21 Out, 2017

Como não preparar uma época, por Nacional da Madeira

Francisco IsaacDezembro 6, 201617min2

Como não preparar uma época, por Nacional da Madeira

Francisco IsaacDezembro 6, 201617min2

Promessas de renovação, reforços desnecessários, decisões contestáveis, manutenção de um treinador ultrapassado e uma direcção sem noção do risco. Estas premissas “juntaram-se” no CD Nacional da Madeira para a época 2016/2017 e, ao fim de 12 jornadas, os nacionalistas ocupam a última posição da tabela. Descida anunciada? Ou oportunidade para recomeçar?

A pior época dos últimos 15 anos – este é o registo do CD Nacional à passagem da 12ª jornada da Liga NOS. Oito derrotas, dois empates e duas vitórias – este é o score-board da equipa de Manuel Machado até ao momento.

Futebol sem ideias “frescas”, fraco entendimento entre linhas, um meio-campo sem capacidade de gerir de forma consistente, uma defesa “desesperada” por harmonia e um ataque que faz o que pode com o que tem.

Estas são algumas ideias que ficam quando olhamos para o lugar na tabela, e sobretudo para os treze jogos que o CD Nacional teve a oportunidade de disputar nesta temporada (já eliminados da Taça de Portugal, pelo Torreense, por 1-0).

PIOR ARRANQUE DE SEMPRE?

Mas será realmente a pior época de sempre desde que o Nacional está na 1ª divisão? Bem, os dados até às 12ªs jornadas indicam-nos isso mesmo (só analisámos os dados a partir de 2002/2003, ou seja, a época que marcou o regresso da equipa da Choupana ao principal escalão do futebol português).

Vejamos então: a esta altura, nunca antes o Nacional tinha somado tão poucos pontos na Liga, uma vez que só conquistou 8 pontos em 36 possíveis. Temos de recuar até 2004/2005, para encontramos um arranque similar.

Casemior Mior era o treinador de então e, após uma época “espectacular” – conseguiu a melhor classificação de sempre, o tal 4º lugar -, o início da 2ª época não correu da melhor forma.

12 pontos em 12 jornadas, um futebol algo sofrível, uma defesa intermitente e várias dúvidas a surgirem. João Carlos Pereira chegou em Janeiro para o lugar de Mior e o Nacional acabou em 12º lugar, a pior posição classificativa destes 15 anos.

Os registos dizem-no que só Manuel Machado fez igual, tanto em 2012/2013 como em 2014/2015, com 12 e 11 pontos, respectivamente, em 12 jornadas. Se em 12/13 e 14/15, Machado conseguiu “salvar a honra” ao terminar em 8º e 7º, respectivamente, tendo mesmo garantido um lugar na UEFA, na última temporada já o campeonato não correu bem.

Em 2015/2016, notaram-se os primeiros sinais de que algo não estava bem com a formação da Madeira, apesar dos satisfatórios 15 pontos em 12 jornadas. O futebol estava a começar “emperrar” nos mecanismos que Manuel Machado sempre gostou de implementar, com Aly Ghazal a ter dificuldades em dar sequência ao lançamento de contra-ataques. Washington funcionava, na maioria dos jogos, como segundo pivot mas pouco acrescentava ao controlo de bola.

Nos 5 anos consecutivos com Manuel Machado ao “leme”, foi na temporada passada que os insulares registaram um número de golos inferior, com 40 tentos em todo o campeonato.

A aposta em Francisco “Tiquinho” Soares não correu mal, com o avançado brasileiro a somar 14 golos em 35 jogos. A administração de Rui Alves não conseguiu accionar a cláusula de compra – o avançado estava emprestado pelo Veranópolis – e perdeu-o para os rivais do Vitória SC de Guimarães.

No gráfico disponibilizado (derrotas a vermelho, vitórias a verde e empates a azul), podemos ver que:
– Casemior Mior (03/04) e Manuel Machado (08/09) realizaram as melhores temporadas como treinadores (4ª posição para ambos e apuramento para as provas da UEFA);
– 2010/2011 registou-se o pior ano em termos de golos marcados (28), mas também foi a época que sofreram menos (31);
2016/2017 está a ser o pior início de época, com o maior registo de tempo sem vitórias (6 jogos consecutivos, a partir da 7ª à 12ª jornada), assim como o maior número de derrotas consecutivas (4);
– Maior sequência de vitórias foi com Manuel Machado em 2005/2006 (4);
Pior época frente aos ditos “Grandes” foi em 2011/2012, com 3 três derrotas e 8 golos sofridos para nenhum marcado (Ivo Vieira era o treinador);

Será este o pior Nacional? (Foto: Lusa)
Será este o pior Nacional? (Foto: Lusa)

Registo das últimas 15 épocas até à 12ª Jornada (Foto: Fair Play)
Registo das últimas 15 épocas até à 12ª Jornada (Foto: Fair Play)

AGRA, O PRÍNCIPE DA MADEIRA

Dessa época resulta um jogador que se “superou” e deu o seu melhor pelos alvinegros: Salvador Agra. Foram vários os momentos em que trouxe um brilhantismo estupendo aos jogos, com uma série de detalhes e “recortes” altamente importantes para a equipa do Nacional. Contaram-se 12 passes para golo, para além dos 9 que o próprio conseguiu marcar.

