apenas uma partida) também chegaram a acordo para deixar o clube.

Para colmatar essas vagas? Mais dois estrangeiros, neste caso, brasileiros: Davi Ferrari, ex-Angra dos Reis e Zé Lucas, ex-Corinthians. O investimento em contratar no Sul da América, seja ele muito ou pouco, existe e neste caso particular, torna-se deveras acentuado. A Sanjoanense alvejava voos altos na presente época desportiva, mas tudo virou do avesso. Vai encarar, sem três habituais titulares (Rúben Neves, André Pereira e Zé Pedro) a manutenção.

Analisando o que foi a primeira fase, a manutenção não se avizinha uma tarefa árdua. A qualidade do plantel sanjoanense é melhor e, nas condições normais, não vai ceder.

Foto: Facebook @ADSanjoanense.oficial

O sonho da Taça de Portugal que saiu caro

Qual a melhor competição para surpreender o país? Exacto, a Taça de Portugal. É nessa competição que os clubes com menor poderio financeiro e capacidade de investimento sonha em ‘fazer Taça’ e tombar o maior número de equipas de divisões superiores possível. A Sanjoanense não tombou nenhum Sporting, Benfica ou FC Porto, mas fez das suas.

Eliminou o Salgueiros na primeira eliminatória num jogo com direito a prolongamento (4-2); cilindrou o Pedras Salgadas (6-1); bateu o Lusitano de Vila Real de Santo António (2-1); deixou por terra o Gil Vicente (1-0); e nos oitavos de final caiu, já no prolongamento e após estar a vencer por duas vezes, perante o Estoril (2-4).

Para quem viu o jogo entre o Estoril e a Sanjoanense, facilmente consegue perceber que estávamos a ver duas equipas equilibradas e a jogar de igual para igual, apesar dos argumentos de diferente nível. Claro que fisicamente o clube de São João da Madeira quebrou muito cedo e isso afectou as investidas ofensivas. Defensivamente, alguns erros individuais, potenciados pela falta de maturidade do jovem plantel alvinegro, pesaram nos momentos cruciais.

O Estoril atirou a Sanjoanense para fora da competição com dois golos de Bazelyuk e outros dois de Bruno Gomes e deixou a formação orientada por Flávio das Neves a disputar apenas o CPP e a possibilidade de integrar a fase de apuramento de campeão.

Antes do embate com o Estoril, a Sanjoanense ocupava o primeiro lugar da Série C do CPP. Depois de um jogo que afectou fisica e psicologicamente os jovens atletas alvinegros, os maus resultados apareceram repentinamente. Aí, dá-se conta e percebe-se os custos de querer disputar de igual para igual, com um clube de primeira categoria, uma eliminatória da Taça de Portugal.

Derrota pela margem mínima com o Sousense (1-2); derrota com a UD Oliveirense (0-2); triunfo com o lanterna-vermelha Cesarense (1-0); derrota expressiva no derradeiro jogo com o Salgueiros (0-3); e vitória na última jornada perante o Cinfães (1-0). Leque de resultados que ofuscou a possibilidade da Sanjoanense lutar pela ambicionada subida à Ledman Liga Pro.

Quem beneficia com a estruturação do Campeonato Portugal Prio?

Para todos os clubes que não disputarão a fase de subida ao segundo escalão português, como é o caso da Sanjoanense, os pontos conquistados na primeira fase dividem-se a… 25%. Ou seja, um clube que conquiste, digamos, 20 pontos, inicia a árdua tarefa da manutenção com cinco. Um clube que tenha conquistado 10 pontos, inicia com, arredondando, três.

Relança a competitividade entre clubes que alvejam a manutenção? Sim, mas não há bela sem senão. Uma equipa prepara e investe para uma época desportiva. No mínimo. É assim que as coisas devem ser feitas. Seja o objectivo subir de divisão ou apenas não descer.

Agora surge a teoria que, cada vez mais, existem equipas a prepararem e investirem de meia em meia época. Os critérios matemáticos da fase de manutenção do Campeonato de Portugal Prio deveriam ser repensados. Dividir os pontos em quatro, acção alienada ao mercado de transferências de Inverno que provoca falhas nos plantéis, vai continuar a ser pejorativo para a Federação Portuguesa de Futebol e para o CPP.

Foto: Facebook @ADSanjoanense.oficial


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