21 Out, 2017

Um Benfica de Extremos

Pedro AfonsoAbril 30, 20178min0

Um Benfica de Extremos

Pedro AfonsoAbril 30, 20178min0

Face à abundância de qualidade nas faixas laterais do ataque benfiquista, seria expectável que daí partisse a maioria dos desequilíbrios e que se tornasse o principal foco de criação e “magia” da equipa encarnada. A verdade é que a 3 jornadas do fim, a enormidade de opções de Rui Vitória para os “extremos” tornou-se num carrossel, com decisões, no mínimo, questionáveis, e uma falta de qualidade atroz.

Qual terá sido o motivo deste sub-rendimento (em comparação com épocas anteriores) das alas benfiquistas? Passará pela ideia de jogo que Rui Vitória incutiu na sua equipa? Passará por uma má gestão do plantel encarnado por parte do timoneiro ribatejano? Ou será mesmo uma questão de falta de qualidade para um clube da dimensão do SLB? Creio que a resposta surge de um cocktail das três hipóteses, com um maior foco na má gestão e uma menor ênfase na ideia de jogo, que tanto explora as combinações entre laterais e extremos para poder sair a jogar com a bola controlada pelo meio.

Abundância de extremos no início da época (Fonte: Record)

Talvez uma análise individual aos protagonistas nos forneça uma visão mais aprofundada desta problemática.

Salvio

O argentino respira benfiquismo, é inegável. Carrega a “mística” como poucos e luta até não poder mais pela sua equipa. Talvez por isso se justifique a presença recorrente de Salvio no 11 encarnado. Aliás, creio que se trata da única forma de justificar a presença do Argentino em 39 jogos esta temporada, mesmo tendo contribuído com 8 golos, sendo um deles o importantíssimo tento contra o Sporting CP na primeira volta.

Salvio nunca foi um jogador “inteligente”, capaz de tomar a melhor decisão face aos obstáculos que os adversários lhe colocam em campo. Pelo contrário, sempre pareceu um pouco aquele tipo de jogador que insiste, insiste, insiste, até algo sair, até um ressalto permitir galgar mais 5 ou 10 metros, mesmo quando o seu colega está mesmo ao lado a pedir a bola. E este ano, Salvio tem sido mesmo isso: um motor que leva a equipa para a frente, aos soluços, sem critério, mas com vontade e garra, ao mesmo tempo que vai segurando defensivamente a sua ala.  Se é suficiente para o Benfica? Creio que não, contudo não deixa de ser o extremo com “melhores números” da equipa encarnada e aquele que tem merecido (de forma discutível ou não) a confiança do treinador Rui Vitória, apesar de ser substituído, quase sempre, à passagem do minuto 60.

Cervi

Os últimos 10 anos trouxeram para a Luz extremos argentinos que deixaram memórias de valor inestimável no coração coletivo benfiquista. Di Maria e Gaitán foram os mágicos que herdaram a responsabilidade de fazer esquecer Pablito Aimar, com os seus toques de génio e criatividade infinita. E Cervi parecia ter tudo para ser o digno sucessor de Nico, que partira meses antes para uma aventura em solo Madrileno que se prova, agora, ter sido uma decisão errada. E a verdade é que Franco “Chucky” Cervi começou bem no Benfica, com um golo no seu primeiro jogo oficial contra o Braga, para a Supertaça Cândido de Oliveira. Provou ser uma opção viável e, até Janeiro, foi quase sempre titular e um dos desequilibradores natos da equipa. Se aquilo que lhe poderiam apontar em termos de comprometimento defensivo seria um défice resultante de uma adaptação a um novo modelo de jogo, essa lacuna foi devidamente colmatada e Cervi apresenta-se agora um jogador muito mais importante para equilibrar o momento defensivo encarnado do que o momento ofensivo, uma espécie de contra-senso para um extremo.

Misteriosamente, apesar destas melhorias, Rui Vitória não demorou muito em deixar cair o extremo argentino após um par de más exibições, tendo sido relegado para segundo plano desde meados de Janeiro, ao contrário de alguns dos seus colegas de equipa que mantém o estatuto de titular indiscutível, não obstante as suas exibições (leia-se Salvio).