Ou seja, dos 40 golos da equipa, Agra esteve directamente ligado a 21, mais de 50% do que o Nacional conseguiu, evidenciando-se uma dependência em relação ao extremo/avançado.

Mesmo com os golos de Soares, os passes de classe de Salvador Agra (merecia um “regresso” a um SC Braga ou uma ida até Guimarães) e a irreverência de Camacho (completou 8 jogos ,o extremo de 22 anos que merecia mais, tendo sido transferido no Verão de 2016 para o Celta de Vigo B), não foi suficiente para conseguirem atingir melhor que o 11º lugar, a segunda pior classificação desde 2004/2005.

Se o meio-campo produziu de forma medíocre, o ataque correspondeu com um “suficiente”. Terá sido a defesa a responsável pela má temporada? Em termos de números, foi a época, num total de 15 anos, em que o Nacional mais golos sofreu, com 56 tentos concedidos.

E mais poderiam ter sido se Gottardi não tivesse estado entre os postes. O guarda-redes brasileiro conferiu e conferia uma experiência fundamental, que foi mal aproveitada, já que foi permitida a saída do brasileiro para a formação rival do CS Marítimo.

Para esta temporada a esperança dos postes recaiu em Rui Silva, um jovem da formação madeirense, que tem estado associado a alguns dos 19 golos consentidos até à 12ª jornada. Porém, há que dar tempo ao tempo e dar espaço ao português para que possa esticar as “asas”.

De acordo com Gonçalo Xavier, director da página Última Barreira, a avaliação a Rui Silva é a seguinte:

Acho-o um bom shot-stopper (é o que se diz de um guarda-redes de equipa de menor dimensão que num jogo pode realizar 8 defesas mas acaba por sofrer 2 golos), um guarda redes bastante reactivo e pouco de antecipação, sendo que está a melhorar este último ponto à medida que ganha experiência e tempo de jogo. Na defesa de baliza é bom, mas pelo ar ainda falha.

É um jogador que se entrega de “coração” à baliza, consegue até “salvar” a equipa em certas situações, precisa de mais tempo e mais apoio. Mas, volto a frisar que isso é muito influenciado pelo que o Nacional (não) joga.

Curiosamente, foi no eixo defensivo que o Nacional sofreu mais alterações, já que Rui Correia e Zainadine Júnior (saiu em Fevereiro de 2016 para o Tianjin TEDA da CSL, como referido neste artigo do Fair Play: goo.gl/4PwiQd) não garantiram uma defesa de qualidade. Para além disso, Miguel Rodrigues optou por abandonar o clube, Alan Henrique nunca convenceu Machado e Hicham Belkaroui foi uma aposta “falhada”.

Agra para o golo! (Foto: Lusa)
Agra para o golo! (Foto: Lusa)

DECISÕES E OPÇÕES ESTRANHAS DA ADMINISTRAÇÃO ALVINEGRA

Rui Alves e Manuel Machado puseram as “mãos à obra” e decidiram chamar de volta Diogo Coelho, contrataram César (central do SL Benfica, que esteve no Flamengo) e Tobias Figueiredo por empréstimo e promoveram Rodrigo Alírio dos júniores. Porém, antes do fecho do mercado houve um volte-face com a saída de Diogo Coelho para a Académica (por empréstimo), algo que deixou os adeptos incrédulos.

O central português vinha de uma excelente temporada ao serviço do GD Chaves, onde foi uma das “peças” fundamentais de Vítor Oliveira para a subida de divisão dos flavienses. Rápido, bom com a bola e com uma visão de jogo acima da média, pedia-se a permanência e aposta no central formado nas escolas do Pontassolense e do próprio Nacional.

O staff técnico assim não o entendeu e a aposta passou pela dupla de emprestados. Porém, em 12 jogos, 19 golos sofridos.

A somar a isto, Aly Ghazal chegou a ser utilizado como central (correu sempre mal) e Rui Correia e os emprestados sofreram lesões de fadiga muscular que os foram impossibilitando de alinhar a 100% ou de forma consistente.

César tem sido uma desilusão completa, Tobias Figueiredo não está a conseguir revelar as qualidades que captaram o interesse de Leonardo Jardim e Marco Silva, e Rui Correia está muito longe da forma da temporada anterior.

