17 Dez, 2017

Pizzi – Do 80 ao 8!

Pedro AfonsoMarço 29, 20175min0

Pizzi – Do 80 ao 8!

Pedro AfonsoMarço 29, 20175min0

Pizzi será, nesta altura e fruto de uma época recheada de lesões para Jonas, o melhor jogador do Benfica e, ainda que discutível, o melhor jogador do Campeonato Português. Um jogador que pensa o jogo mais depressa que todos aqueles que o rodeiam, mas que, em virtude de uma péssima construção do plantel benfiquista, se vê obrigado a jogar num meio-campo a dois. Exigem do transmontano que seja um 8, quando a sua natureza lhe pede que seja um 80.

Jogar em 4x4x2 não é pêra-doce. A formação da moda em Portugal deve o seu estatuto ao técnico da Amadora, Jorge Jesus, que aperfeiçoou uma tática que havia sido esquecida nos últimos largos anos, em detrimento de um 4x3x3, mais coeso, mais equilibrado, mais fácil de implementar. Não deixa de ser curioso que os anos mais proveitosos do SL Benfica sob a tutela do atual técnico leonino aliassem ao médio-defensivo recuperador de bolas um verdadeiro médio área-a-área, um jogador capaz de disputar todas as bolas como se fossem a última, de dar tudo o que têm, e às vezes o que não tem, para condicionar o jogo do adversário, e ainda ser capaz de transportar a equipa às costas, queimando linhas e abrindo espaços. Ramires era exímio nesta tarefa, Enzo Pérez conferia à equipa um pouco mais de criatividade, fruto do seu início de carreira a médio-ala e Witsel pautava o jogo como ninguém, fazendo crer todos aqueles que o viram jogar que passou ao lado de uma carreira brilhante.

Quando Rui Vitória herda a equipa encarnada no passado ano desportivo, percebe que um trabalho de seis anos não deve ser descurado. Bebendo das bases deixadas pelo seu antecessor, foi capaz de incutir novas rotinas, mais em linha com as suas ideias, mudar comportamentos defensivos e ofensivos, afinar a máquina à sua maneira. Mas a essência da equipa continua lá, uma equipa que joga em 4x4x2 clássico, que o re-inventa e recebe elogios daquele que será talvez o melhor treinador da atualidade, Pep Guardiola. A história da época passada toda a gente a sabe, mas há um pequeno pormenor que coincide com a rápida subida de rendimento do SL Benfica e a caminhada triunfal até ao Marquês: a entrada de Renato Sanches no 11.

O 8 e o 80 [Foto: A Bola]
 

A entrada do médio bávaro foi decisiva por duas razões: pela sua força física e irreverência e pela migração de Pizzi para a ala. A primeira razão valeu a Renato uma transferência estratosférica para o Campeão Alemão, a segunda razão valeu a Pizzi a melhor forma da sua vida (o carrossel Benfiquista agradece!). Contudo, a saída do jovem prodígio português deixou um vazio no meio-campo benfiquista cuja importância foi largamente descurada pela Estrutura Benfiquista. Num Verão longo, o SL Benfica contrata Danilo e André Horta, acabando por dispensar o primeiro na Janela de Transferências de Inverno, e “encostando” o segundo, após um início fulgurante, mas que rapidamente deixou claras as limitações táticas e fisícas do jovem benfiquista. O bombeiro de serviço é Pizzi que, jogue onde jogar, não sabe jogar mal. Assume-se como o Maestro do meio-campo encarnado, pautando o jogo, distribuindo, fazendo jogar bem e bonito. Tem tanto controlo sobre o futebol encarnado que, quando está mal, a equipa joga mal, e quando está bem, a equipa joga bem.

O Carrossel Benfiquista [Foto: Sapo]
 

Mas Pizzi não é um 8. Não o obriguem a jogar simples, a correr desenfreadamente com a bola, arrastando adversários, “abalroando” opositores, recuperando defensivamente quando o seu parceiro de meio-campo não está lá. Se Pizzi soubesse defender tão bem como sabe atacar, não estaria em Portugal. Com as devidas diferenças, imaginem que o Barcelona jogava com Iniesta e Busquets no meio-campo, em 4x4x2. Iniesta nunca seria o Deus do Futebol que é hoje. Da mesma forma que Pizzi, com as suas tarefas defensivas acrescidas, nunca poderá atingir o seu total potencial e esplendor, porque nasceu para jogar de frente para a baliza e apenas a pensar no próximo passe de rotura.

Mas há opção melhor?

Infelizmente, não. Nem Danilo nem Horta se mostraram suficientes para colmatar a saída de Renato. E a contratação de Filipe Augusto é quase anedótica, tendo em conta o seu perfil quase idêntico a Danilo e o seu historial de lesões. Pizzi é um excelente jogador e um 8 competente, que, contra equipas com um bloco baixo (como 90% dos jogos da Liga NOS), assume um papel importantíssimo, construindo desde trás. Mas contra grandes equipas, a equipa de Rui Vitória sofre, e sofre muito por culpa desta incompetência defensiva de Pizzi. Se somarmos a estas limitações a intermitência física de Fejsa e a regressão absurda de Samaris como trinco (“morde” quando não deve “morder” e “fica” quando não deve “ficar”), a equipa de Rui Vitória ressente-se (e muito) deste mau desenho do plantel.

Até ao final da época, o Benfica estará condenado a “sofrer” defensivamente e a ganhar ofensivamente, num desequilíbrio que não convém a nenhum grande. E mesmo que se ganhem os jogos, perde o futebol. O génio do médio Benfiquista não se pode simplificar. Não se pode passar do 80 para o 8.

O esforço de um Génio [Foto: RR]


Entre na discussão


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS




Newsletter


Categorias


newsletter