Carrillo

O peruano contratado ao rival da 2ª Circular chegou num misto de euforia benfiquista, pela contratação a “custo 0” de um dos jogadores em melhor forma do Sporting CP na época passada, e de desconfiança, pela paragem imposta pelo clube leonino ao atleta. E André Carrillo nunca pareceu, desde os seus primeiros tempos no clube leonino, ser o tipo de jogador que se “entregue” totalmente ao jogo, algo que o 3º anel encarnado exige a todos os seus atletas.

E a verdade é que, até agora, Carrillo não aproveitou de maneira categórica as oportunidades que Rui Vitória lhe tem concedido. Ora perdendo-se em jogadas individuais, ora acusando a falta de ritmo competitivo e lentidão de reação, ora alheando-se do jogo defensivo, contam-se pelos dedos de uma mão as boas exibições do camisola 15.  Quase sempre começando como suplente, Carrillo é frequentemente chamado às 4 linhas numa procura de maior critério com bola no pé, algo que foge por completo à dinâmica das laterais benfiquistas que procuram sempre a velocidade e as combinações rápidas. Não obstante o esforço do peruano na sua adaptação ao jogo do Benfica, a sua melhor exibição, frente ao Estoril Praia para a Taça da Liga, foi prendada com a bancada nos dois jogos seguintes, uma gestão absolutamente atroz da componente emocional do jogador e contribuindo para um clima de suspeição à sua volta.

Živković

O pequeno craque dos Balcãs chegou ao Benfica rotulado como a próxima grande promessa sérvia, um epíteto com “peso” nos dias que correm. Uma contratação a custo 0, que mais tarde se verificou terem sido alguns milhões em comissões, na qual o SL Benfica bateu alguns colossos europeus, colocava curiosidade e esperança no coração dos adeptos encarnados. Mas Rui Vitória não foi na cantiga, e Živković faz a sua entrada na equipa benfiquista apenas em Outubro, após um período de adaptação, e apenas se torna opção “séria” a partir de Janeiro. E a verdade é que o jovem extremo de apenas 20 anos encheu o olho dos adeptos benfiquistas, com as suas arrancadas estonteantes e as suas inúmeras assistências.

Chegado o mês de Março, Andrija sofre a sua primeira quebra de forma e Rui Vitória, tal como havia feito com Cervi, é peremptório em sentar o pequeno craque. Apenas titular no jogo para a Taça com o Estoril Praia nos últimos dois meses, Živković foi relegado para a bancada nos últimos dois jogos, apesar do fraco rendimento dos seus colegas de posição.

Rafa

16 milhões de euros e muito pouco para o justificar. Rafa é um sério candidato a “flop” do ano e não por falta de qualidade, porque a tem e em abundância, mas porque a sua capacidade de decisão no último terço decresceu de forma proporcional ao seu aumento de minutos de jogo. 30 jogos e apenas 2 golos para um 2º avançado/extremo é muito pouco e Rafa tem demonstrado imensas dificuldades em frente à baliza, chegando-se mesmo a acreditar que a visão dos 3 postes interfere com o processo natural de pensamento futebolístico do internacional português, criando um “bloqueio” que o leva a tomar, muitas vezes, a pior decisão possível.

As hostes encarnadas não têm sido propriamente gentis com Rafa: o peso dos 16M tem sido evidente e o público exige do pequeno craque algo que poucos jogadores conseguem fazer na sua primeira época – que demonstre que vale o montante pago por ele. A exigência do público com Rafa é legítima, contudo algo injusta face ao silêncio face aos valores pagos por Raúl e até por Pizzi, que apenas demonstra todo o seu valor 3 épocas após a sua chegada.

Jonas precisa de dar mais lições aos extremos [Fonte: Zero Hora]
 

Parece-me claro que nenhum dos extremos benfiquistas viveu uma época estável, sendo “vítimas” de uma rotação delineada pelo técnico Rui Vitória que acabou por quebrar a boa forma de alguns jogadores ou perpetuar a má forma de outros. Para uma equipa que vive tanto do seu jogo ofensivo pelas faixas, urge repensar as opções, tanto técnicas como de postura no mercado, para garantir que o futebol encarnado não tenha de depender tanto de rasgos individuais dos criativos no centro do terreno.


Entre na discussão


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS



newsletter