Se os reforços para o centro da defesa foram, no mínimo, infelizes, já a chegada de Víctor García foi uma adição de extrema categoria para o flanco direito madeirense. Em 8 jogos, uma assistência e alguns pormenores que o FC Porto terá de tomar em consideração, pois García pode ser a solução para o lado direito da defesa dos azuis-e-brancos. Para já, este “estágio” no Funchal vai correndo bem, a nível individual, mas mal, a nível colectivo.

Em suma, em termos do primeiro terço da equipa, o Nacional perdeu experiência e qualidade na baliza, “libertou” dois homens da casa que poderiam ser importantes (Rodrigues e Coelho) e, dos três reforços, só um tem provado que pode fazer a diferença.

E no meio-campo? Já havíamos falado que Ghazal está a ter uma queda abismal de forma e que Washington, apesar do “poço” de energia que é, falha na gestão de bola, tendo sido necessário um ajustamento.

Tiago Rodrigues, Vítor Gonçalves, Vítor Hugo (por lapso, incluímos o nome de Ricardo Gomes, extremo que esteve uma época em Guimarães) reforçaram as opções de Machado para o meio-campo… mas têm feito a diferença? Nenhum trouxe um input positivo, já que Tiago Rodrigues parece carecer daquela visão de jogo e qualidade de passe que o catapultou para o FC Porto (nunca chegou a ser utilizado) e V. Hugo ou V. Gonçalves mal alinharam pelos nacionalistas.

Willyan, médio brasileiro que chegou em 2014 por via do Beira-Mar, está a perder espaço no plantel, com várias exibições abaixo do esperado (possuía um jogo muito similar ao de Otávio, do FC Porto, com uma dinâmica e ritmo bastante altos), o que obrigou a Manuel Machado a arriscar na inclusão de uma dupla de avançados, composta por Cádiz e Hamzaoui nas últimas duas jornadas.

O avançado argelino foi mesmo o único reforço a conseguir dar algo mais à equipa, com 4 golos em 8 jogos. Com uma mobilidade importante no centro da área, Hamzaoui é um jogador disponível para ajudar a construir os lances de ataque, destacando-se a sua vontade de partir para cima da defesa contrária.

 Se a adaptação ao futebol português continuar a decorrer da melhor forma, o argelino virá a ser uma boa novidade no centro do ataque.

Falta de raça? (Foto: SIC)
Falta de raça? (Foto: SIC)

O PRINCÍPIO DO “FIM” OU UM RECOMEÇO PARA O FUTURO?

Somando estas variáveis todas, o resultado final é um: insuficiente para uma equipa que quer lutar pela permanência na Primeira Liga. Sim, o Nacional conquistou um empate frente ao Sporting CP, mas deixou o FC Porto e SL Benfica ganharem com bastante facilidade (ambos em casa), onde a defesa consentiu 7 golos em 2 jogos.

É preocupante a forma como os sectores estão desconectados entre si, com uma comunicação precária e sem a coesão pedida para estancarem os lances de ataque de adversários que entram com a intensidade exacta para quebrar a débil estrutura que Machado tenta manter.

Há um sinal que demonstra que algo não está bem para os lados do Nacional da Madeira. Quando Aly Ghazal, um médio-centro puro, é obrigado a alinhar como central, é evidente que há falta de harmonia, uma total carência de soluções e um futebol demasiado “arcaico” a viver em pleno coração da Choupana.

A derrota em Moreira de Cónegos, frente ao Moreirense que tinha acabado de assinar com Augusto Inácio após a saída de Pepa (ver as potenciais saídas de Pepa do Moreirense: goo.gl/WkKV0h), é outro sinal de que o Nacional é um “castelo de cartas” pronto a cair. 3-1, uma defesa em pânico absoluto (Tobias Figueiredo voltou a ser expulso, pela 2ª vez nesta temporada, somando ainda 6 cartões amarelos) e um meio-campo estilhaçado.

Rui Alves é um presidente ultrapassado, com a sua equipa directiva a investir em empréstimos duvidosos  – a chegada de Tobias Figueiredo e César acrescentavam algo mais à defesa? Miguel Rodrigues e Diogo Coelho não teriam sido soluções mais que suficientes pelas provas dadas? -, a não concretizar transferências (inexplicável a não contratação de Tiquinho Soares) ou a permitir a saída de jogadores influentes por detalhes contratuais (Gottardi é o caso mais “gritante”).

Para além disto, há ainda os casos de Luís Silva que tinha chegado do GD Chaves e acabou por só ficar um par de semanas no plantel, saindo para o CF “Os Belenenses” (3 jogos), o que deixa várias reticências na forma como procederam ao ataque ao “mercado”.

