22 Out, 2017

SL Benfica – Formar lançando ou o novo paradigma da Formação

Pedro AfonsoDezembro 21, 20165min0

SL Benfica – Formar lançando ou o novo paradigma da Formação

Pedro AfonsoDezembro 21, 20165min0

Rui Vitória foi o escolhido para iniciar um novo paradigma no SL Benfica: aliar o sucesso desportivo ao sucesso formativo. Não chega ganhar para a atual Direcção do Benfica, é necessário ganhar com a “prata da casa”, com a Formação. Será possível manter o nível de exigência e de sucesso do atual tricampeão, criando bases para uma aposta sustentada em jovens valores?

Em 1994, Alan Hansen proferiu uma das frases mais marcantes do futebol britânico, após uma derrota de 3-1 do Aston Villa contra o Manchester United de Sir Alex Ferguson. Nesse dia, Hansen profetizou que “Miúdos não ganham títulos”. O Villa acabara de perder com um United que contou com nada mais nada menos que 6 (!!) jogadores com menos de 23 anos. No final da época, Hansen percebeu que estava errado.

Há cerca de 4 anos, quando o SL Benfica chegou a duas finais da Liga Europa e praticava um futebol que poucas equipas na Europa podiam almejar, ouvia-se um burburinho de fundo, indignado, inflamatório, clamando que a ausência de jogadores portugueses no 11 titular constituía uma afronta e um duro golpe para a evolução do futebol português. Mas a indignação não se limitava à ausência de jogadores locais, estendia-se à total falta de atenção por parte da equipa técnica do Benfica aos prodígios que iam emergindo da formação do Seixal. E a verdade é que podemos constatar que muito talento foi desperdiçado (desportivamente falando), voltando à memória os casos de Bernardo Silva, André Gomes e João Cancelo.

[Foto: Serbenfiquista.com]
 

O Benfica foi tendo sucesso, foi criando uma cultura de exigência que perdera há largos anos, mas continuava a faltar algo. A Alma Benfiquista sentia-se vazia de um craque português, de um veículo de propagação, de uma personificação do Benfiquismo. Foram anos de vazio que necessitavam de ser colmatados, exigência do 3º anel que a Direcção ignorou demasiado tempo. E em 2 anos, assistimos uma mudança abrupta do paradigma: são apostas regulares no Benfica agora 4 jogadores da formação, não esquecendo a venda de Renato Sanches e os inúmeros lançamentos de jovens ao longo da época transacta. Mas até que ponto será esta obsessão positiva? Será capaz o Universo Benfiquista de exigir o mesmo que exigia a um Enzo Pérez a um André Horta; a um Gonçalo Guedes o mesmo que a um Lima? Mais importante, serão os jovens capazes de aguentar o peso das ambições de um tetracampeonato inédito?

Voltemos à época passada:

  • Maxi abandona a Luz após 6 anos como dono da lateral direita. O escolhido? Nélson Semedo. O seu início é fulgurante, culminando com a chamada à selecção AA das Quinas e uma lesão que o relegou para o banco até ao final da época.
  • Júlio César lesiona-se. O chamado? Ederson Moraes. Não mais largou o lugar, com o seu excelente jogo de pés e a sua bravura no momento de sair entre os postes.
  • Crise de centrais no Benfica. O escolhido? Lindelof. O “Ice-man” fez com Jardel uma das melhores duplas de centrais da Europa, culminando com a chamada ao Euro 2016 e a putativa transferência para Manchester agora em Janeiro
  • Pizzi não rende, Talisca pouco acrescenta, e a equipa continua orfã de um senhor no meio-campo. A cobaia é o Astana e a solução é Renato Sanches. E o resto da história parece saída de um filme.

Foi de facto uma época brilhante para os jovens da Formação Benfiquista. Mas e este ano? A verdade é que este ano a aposta não tem sido tão diversificada e inclusive alguns dos jogadores mostraram um nível exibicional e uma paragem de crescimento algo assustadora. Se por um lado Nélson Semedo se assume como um elemento preponderante na lateral direita e um jogador com um potencial enorme, Lindelof passa a pior fase da sua curta carreira no Benfica, acumulando erros cruciais em partidas dos últimos 2 meses, dando origem a 4 golos adversários. Horta, um Benfiquista de alma e corpo não pode carregar em si o peso de um meio-campo do tri-campeão e mostrou ser muito curto para voos tão altos nesta fase. Mesmo Gonçalo Guedes, não obstante a sua excelente forma exibicional e não negando o seu enorme potencial, teve inúmeras oportunidades desperdiçadas, mantendo-se no 11 graças à praga de lesões que assolou a equipa da Capital.

[Foto: Record]
 

O que talvez falte compreender aos benfiquistas, é que estas pérolas não se renovam todos os anos, como se de uma máquina de produção em série se tratasse. Não se pode achar que Yuri Ribeiro, Zé Gomes, Pedro Rodrigues e João Carvalho serão as próximas pérolas e indiscutíveis no 11 do futuro. Rui Vitória tem o difícil trabalho de ensinar os jovens num contexto de máxima exigência.

[Foto: @informglorious (Twitter)]
 

O United de Ferguson não voltou a repetir a façanha de 1994 e viveu da genialidade de Giggs e Scholes até aos 35/36 anos. A formação deve ser complementada por um balneário forte, com qualidade, que obrigue os jogadores a superar-se em todos os jogos. Se esse balneário não existir e o banco não for opção, teremos jogadores em baixo de forma, titulares, e cujos agentes oferecem o passe a grandes clubes sem ter em consideração o crescimento dos seus clientes. O banco, por vezes, é o melhor dos conselheiros. E a paciência a maior das virtudes.


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