23 Nov, 2017

O estranho caso de Bruno Varela

Rui MesquitaOutubro 14, 20175min1

O estranho caso de Bruno Varela

Rui MesquitaOutubro 14, 20175min1
O jovem Varela chega, aos 22 anos, ao sonho de jogar pelo Benfica. Tudo parecia bem encaminhado para o salto do guardião português, até que... 8 jogos e 8 golos depois, Varela foi relegado para suplente e há quem já fale na sua saída. Uma ascensão e queda em menos de dois meses numa casa simpática para os guarda-redes que lá passaram.

Depois de duas épocas longe da Luz (Valladolid e Vitória de Setúbal), Varela regressou aos encarnados. Os 100mil€ do negócio tiravam algum peso à contratação mas a titularidade fazia exatamente o oposto. Habituado a palcos menores e com uma idade tão jovem, Varela assumiu-se entre os postes. E aí começaram os problemas.

O perfil

Com a saída de Ederson para Manchester, ficou por ocupar a baliza encarnada (assunto já abordado pelo Fairplay aqui). Com Júlio César nos 38 anos, foi no mercado que as águias procuraram soluções. Varela e Svilar foram os escolhidos e, pelos 18 anos do belga, Varela tornou-se titular.

À semelhança de anos anteriores, o Benfica procurava um guarda-redes alto e possante. Bruno Varela encaixa neste perfil mas não cumpre outra das condições: ter um excelente controlo da profundidade. Com Ederson a defesa encarnada jogava subida com eficácia graças a esse controlo exímio das costas dos defensores. Ao português falta acutilância e segurança nas saídas que permitam a dois centrais lentos jogar subidos como gosta Rui Vitória.

Para além disso, Varela nunca evidenciou um jogo de pés de qualidade. Sem qualidade de passe ou capacidade de decisão, falha outro dos requisitos do futebol moderno.

Mais do que falta de qualidade (essa Varela tem), o jovem de origens cabo-verdianas não encaixa no perfil encarnado. Não se pedia um novo Ederson mas, pelo menos, um sucessor com o mesmo perfil, encaixando no modelo da equipa. Falhou no casting a estrutura encarnada.

Ederson encaixava na perfeição no modelo encarnado (Foto: CM)

Os golos e não só

Já aqui falamos dos golos sofridos pelo guardião encarnado: 8 em outros tantos jogos. Não é um registo feliz mas, em abono da verdade, toda a equipa revelou falhas e quebras exageradas. Bruno não é, por isso, o único ou maior culpado da quantidade de golos sofridos e, com eles, da má fase do tetracampeão.

Ainda assim, Varela tem culpa em alguns desses 8 golos de onde sobressai o segundo golo do Boavista na derrota por 2-1 no Bessa. Nesse lance o português acompanha bem a trajetória da bola mas a abordagem à mesma é completamente errada.

Para além desse ficaram na retina mais dois ou três golos onde podia e devia ter feito melhor. Na vitória na Luz frente ao Braga, Varela sai da baliza já em queda, fazendo mal a mancha. Fábio Espinho não tinha um grande ângulo para fazer golo mas conseguiu-o. Também na derrota frente ao CSKA, Varela podia ter feito mais. No segundo golo, larga a bola para uma zona proibida deixando-a à mercê do adversário.

Porém, a fragilidade do número 30 encarnado vai muito além dos golos sofridos. Nunca, nos 720 minutos que já jogou, pareceu seguro e confiante no seu trabalho. Sempre tremido e com pequenos erros sucessivos que levantavam a desconfiança nos adeptos e na equipa técnica. Essa insegurança era notória mesmo para os colegas, ressentindo-se na forma como estes abordavam todos os lances.

Aliando os golos sofridos à intranquilidade em cada lance, Varela foi perdendo espaço neste início de temporada. A derrota com o Boavista (com a infelicidade do segundo golo) pareceu ditar a gota de água para Rui Vitória.

Varela atingiu a gota de água (Foto: Record)

A solução

Para Rui Vitória a solução passou por sentar Varela e fazer regressar Júlio César à titularidade. O brasileiro (sim, 38 anos) não teve um bom arranque e já leva 7 golos sofridos em apenas 4 jogos. Apesar disso, é notória a diferença na confiança entre os postes e a segurança que daí advém. O Imperador revela já sinais de uma quebra física (já não joga hoje) e Svilar está à espreita por uma oportunidade.

Como referido no início do artigo, há já referência a uma possível saída de Bruno Varela do Benfica. O afastamento da titularidade e a possível afirmação de Svilar são os condimentos certos para isso. Mas será, a todos os níveis, a melhor decisão? Para o jogador é terrível já que dificilmente terá outra oportunidade para mostrar o seu valor a um nível tão competitivo. Com apenas 22 anos perde a possibilidade de uma carreira promissora. Para o Benfica, do ponto de vista financeiro, pode fazer sentido já que, apesar de tudo, Bruno Varela tenha valorizado nesta passagem na Luz. Mas desportivamente está longe de ser a melhor solução. Afastar um jovem da casa, “queimando-o“, não é uma política que os encarnados devam seguir.

O Imperador já assumiu a titularidade (Foto: Record)

Varela não é, nem será, guarda-redes para assumir a baliza do Benfica. Tem uma enorme margem de progressão mas não encaixa no perfil necessário para o cargo. E por isso a solução para este estranho caso não é, de todo, fácil. O Benfica deve procurar alternativas (começando por Svilar) mas não deve abandonar Varela. O português não teve o sucesso desejado mas as condições não eram as mais propícias a que tal acontecesse. A sua possível saída deve ser tratada com calma e nunca antes do final da época, permitindo ao jogador brilhar noutra casa.


One comment

  • Mário Barros

    Outubro 31, 2017 at 10:36 am

    o Varela foi e é um produto Seixal os erros aqui referiddos na abordagem tecnica não foram corrigidos pelas equipas técnicas da formação. quem ordenou o seu regresso e porque não o aguentou o treinador?
    este vai acabar no Sporting ou porto.

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