Por outro lado, a saída de Luís e João Aurélio ficou a dever-se a problemas contratuais, isto é, o Nacional não teve capacidade de convencer os dois jogadores a permanecer no plantel, “abrindo mão” de dois activos importantes.

Estarão Machado e Alves ultrapassados? Há espaço ainda para acreditar numa remontada, algo que nunca aconteceu no passado?

E em termos de soluções, o que pode o Nacional da Madeira fazer neste momento para tentar recuperar da situação complicada em que se encontra?

Rui Alves ainda tem condições para liderar? (Foto: Lusa)
Rui Alves ainda tem condições para liderar? (Foto: Lusa)

SOLUÇÕES E IDEIAS PARA O AGORA

Em termos de transferências, as dificuldades financeiras que o Nacional da Madeira vive notam-se pela estratégia de empréstimos empregue: Sinan Bolat e Víctor García (FC Porto); Tobias Figueiredo (Sporting CP); César (SL Benfica); e Roniel (Grêmio Anapólis).

Seria interessante recuperar Diogo Coelho à Académica, uma vez que poderia dar mais consistência, equilíbrio e disponibilidade ao sector defensivo.

O meio-campo não foi mal reforçado; está sim desequilibrado, sendo necessário um ajuste dentro da própria equipa. Camacho poderia, também, regressar mas ambas as situações devem ser altamente complicadas de resolver a favor dos alvinegros.

A estrutura táctica do Nacional da Madeira poderia sofrer uma mutação, optando por uma situação de maior risco do que a actual.

Sair do típico 4-2-3-1 (Washington e Ghazal como pivots mais recuados) para um 3-4-3 onde Correia faria parelha com César e Figueiredo, subindo Víctor García e Sequeira no terreno, com Ghazal “sozinho” como trinco, e ainda com Tiago Rodrigues ou Wyllian (dúvidas que o brasileiro conseguisse gerir bem o meio-campo sem um apoio extra) a servirem de “motor” de gestão de bola.

Salvador Agra numa das alas, com acompanhamento de Wity ou Cádiz (o venezuelano tem uma irreverência necessária para surpreender os adversários), com Hamzaoui na sua posição de matador.

O 3-4-3 assumiria uma equipa em busca de golos, com a necessidade de existir uma entreajuda superior entre o meio-campo e a defesa, sem obrigar García ou Sequeira a fazer “piscinas” sucessivas.

Para além disso, a subida dos laterais permitiria a Agra jogar mais pelo centro do terreno, explorando o bom remate de longe ou a capacidade de picar a bola e assistir um colega. A leitura defensiva dos adversários seria mais complicada de realizar, o que daria um aditivo extra ao Nacional.

Infelizmente, o treinador que melhor podia trazer algo Nacional foi “espezinhado” há alguns anos atrás. Falamos de Pedro Caixinha.

E que tal apostar na nova vaga de treinadores que precisam de apoio e paciência como Pepa, Nuno Capucho ou Sérgio Boris (grande temporada do treinador ao serviço do Cova da Piedade)? Ivo Vieira, antigo jogador e que teve uma passagem agridoce pelo Nacional/Marítimo, também pode trazer novidades na forma de estar e de montar a equipa.

Tudo isto só fará sentido se Rui Alves deixar cair o semblante de arrogância com que carrega o título de presidente do Nacional da Madeira e se Manuel Machado reformular as suas ideias. Se ambos continuarem neste caminho talhado desde Maio de 2016, o Nacional enfrentará a sua “pior hora” do futebol moderno.

O problema não ficará resolvido só com a mudança ou saída de uma das partes… a mudança ou saída têm de acontecer/vir de Manuel Machado e Rui Alves.

A inadaptabilidade de evoluir e crescer, de aceitar que a Liga NOS está diferente e que os adversários já sabem como quebrar os alvinegros ou só o mero facto de não existir uma política de transferências e gestão de equipa sólida ou minimamente vocacionada para os resultados prova que este Nacional está longe do que foi em qualquer um dos outros anos anteriores.

Depois do Olhanense, Belenenses (que se reformulou q.b. para regressar à Liga) ou Gil Vicente, será o Clube Desportivo Nacional a embarcar numa viagem em “mares turbulentos” da Liga LEDMAN PRO?

O fim da Era Machado? (Foto: Expresso)
O fim da Era Machado? (Foto: Expresso)


2 comments

  • João

    Dezembro 6, 2016 at 7:02 pm

    CS Marítimo, não SC Marítimo.

    Reply

    • Francisco Isaac

      Dezembro 6, 2016 at 7:31 pm

      João,

      Obrigado pela correcção, foi um lapso da minha parte e acabei por não alterar na versão final. Espero que tenha gostado do artigo!

      Cumprimentos,

      Francisco Isaac

      Reply

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